09 julho 2011

Solidão e Fé



O filme chamado “Solidão e Fé” de Tatiana Lohmann focaliza o mundo dos peões de boiadeiro. "Viajando com sua câmera pelo universo masculino do rodeio, uma mulher se depara com cavaleiros andantes, heróis, gladiadores, sertanejos, boiadeiros... o homem comum. Tentando decifrar o masculino, encontra doçura e violência. Tem aspectos num homem que uma mulher não entende, só contempla". Ela se torna “uma mulher, num mundo de homens, com regras de homens”.





O Peão Boiadeiro


A espora está no boi, o chapéu está na mão.

O paulista é talentoso pra ser um campeão.

Seu estilo é perfeito, O rodeio é uma paixão.

É macho pra valer, pois jamais beijou o chão.



A tradição dos peões de boiadeiros configura atualmente uma expressão cultural legítima e genuinamente brasileira com toda uma profusão de simbolismos, ritualísticas, mitologias e religiosidade próprias, apresentando-nos um universo peculiar pleno de miríades de personagens típicas com um histórico amplo a ser explorado. No entanto, são facilmente perceptíveis origens mais antigas desta tradição, que encontra suas raízes na pecuária trazida pelo colonizador português o qual carregou consigo igualmente ecos das touradas próprias da Península Ibérica. Paralelamente, no folclore e nos seres míticos que rondam a vaquejada encontram-se influências chamadas “caboclas” que têm sua origem nas tradições indígenas que habitam o simbolismo sertanejo. Mais recentemente, para desgosto de alguns, uma clara influência norte-americana pode ser vista interferindo diretamente na vestimenta, na música e na própria forma de se fazer o “rodeio”.

Atualmente os rodeios são feitos das figuras quase míticas do peão de boiadeiro, do toureador, do “salva-vidas”, do caipira, do caboclo, do sertanejo, do locutor de rodeios, do romeiro devoto de Nossa Senhora Aparecida e, evidentemente, dos touros e dos cavalos. Quando se lança sobre este tema um segundo olhar, mais abrangente e mais profundo, localiza-se uma origem ancestral e plurifacetada que torna o fenômeno do “rodeio” uma amálgama que surge como culminação de um processo que está presente em todas as eras da História da Humanidade e em todos os locais da Terra: um arquétipo aguardando para ser demonstrado, uma manifestação clara do Inconsciente Coletivo. Pulsante, vivo e atualizado, o rodeio é um verdadeiro ritual taurimáquico onde se pode vislumbrar a figura do sacerdote representado pelo locutor, do grande herói popular que é o peão, da mitologia sertaneja que mistura a tradição católica às raízes indígenas, do bufo toureador, dos cânticos de louvor da música sertaneja e da presença da besta encarnada em touros e cavalos.



O Touro


Boi que pula rodando,

Mulher que faz amor gritando.

É porque tem sempre um peão

Por cima cutucando.



O touro é animal que povoa o imaginário humano desde seus mais antigos primórdios na Pré-História. A união ente o bovino e o humano se deu inicialmente nos rituais de caça ao bisão e ao búfalo e está presente nas mais antigas pinturas rupestres encontradas em cavernas de todo o mundo. Nestas épocas matriarcais, às mulheres cabiam as funções mais sagradas: cuidar da prole, cuidar da alimentação do bando, cuidar da caverna e reverenciar a Deusa Mãe. Os homens ficavam com as tarefas mais arriscadas e difíceis, pois não eram assim tão importantes para a manutenção bando: a caça, a pesca, a segurança e a coleta em locais distantes da caverna. Sendo assim, a aproximação entre humanos e bovinos se deu pelas mãos masculinas eminentemente. A idéia de se conseguir sobrepujar a evidente força e superioridade corporal do bovino sempre foi motivo do mais nobre orgulho masculino: a estratégia e a inteligência humana vencem a força bruta. Com o passar do tempo, o que era simplesmente uma caçada passou a ser um desafio no sentido de dobrar a impetuosidade do animal, levando à domesticação dos bovinos. Esta domesticação dos bovinos, fortes, porém fáceis de controlar, deu um formidável impulso à sociedade humana: atrelado ao arado, o gado foi a primeira fonte de energia usada pelo homem para aumentar a produtividade das lavouras. Com mais alimentos produzidos com menor esforço, a humanidade realizou a revolução agrícola e passou a ter tempo para se dedicar a outras atividades, como inventar a escrita. O gado também propiciou o uso da roda, inventada três mil anos depois, para puxar carroças carregadas de alimentos. No entanto, o touro, ainda que domesticado, continuou a ser o símbolo máximo do desafio do macho que enfrentava a própria masculinidade e o medo personificado nos chifres do animal.

Em todas as culturas sempre houve a necessidade de um rito de passagem, especialmente para os homens, que marcasse de forma inequívoca o fim da infância e o início da idade adulta. Estes ritos de passagem devem ser invariavelmente revestido de terror, demonstrando a todos as qualidades de coragem e auto-controle exigidas dos homens na sociedade. Em muitos locais e épocas diferentes o touro representava a encarnação deste terror: a imagem de um homem desarmado que enfrenta um touro bravo constitui prova incontestável de masculinidade. Um ótimo exemplo desta imagem potente nos é dado pelo mito de Teseu e o Minotauro. Conta-nos o mito grego que o grande herói ateniense enfrentou uma criatura monstruosa com cabeça de touro e corpo de homem, dentro dos infinitos corredores do castelo de Knossos em Creta, conhecido como “o Labirinto”. Outra passagem grega que nos mostra imagem similar é quando Hércules, em sua seqüência de trabalhos, recebe como incumbência enfrentar o touro sagrado de Creta e trazê-lo até a Hélade.

O touro representa, portanto, o impulso vital mais primitivo e bruto do ser humano, numa dimensão incontestavelmente masculina, testicular, representado pela cor vermelha. Vermelho como o sangue, vermelho como a capa do toureiro, como os olhos enraivecidos do animal. Superar um touro é superar o animal dentro de si mesmo, é superar o mal quente da besta expresso em ira, é superar a porção animal contida em nossos hormônios, é impor a consciência e a racionalidade por sobre o instinto e a brutalidade.

O touro simbolicamente está associado à substância, à união da essência vital com a forma, com a matéria. É a forma do touro, simbolizado no mito de Europa, onde o deus Zeus toma a forma de um touro para poder se unir a uma mortal. É o símbolo visível do concreto, da manifestação corporal por excelência. É a expressão da forma, no plano material, assumida pela manifestação, para realizar e expressar sua funcionalidade. O touro proporciona uma compreensão da natureza animal, da capacidade de projeção e constituição de todos os instintos. Da projeção, particularmente rica em sensibilidade, onde o viver está associado ao sentir, ao apalpar, ao ver, ao solver e à conservação. No mito, o touro corre para sobreviver, corre para expressar toda sua sensualidade, corre para concretizar o seu prazer. O touro é a expressão da estática da terra, a expressão de uma massa portadora de vida, onde predomina o espírito de lentidão, de densidade, de permanência, de solidez, de firmeza, de constância e de estabilidade. Símbolo da terra, da abundância de formas e da multiplicidade dos estímulos sensoriais, da fartura dos sabores, dos mais variados cheiros, das inúmeras cores e dos diversos sons.

O touro está presente no zodíaco, formando uma das constelações fixas, as chamadas “Constelações da Esfinge”. A esfinge é um animal mítico que é tradicionalmente composto por patas de touro, peito de leão, asas de águia e cabeça humana. A porção metabólica, telúrica, material é a porção taurina. A porção rítmica, afetiva, emocional é a porção leonina. A águia representa a razão, o intelecto, a neuro-sensorialidade; enquanto a parte propriamente humana é o espírito. No livro do Apocalipse de João o touro alado é um dos animais que aparecem ao pé do trono do Cordeiro (Cristo), um dos chamados “seres viventes”. Os demais seres são evidentemente o leão alado, a águia e o homem alado.


Eu nasci pra ser bruto.

E isso vocês verão.

Chicote não me doma.

Muito menos no bridão.

Meu coração é de pedra.

Aqui não tem chamego não.

Porque sou um indomável.

De sangue e de coração.




O Cavalo


Dizem que cavalo americano é mustangue.

Cavalo e brasileiro é pangaré.

Quero ver peão americano

Ganhar rodeio na terra do rei Pelé.


Se o touro acompanha a humanidade há muito tempo, o cavalo somente foi domesticado muito mais tarde. Em diferentes horizontes arqueológicos nas estepes da Eurásia têm sido encontradas ossadas de eqüinos datadas de há cerca de seis mil anos, sugerindo ter ocorrido nesse local e nessa época a domesticação do cavalo a partir de pequenas populações, através da seleção de um número limitado de animais. Posteriormente, os animais domesticados ter-se-íam dispersado para outras regiões. A domesticação dos eqüinos é sempre associada ao aparecimento do patriarcado entre os povos Indo-Europeus ou Eurasianos e sem sombra de dúvida propiciou uma enorme superioridade bélica a estes povos que se tornaram guerreiros imbatíveis e sanguinários e que acabaram, sobre seus cavalos, por invadir e dominar as principais culturas da Europa e da Ásia na Antigüidade.

Na Grécia antiga o povo que trouxe a conquista pelo cavalo, associada a suas resitentes armas de ferro, foram os Dórios. Quando os Dórios chegaram à Península Helênica e, mais tarde, na porção insular da Hélade, na mesma época em que os Hititas conquistavam a Ásia Menor, aniquilaram por onde passavam as culturas anteriores: a Civilização Micênica no continente e a Civilização Minóica nas ilhas. O terror imposto pelos Dórios e sua estranha imagem erguida sobre quatro patas, inspirou o aparecimento do mito dos centauros. Na Mitologia Grega, os centauros eram a personificação das forças naturais desenfreadas, da devassidão e da embriaguez. Centauro era um animal fabuloso, metade homem e metade cavalo, que habitavam as planícies da Arcádia e da Tessália. A história mitológica dos centauros está quase sempre associada a episódios de barbárie, tais como raptos, estupros, matanças e destruições.



O caráter masculino, bestial e impulsivo dos centauros revela a mesma natureza que encontramos no touro. No entanto, nem todos os centauros apareciam caracterizados como seres selvagens: um deles, Kiron, foi instrutor e professor de Aquiles, Jasão e outros heróis, dentre os quais,Asclépio, o pai das artes médicas. Isto nos sugere que há algo a mais na figura do centauro do que tão somente a brutalidade primitiva encontrada no Minotauro. Parece que aqui existe uma possibilidade se transmutação das forças basais animalescas na direção da razão. Tanto é assim que no Zodíaco o centauro é o símbolo da constelação de Sagitário. Sagitário representa a expansão dos horizontes, que pode ser física, mental, cultural ou espiritual. A busca do abstrato, do sentido da vida, de uma ampla compreensão que leve à sabedoria. Suas características são o idealismo, o desejo de liberdade e aventura, a expansão, a franqueza, as aspirações, novos horizontes, o otimismo, a alegria, a jovialidade, a intuição, o dom profético, mas também estão nele contidos os exageros, o fanatismo, a rigidez, o dogmatismo, o moralismo, a falta de tato, a inquietude. O símbolo da constelação, a flecha, representa as metas, os ideais, os objetivos, que estão sempre apontados para novos alvos. A flecha, que nomeia a constelação (do Latim: “sagita”, flecha), é a parte mais importante deste simbolismo: sempre apontada para o alto, representa a força evolutiva primordial que transforma o animal em humano e o humano em divino.

Sagitário é então o símbolo que traz a união dos três planos da existência: o plano animal, representado pelo corpo do cavalo, o plano racional ou mental, simbolizado pelo cavaleiro humano e o plano espiritual e consciente, representado pelo arco e flecha que o centauro usa, na busca de alcançar sua "estrela". É o simbolismo da procura de um sentido último para a existência humana e a busca da sabedoria. Sagitário é a compreensão de uma ampla abertura para o universo de todas as nossas potencialidades. É o símbolo da coesão e da unificação, a síntese da união do terrestre e do celeste, do real e do ideal, do inconsciente e do consciente, do instintivo e do racional, da matéria e do espírito, do humano e do divino.

O signo de Sagitário é representado pela figura mitológica do centauro, cujo corpo tem a parte inferior do cavalo e a parte superior do homem. É a nossa parte terrestre e a nossa parte celeste. É preciso caminhar com os pés, pensar com a cabeça e agir com o coração. É uma figura de sublimação: um centauro com as quatro patas no chão e seu arco-flecha se erguendo diante do céu, orienta-se em direção às estrelas, ao alto e ao centro. É a direção da transcendência que é toda independência da consciência humana. O centauro, metade homem, metade cavalo, representa a sua dualidade, sendo, ao mesmo tempo, a união do aspecto humano - da força instintiva e animal - com a força racional e mental, em busca do espiritual. A parte animal reunindo os instintos mais bestiais, violentos, lúbricos e a parte racional, reunindo todo o poder dos questionamentos, decisões e desejos em busca do mais alto poder espiritual. Esse simbolismo é rico de ensinamentos: para chegar à verdadeira sabedoria, o homem deve compreender e assumir os aspectos carnais, materiais, racionais e transcendentes do seu ser.

A palavra “sagitário” provém do Latim, “sagittarius”, e significa "arqueiro". O Sagitário é também o arqueiro que aponta seu arco e flecha para um alvo alto e distante, que nos remete para uma longa viagem: a sabedoria. A flecha simboliza a evolução espiritual depois da transformação interior. É um impulso, uma expansão sem fim, em vista de uma integração suprema com a energia universal. O impulso de se ultrapassar: dos instintos à razão, da razão à compreensão. A flecha é a representação de uma meta, uma abertura ao universo, a elevação dos planos terrestres e celestes, humanos e divinos. A flecha lançada pelo arqueiro visa o céu. A flecha é o que voa. O vôo em busca da sabedoria. Sagitário nos dá a compreensão deste vôo. O homem necessita sair de si. Necessita sair do seu cotidiano, se elevar. É com o vôo que atingimos o que de mais alto desejamos. É no alto que verificamos como o mundo é "pequenino". Sagitário nos dá a compreensão de que é necessário ser mais que um homem grande, mas também um grande homem, um homem sábio.


Meu quarto de milha é preto.

Meu manga larga é baio.

Quando eu entro no rodeio.

Dificilmente eu saio.

Dinheiro eu ganho bastante.

Trago dentro de um balaio.

Tenho loira de namorada.

E morena de quebra gaio...




O Ritual Dionisíaco


Você fez de mim um sátiro e um glutão,

por isso gostaria de permanecer agarrado às suas costas,

como Bufo, e, como ele, poderia ter a minha perna carbonizada

sem perder esta obsessão.



As encenações teatrais gregas (Theatron) derivaram dos cultos dedicados a Dioniso, o 13º deus do Olimpo, protetor das vindimas, deus da celebração da vida (orgia) da alegria de viver (enthousiasmos), da loucura sagrada (mania) e guardião do portal do mundo do espírito (extasis). Etimologicamente "Dioniso" significa o filho de Zeus e os romanos chamavam-no “Baco” e sua origem não é propriamente grega, mas provavelmente é originário da Ásia. Na época da colheita, as comunidades rurais dedicavam ao deus festivo, cinco dias de folias ungidas com muito vinho, até provocar a embriaguez coletiva. Durante as bacanais, isto é, as festas orgiásticas dionisíacas, ninguém poderia ser detido e aqueles que estivessem presos eram libertados para participarem da festança geral. Para entreter os participantes das bacanais, ajudando a passar o tempo, eram organizadas pequenas encenações, ora dramáticas (tragédias), ora satíricas (comédias), coordenadas por um corifeu. Este tornou-se com o tempo uma personagem chave na deflagração da encenação, apresentando-se como o mensageiro de Dioniso. Acompanhava-o um coro que tinha a função de externar por gestos e passos ensaiados os momentos de alegria ou de terror que permeavam a narrativa. O corifeu e o coro são os elementos básicos do Teatro e formam o ponto de partida da encenação.

Acredita-se que a origem primeira do Theatron veio da Trácia, sendo que as mulheres daquela região da Grécia foram suas principais adoradoras, conhecidas como “mênades”, em Grego, ou “bacantes”, em Latim: as “loucas de Dioniso”. Embriagadas ou simulando encontraram-se "possuídas", endemoninhadas, lançando sobre si cinzas e pó, as seguidoras de Dioniso refugiavam-se em locais ermos, em contato com o ar livre e a natureza selvagem, como o deus, para exorcizar a "possessão". Temos várias referências de grupos femininos que perambulavam pelas montanhas e bosques num estado de permanente frenesi, alimentando-se de ervas, bagas silvestres e leite de cabra, porém segundo senso comum, Dioniso as alimentava. A origem psico-sociológica desse comportamento não foi ainda suficientemente avaliada, mas pode-se supor que derivasse de uma reação patológica à exclusão cada vez maior das mulheres da vida coletiva. O afastamento voluntário e a conseqüente entrega a um estado de possessão, seguidos de um tremor báquico, onde embriaguez e a devoração de animais se intercalavam, atuavam como uma terapia à sua crescente marginalização. Diga-se que essa bizarria não passou despercebida aos médicos e sociólogos gregos daquela época que a definiam como uma forma prosaica de loucura - o coribantismo. O atingido por tal loucura, excluídas as circunstâncias exteriores capazes de provocarem o fenômeno, via estranhas figuras, ouvia o som de flautas e caia num profundo paroxismo, sendo atacado por um furor irresistível de dançar. Portanto, o culto dionisíaco conservou, como um componente essencial, essas explosões imprevisíveis, anárquicas e passionais, que fizeram com que Nietzsche as identificasse como as autenticas manifestações de uma vitalidade aprisionada pela moral, pelo preconceito e pela razão.

Como não poderia deixar de ser, perante uma celebração tão subversiva dos costumes, houve enorme resistência por parte de reis e dos sacerdotes na aceitação do novo culto, tal qual se vê na peça “As Bacantes” de Eurípides. Com o decorrer dos tempos Dioniso tornou-se cada vez mais "respeitável". As festas dionisíacas transformaram-se num ritual cada vez mais organizado e disciplinado, recebendo uma cuidadosa atenção das autoridades civis e religiosas. Até que Apolo, o deus símbolo da racionalidade, da beleza e da inteligência, estendeu finalmente seus braços para Dioniso, transpondo tal esquematização para a encenação teatral e podemos afirmar que a Tragédia (Tragodia), como espetáculo, era a domesticação apolínea dos desregramentos de Dioniso. O consciente dominando o inconsciente, o racional subordinando o temerário, o Sol desvelando a Treva, o civilizado contendo o selvagem. Ao reproduzir frente ao público o inesperado, o passional, imaginava-se conter Dioniso, domesticando-o. Por isso entende-se a observação de Nietzsche que afirmou que os gregos foram obrigados a erguer dois altares na encenação teatral: um para Apolo e o outro a Dionísio. Este é o processo da catarse: se o expectador consegue identificar-se com as personagens apresentadas no Theatron, tomadas pela loucura, ele encontra uma via de saída para seus impulsos mais primitivos, colocando-se assim a salvo deles e ao mesmo tempo expressando-os e jamais reprimindo-os.

O antigo teatro grego, construído sempre em forma circular devido ao simbolismo mágico e perfeito da circunferência e da mandala, compunha-se de três grandes partes: 1) a orchestra, em geral uma espaço circular bem em frente à platéia de onde o chefe do coro, o koriaphaios, dirigia-se aos presentes explicando o que iriam assistir; 2) o proskênios (em frente a cena) e a skene (cena), a parte decorada do teatro, onde os atores (hypocriptes) faziam a sua encenação (divida em três entradas), onde os cenários se alteravam: 3) O auditório, o Kolia, em forma semicircular que envolvia a orquestra e o proscênio. Era dividido em dois setores (diazoma), sendo que o que estava mais próximo do espetáculo era chamado de proedria, reservado às autoridades e aos convidados mais eminentes, e onde se sentava o mais honorável dos espectadores - o elephthereos dionyssos, o sumo sacerdote de Dionísio, também conhecido como “Iaco”.

O coro era então composto por dose ou quinze elementos: os coreutas. Após entrarem na orquestra, a área de dança no teatro, cantam e dançam nesse espaço. O coro trágico quase não participava da ação, limitando-se apenas a comentá-la e expressando compaixão ou outros sentimentos pelos personagens. Algumas vezes também destaca o sentido religioso da ação e a intercala com preces. Por outro lado, simboliza o grupo – a cidade - cuja sorte está ligada às personagens. Os movimentos do coro possivelmente eram usados também artisticamente pelo tragediógrafo, que era ao mesmo tempo coreógrafo, para mostrar ao público as flutuações de relações de poder e as interações entre os caracteres. Já o corifeu, o chefe do coro, era um membro destacado que podia cantar sozinho ou participar diretamente da cena. Em geral há três tipos de funções principais: exortar o coro à ação, a começar o canto; antecipar, ou resumir, as palavras do coro e representar o coro, dialogando com os atores.

A relação entre esquema do antigo anfiteatro grego com o atual esquema da arena de rodeios é impressionante. Podemos fazer uma relação direta da figura de Iaco e do corifeu com a figura do locutor de rodeio, personagem que comanda todo o ritual. O processo catártico dá-se na projeção coletiva por sobre a figura do peão de boiadeiro que carrega a honra e o peso de dominar e sobrepujar com sua humanidade a besta fera: um herói trágico que expia os espectadores de suas próprias bestas internas: seus demônios e seus impulsos mais primitivos e animalescos. Neste sentido, o peão é o protagonista, aquele que entrega vida pela coletividade, o bode expiatório e o herói salvador da cidade (sóter). O coro é a própria platéia, mas são também os participantes secundários do espetáculo. Dentre eles, destaca-se a figura dos chamados “salva-vidas” que fazem o bufo, o histrião, o palhaço, o bobo. O bufão é uma personagem cômica próxima do fanfarrão, do louco, do parvo e do truão, que se destaca pela indecência e pelo comportamento desregrado. Este comportamento pode ser o exato reflexo da natureza truanesca do bufão ou pode ser pura dissimulação. Partilha com as personagens mais universais do bobo e do louco as deformações físicas que resultam no cômico de carater. Também pode partilhar com o palhaço e o truão a maquiagem para se apresentar em palco e representar o papel de fanfarrão e bravateador. Pois é exatamente o bufão que é encarnado pela figura do “salva-vidas” no rodeio: disfarçado, o bufo é na verdade uma figura chave tanto prática, quanto simbolicamente. Na prática, como o nome indica, é ele quem salva os peões de serem pisoteados pelos touros e cavalos. Simbolicamente ele é a representação de Dioniso, do andarilho errante, do monge trapista e, em última análise, do Inconsciente Coletivo.

O símbolo aqui é o “Louco”, Arcano Maior sem número do Tarot, que tanto pode ser o primeiro como o último da seqüência do baralho. É representado por um homem com trajes espalhafatosos que caminha sem direção definida. Sua perna esquerda é mordida por um animal, que de certa forma, o freia. Carrega ao ombro uma sacola que contém material desconhecido. O Louco, no Tarot, simboliza o ser humano que não sabe de onde vem, por que veio ou pra onde vai. Sente apenas o misterioso impulso que o impele a se atirar na vida, vencer a qualquer preço, aventurar-se mesmo sem razões ou porquês. Irracional em si, é impulsivo, irreverente e imaturo. Representa a ansiedade do homem em ir além de si mesmo, de se superar, de alcançar o que lhe escapa à lógica, de pagar para ver os resultados de seus atos impensados. Sem apego e sem raízes, ele parte em busca do que o fascina no momento, mesmo que lhe custe o abandono dos seus afetos. Caminhar sem saber para onde vai não chega a ser um problema, pois não mede esforços para chegar aonde seu espírito chama. Ele incomoda a sociedade por não respeitar os convencionalistas ou a ética. Com sua imagem descomprometida, tenta sempre chocar os valores burgueses. Dotado de ironia inteligente, ele penetra facilmente em todos os segmentos sociais, tirando partido deles, criticando-os, ridicularizando-os e expondo o lado obscuro e comprometedor de cada um deles. Costuma sair ileso das situações por estar respaldado pela imagem displicente, descuidada e inconseqüente da insanidade. O Louco carrega em si tanto a sabedoria como a ignorância. Ele é rei e mendigo, anda por toda parte e nada o retém. Conhece de tudo um pouco e não personifica nada. Com isso, detém todas as possibilidades. E também desorientação, entusiasmo, euforia, frivolidade e gosto por viagens.

Katarsis” significa purificação, limpeza, processo fundamental da estrutura da tragédia, revivida atualmente em cada rodeio. Na visão de Aristóteles, um dos primeiros a estudar o impacto dos espetáculos teatrais, a tragédia seria "uma representação imitadora de uma ação séria, concreta, de certa grandeza, representada, e não narrada, por atores em linguagem elegante, empregando um estilo diferente para cada uma das partes, e que, por meio da compaixão e do horror provoca o desencadeamento liberador de tais afetos". Aristóteles não se preocupou em estabelecer qualquer teoria sobre a tragédia nem se concentrou nos aspectos técnicos do espetáculo, mas no comportamento do público. Concluiu que o espetáculo trágico para realizar-se como obra de arte deveria sempre provocar a Katarsis, isto é: a purgação das emoções dos espectadores. Assistindo às terríveis dilacerações do herói trágico, sensibilizando-se com o horror que o drama apresenta, sentindo uma profunda compaixão pelo infausto que o destino reserva ao herói, aqui o peão, o público passa por uma espécie de exorcismo coletivo. Atribui-se à concepção de Aristóteles, que associa a tragédia à purgação, ao fato dele ter sido médico, o que teria contribuído para que ele entendesse a encenação dramática como uma espécie de remédio da alma, ajudando as pessoas do auditório a expelirem suas próprias dores e sofrimentos ao assistirem o desenlace.

Outra maneira singular na qual o processo catártico se apresenta é fora do espetáculo do rodeio propriamente dito, nas inúmeras festas satélites que encontram sítio durante a “celebração” de um rodeio. O mito grego diz que Dioniso espremeu a uva e, juntamente com sua corte de sátiros e ninfas, bebeu o suco que assim ficou conhecendo o vinho. Bebendo-o repetidas vezes, todos começaram a dançar e a cantar vertiginosamente. Embriagados, caíram por terra desfalecidos. O vinho, nos rodeios substituído pela cachaça tão brasileira, abre as portas do Inconsciente e libera os mais bizarros nas madrugadas dos rodeios. Apartado o caráter viçoso de tais festas e suas nem sempre louváveis conseqüências sociais, elas constituem verdadeiras bacanais contemporâneas, ao lado das festividades carnavalescas, fazendo reviver as mênades dos ditirambos. A exaltação, encarnada na folia da orgia, e corroborada pela música, é experimentada sob o transe dionisíaco. A música é uma linguagem universal em alto grau e todas as sensações humanas, seus esforços, seu interior, podem se refletir e exprimir pelas melodias em quanto o peso da existência é atenuado com psicotrópicos. Nesse estado, o impulso inconsciente mais profundo que é expresso é o sair de si em direção ao espírito (extasis). Esse sair de si, numa superação da condição humana, implica num mergulho em Dioniso e este no seu adorador pelo processo de entusiasmo (enthousiasmos). O homem, simples mortal, em êxtase e entusiasmo, comunga com a imortalidade, tornando-se um herói, um varão que ultrapassa a medida de cada um (metron). A noite é apenas o prelúdio dos espetáculos silenciosos protagonizados pelas ruas, onde travestis, prostitutas e toda a sorte de servidores eróticos cantam ditirambos acalorados. Desde imemoriais tempos é que o priápico brasileiro é incapaz de abster-se uma noite sequer de uma boa carnalidade. A penumbra da cidade significa o esbalde para uma nação de homens e o falo toma as rédeas do poder...


A pinga vem da cana

E a cana vem da roça.

Homem que tem duas mulher,

Uma é dele e a outra é nossa.

Eu nasci num ninho de cobra.

Minha mãe era serpente.

Eu bebi do leite dela.

Meu sangue ficou mais quente.

Jacaré mato no tapa.

Cascavel mato no dente.

Porque o sangue que corre na minha veia

É o veneno do aguardente.



O Feminino para além dos Símbolos Masculinos


Como eu não sei rezar

Só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira Pirapora nossa

Senhora de aparecida

Ilumina a mina escura e funda

O trem da minha vida



Como vimos, todo o simbolismo que rodeia a mítica do peão de boiadeiro é masculino, num supremo ritual à masculinidade em todos os seus estágios: do bruto ao supremo, do material ao divino e do animal ao super-humano. No entanto, há que se atentar para os símbolos femininos que amparam e escoram esta jornada do masculino em busca de si mesmo e de sua essência mais elevada: atrás de tudo isto está a Grande Mãe.

A vaca sempre foi símbolo do feminino. No Egito Antigo a imagem da Vaca Sagrada era o resumo da Deusa Mãe que comanda toda a existência: Maat. Em egípcio, a palavra para verdade é “maat” e dizia-se que os inúmeros deuses dos egípcios viviam por Maat. Isto quer dizer que os poderes encontrados na Natureza funcionavam de acordo com a ordem da criação. O conceito de Maat confirma a antiga crença egípcia de que o universo é imutável, e que todos os opostos aparentes devem manter-se mutuamente num estado de equilíbrio. Maat subentende vigorosamente uma permanência; estimula o homem a esforçar-se por alcançar a virtude até que não tenha mais falhas. A harmonia e a ordem estabelecida de Maat, assim como a permanência, estão subentendidas nisso. Um homem só teria êxito na vida, se vivesse harmoniosamente de acordo com o conceito de Maat e em sintonia com a sociedade e a Natureza. A retidão produzia alegria; o contrário trazia o infortúnio. Este era um conceito profundo para os egípcios antigos, um conceito que ultrapassava o âmbito da ética, poderíamos dizer, e que na verdade afetava a existência do homem e seu relacionamento com a sociedade e a Natureza. Maat é pois a deusa egípcia da Justiça e do Equilíbrio. É representada por uma mulher jovem portando em sua cabeça uma pluma. Maat é a Senhora do Céu, Rainha da Terra e amante do Mundo Inferior. O grande inimigo de Maat era Seth, deus da desordem, da injustiça e da ambição.

Isis também era associada ao símbolo da vaca Sagrada e sempre era representada por seus chifres. Isis, irmã e esposa de Osíris, tinha lugar privilegiado no panteão egípcio. Certa vez, Osíris traiu-a, engravidando sua outra irmã, Nefti. Seth, marido de Nefti, jurou vingança. Quando o filho ilegítimo, Anúbis, nasceu, a mãe abandonou-o no deserto, mas ele foi salvo por Ísis. A vingança de Seth foi consumada, mas Ísis conseguiu devolver Osíris à vida e começou a treinar o filho dos dois, Hórus, para que enfrentasse Seth e recuperasse o poder do pai. Hórus venceu a luta graças a um sortilégio da mãe. Nos hieróglifos, a cabeça da vaca sagrada, vestal de Ra, tem entre os chifres o dístico solar. Os grandes mágicos da corte dos faraós auto-denominavam-se os "donos dos raios”. Hátor é a grande sacerdotisa do panteão egípcio, deusa da música e da dança, protetora dos prazeres e do amor. Ela é também a deusa da vaidade, que preside todos os momentos da toalete feminina, como pentear-se, maquiar-se e vestir-se. Hátor tem várias repres entações. Algumas vezes ela aparece como a vaca sagrada, outras como uma mulher com cabeça de vaca e outras ainda como uma rainha com orelhas de vaca ou com uma coroa composta de dois grandes chifres com o disco solar no meio. Em geral, sendo Hátor a deusa da alegria, ela é representada com um chocalho, chamado sistro, na mão. Há também Astarté, que nos remete à dimensão eqüestre da tauromaquia, sendo a versão egípcia de uma divindade asiática, mas somente como deusa da guerra. Introduzida no Egito durante a XVIII dinastia e considerada filha de Rá ou de Ptah, Astarté é representada por uma mulher usando a coroa, atef, sobre o dorso de um cavalo e brandindo armas.

A clássica arte tauromáquica é, certamente, algo iniciático e relacionado com o culto misterioso da Vaca Sagrada e seu representante masculino Ápis, o boi egípcio sagrado. O boi Ápis é um dos animais sagrados mais antigos do Egito, sendo mencionado pela primeira vez em 2.600 a.C. nos textos encontrados nas pirâmides. Em Memphis, no Antigo Egito, o boi Ápis foi adorado como a alma viva do criativo deus Ptah - deus da ciência e da arte - e teve sua própria área templar num estábulo junto ao templo. Desde os tempos remotos se crê numa ligação entre o boi Ápis e o deus Osíris, um proeminente deus da fertilidade. Freqüentemente, as adorações a Osíris e Ápis estavam relacionadas. O fato de Osíris ser igualmente deus da Lua, pode explicar a meia lua originalmente presente num dos flancos do boi Ápis. A adoração do Sol e da Lua estava intimamente ligada, porque os antigos egípcios sabiam que o Sol ilumina a Lua. A partir da XVIII Dinastia, aproximadamente em 1.500 a.C., o boi Ápis passou a ter um disco solar entre os chifres. A cobra sagrada, um símbolo do poder dos reis, é usualmente colocada em associação ao disco solar. Segundo um mito ancestral, a vaca que deu à luz ao boi Ápis foi atingida por um raio de luz vindo do céu, momentos antes do parto. Além da marca da lua, o boi Ápis possuía outras marcas: pele negra com pontos brancos, em semelhança a um falcão; a mancha debaixo da língua, interpretada como o escaravelho divino e finalmente, um triângulo branco na testa. Numerosas estatuetas egípcias antigas e relevos com o motivo do boi Ápis têm sido encontrados ao longo dos anos.

Sendo assim, na tauromaquia o iniciador, ou hierofante, é o mestre, os bandarilheiros, a pé, são os companheiros. Os picadores, por sua vez, são os aprendizes. Por isto estes últimos vão a cavalo, quer dizer, com todo o lastro em cima do seu indomado corpo, que só vai cair morto após dura briga. Os companheiros, ao porem as bandarilhas ou bastos, já começam a se sentir superiores à fera, ao ego animal. Quer dizer que são já, à maneira de Arjuna do Bagavad-Gita, os perseguidores do inimigo secreto. Enquanto o mestre, com a capa da sua hierarquia, ou seja, com o domínio de Maia, e empunhado, com sua destra, a espada flamígera da vontade, resulta a maneira do deus Krishna daquele velho poema, não o perseguidor, senão o matador do eu, da besta, horripilante monstro. O vaqueiro, o condutor da vaca sagrada, pode e deve trabalhar no magistério destes cinco poderes da pentalfa, referindo-se aos sons das cinco vogais e aos cinco elementos que compõem Maat (terra, água, ar, ar e éter).

A imagem dos chifres da Vaca Sagrada e do boi Ápis guardam uma relação direta com a imagem do berrante. O som do berrante remete-nos imediatamente ao som do “chofar” que fez ruírem as muralhas de Jericó. O povo Hebreu, que produziu o Velho Testamento e os textos bíblicos, estão cheios de alusões que mostram o poder mágico que a música exercia sobre o homem. A música era indispensável ao culto. Os Hebreus fizeram muitas flautas de cana e de madeira, de tamanhos diferentes. A de chifre era chamada “halil”. Nos momentos solenes soava uma trombeta reta, de metal, a “hazozera”. As curvas, de chifre de carneiro, eram conhecidas por “keren” e “chofar” e, segundo o Velho Testamento, o muro de Jericó veio abaixo ao som delas. Quando o povo ouvia o chofar, havia um sentimento de unidade e todos vinham para fazer a vontade de Deus num mesmo lugar e dali conquistar os sonhos de Deus para eles e até hoje faz parte da tradição judaica o tocar do chofar na abertura de um novo ano.

A imagem da Vaca Sagrada, mais especificamente a de Ísis, uniu-se à de Ishtar para dar origem ao culto grego de Aphrodite. Ishtar tem sete chifres e é vingativa; regendo o amor e regendo a guerra, rege a criação e a destruição: ela é o equilíbrio do mundo, e facilmente irritável. Ishtar dos Assírios, Inanna para os Sumérios, era então uma divindade com um perfil e atributos complexos, aparentemente contraditórios. Era, com freqüência, representada como uma divindade associada à guerra, o que é visível na composição, não apenas pela associação com o leão, como também por se apresentar fortemente armada, com o arco na mão e armas às costas, visíveis atrás dos ombros. Paralelamente, era uma deusa associada ao amor e à sexualidade. Era igualmente a deusa da comunicação profética, que interpelava o rei assírio como uma mãe se dirige ao filho, prometendo-lhe proteção contra todas as adversidades. Este último aspecto é profusamente explorado nos oráculos neo-assírios. Estes atributos, a sua feminilidade, o seu lado guerreiro e agressivo e a sua vertente maternal são só aparentemente contraditórios. Na verdade, a sua conjunção fazia de Ishtar a grande divindade protetora do rei assírio.

Aphrodite nasceu das espumas do mar (em grego, “aphros”) e é uma das doze divindades gregas do Olimpo, considerada a deusa da beleza, do amor e da fertilidade. De acordo com uma das tradições gregas a respeito de seu nascimento, Afrodite seria filha de Zeus e de Dione. Mas uma versão mais antiga conta que os órgãos sexuais de Urano, cortados por Chronos, teriam caído ao mar e dado origem à deusa. E ainda numa terceira versão, ela teria nascido da espuma do mar. Após surgir na superfície das águas marinhas, Aphrodite foi levada pela força dos ventos à Citera e depois à costa do Chipre, onde as Horas a receberam, vestiram e enfeitaram, conduzindo-a depois para a morada dos imortais (Olimpo). Afrodite tinha, tal como Ishtar, um temperamento irascível, era vingativa e possuía um cinturão mágico bordado cujo nome era Cestus (do grego kestós, que significa picado, bordado). Este cinto tinha a propriedade de inspirar o amor. Uma outra variante diz que Afrodite possuía uma fita bordada de desenhos variados que ela usava cingindo o seio, onde residem todos os encantos. Ali estão ternura, desejo e conversação amorosa de assuntos sedutores que enganam o coração dos mais sábios.

Da união da imagem de Aphrodite à imagem da deusa latina Fortuna, emerge das águas Maria. Em Hebraico o nome “Miriam” significa “aquela que veio do mar” e foi traduzido para o Latim com “Maria” (“aquela que veio do mar”). Fortuna era a deusa romana que trazia nas mãos a roda do destino (a Roda da Fortuna). Deusa celeste com temperamento agitado e imprevisível, Fortuna, vestida de branco com seu manto azul, ornava suas vestes com o cinturão de estrelas que era o Zodíaco. Maria é então a amálgama católica de todas estas Deusas Mães, verdadeira representante atual da chamada Grande Mãe e, como não poderia deixar de ser, é a imagem feminina protetora do peão, razão máxima da existência do rodeio e objeto do ritual da tauromaquia.

No Brasil, sabemos que a expressão máxima de Maria se dá na forma de Nossa Senhora Aparecida. Em 1717, na cidade de Guaratinguetá, Estado de São Paulo, Brasil, após várias horas pescando sem resultados, três pescadores retiraram do rio Paraíba o corpo de uma imagem sem cabeça. Em seguida, lançada a rede novamente, encontraram a cabeça da imagem. Surpresos, lançaram a rede pela terceira vez e a pescaria foi tanta que puderam encher suas canoas. Esses três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, limparam a imagem apanhada no rio e notaram que se tratava da imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura. A imagem foi levada, a princípio, ao oratório de sua humilde casa, e diante dela realizavam suas orações. E desde aquele tempo Nossa Senhora começou a fazer milagres ali devido à crescente devoção do povo. Em 1745 foi construída uma capela no morro dos coqueiros, que margeia o Paraíba e uma missa foi celebrada. A imagem passou a ser chamada de Aparecida e deu origem à cidade de mesmo nome. Em 1888 a antiga capela foi substituída por outra maior. Em 8 de setembro de 1904 foi realizada a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, e em 1908, o santuário foi elevado à dignidade de Basílica pelo Papa. Em 1930, o Papa Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Em 1967, no aniversário de 250 anos de devoção, o Papa Paulo VI ofereceu a Rosa de Ouro ao Santuário Nacional inteiramente dedicado à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A partir de 1950 já se pensava na construção de um novo templo mariano devido ao crescente número de romarias. O majestoso templo foi consagrado pelo Papa, após mais de vinte e cinco anos de construção, no dia 4 de julho de 1980, na primeira visita de João Paulo II ao Brasil.

A própria imagem de Nossa Senhora Aparecida resume em si, todas as qualidades de síntese cultural, de conciliação e da unidade da qual estamos falando. E sem dúvida, sua "aparição" foi uma clara resposta, desde a fé, a todo esse difícil contexto político-social que atravessava a Colônia no início do s. XVIII. Olhemos para a imagem. Nela se encontram o português (a imagem é uma réplica da Padroeira de Portugal e do Brasil, Nossa Senhora da Conceição, que desde 1646 fazia parte da devoção de D. João IV e de toda as suas colônias); o brasileiro (a imagem foi feita, segundo estudos, com "terracota", barro paulista característico da região encontrada); o índio (a imagem foi encontrada no rio indígena "Para`iwa", passo entre Minas, Rio e São Paulo, hoje, Rio Paraíba do Sul); e o negro (a imagem possui uma cor castanho escuro, tendendo ao negro). Como expressão claramente brasileira da Grande Mãe, é a imagem da Aparecida que é levada pelos peões dentro de seus chapéus e a ela é entregue a tarefa da proteção contra a besta representada pelo touro e pelo cavalo indomado. Diz o locutor de rodeio: "Senhores cowboys!!! E hora de trazer o chapéu no peito e elevar o pensamento a Deus, porque a Nossa Senhora Aparecida passa o seu manto sagrado sobre esse rincão brasileiro. Senhores cowboys!!! Teu braço e tua força abrem as porteiras, deixe o destino pular. Quero ver a nota que a vida vai lhe dar. Tua vida são poucos segundos, pode ser em outro mundo que o apito vai tocar, mas pra nos aqui dentro desta arena, somos nos aqui e Jesus Cristo lá no céu. E para nos proteger, eu trago a imagem da Nossa Senhora Aparecida dentro do meu chapéu."


Querida Mãe Nossa Senhora Aparecida.

Vós que nos amais e nos guiais todos os dias,

vós que sois a mais bela das Mães,

a quem eu amo de todo o meu coração.

Eu vos peço mais uma vez que me ajudeis a alcançar uma graça.

Sei que me ajudareis e sei que me acompanhareis sempre,

até a hora da minha morte.





3 comentários:

Ricardo Sant'Ana disse...

Gostei muito do seu blog,poço adicioná-lo a minha lista de blogs?
responda em meu e-mail por favor: josericardosantana@hotmail.com.br
sou http://terramundomeu.blogspot.com/
muito obrigado.

Bernardo de Gregorio disse...

À vontade! Grato pelo interesse.

Lele Sanzone disse...

Be...

Que ótimo!!!! Comecei ler seu blog e Estou adorando...

Parabéns!!!

Bjo.

Lele