31 outubro 2008

Samhain





Samhain (pronuncia-se Sou-ein), festejado em 31 de outubro , é o Ano-Novo dos Bruxos. Esse dia sagrado é conhecido por inúmeros nomes. Para muitos, talvez, o mais conhecido seja Halloween. O Samhain é a festa na qual honramos nossos ancestrais e aqueles que já tenham partido para o País de Verão. Samhain é um tempo para a reflexão, no qual olhamos para o ano mágico que passou e estabelecemos as metas para nossa vida no ano que entra.

Essa é a noite em que o véu que separa o mundo material do mundo espiritual encontra-se mais fino e o contato com nossos ancestrais torna-se mais fácil. É também o momento tradicional para celebrar a última das colheitas e se preparar para o Verão. O poder de magia pode ser sentido no ar, nessa noite. O Outro Mundo se coaduna com o nosso conforme a luz do Sol baixa e o crepúsculo chega. Os espíritos daqueles que já partiram para o outro plano são mais acessíveis durante a noite de Samhain.
Samhain ocorre no pico do Outono (Hemisfério Norte). É o tempo do ano em que o frio cresce e a morte vaga pela Terra. O Sol está enfraquecendo cada vez mais rapidamente, a sombra cresce e as folhas das árvores estão caindo, numa preparação ao Inverno que chegará. Essa é a última colheita, o tempo em que os antigos povos da Europa sacrificavam o gado e preservavam sua carne para o Inverno, pois esses animais não podiam sobreviver em grande escala nesse período do ano devido ao frio vindouro. Só uma pequena parte, os mais viris e fortes, era mantida para o ano seguinte.

Samhain é a noite em que o Velho Rei morre e a Deusa Anciã lamenta sua ausência nas próximas seis semanas. O Sol está em seu ponto mais baixo no horizonte, de acordo com as medições feitas através das antigas pedras da Britânia e da Irlanda, razão pela qual os Celtas escolheram esse Sabbat, em vez de Yule, para representar o Ano-Novo. Para os Antigos Celtas, esse dia sagrado dividida o ano em duas estações, Inverno e Verão. Samhain era o dia no qual começavam o Ano-Novo celta e o Inverno, por isso era um tempo ideal para términos e começos.
É o dia ideal para honrar os mortos, pois nele os véus que separam os mundos estão mais finos. Aqueles que morreram no ano passado e aqueles que estão reencarnando passam através dos véus e portais nesse dia. Os Portões das Sidhe estão abertos e nem humanos nem fadas precisam de senhas para entrar e sair. Em Samhain, o Deus finalmente morre, mas sua alma vive na criança não-nascida, a centelha de vida no ventre da Deusa. Isto simboliza a morte das plantas e a hibernação dos animais, o Deus torna-se então o Senhor da Morte e das Sombras.
Samhain é um festival do fogo e é a entrada para a parte sombria e fria da Roda do Ano. É em Samhain que as fogueiras são acesas para que os espíritos do outro mundo possam encontrar os caminhos para partirem ao Outro Mundo (País de Verão).

Samhain é o tempo de lembrarmos com amor aqueles que partiram para o outro lado, por isso é chamado de a Festa Ancestral. Toda a família, ou grupo, se reúne para reverenciar os que já partiram. É muito comum nesse Sabbat se realizar uma ceia em silêncio, conectando-se com aqueles que já cruzaram os portais dos mundos. É tradicional também deixar um lugar à mesa para os ancestrais e lhes servir pratos como se eles estivessem presentes à ceia. Para aqueles que não têm família para festejar e celebrar seus ancestrais, alimentos geralmente são deixados do lado de fora de casa, na porta de entrada, em homenagem aos familiares e amigos desencarnados. É também tradicional deixar uma vela acesa na janela da casa para ajudar a guiar os espíritos ao longo de sua caminhada ao nosso mundo para que possam encontrar o caminho de volta.

Sem sombra de dúvida a prática mais famosa do Samhain é o Jack O'Lantern (máscaras de abóboras), que sobrevive até hoje nas modernas celebrações do Halloween. Vários historiadores atribuem suas origens aos escoceses, enquanto outros lhe conferem origem irlandesa. As máscaras eram utilizadas por pessoas que precisavam sair durante a noite de Samhain. As sombras provocadas pela face esculpida na abóbora tinham a virtude de afastar os maus espíritos e todos os seres do outro mundo que vinham para perturbar. Máscaras de abóboras também eram colocadas nos batentes das janelas e em frente à porta de entrada para proteger toda a casa.













Cores: preto e laranja
Nomes Alternativos: Festa de Todos os Santos, All Hallows, Mischief Night, Hallowmas, Noite de Saman, Samaine, Halloween, All Hallows Eve.
Deuses: Deuses Anciãos, a Deusa na sua face da Anciã, o Deus como o Senhor das Sombras.
Ervas: nós-moscada, sálvia, menta, mirra, patchuli, artemísia, alecrim, musgo, calêndula, louro, mandrágora.
Pedras: obsidiana, floco de neve, ônix, cornalina, turmalina negra, âmbar, granada, hematita.






Queima de Pedidos

A Queima de pedidos é um dos rituais tradicionais de Samhain. Nele banimos tudo o que tivemos de negativo e pedimos o que queremos atrair de positivo para o ano mágico que se inicia.

Para isso você vai precisar de:

Dois pedaços de papel em branco;
Um lápis;
Álcool de cereais;
Folhas de louro;
Seu Caldeirão.

Num dos papéis escreva tudo aquilo que você quer afastar de sua vida: obstáculos, doenças, pessoas indesejadas, dificuldades, etc.

No outro escreva tudo aquilo que você quer atrair para a sua vida: saúde, prosperidade, amor, sucesso, etc.

Seja bem específico em seus pedidos e não se esqueça de no final assinar e colocar a seguinte frase: Que tudo isso seja correto e para o bem de todos.

Coloque um pouco de álcool no seu Caldeirão, acenda-o e jogue o primeiro papel, aquele que contém as coisas que você quer afastar, no fogo. Enquanto o papel queima, mentalize o mal sendo afastado. Peça à Deusa e ao Deus que todas as forças negativas sejam anuladas e que o mal seja banido.

Espere o fogo acabar, então coloque um pouco mais de álcool no Caldeirão, tomando o devido cuidado, pois o álcool quando colocado em um recipiente quente evapora e pode entrar em combustão espontaneamente. Jogue então o segundo papel, aquele que contém as coisas que você quer atrair para a sua vida, no fogo. Coloque as folhas de louro nas chamas, sempre mentalizando as boas coisas que você quer atrair para a sua vida.
Quando o fogo acabar, concentre-se na fumaça, provocada pelas folhas, subindo os céus, e peça que seus pedidos se elevem ao mundo dos Deuses.

07 setembro 2008

Lilith

Lilith


“Lilith, rainha dos súcubos,
coorte, alfim, ilha de Tule, flor de espuma!
Em tua taça bebo o ouro da morte
e entro nos passos reais do silêncio da bruma...”

Dário Velloso
Um Demônio da Noite

LILITH é uma figura controversa e na maioria das vezes incompreendida. Um ser mitológico que se apresenta como demônio, como criatura da noite, como deusa maligna, mas que guarda consigo a chave para o entendimento completo do mundo feminino. Trata-se, na verdade de um importante arquétipo do Inconsciente Coletivo e que se manifesta em todos nós de infinitas formas. É necessário conhecê-la e compreendê-la para que possamos lidar com suas manifestações.

Lilith é conhecida como um demônio feminino da noite que teve origem na antiga Mesopotâmia. Lilith era associada ao vento e, pensava-se, por isso, que ela era portadora de mal-estares, doenças e mesmo da morte. Porém algumas vezes ela se utilizaria da água como uma espécie de portal para o seu mundo. A imagem de Lilith, sob o nome Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demônios ou espíritos de ventos e tormentas na Suméria por volta de 3000 aC. Muitos estudiosos atribuem a origem do nome fonético Lilith por volta de 700 aC. A palavra “noite” em Hebraico se diz Laylah e guarda relação com o nome Lilith. Talvez dada a sua longa associação à noite, surge sem quaisquer precedentes a denominação screech owl, ou seja, como “coruja”, na famosa tradução inglesa da bíblia, a King James Version. Na Suméria e na Babilônia ela ao mesmo tempo que era cultuada era identificada com os demônios e espíritos malignos. Seu símbolo era a Lua, pois assim como a Lua ela seria uma deusa de fases boas e ruins. Alguns estudiosos a associam a várias deusas da fertilidade, assim como deusas cruéis devido ao sincretismo com outras culturas. Muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra e do prazer sexual. O Relevo Burney (ilustração acima), um relevo sumério, representa Lilith.

A imagem mais conhecida que temos dela é a imagem que nos foi dada pela cultura hebraica. Uma vez que esse povo foi aprisionado e reduzido à servidão na Babilônia, onde Lilith era cultuada, é bem provável que viam Lilith como um símbolo de algo negativo. Vemos assim a transformação de Lilith no modelo hebraico de demônio. Assim surgiram as lendas vampíricas, as lendas de que Lilith tiria 100 filhos por noite, súcubus quando mulheres e íncubus quando homens, ou simplismente lillim. Eles se alimentavam da energia desprendida no ato sexual e de sangue humano. Também podiam manipular os sonhos humanos, seriam os geradores das poluções noturnas. Mas uma vez possuído por um súcubus dificilmente um homem saía com vida. Há certas particularidades interessantes nos ataques de Lilith, como o aberto esmagador sobre o peito, uma vingança por ter sido obrigada a ficar por baixo de Adão, e sua habilidade de cortar o pênis com a vagina segundo os relatos católicos medievais. Ao mesmo tempo que ela representa a liberdade sexual feminina, também representa a castração masculina.

Lilith figura como um demônio da noite nas escrituras hebraicas (Talmud e Midrash). Lilith é também referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. No folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de Adão, que o abandonou, partindo do Jardim do Éden por causa de uma disputa, vindo a tornar-se a mãe dos demônios. De acordo com certas interpretações da criação humana em Gênesis, no Antigo Testamento, reconhecendo que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, Lilith rebelou-se, recusou-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. Na modernidade, isso levou a popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.

Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Quando reclamou de sua condição a Deus, ele retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o Éden. Três anjos foram enviados em seu encalço, porém ela se recusou a voltar. Juntou-se aos anjos caídos onde se casou com Samael (Satã) que tentou Eva ao passo que Lilith Tentou a Adão, fazendo-os cometer o adultério. Desde então o homem foi expulso do paraíso e Lilith pretende destruir a humanidade, filhos do adultério de Adão com Eva, pois mesmo abandonando seu marido ela não aceita sua segunda mulher. Ela então perseguiria os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém casados para se vingar.


A Lua Negra
O psicólogo Roberto Sicuteri escreveu o livro “Lilith: A Lua Negra” apresentando-nos o arquétipo da chamada “Mãe Devoradora”, baseando-se no mito de Liltih. Sicuteri parte da idéia do Adam Kadmon, um ser primordial andrógino que foi criado por Deus do barro e do sopro divino. As escrituras dizem: "os criou macho e fêmea". O Senhor não permanece onde macho e fêmea não estão unidos. "Os abençoou e deu a eles o nome de Adão" (do Hebraico “adamah”, terra, donde “Adam”, “ que foi da terra tomado”). Adão então pediu uma companheira porque estava insatisfeito. Afastou-se das práticas sexuais indiferenciadas quando conseguiu reconhecer a mulher. É apenas no Gênesis II que aparece dotado de alma e capaz de reconhecer a necessidade da mulher. No Talmud e no Zohar a androginia também está explícita: o nome Adão foi compreendido como englobando macho e fêmea (Adam Kadmon). “A fêmea estava atada ao lado do macho e Deus mergulhou o macho em um profundo torpor e ele ficou estendido sobre o terreno do Templo. Então Deus separou-a dele e paramentou-a como uma noiva”. No Gênesis, aparece de forma mais implícita: “E Deus criou o homem à sua imagem, na Divina imagem Ele os criou; macho e fêmea os criou”. A mais respeitável obra judaica sobre a interpretação do Gênesis, o Midrash Rabbah, diz textualmente: “quando o Sagrado, Abençoado seja Ele, criou o primeiro homem, Ele o criou andrógino”.




O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se coloca lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes. A lenda foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para a sacerdotal, que logo após sofre as modificações da Igreja. Toda a história psicológica da relação homem/mulher é uma série de notas de rodapé à história de Adão e Eva. Lilith para nós nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos Rabis, de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva. Em Gênesis I Deus criou o homem como macho e fêmea e em II a mulher foi formada da costela de Adão, que deveria ser viúvo ou divorciado quando Deus lhe conduziu Eva. Ou talvez tivesse duas mulheres. Lilith tem a ver com Gênesis I. A costela é o símbolo da nova entidade que nasce deles. Assim, o casal já existia antes do "nascimento" de Eva. "Deus criou Lilith, a primeira mulher, assim como havia criado Adão, mas usando fezes e imundície ao invés de pó puro". Então Lilith nasce logo após Adão: répteis, demônios e Lilith foram as últimas criações de Deus no 6o dia. Ao término do dia no qual Deus repousou, Adão já havia consumado sua relação com Lilith. O mito de Lilith representa o arquétipo da relação homem-mulher. Lilith é um mito seguramente anterior ao de Eva. Ela entra no mito já como demônio. Ela é coberta de sangue e saliva, símbolo do desejo. "No momento em que foi criada a mulher foi criado também Satã com ela". O amor de Adão por Lilith foi logo perturbado. Quando se uniam na carne, ela perguntava: "por que devo deitar-me embaixo de ti?" Adão recusou mudar de posição e assim Lilith se afastou dele. Voou em direção às margens do Mar Vermelho, depois de profanar o nome de Deus pai. Lilith se transformou no demônio, rodeada por todas as criaturas perversas saídas das trevas. Os anjos a chamam de volta, ela se rebela e eles a ameaçam de morte. Ela responde: "como poderei morrer, se Deus me encarregou de me ocupar de todos os meninos até o 8o dia, data da circuncisão, e das mulheres até seus 20 anos?" Os anjos voltam ao Éden, mas Jeová Deus já havia decidido punir Lilith, exterminando seus filhos. Lilith, acasalando-se com os diabos, gerava 100 demônios por dia, os quais eram chamados lillim, que significa “multidões”. Lilith seguiu estrangulando as crianças pequenas ou surpreendendo os homens no sono, induzindo-os a mortais abraços.
No fundo, Lilith já fora criada como um demônio, tendo gerado, juntamente com Adão, outros seres iguais a ela, que se vingam contra a humanidade . Essa natureza satânica é, por assim dizer, uma advertência do que a cultura rabínica e patriarcal nos faz com relação àquela que perturbou a noite toda o sono de Adão: Lilith, feita de sangue (menstruação) e saliva (desejo), é expressão de fatalidade. Neste ponto, Lilith é mais fiel ao protótipo da mulher do que a submissa Eva, embora ambas tenham sido veículo do pecado. Só que a recusa ao desejo, ao sonho erótico que subtraiu a porção divina de Adão chega, com Lilith, a extremos surpreendentes após a separação deste casal. O alfabeto Bem Sirá (século VI ou VII) conta que Lilith, inconformada com a situação de desigualdade vivida com Adão, questiona: "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que ser dominada por você? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual." E Adão, ciente da supremacia do homem, nega-se a mudar a ordem. Lilith revolta-se, pronuncia o nome mágico de Deus, acusa Adão e vai embora. Voa para as margens do Mar Vermelho, onde passa a viver em promiscuidade com os diabos, gerando 100 demônios por dia e lá ela se transforma e assume seu tenebroso destino, seduzindo homens em seu sonho, espalhando a morte, pois foi declarada guerra ao Pai.

Encarnando o feminino negativo, Lilith transfigura-se, posteriormente, em inúmeras deusas lunares (Ishtar, Astarte, Isis, Cibele, Hécate), arquétipos das forças incontroláveis do submundo – a Lua Negra. Até ser personificada pela bruxa, na Idade Média, contra a qual o homem moveu uma das mais sangrentas perseguições de toda a sua história. Mas existem muitas outras histórias sobre Lilith. Dizem que ela significa a outra ou o outro num triângulo amoroso. Para os assírios, era considerada um demônio. No Zohar também é assimilada como a rainha dos demônios que incitava os homens. Na Kabala, pode corresponder à 10º sefirah, Malkuth, que reina no submundo e na escuridão, incapaz de contatar Deus, sempre sujeita a tentações e frustrações.

Lil é uma raiz suméria que aparece na formação do nome de várias divindades e de espíritos maus. Há uma etimologia hebraica que fazia derivar o nome de Lilith de Layl ou Laylah, “noite”. Lilith-Lilitu-Lulu é a variável do demoníaco na área hebraica do oriente médio, expressão da paixão turva da sexualidade desenfreada. Segundo a imaginação humana, tendo fugido do Éden, Lilith conseguiu superar as infernais plagas desérticas desabitadas e é ali que se inicia o reino de todos os Diabos. Lilith se tornou para os semitas uma figura terrífica para as parturientes e crianças, porque as rapta. Em certos textos ela vem descrita como principal demônio feminino. Nos ataques noturnos de Lilith os homens sentiam terrível opressão torácica e impotência. No dia seguinte sentiam peso, depressão, dor de cabeça, choro. À Lilith é atribuída também a qualidade de vampiro. Ela também provoca fenômenos nervosos de origem histérica. Considerava-se que ela provocava doenças. Há uma versão que considera os demônios almas malvadas transformadas por Deus em espíritos malignos. Outra os quer multiplicados em seguida a relações sexuais entre um espírito malvado e o primeiro casal humano. Outra ainda diz que a cada sete anos há uma transformação: hiena macho em morcego, em vampiro, em urtiga, em abrunheira e esta em demônio. Diabos estão sempre próximos à água. O Talmud exorta o cuidado com os líquidos expostos nas casas. Mais tarde Lilith se estruturou como arquétipo e símbolo das proibições colocadas ao desejo sobre as quais vão se agregar influências religiosas de culto e psicológicas, transformando-a em tabu. De um lado, permanece como espírito maligno terrestre evoluindo no símbolo da bruxa e de outro se torna uma divindade astral ligada à Lua, dando assim corpo à imagem da Lua Negra.

Na tradição egípcia e Grego-romana as luas crescente e cheia correspondem à Grande Mãe. A nova é a Lua Negra, a ausente, o demônio da obscuridade. Os demônios femininos, o dragão das trevas, tragam o homem e esterilizam a terra. A história típica de base é a experiência das fases lunares. Com a projeção do tema interno na Lua, Lilith assume um caráter numinoso (potencial, sacro) e religioso, manifestando o lado feroz das divindades femininas. Para os adoradores dos deuses da área pré-cristã bem e mal se fundiam na mesma divindade. Como Lilith fugiu do Éden deixando uma mensagem de rancor e ódio, a deusa Lua foge do céu e se faz negra, vingativa, irritada. Os véus de Ísis são símbolos da fascinação que exercia nas fases, mesmo quando oculta. Na arte decorativa egípcia há a representação de Ísis no símbolo negro da Lua. Às vezes traz a meia-lua negra sobre a testa.
É na psicologia dos gregos que está em grau máximo a potência e o alcance do mito de Lilith. A lua crescente corresponde à virgem do ar; a cheia, à ninfa da terra e a minguante, à velha do mundo. As três constituíam uma pessoa una e trina. A trindade básica se repetia em múltiplos até nove e dessa estrutura derivou o calendário do tempo (ano, meses e semanas). A figura fundamental é Koré (do Grego “koré”: “donzela”) como protótipo da deusa jovem centrada no arquétipo lunar. Koré se torna mãe e filha, mas conserva seus componentes de masculino e feminino juntos. Em sentido absoluto será Perséfone (do Grego “Persephoneia”: “o som da destruição”), filha de Deméter. Vai se identificar totalmente com Kore-Hécate, esposa do deus infernal Hades (Plutão), rainha do Tártaro, guardiã do mundo subterrâneo. Perséfone é a ruptura do equilíbrio, o último quarto da fase lunar. No inferno ela perde a lembrança das flores que tinha nas mãos e conhece as trevas mais profundas, onde reina a morte. Perséfone é a parte que a psique consciente não consegue aceitar. Na Grécia Hécate é a figura mais representativa do mito de Lilith. Ela concentra a carga imaginal mais destrutiva e aterrorizante. Ela não é logo percebida como parte obscura e símbolo do proibido. É a testemunha do rapto inesperado da jovem virgem por Hades. Depois dela vem a feiticeira medieval. A Hécate-Lua Negra é bela, uma Circe homérica. Circe apresenta-se como a possibilidade ideal de satisfação absoluta. Pode conceder o êxtase erótico, mas ao preço da perda da liberdade. Ela é o mistério do não retorno: satisfação e perdição. É a Lilith que se vê e se sente aceita.

A Empusa é o demônio feminino que obedece à senhora negra da noite. Representa o ataque de fantasias e desejos que em vão são censurados. Aparece na esfera imaginal como algo mais vívido e implacável do que Hécate, mais demoníaca e é capaz de fazer explodir terrores mais arcaicos e incontroláveis. Agride de improviso, mas pode ser enxotada. A lenda de Lâmia, deusa governante da Líbia, se entrelaça com a de Empusa: vampirismo que conduz a vítima à morte. A vida imortal com Deus Pai exigiu um preço: o deslocamento do mal sobre Lilith, a transferência da dor e da grande dúvida para a mulher.

As amazonas são sacerdotisas da Lua, guardiãs da vida e da morte. Filhas de Dánao, quando os filhos nasciam, os meninos eram mortos. Obrigadas a casar, as Danaídes matavam os maridos. A sereia é a imagem mais inconsciente e terrível de Lilith, pois reúne todas as características destrutivas. A Perséfone helênica se torna, no culto romano, a temida e tenebrosa Prosérpina, rainha e guia dos infernos. Deméter, deusa lunar da fertilidade, se torna Cibele. Artêmis será a Diana caçadora. Hécate é considerada, com Medéia, a sacerdotisa das bruxas. A Medéia de Eurípedes representa a mulher que vive inteiramente a tensão em relação à própria liberação do jugo patriarcal e das leis impostas pelo homem. Os romanos eram muito supersticiosos. Em Roma a mulher sofreu até a culminante carnificina imposta pela Igreja, a mais devastadora repressão sexual que o homem já realizou.

No Século XII, um espectro surge e vagueia pela Europa: a bruxa. Nunca, como nesta época, a mulher teve que pagar um preço tão trágico pelo ódio masculino à força instintiva. Por toda a Europa ocidental o espectro da bruxa se agitou como uma doença e culminou com a caça às bruxas, a inquisição e as condenações à fogueira. O mitologema da bruxa medieval deve ser relacionado a Hécate e a Artêmis-Diana. A bruxa vive numa dimensão oculta na sociedade dos séculos XIII e XIV. As bruxas eram necessárias como demonstração do pecado e da queda, da existência do mal. Era necessário destruí-las para afirmar o bem, a santa religião. Elas eram figuras castrantes e o medo do homem, de que elas lhe arrancassem o pênis, era uma fantasia de impotência ou castração. A Lilith medieval caçava recém-nascidos e crianças não batizadas pra matá-las e devorá-las, como nos rituais das Lâmias. O Diabo é a sombra de Deus, a esfera instintiva mais obscura do homem. É sinônimo de tentação, luxúria e mal. A bruxa vai ao Sabá, a grandiosa epifania das forças vitais liberadas, mas só no século XVI o Sabá foi atribuído a elas. Até então era cerimônia ou assembléia de pessoas heréticas ou mal vistas pela igreja oficial. A caça às bruxas durou de 1484 a 1877 e queimou milhões de mulheres. Conservam a estrutura das assembléias e o ritual da dança em círculo em torno do fogo aceso nas noites sem lua. Bruxas e bruxos se dão as mãos, dançam e gritam palavras mágicas. Adoram Diana, Hécate e algum deus solar. Respeitam o calendário dos Sabás: 1o de maio, 1o de novembro (ou 31 de outubro) e 2 de fevereiro.

Lilith se manifesta no século XX onde o homem abre um novo caminho para a pesquisa do próprio mundo interno, nunca antes questionado tão profundamente. Retorna na pesquisa astrológica orientada pelo sincronismo, em épocas remotas. Lilith age na astrologia moderna como um fator psicossexual patológico e de desvio comportamental. Ela vem como o despertar da consciência feminina. Chamar Lilith de volta significa aproximar a visão dessa imagem arcaica do feminino, odiada, temida e negada e, enfrentando-a, tentar a reintegração no arquétipo, superando imensas resistências. O século XX viveu uma tentativa de recuperação simbólica do feminino na assunção de Maria aos céus, mas faltava a descida aos infernos para proclamar a realidade de Lilith. Para a psicologia profunda, temas e personagens da mitologia existem na realidade psíquica. Ela se volta à mitologia para compreender a nós mesmos no presente. Na astronomia a Lua Negra é referida como Lilith imaterial constituída do segundo buraco negro da órbita astronômica lunar. A bruxa só existe enquanto alguém acredita nos efeitos de sua ação.

Lilith se manifesta na linguagem onírica. Ela assume sua imagem terrífica definitiva em Pandora ou Aurélia, nas quais se encontram Hécate e Perséfone. O lado negro é sempre o aspecto Lilith, sempre reprimido no inconsciente. No tema natal de Nietzsche a Lua Negra diz respeito à relação com o feminino, a Ânima, a mulher e Nietzsche vive sua Lilith em Lou Salomé. A evolução da Ânima aqui é assinalada pelo contraste entre aspiração ideal, sublimação e demandas do cotidiano concreto. A Lua Negra aqui se encontra oposta à Lua: fuga da mulher e sublimação. Lilith, no setor do horóscopo da relação com o parceiro, açula as sugestões eróticas ao máximo grau.


As Vestes de Afrodite

Depois de termos visto todos estes aspectos, compreendemos que Llith é apenas uma das faces do feminino, da Ânima. Face esta que se apresenta ciclicamente na Natureza: no inverno ou na Lua Negra e se caracteriza pela ausência da Mãe. Na sociedade Lilith se dá a conhecer como uma reação à opressão machista. A mulher sempre foi um enigma para o homem, mas é exatamente este mistério que o atrai, que desperta nele uma vontade de investigar de perto o desconhecido. O “eterno feminino” é um tema sempre atual, apesar dele surgir como fonte de inspiração desde os tempos primevos da pré-história onde um anônimo ancestral da raça humana esculpiu em uma pedra as formas opulentas de um corpo feminino: a Vênus de Willendorf. Este escultor realçou as formas dando bastante volume às ancas e seios, mas a imagem parece meio disforme, talvez por se tratar de uma mulher adulta, conhecendo a mesma os processos de transformação no corpo devido à maternidade. O mistério da alma feminina encontrou nas mitologias das primeiras civilizações da Terra o tema ideal para que através do mito fosse possível tentar compreender o enigma.

Ao soar meia noite em ponto, onde provavelmente todas as criaturas da noite estejam despertas entre morcegos, corujas, pássaros agoureiros, répteis, insetos venenosos e peçonhentos, seres pertencentes à escuridão, veremos a filha de Satã levantar de seu túmulo, com suas roupas e véus esvoaçantes ao vento, seus cabelos negros exalando perfumes de flores, principalmente a “dama da noite”, aquela essência doce que enche a noite de magia e mistério, sentimento que temos ante o aroma desta planta em alguma rua deserta... Como um louco que vê a morte e não teme o seu poder de aniquilamento, Lilith caminha à nossa direção, voa como uma coruja até nossa morada, invade nossa vida privada, seduz nossa alma pagã de solitário! Suga o nosso sangue mas nos dá prazer, e o prazer segundo Oscar Wilde, é “a única coisa na vida que vale a pena!”. Deixemo-nos seduzir por esta força oculta, mas um lembrete que pode entoar como advertência: “Cuidado homens inocentes, com Lilith. Ela é um símbolo, uma força inconsciente oculta dentro da mulher, onde o seu poder pode ser de prazer ou dor, amor ou ódio”.

A imagem que mais correta e completamente apresenta-nos estas facetas do feminino certamente é representado por Afrodite, deusa da tradição helênica. Para os gregos, Afrodite era a própria personificação do desejo, do amor e do prazer sensual. Sua origem é bastante controvertida, e pode remontar à época micênica. Há também nítidas semelhanças entre Afrodite, a Istar-Astarte semita e a Grande Mãe neolítica, senhora dos animais e símbolo da fertilidade.

Há duas versões correntes para o nascimento de Afrodite. A versão mais antiga é provavelmente a divulgada por Hesíodo, que a dá como filha de Urano; a mais recente, mencionada por Homero, Eurípides e Apolodoro, relata ser ela filha de Zeus e Dione. O local de seu nascimento pode ter sido a ilha de Citera, ao sul do Peloponeso, ou Chipre; daí ela ser freqüentemente chamada de "Citeréia" ou de "Cípris". Embora casada com Hefesto, o deus do fogo, Afrodite teve pelo menos dois amantes notáveis: Ares, o deus da guerra, e Anquises, um descendente de Trós, o primeiro rei de Tróia. De sua ligação com Ares nasceram Eros, o deus que desperta paixões em homens e deuses com suas flechas; Fobos e Deimos, o medo e o pavor; e a bela Harmonia. De Anquises nasceu o herói troiano Enéias, considerado pelos romanos ancestral de Rômulo e Remo, os míticos fundadores de Roma.

Afrodite é personagem de numerosas lendas, e eram especialmente notórias suas vinganças quando não era reconhecida ou era menosprezada por alguém. Exceção à regra é a sua participação na lenda de Pigmalião. Além dessa lenda, a do Julgamento de Páris, a de Adônis, a de Psiquê e a de Teseu e Hipólito, o episódio mais famoso é o da rede de Hefesto, contado por Homero. Mas a nós, o que nos interessa agora é o mito que nos conta de suas quatro roupagens, o que inevitavelmente nos remete às quatro faces do feminino.


Nos Períodos Arcaico e Clássico Afrodite era representada como uma mulher bela e jovem, sempre vestida, às vezes com um certo ar lânguido que apenas insinuava seu 'status' de deusa do amor. A partir do fim do Período Clássico, após a Afrodite de Cnidos, famosíssima escultura de Praxíteles, passou a ser mostrada com formas voluptuosas, nua ou sumariamente vestida, em poses nitidamente provocantes. Nas pinturas de vasos, no entanto, quase sempre aparecia vestida. Mas o mito nos fala de quatro vestes que foram recebidas por Afrodite das mãos da Horas, as ninfas de Chronos, o Tempo. Isto sugere que conforme as hortas passam, conforme o tempo passa, Afrodite muda suas vestes, suas aparências, sua essência.

Afrodite nasceu das espumas do mar como Anadyomene (“a que se eleva do mar"). Sua roupagem é branca como é a espuma (em Grego: “aphros”, “Aphodites”: “as que veio da espuma”). Ë a mais bela de todas as deusas, capaz de inspirar o amor em qualquer seu vivente, mortal ou imortal. Deusa mãe, é a deusa da vida, é o dom da vida que vem das profundezas do mar. Neste sentido é deidade similar a Yemanjah e a Maria (do Latim “mare”, do Hebraico “Miriam”: “a que veio do mar”), ligada à noite, à lua e às estrelas.

Por sobre suas vestes alvas, Afrodite usa um manto azul. Nesta roupagem se eleva aos céus e se torna Urânia (“celeste”), a Virgem dos Céus. Recepcionada nas alturas por seu pai Urano, o Céu, Afrodite dele recebe uma coroa de estrelas e um cinturão de constelações chamado Zodíaco (do Grego “Zoon Kiklon”, “o Círculo dos Animais”). Urânia, ou Afrodite Urânica, é a conhecida Sofia (do Grego “sophia”, “sabedoria”) que traz das alturas eternas as verdades imutáveis do mundo, a sabedoria. Tais verdades ela sussurra e revela aos ouvidos de seus amigos e “manter amizade com Sofia” se diz em Grego “philosophia”. Esta Urânia sábia, pura, bela e casta, vestida de azul e branco e coroada de estrelas pode ser imadiatamente associada à Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida.

Mas conforme o tempo passa Afrodite mais uma vez muda suas vestes e transforma sua essência. Desta vez se apresenta vestida de vermelho e é chamada de “Pandemia”, “aquela que a todos os povos atinge” e insufla ao seu redor o “pandemônio”, criando a paixão e insuflando a sexualidade. Afrodite Pandemia é o amor carnal, o instinto sexual e a volúpia desenfreada. Neste sentido tem muito em comum com Lilith, “feita de sangue e saliva”, e resgata a sexualidade feminina livre e nascente, recordando os rituais de fertilidade do verão e da lua cheia.

Por sobre as vestes vermelhas Afrodite usa um manto negro e cobre seu rosto com um capuz. Nesta apresentação, empunhando uma foice (ou para ser exato um alfanje) Afrodite que já se apresentou como a vida, agora se apresenta como a morte. A deusa ceifa as vidas dos mortais, tal qual o agricultor ceifa o trigo dourado nos campos. Mas a morte não é fim: como a semente que desce às trevas das profundezas da terra, o morto há de renascer na primavera, na Páscoa. Afrodite oculta seu rosto para que ninguém se apaixone pela morte e venha a descobrir seu segredo: a morte é tão bela quanto a vida e é a mesma e única deusa mãe que nos dá a vida e a morte, o nascimento e a ressurreição, em seu ciclo eterno, perfeito e harmônico.


Marias

Da união da imagem de Afrodite à imagem da deusa latina Fortuna, emerge das águas Maria. Em Hebraico o nome “Miriam” significa “aquela que veio do mar” e foi traduzido para o Latim com “Maria” (“aquela que veio do mar”). Fortuna era a deusa romana que trazia nas mãos a roda do destino (a Roda da Fortuna). Deusa celeste com temperamento agitado e imprevisível, Fortuna, vestida de branco com seu manto azul, ornava suas vestes com o cinturão de estrelas.

Maria é então a amálgama católica de todas estas Deusas Mães, verdadeira representante atual da chamada Grande Mãe. No Brasil, sabemos que a expressão máxima de Maria se dá na forma de Nossa Senhora Aparecida. Em 1717, na cidade de Guaratinguetá, Estado de São Paulo, Brasil, após várias horas pescando sem resultados, três pescadores retiraram do rio Paraíba o corpo de uma imagem sem cabeça. Em seguida, lançada a rede novamente, encontraram a cabeça da imagem. Surpresos, lançaram a rede pela terceira vez e a pescaria foi tanta que puderam encher suas canoas. Esses três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, limparam a imagem apanhada no rio e notaram que se tratava da imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura. A imagem foi levada, a princípio, ao oratório de sua humilde casa, e diante dela realizavam suas orações. E desde aquele tempo Nossa Senhora começou a fazer milagres ali devido à crescente devoção do povo. Em 1745 foi construída uma capela no morro dos coqueiros, que margeia o Paraíba e uma missa foi celebrada. A imagem passou a ser chamada de Aparecida e deu origem à cidade de mesmo nome. Em 1888 a antiga capela foi substituída por outra maior. Em 8 de setembro de 1904 foi realizada a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, e em 1908, o santuário foi elevado à dignidade de Basílica pelo Papa. Em 1930, o Papa Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Em 1967, no aniversário de 250 anos de devoção, o Papa Paulo VI ofereceu a Rosa de Ouro ao Santuário Nacional inteiramente dedicado à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A partir de 1950 já se pensava na construção de um novo templo mariano devido ao crescente número de romarias. O majestoso templo foi consagrado pelo Papa, após mais de vinte e cinco anos de construção, no dia 4 de julho de 1980, na primeira visita de João Paulo II ao Brasil.
A própria imagem de Nossa Senhora Aparecida resume em si, todas as qualidades de síntese cultural, de conciliação e da unidade da qual estamos falando. E sem dúvida, sua "aparição" foi uma clara resposta, desde a fé, a todo esse difícil contexto político-social que atravessava a Colônia no início do s. XVIII. Olhemos para a imagem. Nela se encontram o português (a imagem é uma réplica da Padroeira de Portugal e do Brasil, Nossa Senhora da Conceição, que desde 1646 fazia parte da devoção de D. João IV e de toda as suas colônias); o brasileiro (a imagem foi feita, segundo estudos, com "terracota", barro paulista característico da região encontrada); o índio (a imagem foi encontrada no rio indígena "Para`iwa", passo entre Minas, Rio e São Paulo, hoje, Rio Paraíba do Sul); e o negro (a imagem possui uma cor castanho escuro, tendendo ao negro). Até mesmo o manto negro da morte está na imagem contido quando se diz “Santa Maria rogai por nós agora e na hora de nossa morte”. Mas um aspecto está ainda faltando: Lilith. Maria com seu ar virginal e casto não comporta toda a volúpia e o gozo que trazem Lilith e as vestes vermelhas de Afrodite. Quem carrega este lado na tradição católica é outra Maria: Madalena.

Lucas diz-nos que, entre as mulheres que seguiam Jesus e o assistiam com seus bens, estava Maria Madalena, ou seja, uma mulher chamada Maria, que era originária de Migdal Nunayah (Magdala), Tariquea em grego, uma pequena povoação junto ao lago da Galiléia, a 5,5 km ao norte de Tiberíades. Dela Jesus havia expulsado sete demônios, o que equivale dizer “todos os demônios”. A expressão pode ser entendida tanto como uma possessão diabólica quanto como uma doença do corpo ou do espírito. Os Evangelhos sinópticos a mencionam como a primeira de um grupo de mulheres que contemplou, de longe, a crucificação de Jesus e que permaneceu sentada em frente ao sepulcro, enquanto sepultavam Jesus. Assinalam que, na madrugada do dia depois do sábado, Maria Madalena e outras mulheres voltaram ao sepulcro para ungir o corpo com os perfumes que haviam comprado; é, então, que um anjo lhes comunica que Jesus havia ressuscitado e as encarrega de levarem a notícia aos discípulos.

São João apresenta os mesmos fatos com pequenas variações. Maria Madalena está junto à Virgem Maria ao pé da cruz. Depois do sábado, quando ainda era noite, ela se aproxima do sepulcro, vê a pedra afastada e avisa Pedro, pensando que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. Voltando ao sepulcro, enquanto chora, encontra-se com Jesus ressuscitado que a encarrega de anunciar aos discípulos a Sua volta ao Pai. Esta é a sua glória. Por isso, a Tradição, na Igreja Oriental, a chamou de isapóstolos “igual a um apóstolo” e, na Igreja Ocidental, apostola apostolorum “apóstolo dos apóstolos”. Uma tradição do Oriente diz que ela foi enterrada em Éfeso e que suas relíquias foram levadas para Constantinopla no século IX.

Maria Madalena foi identificada freqüentemente com outras mulheres que aparecem nos Evangelhos. Na Igreja Latina, a partir dos séculos VI e VII, houve a tendência de identificar Maria Madalena com a mulher pecadora que na casa de Simão, o fariseu, ungiu os pés de Jesus com suas lágrimas. Por outro lado, alguns Padres a escritores eclesiásticos, harmonizando os evangelhos, já haviam identificado esta mulher pecadora com Maria, irmã de Lázaro, que em Betânia unge com um perfume a cabeça de Jesus. Mateus e Marcos, no trecho correspondente, não mencionam o nome de Maria, apenas dizendo tratar-se de uma mulher e que a unção ocorreu na casa de Simão, o leproso. Em conseqüência disso, no Ocidente, devido principalmente a São Gregório, generalizou-se a idéia de que as três mulheres eram uma só pessoa.

Mas os dados evangélicos sugerem apenas que se deve identificar Maria Madalena com a Maria que unge Jesus em Betânia, pois presumivelmente é a irmã de Lázaro. Os evangelhos também não permitem deduzir que seja a mesma que a pecadora que, segundo Lucas, ungiu Jesus, embora a identificação seja compreensível pelo fato de São Lucas, imediatamente depois do relato em que Jesus perdoa esta mulher, mencionar que algumas mulheres o ajudavam, entre elas Maria Madalena, de quem ele havia expulsado sete demônios. Além disso, Jesus elogia o amor da mulher pecadora: muitos pecados lhe são perdoados porque muito amou e também se percebe um grande amor no encontro entre Maria e Jesus depois da Ressurreição. Em todo caso, mesmo em se tratando da mesma mulher, seu passado de pecados não é um desdouro. Pedro foi infiel a Jesus e Paulo um perseguidor dos cristãos. A grandeza deles não está na sua imunidade ao pecado, mas no seu amor.

Magdalena: Santa, prostituta, mulher comum, profeta, seguidora. Tudo isso em uma só mulher e em todas. Madalena mostra que a mulher, apesar de viver numa sociedade patriarcal, traz dentro de si os primórdios do feminino eterno, de Lilith, e que, apesar do surgimento do patriarcado com o Judaísmo e conseqüente Cristianismo, a mulher conserva dentro si as forças que a regem, de mãe e mulher. A beleza da alma feminina, a força, resgate desse feminino, não está na volta do matriarcado e sim, na união entre patriarcado e matriarcado, num fratriarcado. A relação Cristo-Magdalena, diferentemente da ligação Adão-Lilith, não é uma imposição de um sobre o outro e sim uma união, uma identificação onde cada um mantém seu ponto de vista e mesmo assim vislubram a harmonia e a união dos opostos.

Lilith Redimida

Há um grupo brasileiro composto por homens e mulheres que apresenta uma proposta de relacionamento no mínimo curiosa. Este grupo de autodenomina “Matriarca” e apregoa a dominação do “macho” pela mulher. Em um de seus textos encontra-se: “Ao assumir a posição dominante na relação, a mulher está dando um passo importante para reafirmar seu status na sociedade. Ela não é mais submissa ou agente passiva da relação, ao contrário, passa a ser o centro da relação. No plano sexual passar a ser quem decide e determina. Ao assumir o controle da sexualidade masculina ela esta se libertando de séculos de submissão e resgatando os princípios elementares da Fêmea. Está libertando o homem de uma opressão cruel e infame, que nutriu na mente dele uma mentira, a falsa superioridade masculina, que vem torturando e matando uma massa incomensurável de pessoas, principalmente homens, ao longo desse tempo. Diferente da proposta do matriarcado ou do patriarcado tradicional, a Supremacia Feminina, um Matriarcado erótico, é uma proposta de libertação total de homens e Mulheres de todas as idades e níveis sociais. Liberta a Mulher de uma injusta e absurda posição de inferioridade e o homem de uma errônea posição de superioridade. Esse novo status vem se somar às conquistas femininas na vida comum, política e econômica. Vem para suprir uma reclamação feminina quanto à qualidade das relações sexuais e afetivas. O homem machista e egoísta deve dar espaço ao homem submisso e escravo da mulher. Escravo viril, submisso não anulado, mestre na arte de dar prazer à Mulher, não ciumento ou possessivo, homem livre que se dá a escravidão por desejo e alegria, se dá por ser livre para escolher, ir e vir (...). Em verdade são homens livres que se entregam por desejo e paixão, são submissos ao princípio da Femina Suprema, logo, submissos a todas as Mulher Superiores podem ser escravos de uma Mulher por amor e paixão, mas por dedicação e essência são de todas e a todas devem adorar. Esse homem começará um longo e prazeroso caminho de transformação intima. Será um homem seguro nesta nova masculinidade, será feliz com sua nova virilidade. Não será mais um marido ou namorado, será um escravo da Femina Suprema. Como homem livre poderá se entregar sem medos. Livre dos ciúmes patéticos, da insegurança que o castra e o torna impotente, este novo homem gozará a vida como nenhuma outra geração de homens jamais logrou fazê-lo. Por paradoxal de posso parecer, este homem é livre da Mulher, é senhor de sua vida e destino. Por ter reconstruído sua virilidade, por entender o que é a nova masculinidade, ele é forte e inteiro, logo pode prescindir do domínio da Mulher-Mãe, e se dar à Fêmea”.

A dominação do “macho”, o controle da sexualidade masculina e dos instintos agressivos da testosterona, a quebra de hegemonia patriarcal e a definitiva aquisição da igualdade de direitos são as metas. Retornemos, pois, ao texto apresentado pelo grupo ‘Matriarca”: “A virilidade e a potência masculina têm sido objeto de debates ao longo de muitos anos. Um dos focos desse debate está centrado na intensidade destas forças naturais desperdiçadas pelos machos humanos. Em tempos passados era muito valorizado o homem que atingia o clímax sexual rapidamente, era sinal de ‘muito desejo’. Muitos homens se gabavam desse feito como se isso demonstrasse potência e virilidade que deviam ser invejadas pelos outros homens. No entanto, para as Mulheres esse entendimento sempre foi uma tragédia para suas vidas sexuais. Como a Mulher não era o sujeito dessas relações, tinha que se calar e sofrer com a falta de prazer sexual. Com o surgimento do feminismo e da revolução sexual , esse mito, falso mito, de virilidade, caiu por terra revelando uma triste e vergonhosa verdade: a maioria das Mulheres não sentia prazer sexual. E entre outras verdades expostas, estava a da inadequação sexual do homem frente à demanda feminina por prazer. Desconhecimento sobre o corpo e das particularidades e riquezas da sexualidade feminina. Ejaculação precoce, e impotência, principalmente psíquica e emocional, foram e ainda são, constatadas em uma intensidade muito grande. Todos os especialistas apontam entre as causas mais importantes desses problemas o medo do macho em relação ao tamanho do seu pênis e sua potência e o medo dele frente ao poder e superioridade sexual da Mulher. Estes problemas são apenas mais um dos muitos causados pelo poder patriarcal a longo dos séculos. Se o padrão sexual dominante fosse o do Matriarcado Erótico o valor desejado de potência e virilidade seria o feminino. Se a Posse Genital da Mulher sobre o sexo do homem fosse a realidade, o homem já teria se adequado a sua real condição de inferioridade frente à Mulher. Alem do sofrimento da Mulher, igualmente cruel, foi, e é, o sofrer do homem com essa realidade inútil e tola, que pode ser modificada para melhor e mais justa com a submissão do homem à Mulher Superior. Ao aceitar de livre e espontânea vontade a Posse Genital, o homem dá um passo importante para sua libertação sexual a afetiva. Não é a Mulher ou o Matriarcado Erótico que oprime o homem, mas o machismo e o patriarcado. Assim, é fundamental uma nova leitura e visão da virilidade”.

Durante séculos, desde o estabelecimento definitivo do Patriarcado na Sociedade Ocidental pela Civilização Judaico-Cristã (a partir do Século X aC), a mulher vem sofrendo um processo brutal de castração e de controle absoluto de sua sexualidade por parte do “macho”. Como se lê no texto do “Matriarca”, este processo baseia-se no medo como causa, enquanto o medo do macho em se ver dominado e destituído de sua potência, e como arma de coação, enquanto o medo que impõe o controle à força. Em graus variáveis esta castração foi e é exercida sobre a mulher pelo medo. A mulher que se vê desacreditada em sua capacidade intelectual, a mulher que é relegada a um segundo plano no mercado de trabalho, a mulher que se vê impedida de exercer seu direito à propriedade, a mulher que se vê dependente social, econômica e afetivamente do “macho”, a mulher que não reconhece seus filhos como frutos de seu ventre, mas como filhos do “macho”, a mulher que se vê impedida de exercer livremente sua sexualidade, a mulher que é obrigada a “recatar-se”, despida de sua vaidade estética natural, a mulher que se vê mutilada fisicamente por cirurgias de mastectomia e histerectomia, a mulher mutilada pelos terríveis métodos da circuncisão feminina parcial ou total.
Ártemis renascida inverte o jogo e apresenta ao “macho” exatamente as mesmas opções de castração. O intuito aqui não o da simples dominação, como pode parecer aos olhos patriarcais horrorizados, mas o de usar “fogo contra fogo” e fazer o “macho” experimentar um pouco de seu próprio veneno. Esta proposta prática equivale totalmente à perseguição do “macho” pelos cães de Ártemis e o uso do arco e das flechas de prata da deusa para subjugar definitivamente o “macho” e alcançar a liberdade para ambos: macho e fêmea, homem e mulher, Masculino e Feminino. A alternativa é uma sociedade igualitária, onde não haja nem Matriarcas, nem Patriarcas, mas onde todos sejam irmãos e livres, onde o sentimento supremo seja a fraternidade. Esta sociedade, ainda num plano utópico, chamar-se-ia Fratriarcado. Parafraseando Caetano Veloso: se não temos Mátria, temos Pátria, mas queremos Frátria. Devemos lutar contra os preconceitos que nos aprisionam, tornando-nos mais abertos, aceitando em nós a Deusa Mãe e o Deus Pai, em uma perfeita e plena harmonia e sem a plena compreensão e aceitação de Lilith, isto jamais será possível.

“Vênus Urânia, Sol, num poente agoníaco.
Ilusão dos sentidos, flor de espuma.
Lótus de volúpia, os olhos do zodíaco.
Astro do sonho a mergulhar na bruma.
Bruxa cruel, de olhos do infortúnio!
Toda de neve, a cordilheira linha de finos rutílos punhais,
cordilheira da morte, val da morte, para imortais...”

Dário Velloso




Compilação: Bernardo de Gregorio
Ilustrações: Jasper Goodall

Bibliografia e Textos originais:

“Lilith: A Lua Negra” de Roberto Siocuteri
“O Livro de Lilith” de Barbara Black Koltuv
“Mitologia Grega” de Junito de Souza Brandão
“Jardim do Éden Revisitado” de Roque de Barros Laraia
“Os Caminhos da Grande Mãe” de Bernardo de Gregorio
“Lilith: A Deusa da Noite” de Rosane Volpatto
“Graecia Antiqua” de Wilson A. Ribeiro Jr.
“Lilith: A Origem do Vampirismo na Mitologia Judaica” de Marcos T. R. Almeida
"Lilith" de Dário Velloso
“Íncubus e Súcubus” de Bernardo de Gregorio
"Solidão e Fé" de Bernardo de Gregorio
"A Magdalena" de Bernardo de Gregorio

31 agosto 2008

Sopa de Letrinhas




Século XXI
Tem GLS,
LSD, HIV,
UVa e UVb,
XTC p'ra você.

Tem T3, T4, TSH,
OPEP e SBP,
C&A nos USA,
UTI da BMW,
Lula-lá e Special-K.

FHC no G-8,
ACM no G1,
PSDB, PT, PCdoB,
HSBC, TNT
OAB e Sport TV.

DDD, DDI, GHB,
DC-10 da KLM,
RG do SPC,
CNH, TFP e
LP, DVD e CD.

INPS, FGTS,
GRPS, CPF,
TKTS, TNG,
HTML, CFC,
HDTV e não sei mais o quê...

ABC que é bom não tem.
WWW, LCD,
Ponto com, ponto BR,
SA, LTDA,
UDV é OBDC!

31 julho 2008

Manderlay é um filme dirigido por Lars von Trier e cuja história se constitui como seqüência para Dogville, do mesmo diretor. A continuação tem diversas dimensões. Mas, a principal delas é, sem dúvida, a denúncia do racismo e de como funciona a opressão. Não só nos Estados Unidos, nem apenas em seu aspecto ativo, mas também em sua forma passiva e universal.

No início do primeiro filme da trilogia, Grace chega a Dogville fugindo da arrogância de seu pai. Disposta a provar que ser humilde e servir as pessoas é o caminho da harmonia na vida social. No início de Manderlay, Grace está deixando para trás uma Dogville arrasada. Depois de sofrer todo o tipo de humilhação e violência por parte dos moradores do lugarejo, Grace deixa se convencer por seu pai, que despreza seu amor tolo pelas pessoas. Ela permite que os capangas de seu pai queimem Dogville e matem seus habitantes.


Voltando para casa com seu pai (Willem Dafoe), Grace (Bryce Dallas Howard) se depara com uma fazenda em que a escravidão continua, 70 anos após seu fim oficial nos Estados Unidos. O local chama-se Manderlay e fica no Alabama, estado do sul do país. Grace usa as metralhadoras e rifles dos capangas de seu pai para obrigar a proprietária do local a libertar os negros cativos. Os recém libertos reagem com temor e desconfiança. O negro veterano Wilhelm (Danny Glover) acha que terão dificuldades para se adaptar à liberdade. O orgulhoso Timothy (Isaach De Bankolé) desconfia das intenções da moça branca e rica. Contra a vontade de seu pai (Willem Dafoe), Grace resolve ficar e provar que a liberdade é melhor que qualquer escravidão. Mas não abre mão de fazer isso acompanhada de alguns homens armados.

Com a morte súbita da proprietária do local, Grace e os negros libertos assumem a administração da fazenda. Os problemas são muitos e começam com a indiferença dos negros em relação ao plantio do algodão na época certa para sua colheita. Mas o maior obstáculo é a resistência dos negros em considerar sua nova condição de trabalhadores livres superior à anterior. Em certo momento Wilhelm afirma que a libertação alcançada 70 anos atrás pouco mudou a situação dos negros. Em resposta, Grace cita os “40 acres de terra e uma mula” que foram prometidos a cada negro liberto no fim da Guerra Civil americana. Wilhelm diz que tal promessa nunca foi cumprida. E é verdade. O que era para ser uma reforma agrária voltada para os negros jamais foi feita. Virou um mito.

Manderlay não é tão bom quanto Dogville, mas mesmo assim é muito bom. Apesar do cenário desta vez não surpreender, a partir do ponto que aqui você já espera pela falta do mesmo, o filme conta com momentos brilhantes. O que chama a atenção é a iluminação (ou a falta dela) que leva o filme a se tornar extremamente escuro, criando um clima angustiante. Grace, a bem-intencionada filha de gângster que no primeiro filme era interpretada por Nicole Kidman, reaparece em Manderlay na pele da igualmente talentosa Bryce Dallas Howard. Nicole Kidman pretendia também atuar em Manderlay, mas teve que desistir do filme em julho de 2003 devido a conflitos de agenda. Talvez o grande problema do filme seja o tempo que você leva para se acostumar com Bryce no papel de Grace. É provável que você nem chegue a se acostumar. A filha de Ron Howard não consegue em momento algum passar para o telespectador a força que Nicole passava. Bryce, que apareceu recentemente em destaque para o mundo com sua grande performance em A Vila, veio a ser uma substituta à altura: a atriz tem características físicas semelhantes à Grace original (pele bem clara e cabelos de cor parecida), e talento suficiente para impor-se em cenas difíceis (e há várias delas), ainda que a experiência não seja muita; o problema é compará-la com Nicole.



  • Título Original: Manderlay
    Gênero: Drama
    Tempo de Duração: 139 minutos
    Ano de Lançamento (Dinamarca / Holanda / Inglaterra / Suécia / França / Alemanha): 2005
    Distribuição: California Filmes
    Produção: Vibeke Windelov
    Fotografia: Anthony Dod Mantle
    Figurino: Manon Rasmussen
    Edição: Bodil Kjaerhauge e Molly Marlene Stensgard
    Estúdio: Zentropa Entertainments / Film i Väst / Manderlay Ltd. / Edith Film Oy / Isabella Films B.V. / Memfis Film & Television / Sigmall Films Ltd. / Ognon Pictures / Pain Unlimited GmbH Filmproduktion.






    A Máquina da Opressão


    MANDERLAY Por Sérgio Domingues


    Na verdade, para Lincoln os negros eram inferiores. Nem mesmo a Guerra Civil teve como única causa o fim da escravidão. O debate em torno do cativeiro negro era mais um pretexto na briga entre os brancos do sul e do norte do país. Os primeiros queriam manter sua autonomia e as atividades ligadas às grandes plantações. Os segundos queriam mais centralização política e expansão da indústria. Abraham Lincoln entrou para a história como “o libertador”, mas considerava os negros inferiores e defendia sua volta à África. Em plena guerra, Lincoln decretou o fim da escravidão apenas nas regiões controladas pelos sulistas para privá-los da força-de-trabalho negra e enfraquecer seu esforço de guerra.

    Terminada a guerra, a necessidade de manter a união entre os brancos fez com que os nortistas fechassem os olhos à criação da Ku Klux Klan, em 1866. Um pouco mais tarde, vieram as leis de separação nos estados do sul. Negros não podiam freqüentar os mesmos lugares públicos que os brancos. O filme de Lars Von Trier se passa em 1933. Seriam necessários mais 32 anos de muita luta para que essas leis caíssem. No norte, elas não foram necessárias. Os negros eram muito poucos e um racismo informal como o que conhecemos no Brasil era suficiente.

    Outro mito que se construiu é a de que o racismo declarado dos Estados Unidos teria permitido aos negros que reagissem e progredissem. Não é bem assim. Além do que nos mostrou a tragédia do Katrina, há números bastante evidentes. Em 2005, o desemprego entre os negros é de 10,8%. Entre os brancos, é de 4,7%. Mais de 70% dos brancos têm casa própria, contra menos de 50% dos negros. Os negros têm três vezes mais chance de ir para a cadeia. O total de rendas de uma família negra é 10 vezes menor do que de uma branca.

    De qualquer maneira, essa situação não justificaria o que parece ser o conformismo dos personagens negros do filme. Mas, há aí outra dimensão do racismo ou de outras formas de preconceito e discriminação. Em primeiro lugar, não nos esqueçamos que a escravização negra dos séculos 16 a 19 deve ser o maior caso de aprisionamento e deslocamento forçado de seres humanos em toda a história de nossa espécie. Milhões de pessoas foram transferidas para as Américas em navios que eram verdadeiros matadouros. Vieram para trabalhar numa terra desconhecida, em condições terríveis e sob extrema violência.
    O segredo é conquistar as almas

    Mas, não só isso. Todo um corpo de teorias com pretensões científicas foi criado para justificar esse crime sem antecedentes. O racismo, como teoria da superioridade da “raça branca” sobre “as outras”, foi criado para justificar a escravidão negra. Portanto, não se trata apenas da repressão, da violência, das correntes, do tronco e do chicote. Trata-se também de dominação ideológica, de convencimento e justificação. É por isso que damos o nome de opressão a esse tipo de dominação. Não se trata apenas de repressão, mas de fazer o oprimido internalizar o preconceito e a ele se acomodar. Infelizmente, é um mecanismo bastante eficiente. Afinal, é mais provável que o negro, a mulher, o homossexual, sem consciência sintam culpa pelo que são do que enxerguem o erro na perseguição que vem da sociedade. A tendência é assumir a inferioridade que lhes atribuem e justificar a discriminação.

    Esse parece ser o caso dos negros de Manderlay. Eles continuam, por exemplo, a comparecer no pátio na hora em que a senhora branca (Lauren Bacall) determinou, mesmo após a morte dela. No entanto, os desdobramentos posteriores do filme não permitirão que as coisas sejam explicadas apenas por isso. A internalização da opressão não leva apenas à passividade. Também estabelece as bases para um pacto terrível e resistente, em que os oprimidos se acomodam à situação e a reproduzem. A isso, chamamos hegemonia. Não é apenas a repressão e a dominação política. Não se trata de prender braços e pernas, convencer a inteligência ou vencer pelo estômago. É o mesmo que conquistar as almas. E, aí, a máquina da opressão funciona às mil maravilhas para os que estão por cima. Não só nos Estados Unidos, mas onde quer que relações de dominação existam.

    O grande achado de Manderlay é a postura de Grace. Ela praticamente obriga os cativos a se libertarem, lembrando uma estranha e perigosa frase atribuída a Che Guevara: “É preciso libertar os homens, mesmo que eles não queiram”. O pai de Grace cita o exemplo do passarinho acostumado à gaiola, que morre quando o libertam porque já não sabe voar. Se isso é verdade para os negros de Manderlay, Grace também cai prisioneira de uma armadilha. Não se trata de negar a violência que os dominados são obrigados a utilizar para responder à violência dos dominadores. O problema são as soluções autoritárias para situações de injustiça. Alternativas que acabam aprofundando a própria lógica da injustiça. Um problema enorme, enfrentado por todas as revoluções. Que Grace não tenha apresentado soluções para isso não é o mais grave. Grave é o fato de suas ações terem acabado por manter a máquina do racismo em funcionamento.

    Este é o segredo do combate à dominação de classe. Combinar resistência e o combate à exploração e à violência com o desmonte dos mecanismos de dominação ideológica. O final surpreendente de Manderlay pretende mostrar que, tal como o relógio que foi regulado de forma imprecisa, a luta pela liberdade humana não pode abrir mão de um entendimento claro do que seja a auto-emacipação dos explorados e oprimidos. Em Dogville, Grace adota a servidão e acaba escrava. Em Manderlay, a personagem cede à arrogância bem intencionada e torna-se autoritária. Entre a servidão do primeiro e a arrogância do segundo, esperemos que Von Trier nos apresente uma proposta interessante no terceiro e último filme.




    O Povo da Lei


    MANDERLAY por Bernardo de Gregorio


    Mais uma vez é o título que nos revela a verdade por trás das aparências. “Manderlay” é um trocadilho com o termo “vanderlay”. “Van der lay” em Holandês significa “da condição”, “da configuração”, “da lei” (sim: que em Português originou o nome “Wanderley”). “Manderlay” significa então “gente da lei” e abre-se uma leitura nova do filme para além óbvia apresentada por Lars von Trier. Se Dogville narra o Novo Testamento, mostrando o Cristianismo de seus primórdios até o Apocalipse, Manderlay nos mostra o Velho Testamento: o Pentateuco (do Grego, "os cinco rolos").

    O Pentateuco é composto pelos cinco primeiros livros da Bíblia. Entre os judeus é chamado de Torah, uma palavra da língua Hebraica com significado associado ao “ensinamento”, “instrução”, ou especialmente “Lei”. O texto é atribuído a Moisés e se compõe pelo Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Manderlay fala-nos então sobre a Lei de Moisés e suas origens na História longínqua e na psique humana. Portanto “Manderlay” é também “o povo da Lei”. Estes preceitos com cerca de cinco mil anos de idade formam a base moral da doutrina hebraica (e por conseqüência, da cristã e da islâmica) e distinguem aqueles que são considerados “puros” daqueles que são “impuros”. Os chamados “verdadeiros judeus” devem se manter “pios”. Estas leis, conhecidas como Leis Mosaicas, foram escritas com a clara finalidade de regulamentar a religião e de infundir valores de higiene e de medicina preventiva entre o “Povo Escolhido”. De uma forma ou de outra, os judeus adotaram para si estas leis como sua “marca registrada” e com o passar dos séculos, a Lei Mosaica passou a ser a forma mais simples de fazer a distinção clara entre o povo judeu (os “puros”) e os demais povos da época (os “ímpios”). Desta forma, as restrições alimentares (como a restrição à carne de porco ou ao consumo de moluscos e crustáceos), o respeito às festas judaicas (como o “Pessach”), aos rituais judaicos (como a circuncizão) e a observância restrita à manutenção da raça judaica passaram a ser características intimamente ligadas à própria noção de Israel (o povo judeu).

    A “velha senhora”, a dona da fazenda é a Lei Mosaica. Sob seu leito de morte jaz um livro onde a Lei foi imortalizada: a Torah. Ao morrer a velha senhora sugere que o livro seja queimado. Ou seja: se a Lei Mosaica já não mais se aplica, a Torah em si deveria cair em desuso. Grace, extremamente arrogante, guarda o livro para si e desde o início se coloca contra a escravidão e contra as leis da velha senhora. Grace clama por liberdade de forma arrebatada, apoiando-se na força de seus capangas para “libertar” o povo escravizado pela lei. Grace é novamente a revolução do Cristianismo que veio para fazer a “Nova Aliança” com Deus e trazer a “Nova Lei” que figurará no lugar da antiga. O “Novo Testamento” que suplantará o “Antigo Testamento”. O “amor” que veio substituir o “olho por olho” (o quid pro quod de Dogville). Para instituir a democracia naquela sociedade aristocrática Grace organiza reuniões de livre debate, mas para obter quorum em suas “reuniões” ela necessita obrigar, sob a mira de metralhadoras, os habitantes a comparecerem. Democracia estranha... Não há como desassociar essa democratização empreendida por Grace, com as atitudes do governo americano em relação ao Iraque, entre outros atos de "democracia à força". Será que as pessoas podem ser forçadas a seguir esse modelo? Os libertados de Manderlay, por exemplo, não mostram qualquer tipo de iniciativa. Grace não desiste e, em seminários, começa a ensiná-los a agir democraticamente, utilizando os votos da maioria, deixando para trás as decisões arbitrárias. Esta “democracia” imposta nas estranhas “assembléias” de Grace referem-se claramente às “assembléias de Deus”. “Assembléia” se diz eklesia em Grego: Igreja. A “salvação” imposta pela força é marca registrada deste Cristianismo que se arvora o status de “super potência” durante toda a Idade Média e Renascimento e quizás ainda hoje.

    A “Nova Aliança” fica então sacramentada com um contrato firmado por todos e redigido por Joseph, o gangster especialista em leis: o “Novo Testamento”. Os escravos tornam-se os novos donos da plantação e os ex-donos tornam-se os novos escravos. Existe até mesmo uma cena em que eles se apresentam com os rostos pintados grotescamente de preto. Estes ex-donos são evidentemente os judeus que desde a destruição do Templo de Jerusalém em 60 dC, a Diáspora, se viram perseguidos pelo mundo afora: da Inquisição à Segunda Guerra Mundial.

    Uma esquizofrenia foi vivida com a expansão do Cristianismo. Os extremos foram cultuados e vividos de forma dramática: a Bíblia era tida como a “vontade expressa do Senhor”, revelações incontestáveis do divino. Paradoxalmente judeus eram perseguidos e mal vistos devido sua rejeição ao Filho do Homem, o Cristo. Ninguém parece nunca ter se atentado para o detalhe de que Jesus, todos seus familiares e seguidores terem sido efetivamente judeus... Os infiéis precisavam ser “salvos” a todo custo. Tais fatos “justificaram” as Cruzadas, por exemplo. Evidentemente as Cruzadas foram geradas principalmente pela falta de terras disponíveis aos nobres sem-terra (filhos mais novos sem direito a herança) e ao crescimento da pobreza na Europa. O anti-semitismo foi apenas um pretexto que sobreviveu por milênos, apesar da noção de igualdade e de universalidade proposta pela Igraja Cristã. Da mesma maneira nos Estados Unidos há “liberdade e justiça para todos”, ao lado de classificações raciais que continuam a vigorar e de uma injustiça social que corrompe a sociedade subterraneamente.

    Todo o tempo Grace fala em nome da liberdade: remodela todos os costumes e hábitos e até mesmo o horário do relógio é discutido. O Cristianismo igualmente muda até mesmo a contagem do tempo, criando um novo calendário, dividindo as águas do mar do tempo entre: “antes de Cristo” e “depois de Cristo”. O dia sagrado, o “sétimo dia” (“shabat”, “sábado”) em que Deus descansou, também foi mudado: agora reverenciaremos o domingo, “o dia do Senhor”. "Lembra-te do dia do Shabat, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o Shabat do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do Shabat, e o santificou" (Êxodo 20:8-11). Graves conseqüências aguardam por Grace no final do filme por esta hybris de ter mudar a contagem do tempo a partir do voto...

    Mas a chave para o entendimento da ação está visível todo o tempo no centro do cenário: “o poço de Lúcifer”. Nome estranho para um poço. Quem é este Lúcifer? Conta-nos o mito hebraico que Lúcifer, o Portador da Luz, era o mais belo dos anjos (na verdade um arcanjo) e recusou-se a cuidar da Humanidade por se achar superior a esta tarefa. Como punição, Lúcifer foi condenado a habitar as entranhas da Terra, onde criou para si um mundo de luz e calor, de onde arrebanha legiões de demônios que lutam a seu favor e alicia almas humanas propondo-lhes pactos e oferecendo-lhes prazeres sensuais. Lúcifer luta pela liberdade e pelo prazer sem esforço e deseja, em sua revolução, que todos os espíritos se libertem da tirania de Deus e suas Hostes. Lúcifer, transformado em serpente, ainda foi o responsável pelo Pecado Original que levou à queda a humanidade. Se você pergunta para cristãos quem é Lúcifer, a maioria deles provavelmente lhe contará esta história sobre Lúcifer como sendo um anjo que foi expulso do Céu porque ele era orgulhoso e quis assumir o comando do Paraíso, ou algo do tipo. Interessantemente a Bíblia não diz tal coisa, e a história de Lúcifer é uma dessas histórias que são apenas algum tipo de tradição oral que tem sido veiculada com o passar do tempo por pessoas que nunca gastaram seu tempo em pesquisar as origens da mesma. Se você fizer uma procura na Bíblia, verificará que a palavra "Lúcifer" só é encontrada em Isaias 14:12. “como foste tu se caído do céu, ó Lúcifer, filho da alva”. Mesmo assim, a maioria das versões da Bíblia não usa a palavra "Lúcifer": “como caíste do céu, ó estrela matutina, filho do amanhecer”. O original hebreu lê-se “oh Helel, filho de Shahar”. Shahar era um Deus babilônico do amanhecer, e Helel era o filho dele, a estrela matutina, o qual nós chamamos de Vênus. Shahar teve um irmão gêmeo chamado Shalem, que era associado ao crepúsculo e o aparecimento de Vênus à noite (estrela vespertina). Jerusalém quer dizer "Casa de Shalem" do qual vem da adoração do planeta Vênus como uma estrela da noite. A idéia de "siga em paz” ou "a paz esteja com você" se originou de histórias de Vênus que adentra à noite ao mundo dos criminosos. “Shalem” tornou-se “Shalom" com o passar do tempo.

    Este poço é pois a ligação entre “o mundo de baixo” e o “mundo de cima”, inconsciente e consciente. Dele vem a água que alivia o tormento de todos e irriga a plantação. Dela vem a libertação. Lúcifer é luz, beleza, prazer e liberdade. O autor do Apocalipse reivindica que Cristo, chamado no texto como “o Cordeiro”, referiu-se a si mesmo como "Estrela Matutina”, o que entra em conflito com a idéia de que Satanás é um anjo caído nomeado Lúcifer ou “estrela de manhã”. “Eu, Jesus, enviei meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas: eu sou a raiz e a geração de David, e a resplandecente ‘estrela matutina’” (Apoc 22:16). Jesus chama a si mesmo de “estrela matutina”, da mesma maneira que Vênus era uma estrela matutina e uma deusa de amor para os romanos. É suposto que Jesus expressa a idéia de amor incondicional, da mesma maneira que Vênus e muitas de suas antigas personificações expressaram idéias de amor e beleza e brilho. Grace vem em nome destas mesmas virtudes. Trata-se do novo se impondo ao velho, do revolucionário ou, se quiserem, do subversivo. Esta é a natureza de Lúcifer, esta é a natureza de Cristo, esta é a natureza de Grace.

    Porém, com o decorrer do filme, as inovações de Grace vão se mostrando problemáticas e vão acarretando uma série de desequilíbrios e aberrações no meio ambiente local e na micro-sociedade de Manderlay. Aos poucos o expectador vai entendendo que a Lei da Senhora havia sido criada com sabedoria e era a responsável pela harmonia do lugar. A culminação deste processo é quando Grace se vê forçada ela mesma a utilizar o sistema de classificação psicológica que faz parte da Lei da Senhora para compreender as atitudes de Timothy. No final do filme Grace se vê de chicote em punho espancando ela mesma um negro, na exata mesma atitude em que encontrara a velha senhora. Numa revelação aterradora, descobrimos que o autor da lei não havia sido nem a velha senhora nem nenhum branco, mas o experiente Wilhelm, ele mesmo um negro escravo. A Lei havia sido então uma maneira encontrada de manter o status quo depois da abolição da escravatura, protegendo os negros de um mundo hostil. Como ocorre em muitos dos filmes de von Trier, a idealista personagem principal é chocada e frustrada pela realidade dos fatos.















22 julho 2008










O filme chama a atenção pela simplicidade de seus cenários e cortes de cenas não convencionais. Todo o filme foi filmado dentro de um galpão localizado na Suécia com o mínimo de artefatos, há poucas mesas e algumas paredes, mas normalmente há apenas marcações no chão indicando que ali é a casa de tal pessoa, ou há um arbusto. Apesar dos personagens fazerem constantes referências a paisagem, ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças de dia/noite, clima e de momentos importantes do filme. O filme ainda tem um narrador onisciente e é o próprio Lars von Trier quem controla a câmera.

Tudo isso são artimanhas do diretor para que o público não se esqueça de que assistem a uma peça de ficção, valorizando o trabalho dos atores. O resultado é aberto a opiniões: alguns espectadores saem maravilhados com a sensibilidade com que Lars retrata a arrogância humana e a atuação brilhante (Nicole Kidman, vencedora do Oscar por “As Horas”), outros acham o filme longo e maçante (o filme tem quase três horas de duração).

Dogville apresenta claras referências visuais e influências de produção herdadas do movimento Dogma 95, manifesto cinematográfico que foi iniciado pelo próprio Lars Von Trier. Em Dogville temos a ausência de trilha sonora no filme, câmera na mão, não há deslocamentos temporais ou geográficos. Entretanto, em Dogville há a presença de gruas, iluminação artificial e cenografia, itens que eram proibidos no Manifesto Dogma 95.

Existem visíveis influências teatrais em Dogville, como o teatro de Bertolt Brecht, que costumava colocar avisos de 'atenção, não se emocione, isso é ficção' em suas peças; o teatro caixa preta, realizado em um único cenário com as paredes todas pretas, e finalmente o teatro do absurdo, onde os atores improvisam e criam situações onde interagem com objetos imaginários.

Percebe-se na construção da trama e no foco humanista do tratamento dos personagens influências de escolas de filosofia, especialmente as gregas. Por duas vezes cita-se nos diálogos os ensinamentos dos estoicistas, uma escola que pregava o abandono da emoção para vivermos sem dor. E muito da moral da história gira em torno da diferença entre o altruísmo - dar sem esperar nada - e o quid pro quod - que exige uma compensação equivalente para cada ação.

O filme é dividido em 10 partes - cada uma com créditos e uma introdução narrada -, sendo 1 prólogo e 9 capítulos. A trama acontece em um único local, uma cidade pequena dos Estados Unidos chamada "Dogville", situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas, na época da grande depressão estadunidense.

O filme começa com uma tomada de cima para baixo, onde pode-se ver o desenho da cidade (com as marcações dos espaços das casas desenhados no chão). Essas tomadas perpendiculares repetir-se-ão em diversas cenas, sendo marcos importantes da narrativa. O narrador vai então apresentando os personagens um por um ("todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis") e contando suas histórias.



Entre os moradores de Dogville, o personagem principal é Thomas Edison Jr., um escritor que para protelar o dia em que terá que começar a escrever seu livro se ocupa em pregar sermões a toda a comunidade sobre rearmamento moral. Ele está procurando um exemplo para servir de ilustração às suas teorias e assim comprovar que os moradores não são capazes de aceitar novas situações, quando é interrompido por barulhos de tiros a distância. Nesse momento entra Grace, uma bela jovem com um vestido que denota sua origem de família rica. Ela diz a Tom que está fugindo de um gângster e Tom, percebendo nela o exemplo perfeito para sua palestra, lhe dá cobertura.

Os moradores de Dogville a princípio recusam-se a aceitá-la, e Tom propõe que dêem a Grace um prazo de duas semanas, para então decidirem sua sorte. Grace, em compensação, deve ajudá-los em tarefas cotidianas. Apesar de não admitirem, eles jamais dão coisa alguma, não há generosidade ou aceitação: há um sistema de trocas e é esse sistema de compensações (o quid pro quod) que, aliado à personalidade de perdoar de Grace (seu altruísmo), anuncia a tragédia.

Os moradores relutam até mesmo em aceitar a ajuda de Grace, mas acabam aceitando e Grace rapidamente começa a passar seus dias ocupada em fazer pequenas coisas que "não são necessárias", mas que os moradores "generosamente permitem" que ela faça. E assim passam-se as semanas, os moradores aceitam que Grace fique na vila, como mais um favor que ela ficará devendo a eles. Tom confessa a Grace que gosta dela e é correspondido, mas ele não assume publicamente seu amor perante Dogville, mantendo o romance deles secreto e mantendo Grace na condição de estrangeira.



A aparente tranqüilidade da situação começa a mudar no dia da Independência, quando a cidadezinha recebe a visita da polícia, que afixa um cartaz onde Grace é apontada como procurada. Os moradores de Dogville consideram ainda maior a dívida de Grace com eles, fazendo cada vez mais exigências, que diante da permissividade e comportamento passivo de Grace, rapidamente transformam-se em abusos. Uma cena forte do filme é quando Chuck a estupra, como "pagamento" para que ele não a denunciasse às autoridades. Aqui a função do cenário vazio é clara: a ausência de paredes dá a nítida percepção de que todos sabem o que se passa, mas fingem não ver. A comunicação também não parece ser possível para os moradores de Dogville. O que eles falam passa longe de significar o que realmente querem dizer. Quando questionados são evasivos, mudam de assunto ou simplesmente respondem outra coisa. Chuck fala de colheita de maçãs quando está querendo abusar sexualmente de Grace, e Ma Ginger reprime-a quando ela passa entre os arbustos, com argumentos que simplesmente não correspondem àquilo que ela diz.

Desse ponto em diante a constante dívida de Grace com a comunidade só cresce e ela torna-se uma escrava não só de trabalho físico como sexual. Em pouco tempo a tratam como uma vaca, que puxa um arado, onde os caipiras se aliviam. Somente Tom, sem capacidade de tomar qualquer atitude, não a viola. E é após ela o rejeitar, que ele decide dar um basta nessa pequena metáfora ilustrativa que ela representa, chamando o gângster que a procurava. Nesse momento revela-se que Grace não está sendo ameaçada por eles, mas é a filha do chefe maior. Não há surpresa no final: desde que Grace entra no carro o diretor vai preparando a platéia com a idéia de que haverá um massacre. E sem dúvida, não fosse este final apoteótico, o filme terminaria morno, indigesto, como se todos estivessem com algo na garganta. O final catártico faz com que Dogville apresente uma estrutura narrativa herdeira das tragédias gregas, onde a platéia era levada a uma situação de tensão insuportável e liberava a adrenalina contida no final trágico.

Desde sempre, quase toda obra de arte é, em última instância, um retrato do ser humano. Lars von Trier não parece perdoar alma alguma, e faz um retrato de pessoas cruéis, mesquinhas, egoístas e arrogantes. Tom é um covarde, incapaz de assumir responsabilidade alguma (o drama de Grace começa no dia da Independência, quando ele não assume o romance com ela). Os habitantes da vila são "cães" que se comportam de forma instintiva, guiados pelas suas necessidades físicas e seus próprios interesses.

Nem mesmo a protagonista, Grace, é perdoada. Se ao longo do filme somos levados a vê-la como possuidora de uma generosidade infinita, o capítulo final mostra que não: se ela perdôou e permitiu que fizessem dela tudo o que foi feito é porque se considerava acima de todos, superior e indiferente como um "deus olímpico". Grace jamais foi cativa ou submissa, nunca sentiu real misericórdia e sim, desprezo. A todo momento temos a impressão de que, se ela realmente quisesse, poderia simplesmente ir embora, e que portanto os verdadeiros prisioneiros são os moradores - e ela sabe disto.






Na cena final há mais um elemento por trás de Grace: a platéia. Se a platéia passou o filme sofrendo com a passividade de Grace diante das brutalidades, agora se regozija, conscientemente ou não, concordando (e gostando) do massacre a que assiste. Essa é a forma do diretor dizer ao público: vêem? Vocês fariam o mesmo. Dogville é a antítese do bom selvagem de Rousseau. Sequer os bebês são sem pecado, apenas talvez o cão, que esse nada fez contrariando sua natureza animal e permanece o filme todo "preso" em sua corrente.

Nos Estados Unidos muitos espectadores sentiram-se ofendidos, acusando Lars von Trier de antiamericano. O fato de ele jamais ter visitado os Estados Unidos e de fotografias do período da depressão e de pessoas miseráveis estadunidenses serem usadas durante os créditos finais, ao som da música “Young Americans” de David Bowie, não depuseram a seu favor. Mas Dogville poderia ser uma cidade em qualquer lugar, em qualquer época.





Título Original: Dogville
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 177 minutos
Ano de Lançamento (França): 2003
Distribuição: Lions Gate Entertainment / California Filmes
Produção: Vibeke Windelov
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Desenho de Produção: Peter Grant
Figurino: Manon Rasmussen
Edição: Molly Marlene Stensgard
Estúdio: Canal+ / 4 1/2 / Alan Young Pictures / Det Danske Filminstitut / Edith Film Oy / Film i Väst / Hachette Première / Isabella Films B.V. / J&M Entertainment / KC Medien AG / Kushner-Locke Company / Kuzui Enterprises / Liberator Productions / MDP Worldwide / Memfis Film & Television / Pain Unlimited GmbH Filmproduktion / Q&Q Medien GmbH / Sigma Films Ltd. / Slot Machine / Something Else B.V. / Summit Entertainment / Sveriges Television / Trust Film Svenska / Zoma Ltd. / Zentropa Entertainment / What Else? B.V.





DOGVILLE por Mozart Cabral




Escrito e dirigido por Lars Von Trier em 2003. Com Nikole Kidman, Paul Bettany, Harriet Anderson, James Caan, Lauren Bacall, Ben Gazzarra, John Hurt (o narrador-off) e outros maravilhosos atores numa dramaturgia de causar inveja a qualquer um que siga os padrões hollywoodianos. Este é o primeiro filme de sua trilogia: “América, terra das oportunidades”, ao qual seguirá “Manderlay” (2004) e Washington (2005).

É uma parábola da sociedade americana atual: um povo com medo. Onde o estrangeiro é sempre uma ameaça para os medíocres, apegados a seus preconceitos, sua moral hipocritamente puritana, seus valores calvinistas. Sua moral reduzida ao “toma lá dá cá”. Seres incapazes de generosidade. Sem compaixão. Afinal, um filme de gângsteres!

A quebra da bolsa dos anos 30 nos EUA e suas conseqüências sociais são o pano de fundo deste vilarejo “de fim de mundo” que nos é apresentado por Tom -- um aspirante a escritor de forma muito distanciada --, quase como se fosse, ele mesmo, um personagem em toda aquela história que nos torna menor moralmente.Quando, divagando solitariamente numa noite, entre elucubrações de como deveria agir moralmente naquela comunidade... Ouve tiros nas proximidades: Grace – como se fora uma indefesa raposina felpuda procurando uma toca para se esconder daquiloque poderia ser uma caçada perpetrada por dálmatas e galgos, que vêm ao seu encalço, -- vai parar naquela mina abandonada até que passe, momentaneamente, aquele perigo. Tom sente-se logo atraído por ela, mas reprime os seus instintos – como um rapaz deveria tratar uma dama que poderia vir a ser sua mulher, -- mas faltava-lhe o essencial, aquilo que era indispensável naquela situação toda: a coragem! Mas não, era um verdadeiro bunda mole. Um cabra frouxo, como se diz num bom nordestês. Que fleuma, que o cara tinha. Um lorde miserável, mas sem nobreza de espírito. Pensou que tinha conseguido tirar o corpo fora daquela situação cada vez mais conflituosa, lucrando uma boa grana e ainda conquistar politicamente aquele povoado desalmado: pagou caro. Ela agiu de forma nietzschiana! Vingança cruel. Grace – quase uma “Branca de Neve” -- que esperava encontrar em Tom o seu príncipe encantado, beijou na realidade um sapo!

Nesta “Canina Tragédia Desumana”, Von Trier faz com que a nossa heroína, desça ao “mundo dos mortos”, acompanhada – não por um Virgílio, mas – por uma espécie de escriturário, o Tom – sem nenhuma música – que vai lhe mostrando todas as fraquezas humanas: a vaidade daquele cego, o orgulho do médico pé-de-chinelo, a cobiça da mulher do próximo, o filho que rouba o pai, a mesquinhez das comerciantes, a inveja que as outras mulheres tinham de sua beleza nobre etc. Bem, ali é onde todos vão pagar os seus pecados.

Ela, além de ter uma relação edipiana com pai, recusa-se a assumir seus negócios escusos no mundo do crime, e vai parar num mundo de “anões” – homenzinhos, nibelungos sem um Siegfried! – que vivem sós para o trabalho, sem prazeres corporais, covardes, aniquilados pela recessão econômica. Agiu como uma arma de destruição em massa: assumindo o lugar do pai na máfia daquela região.Tornasse finalmente adulta. Passa a ser a matriarca da organização, e mostra que é capaz de “executar certas coisas que se tem que fazer pessoalmente”. E faz!

Seres humanos reduzidos à sua animalidade hobbesiana. Ali podemos ver também o que se chama de “homem comum” agindo dentro daquele contexto que vai cada vez mais sendo pressionado para o seu desenlace inevitável: chamar o ladrão, e não a polícia, que poderia comprometer todos eles criminalmente por mantê-la oculta da justiça, não a informando à polícia.



Grace acredita que o cão agia pela sua natureza, já os humanos, não. Creio que Trier acredite nisso também. Os homens não teriam natureza, já que o que eles são, é determinado pelo seu ser social e suas relações com uma sociedade historicamente determinada, neste caso, a recessão econômica dos EUA; as fotos finais nos créditos do filme mostram como o capitalismo destruiu aquelas pessoas moralmente, produzindo aquele tipo de espírito tacanho. Não deveriam ter-se comportado daquela forma que nos empobrece quando estamos numa situação de clara vantagem, e não damos abrigo a quem precisa, sem nada querer em troca. Ora, qualquer um poderá se ver casualmente numa situação semelhante, e gostaríamos de sermos socorridos por mera solidariedade desinteressada. Não é verdade? Assim é que se deveria fazer.

A sociedade americana de hoje se comporta de modo semelhante com os latinos, árabes, orientais, negros, ou com quaisquer despossuídos de uma forma geral, que potencialmente possam lhe causar futuramente algum tipo de perigo. O forasteiro é sentenciado pelo simples fato de ser de fora, mera condição estabelecida por eles, mesmo sendo, sabidamente por todos, inocente. Merecem, portanto, serem tratados com esta reciprocidade. Princípio do Direito Internacional.

Quando qualquer um faria teatro filmado daquilo, Von Trier fez cinema épico da melhor qualidade no sentido que lhe dava Brecht. Fugindo do cinema emocional praticado por Hollywood: o dramático. ”Na forma dramática, o espectador diz: Sim, eu também senti isso. – É assim que eu sou. – Sempre será assim. – O sofrimento desta pessoa me compunge porque não há saída para ela. – Isto é a verdadeira arte: tudo é evidente por si mesmo. – eu choro com aqueles que estão chorando e rio com aqueles que estão rindo. Já na forma épica, o espectador diz: Eu não teria pensadonisso. – Não se deve agir assim. – Isto é verdadeiramente extraordinário, é quase incrível. – Isto não pode continuar. – O sofrimento desta pessoa me compunge porque sem dúvida haveria uma saída para ela. – Isto é a verdadeira arte: nada aí é evidente por si mesmo. – Eu rio dos que estão chorando e choro dos que estão rindo”, diz-nos Brecht em: “Teatro de Diversão ou Teatro Pedagógico” em 1936. O efeito de distanciamento é conseguido magistralmente neste filme policial.

À medida que sua dependência aumenta daquela comunidade, eles começam a lhe exigir cada vez mais trabalho serviçal até lhe porem uma coleira com um chocalho, apensa uma roda de carroça que ela tinha que arrastar em Dogville. Não é assim que os jecas tratam uma vaca boa de leite?

Seja frágil numa sociedade qualquer, que ela te humilhará, te escravizará e te consumirá até a última gota de sangue... É o que lhe acontece inevitavelmente. Daí ser preciso um pouco de agressividade, que lhe faltava, durante a sua “via crucis” naquele mundo cão. Adotou a resignação estoicamente silente. Era a “Geni”, “que ia amiúde até com os velhinhos sem saúde...” E as crianças lhe tratavam como um cão vira-latas rabugento. “É impossível ser bom onde impera a maldade”, poetou Brecht.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant nos dizem: “Não há, sem dúvida, mitologia alguma que não tenha associado o cão – Anúbis, T’ian-k’uan, Cérbero, Xolotl, Garm etc. – à morte, aos infernos, ao mundo subterrâneo, aos impérios invisíveis regidos pelas divindades ctonianas ou selênicas”.

“A primeira função mítica do cão, universalmente atestada, é a de psicopompo, i.é., guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida. É também visto no folclore, provavelmente por influência do cristianismo, como animal maléfico”.

“Para o Islã, a imagem do cão, é aquilo que a criação comporta de mais vil. Apegar-se ao mundo é identificar-se a ele, devorador de cadáveres; o cão é o símbolo da avidez, da gula; a coexistência do cão e do anjo é impossível. O coração de um cão assemelha-se ao coração de seu amo”.

Dogville tem também o seu cão de guarda, chamado de Moisés. É o seu messias! O Redentor prometido por Deus para redimi-los, e à sociedade, estabelecendo uma nova ordem social de paz, de justiça e de liberdade. Que ironia mais mordaz! Ele rosna para nossa protagonista porque ela lhe rouba seu osso. Estava agindo conforme sua natureza de cão. E é poupado justamente por isso. Para que ele possa devorar os cadáveres dali? Sim, mas também, principalmente por ser o guardião deste inferno. Mas seus habitantes são piores do que os animais ditos inferiores. Onde estaria a sua humanidade? A escassez de bens e o medo dos mais fortes fazem os homens reduzirem–se a meros animais com inteligência superior.

Ali maldade é exercida calmamente. Quase ninguém grita com o outro neste filme. Grace – seria uma graça? -- parece uma madre Tereza de Calcutá, derramando sua bondade naquele deserto, onde a amargura é o seu oásis.

Cinema épico, literatura em nove capítulos e um prólogo, consegue levar o espectador a um grau de tensão insuportável, com um desfecho surpreendente e inevitável. Por quê não conseguimos sequer ter compaixão por aquelas crianças que são -- um argumento eugênico? -- trucidadas para que a humanidade melhore, diz-nos Grace? Adiantaria isso realmente de alguma coisa? Ela comanda uma verdadeira “limpeza étnica” naquela região das Montanhas Rochosas. “Humano, demasiado humano!” O que lhe fizeram e o que ela também fez com eles. Hobbesiano. Sádico. Darwinista. Nietzschiano. Freudiano... E por que não dizer brechtiano!

Humilhada, escravizada, estuprada por quase todos os homens, traída daquela forma por Tom, como se fosse uma mula, que outrora era consumida naquela mina abandonada. Uma descida aos inferos como diziam os antigos gregos. Logo ela que fora criada para ser arrogante...







DOGVILLE por Bernardo de Gregorio



O próprio título já nos revela o “mundo cão” onde a ação tem lugar: uma alegoria ao mundo material; um “samsara” feito de ilusão, onde não se pode ver as construções materiais, mas somente o elemento humano; a “cidade do diabo”. A partir desta primeira alegoria, revela-se a nós toda uma seqüência de metáforas que nos leva a uma relação direta entre Dogville e a história do Cristianismo e das idéias cristãs na alma humana.

Grace: a “Graça” de Deus, a iluminação que tem a capacidade de (re)unir a materialidade e o Espírito. Grace é uma espécie de reencarnação de Cristo, alguém que veio de um outro mundo com uma missão bem específica: a Salvação. Grace vem de Los Angeles, a “Cidade dos Anjos” e acaba perdida em algum canto empoeirado e esquecido das Montanhas Rochosas (entenda-se: “mundo material”) chamado Dogville (“cidade do diabo”). O cão da cidade se chama “Moses” (Moisés) e a recebe com bastante hostilidade e não quer de forma alguma “largar o osso”. Evidentemente, aos olhos judaicos, o aparecimento do Cristianismo não poderia ser bem acatado e os sacerdotes do templo, Saduceus atemporais, jamais vão “largar o osso” da religião, sempre tão rentável. Mas o animal tinha um motivo para não gostar dela, afinal ela havia roubado seu osso.

A cidade como um todo antes de aceitar a presença de Grace precisa fazer um debate e uma votação, após um período de teste, em que haverá serviço em troca de abrigo, vantagens em troca de bondade. Grace é levada a se esconder nas profundezas de uma mina de ouro abandonada, “descendo à mansão dos mortos”, para ressuscitar ao terceiro dia, tendo sido aceita na comunidade. Uma vez esta mina de ouro foi a fonte das riquezas da cidadezinha. Uma vez o ouro do Espírito foi trazido das profundezas da alma por sabedorias antigas. Mas esta mina foi abandonada e a cidade caiu no ostracismo. Mas a sabedoria da Antigüidade foi esquecida e a Humanidade caiu. Símbolo desta queda é a venda de maças ao “mundo exterior”, como uma das pouquíssimas fontes de renda do local. "E os que prenderam a Jesus o conduziram à casa do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos estavam reunidos. E Pedro o seguiu de longe, até ao pátio do sumo sacerdote e, entrando, assentou-se entre os criados, para ver o fim (Mt 26:57-58)".

Grace está fugindo e pede ajuda. Na verdade, ela não está de fato fugindo de ninguém e isto fica bem claro na cena final, mas mesmo assim ela se apresenta como fugitiva. Por quê? O Ser Humano precisa acolher em si a Graça Divina de livre e espontânea vontade: a Graça não pode ser imposta. Grace vem falar aos corações de uma população esquecida e pedir ajuda acaba sendo a melhor maneira de oferecer ajuda. E de fato Grace oferece sua ajuda a cada um dos habitantes desta cidadezinha: arquétipos humanos atemporais e, de fato, ao se deixar ser ajudada ela faz emergir o melhor de cada um. E, de fato, o Cristianismo acabou sendo utópico nas primeiras fraternidades secretas do Século I, quando ainda era secreto e perseguido. Alegorias abundam: Grace, numa cena plasticamente muito bela, traz a luz à casa do cego e traz vida para o jardim desgastado; traz esperança para os que vagavam sem destino e alegria para as crianças, quando Grace ensina o estoicismo aos filhos de Vera, mostrando-lhes como suportar a pobreza e as frustrações sem revoltas. "Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo (Is 35:5-6)".




“Numa das muitas cenas estranhas e incômodas de Dogville”, diz-nos Michel Laub, “duas personagens conversam a respeito de bonecos de louça guardados no interior de uma igreja. Os bonecos ‘descrevem melhor a cidade do que qualquer palavra’, diz a narrativa em off, que em seguida pergunta: ‘Eles são bonitos ou horríveis?’. Para Grace, pelo menos àquela altura da trama, a alternativa correta parece ser a primeira. Para Tom, também assim parece. Em todos os casos está-se diante da contraposição da inocência e da brutalidade, normalmente encarnada num grupo de pessoas ‘comuns’, numa coletividade anestesiada pela pasmaceira provinciana. A inocência lentamente perderá a batalha, não se tenha dúvida, e até os ‘justos’ saberão revelar a sua face daninha. A câmera aparentemente neutra que assiste ao progressivo desespero dos personagens, à exposição de suas entranhas a uma luz de meio tom, rara como o sol dos países nórdicos. Antes de jogá-la sobre o cego, o aleijado, o bêbado, a família que se odeia e a gente que ‘raspa copos velhos para que pareçam novos’, Dogville põe Tom e Grace diante dos bonecos e faz a sua pergunta decisiva. Ao final do filme, não haverá nada mais violento do que a lembrança dessas palavras e do seu tom à sua maneira premonitório. Porque a questão posta por toda a obra de Lars von Trier é esta: vamos olhar os bonecos de perto. Vamos testar Grace? Vamos ver como ela reage quando é examinada tão minuciosamente? Vamos ver se o conceito que ela tem de beleza permanece o mesmo depois que os habitantes de Dogville mostram do que são capazes?”. A questão é: até que ponto o Cristianismo é capaz de acreditar na Humanidade e em sua capacidade de redenção? Até que ponto Cristo consegue levar seu papel de humildade sem que dele se irrompam as labaredas da cólera dos deuses?




Então aos poucos Grace desperta também em cada habitante o seu lado mais sombrio... Cada um vai mostrando o que há de pior na natureza humana, igualmente arquétipos universais. Os sete pecados capitais: a vaidade (Liz Henson), o orgulho (Jack McKay), a ira (Vera), a luxúria (Homem de chapéu grande), a avareza (Ma Ginger) e a inveja (Chuck). Dentre todos, o mais miserável aos olhos do espectador deve ser Tom (Thomas Edson Jr.) que desde o começo se arvora como o defensor de Grace, o auto-designado porta-voz da pequena comunidade, e acaba se revelando seu maior algoz. Tom é um Pedro que é capaz de negar Jesus bem mais que três vezes. Tom bem que poderia se chamar Paul, aludindo a São Paulo, por ser o intelectual que cria o laboratório do mundo de acordo com sua teoria para que seu “grande livro” seja escrito. Mas Tom se chama Thomas, talvez alusão a São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, intelectual que forjou a religião de forma filosófica. Tom é a própria Igreja Cristã: emergida da obscuridade e passando a ser a religião oficial do Império Romano. Igreja que rapidamente englobou e sobrepujou o império que a abrigou a se imortalizou como uma Roma Universal (“catholiké”) onde o novo imperador é o Papa. E é precisamente este Papa o que mais aviltará a Graça Divina, aquele que mais se aproveitará da imagem do Cristo e em nome da Salvação prostituirá a Igreja e não moverá uma palha para salvá-la ou redimi-la. Diz Mozart Cabral “à medida que sua dependência aumenta daquela comunidade, eles começam a lhe exigir cada vez mais trabalho serviçal até lhe porem uma coleira com um chocalho, apenas uma roda de carroça que ela tinha que arrastar em Dogville. Não é assim que os jecas tratam uma vaca boa de leite?”.

A Graça Divina é então abusada, usurpada, prostituída, achincalhada, humilhada e (literalmente) avacalhada. Acima de Grace se colocam todas as demais personagens, o que inclui os trocadilhos dos nomes de Glória (o Poder Social, a “Fama”) e Vera (Verdade da Natureza Humana). Numa revelação final, num “apokalipse”, Grace é resgatada por seu pai. Este pai “todo-poderoso” é um gangster que invade a cidade com seus capangas. Este é Deus-Pai que vem impor pela força o que Cristo não conseguiu incutir pelo amor. “Nesse momento”, diz Alexandre Busko Valim, “ela e o pai dialogam sobre a soberbia: ela quer o perdão para os habitantes da cidade, como se dissesse ‘eles não sabem o que fazem’. Deus a acusa de soberbia por fazer a concessão de perdoar quem lhe é inferior e lhe impingiu tanto sofrimento. Grace diz que o pai é soberbo devido à sua vontade de vingança e pede poder, que lhe é concedido, para salvar Dogville. Entretanto, ao sair do carro, e ouvir Tom ‘o intelectual’ dizer que escreveria sobre o que se passou, que aquilo seria passível de análise, ela se desilude com a humanidade e purga Dogville com o aniquilamento. A esperança que Grace tinha na humanidade se perde quando os que realmente poderiam fazer algo, o titubeante Tom, não fazem e reafirmam sua hesitação e passividade; uma crítica ao papel dos intelectuais como operadores sociais, que reforça a opinião do diretor: a humanidade não tem salvação”.






A redenção, no entanto, a esperada “salvação” tem que vir então através de uma forma mais agressiva: a cólera dos deuses. A justiça divina é feita pela mão de Deus-Pai e seus anjos (ou Cavaleiros do Apocalipse), porém é feita de acordo com as instruções de Cristo que retorna como o “Leão de Judá”. A paciência de Jesus não é infinita e o “oferecer a outra face” se esgotou. Chega de brincadeiras no “mundo cão” mesquinho: agora o joio será separado do trigo e a materialidade será colocada de acordo com os ditames do Espírito, custe o que custar. E o custo é um enorme derramamento de sangue. Todos os arquétipos são destruídos, assim como a Natureza Humana (Vera) destruiu seus ideais (as estatuetas de louça). Os filhos de Vera caem um a um sob o olhar atento da mãe que lhes deu vida, vítimas do mesmo estratagema criado por ela própria. A Natureza Humana reencontra sua “verdade”. "Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força” (I Co 15:24).





A palavra apocalipse (termo primeiramente usado por F. Lücke em1832) significa, em grego, "Revelação". Um "apocalipse", na terminologia do Judaísmo e do Cristianismo, é a Revelação Divina de coisas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de "apocalipse" aos relatos escritos dessas revelações. "E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém" (Ap 1:5-6). “De maneira bastante moralista”, diz Alexandre Busko Valim, “o filme afirma repetidamente, e de forma agressiva, que todos somos responsáveis pelos nossos atos, e se temos problemas é porque não fazemos o suficiente para resolvê-los. Assim, nossa ignorância e ausência de um verdadeiro interesse pelo coletivo, ilustrado em várias passagens, é a alavanca que causa dor e sofrimento a nós mesmos”. Este “supra-sumo” ético do filme é, em última análise, o cerne do Cristianismo e também, diga-se, de muitas outras religiões: eis a Graça Divina em si. “Em Dogville, Lars von Trier apresenta uma percepção pessimista da humanidade”, continua Alexandre Busko Valim, “onde impera o cinismo, a hipocrisia, a chantagem, a vingança, a mentira e a divina Grace, sem nenhum desejo de conceder o perdão, desencadeia o ‘Dia do Juízo Final’.”