16 julho 2010

O Efeito “Dark”

Bernardo Lynch de Gregório
Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta


“If everybody knew what they wanted,
There'd be nothing, nothing left.
People would do what they wanted
And there'd be no government.

No government is an easy time.
No government is an exciting life.
We work for ourselves and we love for ourselves
And for government.

There'd be no suffering,
There'd be no government.
The people would see, and let them be
And we'd have no government”.

(Nicolette)








Se abrirmos o livro de Aristóteles, “Ética a Nicômaco” (livro i, 7, 1097b, 20), encontraremos que “a felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação”. Sobre estas idéias a sociedade ocidental civilizada criou algo como um mito da felicidade e, por causa dele, temos a noção infantilóide e falsa de que um dia chegará em que conseguiremos realizar todos os nossos desejos e que neste dia somente considerar-nos-emos felizes. Hoje imagina-se que a humanidade poderá efetivamente dar as mãos e caminhar unida e fraterna em direção ao bem estar comum; há a falsa idéia de que existe esperança e de que há a possibilidade da paz; criou-se a ficção de que o ser humano vai chegar a compreender que a preservação da natureza é mais importante do que ganhar dinheiro a qualquer custo. Por causa ainda deste mito, saímos pela vida a classificar as coisas entre boas ou más e os momentos entre felizes e infelizes. Tudo não me parece mais que ilusão, porque a vida é tão-somente a vida e realmente não se importa com a tal da felicidade aristotélica, nem com o que você gosta ou não gosta.


Ao observamos os animais e a natureza, notamos que não há, nem pode haver, uma distinção nítida entre o que pode ser a felicidade e o que consideramos infelicidade, há a vida e fatos que lhe são peculiares: nascimento e morte, prazer e dor, contentamento e ansiedade. A natureza assume orgulhosamente a autoria de tempestades e belas auroras, de terremotos e jardins idílicos, de vulcões ou furacões e a beleza delicada do vôo das libélulas ou do canto dos pássaros. Escreve Paul Veyne (“O Preço de ser Feliz”, artigo para “Libération”): “e a natureza se contenta com um pedaço de pão e água que nos oferecem em qualquer lugar”. Jean-Jacques Rousseau defendeu com unhas e dentes a idéia do naturismo e sistematicamente execrou qualquer tipo de progresso, cultura ou sociedade, pois fazem com que reine a desigualdade entre os homens. Falando sobre o homem natural (3o Discurso, 1ª parte), Rousseau conta-nos que “despojando esse ser (o homem), (...) considerando-o, numa palavra, tal como deve ter saído das mãos da Natureza, vejo um animal menos forte do que uns, menos ágil do que outros, mas, em conjunto, organizado de modo mais vantajoso do que todos os demais. Vejo-o fartando-se sob um carvalho, refrigerando-se no primeiro riacho, encontrando seu leito ao pé da mesma árvore que lhe forneceu o repasto e, assim, satisfazendo todas as suas necessidades. Mas os humanos se desligaram destas idéias naturais e instituíram que pode haver coisas boas ou ruins e, por isso, perseguem uma idéia absurda de felicidade”.


Mesmo quando se tenta localizar a tal felicidade no tempo, percebemos que a raça humana não parece ter sido feita para conhecê-la, nem à vida em seu sentido mais ingênuo e puro, como a dos animais ou dos homens naturais. Desafio a qualquer um a me mostrar um período sequer, registrado na História Ocidental, mesmo que um espaço de tempo limitado em um único dia, em que a humanidade tenha sido de fato feliz e tenha se considerado como tal. Não existe nem um único dia nos cinco mil anos que se tem noticia, que tenha havido boa vontade entre os humanos, boas ações ou momentos felizes para todo o conjunto de um povo! O que a História relata são apenas guerras, matanças, escravizações, abusos, invejas, traições, assassinatos, estupros, sadismos e maldades. Onde está a felicidade, absoluta e auto-suficiente? Será que realmente é a felicidade a finalidade da ação? Parece-me que mais próximo da realidade está Thomas Hobbes, quando afirma que “o que há é uma necessidade absurda de satisfação do amor próprio a qualquer preço e que, sem um controle rígido e totalitário, a humanidade está condenada a uma guerra de todos contra todos, porque o homem é o lobo do homem” (“Leviatã” e “De Cive”, respectivamente).


Com que então esta tal raça humana não passa de uma turba enfurecida e feroz, maligna e traiçoeira, a mais agressiva das raças que foi criada? Com que então a humanidade é por natureza vil e ignóbil, nada digna de nenhuma confiança e menos ainda de alguma esperança? Mas por que então, quando se fala em um ato humanitário, pensa-se em uma ação caridosa e bem intencionada? Dever-se-ia imediatamente supor que um ato humanitário seria uma série de torturas ou matanças, assim como a “Santa Inquisição” ou como os campos de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial; afinal, assim é a humanidade e assim são os atos humanitários. E se por acaso alguém ousar falar algo em contrário, tentar mostrar a estes humanos que é importante o respeito mútuo e a cooperação entre as pessoas e os povos, provavelmente este indivíduo será tachado de reacionário e será crucificado, envenenado com cicuta, morto a flechadas, decapitado, queimado vivo ou enforcado sumariamente; como já ocorreu diversas vezes no passado com gente que apenas tentou melhorar um pouco a índole agressiva da raça humana.


Pensando-se desta forma, se lembrarmos que estamos rodeados por esses seres extremamente agressivos e egoístas (os humanos), começaremos a entender que não devemos esperar nada além do mal, por parte deles. Sobreviver ao convívio com outros seres humanos, já parece mais do que o suficiente para que nos demos por contentes e a idéia da felicidade já está de nós muito distante e utópica, com este confronto com os fatos reais objetivos. Isto quer dizer que se ao cruzar com alguém na rua, esta pessoa passar simplesmente por mim e resistir à sua índole humana o bastante para não me assaltar, não me esfaquear pelas costas e não me fazer calar sob ameaças; já devo me dar por feliz. Da mesma forma, ao final de cada dia, se me der conta de que outras vinte e quatro horas se passaram e que eu, ente e representante da raça humana, consegui superar meus impulsos ferozes e não causei mal a ninguém (ou não causei muito mal a ninguém), também eu já me devo ter como uma boa pessoa, quase um santo. Não me parece necessário que ninguém tenha nem mesmo a vontade de fazer o bem, ou pensar na felicidade alheia: evitar o mal, viver e deixar viver, já seria muito mais do que se poderia esperar da humanidade. Já imaginaram o que aconteceria se por um único dia somente, todas as pessoas do mundo apenas vivessem suas vidas, sem se incomodarem em nada com as vidas alheias? Já imaginaram como a paz e a felicidade reinariam? Teríamos paz sobre a terra se as pessoas tomassem o cuidado de não causar o mal umas às outras. Realmente a idéia de querer o bem do outro e ter boas intenções é supérflua, ou ao menos poder-se-ia dizer que esperar algo dessa natureza seria pedir demais para seres tão perversos quanto os humanos.


Quando pudermos realmente compreender este raciocínio, o qual chamei de efeito “dark”, em homenagem aos movimentos de contra-cultura pessimistas e desesperançosos do final do século XX (“Dark”, “Punk”, “Gótico”, “Trash”, etc.); compreenderemos que a verdadeira felicidade está em conseguir sobreviver à natureza humana e à sua agressividade, representada por nossos próprios atos e pelos atos de nossos próximos e que, como verdadeiros milagres e manifestações de santidade, cada pequeno gesto afetivo e cordial representa o bem mais precioso que se pode obter. Um “bom dia”, um “muito obrigado”, um afago ou simples suportar-se em silêncio passam a ser o máximo da vitória humana sobre sua própria natureza e a gente passa a valorizá-los ao extremo e a observar como, contrariamente a todas as expectativas, a humanidade continua existindo e de uma maneira até que espantosamente boa, quando comparada à sua índole.


No entanto, é importante que nada se espere de ninguém, nem de nós mesmos, nem dos outros; porque qualquer mínima esperança será invariavelmente recompensada com a frustração e a tristeza. É importante que se saiba todo o tempo que se está lidando com humanos e o que isto realmente significa: traição, destruição e morte. É importante que se veja o futuro tão negro quanto foi o passado e que se abra mão de qualquer pequena ilusão de felicidade. Somente assim, tão pessimistas e desesperados assim, poderemos ter uma pequeníssima chance de descobrirmo-nos real e efetivamente felizes, aqui e agora, sem as sombras de utopia insana ou do mito da felicidade, que tanta tristeza nos traz.

2 comentários:

Elca disse...

Obrigada pelo texto. Muito interessante, ainda mais às vésperas de Tisha be Av, o dia mais dark do ano.

Ao terminar de ler, flagrei-me no dilema entre sentir-me feliz, por saber-me no caminho interno e individual de paz, ou sentir-me triste por entender que a humanidade não tem solução.

Vou ter que conviver com essa dualidade.

Cynthia (Astroterapia Junguiana) disse...

Seu blog é bacana. Sucesso. Cynthia