28 setembro 2010

Êxtase ou Enganação?


"Jogos eletrônicos não afetam as crianças.
Se o 'Pacman', por exemplo, tivesse afetado nossa geração,
hoje nós ficaríamos rodando loucamente em lugares escuros,
mastigando pílulas de energia e ouvindo músicas eletrônicas repetitivas".






Quem já não observou a alegria e o entusiasmo com que os jovens se entregam a longas "baladas" com muita dança e música eletrônica? Muitas vezes os "já não tão jovens" apresentam a mesma vitalidade e conseguem impressionantemente encarar noitadas que se prolongam até mesmo quando o sol já vai alto. E há casos em que a música e a dança se prolongam ininterruptamente por dias! Como há tanta energia para manter esta performance? Na verdade não há. É humanamente impossível que alguém agüente uma "balada" destas de forma freqüente. A única explicação é o uso de drogas "psicodélicas" para impulsionar artificialmente este "pique".
O termo "psicodélico" tem origem grega e quer dizer "o que faz brilhar a alma". Este termo foi criado e muitíssimo usado nos anos '60, com o aparecimento do LSD (ácido lisérgico) e a difusão do uso de outras drogas psicoativas como fonte de prazer. O milenar uso da Cannabis sativa (cânhamo indiano ou maconha) conheceu seu apogeu e se consagrou como droga psicodélica mais utilizada no mundo. A cocaína, super-extrato da Erythroxylon coca (coca) sintetizada pela Bayer no século XIX, também passou à moda, conhecendo um uso crescente. Igualmente o antiqüíssimo ópio, extraído da Papavere somnifera (papoula), levou à síntese de alcalóides muito mais potentes, dentre os quais o grande destaque é a heroína, ao lado de suas "primas": morfina, metadona e codeína. Desde esta época, novas drogas apareceram e muitas outras tiveram seu uso amplamente difundido. Outra substância muito popular foi introduzida na humanidade nos anos '80: a droga MDMA (metil-metilenodioxiamfetamina) criada em 1913 pela Merck e que acabou ficando conhecida como XTC (ecstasy ou êxtase). Finalmente, ao lado destas drogas, apareceu o uso psicodélico da quetamina (Ketalar® ou spacial K) e do GHB (gama-hidroxibutirato). Há uma grande diferença entre elas, mas uma coisa há em comum: sempre o que é prometido é o prazer artificialmente produzido através da manipulação bioquímica do cérebro.
O uso crônico de qualquer destas substâncias sabidamente pode provocar danos irreversíveis e graves ao organismo, em maior ou menor grau, bem como leva invariavelmente à dependência química, mais cedo ou mais tarde. Do ponto de vista da saúde pública as dependências químicas representam um flagelo médico-social importante em nossos dias que deixa milhares de jovens em idade produtiva ou em idade de formação à margem da sociedade, levando ao gasto de muito dinheiro para as tentativas de sua difícil recuperação. O quadro revela-se bastante triste e avassalador na sociedade ocidental contemporânea. Muitos esforços estão sendo feitos por parte das autoridades em todo o mundo para por fim ao tráfico e ao uso de drogas psicotrópicas, mas o uso de substâncias psicodélicas é cada vez maior, atingindo um número enorme de novos usuários, em idades cada vez mais precoces. A maconha é de longe a droga ilegal mais utilizada, porém seu uso não parece ser tão preocupante, por causar menos seqüelas em seu uso crônico e levar à dependência de forma mais moderada, existindo até quem defenda sua descriminalização e sua liberação total ou parcial. Nas classes sociais mais altas de nosso país as drogas ditas "pesadas" mais comumente usadas entre os jovens são a cocaína e o ecstasy, associadas ou não ao álcool e a demais drogas. Em classes sociais mais baixas o crack (extrato purificado de cocaína) e drogas solventes voláteis ("cola de sapateiro").
É evidente que a humanidade sempre fez uso de diversas substâncias psicoativas de diferentes espécies ao longo de toda sua existência de forma muitíssimo variável. A mais tradicional droga psicoativa que se conhece em todo o mundo é o álcool em todas as suas apresentações (destilados e fermentados). O uso do álcool está intimamente incorporado à sociedade ocidental, indo desde seu uso hedonístico eventual, até o uso religioso ritual (como o vinho na Missa, por exemplo), passando pelos horrores da dependência química e o flagelo do alcoolismo. Também parte inseparável de nossa cultura está o uso da cafeína (café, chá preto, refrigerantes, etc), substância psicoestimulante de uso legal e totalmente corriqueiro. O tabaco (Nicotiana tabacco), sob forma de cigarros, charutos ou fumo, é igualmente substância largamente difundida e que tem sido alvo de diversas ações governamentais de saúde pública devido aos altos índices de lesões irreversíveis e graves de múltipla ordem (respiratórias, cardiovasculares, cerebrais, cancerígenas, etc.). Mas nenhuma outra substância criou alterações sociais tão grandes em tão pouco tempo de uso em larga escala quanto o ecstasy. Toda uma cultura "neo-psicodélica" foi criada em torno desta droga. A transformação nos hábitos sociais e nos valores adotados pelos jovens de nossa sociedade é apenas comparável ao "boom" psicodélico dos anos '60, mesmo assim, guardando, ao meu ver, um impacto mais contundente sobre os rumos da juventude.

Desde o filme "Barbarella" de Roger Vadim em 1968, onde Jane Fonda aparece no esplendor de sua juventude usando uma pequena pílula que a leva imediatamente ao êxtase, que a idéia de uma "pílula do amor" habita o imaginário humano. Com o aparecimento da MDMA, seu efeito foi imediatamente associado à idéia de "pílula do amor" e foi batizada pelo nome XTC (em inglês lê-se "ecs-ti-ci"). O ecstasy promete alterações da sensopercepção, euforia prolongada, sociabilidade, extroversão e diversão por períodos de 8 horas, o que acaba seduzindo milhares de jovens alucinados, cujo slogan é "set U free" ("liberta você"). Porém, após algum tempo de super-estimulação pela droga, o estoque de serotonina (5-HT, um neurotransmissor cerebral) vai acabando e a biossíntese não atende a demanda. Chega-se ao estado de depressão e esgotamento, que ocorre entre 6 a 8 horas após a ingestão da droga e o que era para ser pura alegria e diversão se torna um pesadelo que pode durar alguns dias. Este efeito ficou conhecido como "blue monday" (segunda-feira depressiva) em virtude do freqüente uso de ecstasy durante os finais de semana. Igualmente, a longo prazo e com o uso freqüente, há a necessidade de uma dose progressivamente maior de MDMA para que se consiga os mesmos efeitos que inicialmente eram obtidos. Isto é chamado de "tolerância" e significa que o organismo reage à presença constante desta substância com diminuição do sistema neuronal conhecido como serotoninérgico, que pode ser químico e reversível ou pode ocorrer com destruição irreversível destes neurônios. A destruição em massa de neurônios serotoninérgicos leva a pessoa a um estado constante de depressão resistente ao uso de qualquer medicação conhecida.
A sensação de euforia e prazer criada artificialmente pelo ecstasy passa a ser ao usuário incomparável a qualquer sensação de euforia que ocorra naturalmente e muito rapidamente a palavra "diversão" passa a ser sinônimo de ecstasy para aqueles que, sem perceberem, já desenvolveram um nível considerável de dependência. Entretanto, um dos piores e mais perigosos efeitos colaterais causados pelo ecstasy é a súbita elevação da temperatura corpórea (o MDMA provoca hipertermia). Isto pode causar uma desidratação profunda e, em muitos casos, levar à morte. Os usuários costumam ingerir litros d'água, tentando resfriar e hidratar o corpo. Embora não muito prejudicial a curto prazo, o MDMA apresenta sérias injúrias a longo prazo. Uma delas é a diminuição do peso do usuário, uma vez que o MDMA inibe o apetite e provoca um grande desgaste calórico. Existem vários artigos que evidenciam, também, a relação entre o uso do MDMA e distúrbios cardio-vasculares.

Toda uma cultura foi criada em torno do ecstasy. Conhece-se a "e-music", que tanto pode ser sigla para eletronic music, quanto para ecstasy music. Ritmos específicos como o Trance (transe) e o Psy (psicodélico) foram criados para aumentar a sensação provocada pelo ecstasy. A decoração de ambientes onde o uso de psicodélicos é incentivado sempre traz um excesso de estímulos visuais (luzes psicodélicas e fluorescentes), sonoros (som eletrônico altíssimo e repetitivo) e táteis (paredes revestidas com diferentes texturas, ambientes com divãs, camas e muitas almofadas), propiciando as alterações sensoperceptivas. Apesar de que a sociabilidade esteja aumentada e haja uma tendência à sensualidade, a sexualidade propriamente dita encontra-se diminuída com o uso do ecstasy e há uma espécie de alienação e desligamento do mundo. O resultado final desta combinação, sob um ponto de vista sociológico, é o aparecimento de uma sub-cultura característica chamada de cultura "Clubber". Os clubbers de maneira geral acabam desenvolvendo uma dependência química múltipla e tendo uma visão psicodélica do mundo, não percebendo a realidade como ela é. O consumismo é característica marcante deste grupo social, bem como um culto exagerado à estética, paradoxalmente acompanhada de uma deterioração na capacidade crítica e criativa relacionada às artes, uma vez que devido ao efeito psicodélico, qualquer estímulo possa ser entendido como prazeroso. Ocorre também uma espécie de segregação e preconceito contra qualquer proposta que fuja à proposta psicodélica, só interessando aos clubbers aquilo que é clubber ou correlato.
A Cultura Clubber aparece então como o movimento de contra-cultura do século XXI. Gerado pela frustração do pós-tudo (pós-moderno, pós-hippie, pós-punk, pós-dark, pós-AIDS), o impulso clubber é uma proposta sem proposta, uma pura e simples alienação do tempo e do espaço, impulsionado pelos psicodélicos. A fuga da realidade, o hedonismo exacerbado de um pensamento cape diem, o desdém pela cultura, pelos valores sociais e pelo conhecimento, a simples auto-anestesia como solução e o repúdio a tudo e a todos que os possam fazer acordar deste transe perpétuo são suas marcas registradas. Incrivelmente, a Cultura Clubber englobou em si elementos desconexos herdados de movimentos de contra-cultura anteriores, tais como o misticismo e a espiritualização hippies, a estética do modernismo, do psicodelismo e do Sci-Fi e a depressão e o tédio dark, usando estes atributos no entanto, de forma esvaziada de seus significados culturais originais. Em última análise, o movimento Clubber tenta desesperadamente resgatar o glamour próprio das gerações anteriores, perdendo-se cada vez mais em um mundo fictício e ilusório de prazeres artificiais e plásticos, apartando-se de si mesmo e alienando-se da vida. Estas características de nosso jovens é utilíssima à sociedade de consumo capitalista que se delas se vale para manter sua manipulação e seu controle sobre uma população que deveria ser caracteristicamente a fonte de críticas sociais e a origem das mudanças e transformações do status quo. Alguém precisaria despertá-los desta hipnose coletiva urgentemente!

4 comentários:

ceac disse...

ARTIGO MUITO PROFUNDO E CONSCIENTE, PARABENS, POSSO DIVULGA-LO?
ME PARECE QUE ESSE PROCESSO TODO RESUME-SE EM UMA GRANDE AUTO-DESTRUIÇÃO.
TANIA

Bernardo de Gregorio disse...

SIM, pode publicá-lo sim!

Raquel disse...

adorei a matéria........ bj

Hainelde disse...

Gostei da aula profunda...