23 junho 2016

Androginia




"Inventemos um Imperialismo Andrógino reunindo as qualidades masculinas e femininas; um imperialismo alimentado de todas as sutilezas femininas e de todas as forças de estruração masculinas. Realizemos Apolo espiritualmente. Não uma fusão do cristianismo e do paganismo, mas uma evasão do cristianismo, uma simples e estrita transcendência do paganismo, uma reconstrução transcendental do espírito pagão" .



Fernando Pessoa






O termo "androginia" vem do grego "andros", homem, masculino e "gimnos", mulher, feminino e foi pela primeira vez utilizado, que se tenha notícia, por Platão no texto "O Banquete". Lá nos conta Platão, através do discurso de Aristóphanes, que o Ser Humano possuía originalmente três sexos e não dois como hoje em dia. Isso era assim, pois os deuses o criaram inspirando-se na Lua, criando os seres femininos, no Sol, criando os seres masculinos e na Terra, criando os seres andróginos. Temeroso de que o Ser Humano pudesse vir a destronar os deuses, Zeus ordenou a Hefésto e a Apolo para que descessem e cortassem os humanos na metade, para que assim eles passassem o resto da eternidade procurando suas metades perdidas e não se lembrassem de tomar o poder do universo das mãos dos deuses. Desta forma, foram criados homens e mulheres e aquelas mulheres que são oriundas de cortes de seres lunares, passam a vida a buscar a completude em outras mulheres, bem como os homens que são oriundos de cortes de seres solares, buscam completarem-se em outros homens. Os que foram um dia parte de um andrógino, buscam completarem-se no sexo oposto e, tal como a Terra, ao unirem-se conseguem criar uma nova vida.



Esta idéia de que os deuses têm medo de que um dia o Ser Humano possa lhes destronar é arquetípica e pode ser facilmente encontrada em todas as religiões. Na Bíblia, no Gênesis Yehovah teme que Adão e Eva venham a se tornarem deuses e os proíbe de comer do fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Porém, tentados por Lúcifer, Adão e Eva acabam lançando mão do fruto proibido e seus olhos se abriram e eles viram. “eis ai que está feito, Adão como um de nós, conhecedor do Bem e do Mal”. Para ter certeza de que o Ser Humano também não lançaria mão do fruto da Árvore da Vida e adquirisse a Vida Eterna, tornando-se definitivamente um deus, Yehovah expulsou então ambos do paraíso e colocou à sua porta um querubim com uma espada flamejante para impedir o seu retorno. Da mesma maneira e compartilhando do mesmo medo, a Mitologia Suméria nos mostra os Anunnaki: estes deuses, também têm muito medo de que o Ser Humano pudesse vir a se independizar e a tornar-se livre de seu jugo.

Uma grande exceção no que diz respeito a este medo arquetípico da divindade em relação a uma possível independização humana é a postura cristã. Cristo se apresenta como o Salvador (“Sóter”), como o segundo Adão que vem redimir a queda da Humanidade, trazendo o caminho para a Vida Eterna, sendo ele mesmo o fruto da Árvore da Vida, transformando a existência mortal em uma existência divina. Cristo é então o redentor, aquele que apresenta um Deus superior, feito de perdão e amor e não mais de ódio, vingança e egoísmo. Cristo aceita a todos no mundo do Pai (“Abbah”), cada qual como é, sem exigências, sem regras e funda uma religião universal (“Katholike Eklesia”) que se coloca acima das nações e dos povos, dos interesses políticos e econômicos.

Deste ponto de vista, superando-se então uma visão sexista embutida nas religiões patriarcais, entende-se a imagem de Deus (Imago Dei) como uma figura andrógina por excelência. Na tradição hebraica Deus tem um lado masculino, Yehovah e outro feminino: Sheknah. Evidentemente o lado masculino acabou sobrepujando o lado feminino, como reflexo da postura machista da própria religião judaica. Com reflexo da Imagem de Deus, os anjos são igualmente andróginos e por isso costuma-se dizer que os anjos não têm sexo. Na verdade os anjos têm os dois sexos! No Cristianismo o famoso “Deus Pai” seria originalmente “Deus Pai-Mãe”, um deus-deusa, superior a esta divisão sexista. No Budismo se há o Buddha, há também Cannon, seu lado feminino. Se há um deus do céu, há sempre uma deusa da Terra. Deus seria, portanto, andrógino. Mesmo na Biologia e na teoria da Evolução das Espécies admite-se que a origem de toda a vida provém de seres unicelulares andróginos que se reproduziam (e ainda se reproduzem) de forma assexuada.


Na Babilônia, o deus Lua Sinn era invocado como “Ó, Mãe-Útero, geradora de todas as coisas, Ó, Piedoso Pai que tomou sob seus cuidados o mundo todo”. Assim como T’ai Yuan, mulher sagrada de antigos mitos chineses, conjugava Yang (o princípio masculino) e Yin (o princípio feminino). No taoísmo, os princípios se unem para formar o Tao manifesto. No hinduísmo, Shiva e Shakti, os primeiros deuses de certas versões da cosmogênese hindu, formavam, no início, um só corpo, na manifestação chamada Ardhanarisha, o “Senhor Meio Mulher”. Entre os antigos persas, Meshia e Neshiane formavam um só indivíduo. “Ensinavam também que o homem era produto da Árvore da Vida e crescia em pares andróginos, até que estes pares foram separados devido a uma subsequente modificação da forma humana”. No Talmud e no Zohar a androginia também está explícita: O nome Adão foi compreendido como englobando macho e fêmea (Adam Kadmon). “A fêmea estava atada ao lado do macho e Deus mergulhou o macho em um profundo torpor e ele ficou estendido sobre o terreno do Templo. Então Deus separou-a dele e paramentou-a como uma noiva”. No Gênesis, aparece de forma mais implícita: “E Deus criou o homem à sua imagem, na Divina imagem Ele os criou; macho e fêmea os criou”. A mais respeitável obra judaica sobre a interpretação do Gênesis, o Midrash Rabbah, diz textualmente: “Quando o Sagrado, Abençoado seja Ele, criou o primeiro homem, Ele o criou andrógino”.


Seguindo-se o mesmo raciocínio, sabe-se que o Espírito Humano é igualmente andrógino. Todos nós temos em nós nossa porção masculina e nossa porção feminina. Carl Gustav Jung percebeu isso e denominou Ânima a porção feminina que os homens guardam no profundo de seu Inconsciente e Ânimus a porção masculina das mulheres, igualmente guardada no fundo do Inconsciente. O estudo que Jung fez sobre Alquimia revelou que esta antiga tradição já há muito compreendia a verdadeira natureza andrógina do Ser Humano e preconizava que a transmutação dos metais e a descoberta da Pedra Filosofal se fizesse necessariamente através de uma fase que se conhece como União dos Opostos (Mysterium Conjuctionis), onde o masculino se funde ao feminino, seja nos metais (o chumbo se une à prata, o estanho ao mercúrio, o ferro ao cobre), seja no Ser Humano (o Andrógino Alquímico) seja no Universo (Ouroborus). 


Na “Antropogênese”, terceiro volume de “A Doutrina Secreta”, Helena Blavatsky, após várias explanações e citações de antigos textos, diz que “o ponto em que insistimos no momento é que, seja qual for a origem atribuída ao homem, a sua evolução se processou na seguinte ordem: 1º ele foi sem sexo, como o são todas as formas primitivas; 2º depois, por uma transição natural, converteu-se em um ‘hermafrodita solitário’, um ser bissexual; e 3º deu-se finalmente a separação e ele se tornou o que hoje é”. Como em toda a grande obra exposta por Blavatsky, as considerações são sempre seguidas de comparações entre as diversas filosofias, religiões e ciências, mostrando que, ainda que de forma diferente, elas sempre têm a mesma base e, portanto, chegam à mesma conclusão. “A Ciência ensina que todas as formas primitivas, embora sem sexo, ‘possuem, contudo, a faculdade de passar pelo processo de uma multiplicação assexual’”, e indaga, “por que então seria excluído o homem dessa lei da Natureza”? Rudolf Steiner também percebeu esta androginia do Espírito Humano e afirmou que para mantermos um equilíbrio entre nossas porções masculina e feminina, alternamos nosso sexo físico ao longo das encarnações.

Sendo então o Espírito Humano andrógino por natureza e em sua essência e origem e a separação dos sexos apenas uma ilusão criada pela materialidade e pela existência do corpo físico, com o processo evolutivo da Humanidade, no qual mais e mais do Espírito vai-se aos poucos conseguindo trazer para a existência, seria (e é) inevitável que uma consciência desta androginia mais cedo ou mais tarde aparecesse. Pois é exatamente isso que vem acontecendo na Humanidade. Até há alguns anos a definição de gênero era uma definição simples e dualista: homens e mulheres compunham a espécie humana. Os papéis e as posturas sociais de cada gênero eram muitíssimo claras e definidas. Com o avançar do Século XX e, mais ainda, com o início do Século XXI, uma nova visão sobre os gêneros e a sexualidade humana aflorou e veio confrontar a instituição moral vigente na sociedade. Os gêneros humanos se multiplicaram, frutos de uma nova consciência sobre a própria sexualidade e frutos da tecnologia aplicada. As formas de relacionamento assumiram facetas plurais e fluidas. Como resultado desta mudança, emergiu o conceito da “pansexualidade”, múltipla e mutável e, em última análise, tão diversa quanto diversos são os indivíduos humanos.

Vivemos uma era pós penicilina, pós pílula, pós liberação da mulher, pós liberação gay, pós AIDS e pós Viagra. Todos os tabus possíveis de serem superados em relação ao sexo já o foram ou têm possibilidade de o serem. Isso quer dizer que cada qual pode, se quiser, viver plenamente sua própria sexualidade seja ela qual for e se não o faz, está apenas perdendo seu tempo. No entanto, vivemos igualmente uma época em que há uma superestimação sexual que nos é imposta pelos meios de comunicação e pelas campanhas de marketing. O Marketing usa atualmente o desejo pela realização sexual para impulsionar suas vendas e desta forma é a única força que atrapalha a plena realização da mesma. Se por um lado a monogamia heterossexual nos é apresentada em todos os filmes, em todas as novelas e em todas as campanhas publicitárias como sendo a forma “normal” e “correta” de relacionar-se, por outro lado, somos bombardeados com infinitos apelos sexuais que nos lembram das possibilidades inúmeras de realizações alternativas. Este parece ser o paradoxo da sexualidade deste início do Século XXI.

Mesmo se analisarmos os relacionamentos na questão de escolha de sexos, veremos que há uma variação enorme de condições sexuais humanas, tendo em vista que a homossexualidade tem conseguido um espaço crescente na luta por sua aceitação na sociedade. Há autores que chegam a afirmar que atualmente os gêneros humanos giram em torno do número de doze opções/condições sexuais possíveis. Sendo assim, teríamos os “tradicionais” gêneros masculino e feminino heterossexuais; os já usuais gêneros homossexuais masculinos e femininos (indivíduos que preferem o sexo com parceiros de seu mesmo sexo); os bissexuais masculinos e femininos (indivíduos que praticam sexo com ambos os sexos, indiferentemente), os transgêneros masculinos e femininos (pessoas com definições de gênero intermediárias entre os sexos, desde de transformistas e travestis, até transexuais que realizam a mudança completa de sexo); os inovadores FTMs (do Inglês: “female to male”, ou seja, mulheres que trocam seus sexos para se tornarem homens homossexuais) e MTFs (do Inglês “male to female”, ou seja, homens que trocam de sexo para se tornarem mulheres homossexuais), que apesar de transgêneros apresentam um comportamento totalmente diferente dos demais e, finalmente, os hermafroditas de ambos os sexos, que apresentam gônadas ambíguas ou híbridas (hermafroditas verdadeiros) e/ou genitália ambígua (pseudo-hermafroditas). Apesar dos sexos biológicos continuarem a ser somente dois (ou quase isto), cada uma destas categorias inclui indivíduos com características físicas e psíquicas totalmente diversas das dos que se incluem nas demais categorias e, mesmo assim, há diferenças por vezes grandes entre um indivíduo e outro da mesma categoria, constituindo propriamente gêneros diferentes e não apenas variações de gênero. Frente a uma descrição deste tipo, onde vão parar os gêneros humanos duais? Se a essas variáveis de relacionamento e gêneros, somarmos as variáveis em relação aos estilos de relacionamento, levando em consideração preferências tais como práticas sexuais não genitais, o sadomasoquismo, o fetichismo, o sexo tântrico, o onanismo, o voyeurismo/exibicionismo, o sexo virtual, o sexo cibernético e robótico e tantas outras possibilidades de relacionamento sexual inter-humano, chegaremos a uma variedade enorme de possibilidades de expressão sexual, criando uma situação que nos aproximará da pansexualidade. Pensando-se assim, podemos chegar a compreender que as expressões sexuais são tantas quantos são os indivíduos humanos estudos.

Porém, a verdadeira androginia está muito além da pansexualidade: a verdadeira androginia é muito mais espiritual do que física e consiste em descobrir dentro de cada um de nós nossas verdadeiras essências masculina e feminina de forma clara, precisa e profunda, a ponto de podermos realizarmos no em nosso Inconsciente o Casamento Sagrado (“Hierogamos”), e, ao recriarmos em nós o Andrógino Primordial, (Adam Kadmon), percebendo que sempre esteve conosco a “metade perdida”, possamos nos lembrar de que somos na verdade deuses. Finalmente assim, e somente assim, se dará a tão esperada libertação dos “deuses” Anunnaki e o Ser Humano poderá ser verdadeiramente Humano, provando do fruto da Árvore da Vida, como nos oferece o Salvador.

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