11 outubro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: os Celtas

Os Caminhos da Grande Mãe

(Segunda Parte: Os Celtas)
Por Bernardo de Gregório


“Terra...
Terra...
Por mais distante
O errante navegante,
Quem jamais te esqueceria...”


Caetano Veloso
“Terra”




Continuando em busca dos tortuosos caminhos da Grande Mãe, perceberemos que a instituição do Patriarcado não foi, na verdade, um golpe definitivo sobre o Matriarcado. Como poderia? A Mãe tem característica fundamental a paciência: o tempo está a seu favor. Da Terra todos nós viemos e à Terra haveremos de retornar, mais cedo ou mais tarde. A morte sempre foi e sempre continuará a ser o maior medo do Patriarca, pois dela, desta derradeira mãe, nem mesmo ele pode se ocultar. Foi exatamente por esta insegurança e pelo medo da morte, que todas as religiões matriarcais sempre foram associadas a cultos demoníacos e consideradas como a prática do Mal em si. Por detrás deste preconceito, como ocorre com todos os preconceitos, existe um grande medo personificado na imagem da “bruxa”. Mas quem são estas “bruxas”? Qual a origem destas religiões naturais? Qual a expressão delas nos dias de hoje? Estas questões nos remetem obrigatoriamente aos Celtas.

Sendo assim, em algum lugar esquecido, longe do Patriarcado, uma belíssima civilização floresceu por mais de 3 milênios. Uma civilização matriarcal: os Celtas. Lamentavelmente sabemos muito pouco sobre eles. Apesar de serem possuidores de uma cultura avançada, eles jamais desenvolveram uma escrita organizada, pois sempre acreditaram que as palavras mais importantes devem ser transmitidas de pessoa a pessoa, envoltas em magia e calor humano. A palavra escrita deturpa os sentimentos e distorce os pensamentos. A palavra escrita cristaliza os seres e as suas vontades, gerando paradigmas fixos, imutáveis. Como a maior característica da Mãe é a mutação, o Ciclo da Natureza, a palavra escrita é fruto de um Ser Humano degradado e corrompido. O som das palavras era sagrado, a escrita era maligna e profana, como era vista toda e qualquer artificialidade. Da mesma forma, os Celtas evitavam ao máximo a construção de prédios imponentes e monumentos, pois o que o Ser Humano poderia construir que se igualasse à beleza da Natureza? Todos os rituais, reuniões e cultos religiosos eram feitos sempre no seio da Natureza: numa suave floresta, num rio, ao redor de um lago de águas clamas, no cume de uma montanha. A idéia de um templo era para os Celtas considerada depravada.


Sobre os Celtas, Colin Spancer escreve: “Esses povos fascinantes têm sido injustamente empurrados para as margens da História, por acadêmicos obcecados pelo mundo clássico (entenda-se: patriarcais), mas merecem nossa atenção. Eles eram agricultores de grande habilidade e conhecimento, exportadores de cereais e alimentos em geral para o sul do mediterrêneo, produziam artesanato em metal, jóias de grande qualidade e eram técnicos brilhantes na fabricação de carruagens e armaduras”. As origens dos povos celtas são muito nebulosas. Imagina-se que eles, de uma forma ou de outra, sempre estiveram presentes na região centro-ocidental da Europa. Provavelmente seus mais remotos ancestrais provém das desconhecidíssimas civilizações megalíticas pré-históricas, que construíram enigmáticos monumentos de pedra bruta em várias localidades na Bretanha, como o famoso círculo de pedra conhecido como “stonehenge”. Os mitos celtas referem-se constantemente às origens deste povo como estando em terras muito distantes do continente europeu. Terras mágicas e paradisíacas que foram por seus ancestrais há muito abandonadas. Terras que ficariam do outro lado do grande oceano e que eram miticamente conhecidas como Hys-Brasil. A relação destes mitos celtas com os mitos de Atlântida é direta e fácil de ser reconhecida. A relação deste nome antigo com o nome de nosso país, também o é. Teriam sido os construtores dos círculos de pedra antepassados atlantes? Esta pergunta é impossível de ser respondida. Destas épocas nos chegam hoje mitos sobre heróis celtas, como os de Conan, o Bárbaro, que acabou ficando muito conhecido do público através de quadrinhos e filmes.

Destas épocas remotas o que ficou conhecido como o Império Celta se ergueu e chegou a se estender desde a península Ibérica até a Turquia, concentrando-se principalmente em regiões que hoje são a Grã Bretanha (Inglaterra, Gales e Escócia), a Pequena Bretanha (Irlanda do Norte e Eire), França e nordeste da Espanha. Grandes influências celtas também podem ser vistas no norte da Itália e na região da Suíça. A principal cidade fundada pelos Celtas que ainda existe em nosso dias é Paris. Na “Île de la Cite”, é possível que se vejam as ruínas desta Paris celta, soterrada e esquecida por milênios nos subterrâneos da Catedral de Notre Dame de Paris e reencontrada há algumas décadas. Com o avanço do Império Romano (e de seu Patriarcado), os Celtas viram-se obrigados a recuar, porém sem antes enfrentarem bravamente os exércitos inimigos, criando para os Romanos grandes dificuldades para seus sonhos expansionistas. Destas épocas nos vêm os famosos mitos e lendas sobre o herói celta chamado Asterix, que, muito mais tarde, seria amplamente retratado (e banalizado até) em histórias em quadrinhos, desenhos animados e até mesmo filmes
. Lendas à parte, a máquina de guerra romana acabou por derrotar os Celtas. Uma derrota apenas aprente, é certo, pois, seguindo os ensinamentos da Natureza, os celtas se ocultaram e passaram a viver sua religião e costumes de forma secreta.
 
Mil anos se passaram sob o domínio romano e, como sempre nos ensina a Grande Mãe, os tempos de declínio também chegariam para os Romanos. Com as crises econômicas e políticas do Império Romano e sua progressiva retração, os Celtas renasceram como as árvores renascem na primavera. O reaparecimento do mundo Celta é um dos fenômenos mais intrigantes da História, no sentido de demonstrar claramente que a aparente derrota do Matriarcado e seu eclipsamento por mil anos, estava longe de representar seu fim. No entanto, este reflorescimento da cultura celta, não iria durar muito tempo. Ao longe, densas nuvens negras se formavam no horizonte, com a expansão do Cristianismo e o aumento do poder da Igreja e nova era de escuridão estaria por vir. Sobre isso Colin Spencer escreve: “os Celtas ocupavam aquelas terras em que a nova religião cristã se expandiria, à medida que o Império Romano encolhia e concentrava seu poder em Bizâncio. As crenças celtas, sua estrutura social e costumes sexuais seriam aparentemente deixados de lado no primeiro milênio depois de Cristo, mas em realidade foram apenas sepultados pelo Cristianismo”. Este confronto entre a Religião Antiga (como é chamado o Druidismo, a religião celta) e o Novo Deus (como era conhecido o Deus cristão), é maravilhosamente recriado por Marion Zimmer-Bradley em seu romance “As Brumas de Avalon”, agora também adaptado para o cinema, onde todo o arcabouço cultural da época é relatado com incrível precisão histórica e o mito do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda é revisto sob um prisma matriarcal. Figuras magnânimas de sacerdotisas nos são pela autora trazida com uma realidade vibrante e delicada: Viviane (A Senhora do Lago), Morgana, Morgause e Niniane. Este confronto tomou lugar por toda a baixa Idade Média e, aos poucos, o que um dia fora uma realidade, passava lentamente para o mundo dos sonhos. Avalon passou a ser uma ilha mítica, As sacerdotisas passaram a ser fadas e os druidas, magos fantásticos. A magia deixou de ser a ritualização dos Ciclos da Mãe, para ser vista como quimera, fantasia.

Relata Colin Spencer: “Muito do que sabemos sobre os Celtas veio do período de transição entre o paganismo e o cristianismo, senso assim muito confuso”. É comum que se diga sobre os Celtas, continua Colin Spencer, que “era uma sociedade dominada pelos homens: a mulher era submetida ao pai antes do casamento e ao marido, depois de casada; e aos filhos, ou a seu pai, ou a seus sobrinhos, quando o casamento terminava (...). O casamento era arranjado entre as famílias, constituindo uma aliança entre elas, como uma maneira de controlar a propriedade. A virgindade era considerada essencial para uma mulher que fosse casar e esperava-se que ela fosse fiel”. Comparando-se estas informações claramente patriarcais (os 3 tabus originais da Pátria estão presentes
) com a mitologia celta, a religião druída e a História dos povos celtas, uma grande incoerência se faz gritante. Como é possível que esta sociedade tipicamente patriarcal tenha se transformado radicalmente de uma hora para outra? A resposta está na influência romana e cristã sobre os Celtas. Eles estavam cada vez mais afastados de seus costumes tradicionais e do Matriarcado que lhes serviu de base por dois milênios. A cultura celta ruía desde seu interior. Novamente, este conflito está personalizado nas figuras de Morgana da Cornualha e do Rei Arthur, muitíssimo bem exploradas por Marion Zimmer-Bradley.

No final da Idade Média e início do Renascimento, em uma cartada final contra a religião matriarcal celta, a Igreja instituiu o Santo Ofício, a Inquisição. Além da perseguição aos judeus e a tdos os hereges, todas as pessoas, homens e mulheres, que ainda cultuavam a Grande Mãe foram também perseguidas, torturadas e mortas pela Igreja, como bem sabemos. A “bruxa” nada mais foi do que a sacerdotisa druida. A sexualidade feminina, bem como a homossexualidade foram consideradas pecados mortais e crimes passíveis de punição pela morte no fogo. Ao menor indício de “bruxaria”, uma pessoa poderia ser sumariamente presa e processada pelo Santo Ofício. Se o Cristianismo representava o Bem (beneficium), a “bruxaria”, a Antiga Religião, representaria necessariamente o Mal (maleficium). Todos os conceitos de “maleficium” podem ser amplamente ilustrados (sob um prisma patriarcal evidentemente) pela leitura da “bíblia” dos inquisidores, o “Malleus Maleficarum”
. Apesar das atrocidades mostradas por este livro, muito se pode reconhecer da religião celta e da figura da sacerdotisa.

Por mais mil anos a Grande mãe dormiria. O Patriarcado imperaria no mundo, passando das mãos romanas às da Igreja e destas às do cientificismo cético. No entanto, vivemos hoje mais uma primavera do Matriarcado. Longe das amarras repressoras do patriarca, já debilitado e ridicularizado em sua postura ultramachista, as religiões naturais encontram espaço para florescerem novamente: Druidismo tradicional e Wicca (Magia Moderna) estão sendo amplamente divulgadas em todo o mundo. E mais uma vez, as datas sagradas da mãe são reverenciadas nas florestas e lagos e nos eternos círculos de pedra.
Desde a Pré-Históra até os dias de hoje, portanto, os druídas mantiveram-se dentro de uma visão matriarcal estrita e enfrentaram épocas de declínio e perseguição com a sabedoria a eles ensinada pela Grande Mãe: a paciência, a perseverança e a manutenção das tradições.

Colin Spencer escreve: “Acredita-se que os deuses do panteão celta eram inicialmente espíritos associados às florestas, rios e lagos e não possuíam forma antropomórfica visível”. Isto que dizer que os seres conhecidos como “devas” ou “elementais” estão na origem da religião druida: fadas, gnomos, elfos, salamandras, sílfides, ondinas e sereias. Para quem quiser uma ilustração mais atual sobre estes seres, aconselho o primoroso livro (ou o filme) de J. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis”.
Centralizando todos estes seres, como Senhora absoluta do Universo, a própria Grande Mãe: a Natureza. Conhecida entre os Celtas como Ceridwen, a Grande Mãe se fazia ver, como não poderia ser de outro modo, nos ciclos das estações do ano, nas fases da Lua, na magia natural e no ciclo menstrual. A imagem de Ceridwen era a de uma grande porca que amamentava seus leitõezinhos em suas in’;umeras tetas, tal qual a Natureza supre seus filhos de tudo o que necessitam. Ceridwen era a Deusa-Porca, a Deusa-Mãe, a Deusa da natureza, a Deusa de quatro faces. Ceridwen tomava forma encarnada na figura da sacerdotisa. Ceridwen possuía sempre a seu lado seu consorte: o chamado Deus Chifrudo, ou o Cornípherus, seu filho e seu amante, essência masculina dedicada à Mãe. Representando fisicamente o Deus Chifrudo, havia os magos e suas irmandades masculinas de menstréia e harpistas, sob as ordens de seu representante máximo, o Merlin. O equilíbrio da Natureza se fazia entender pelo equilíbrio entre o predador e a presa, entre a loba e a rena, entre Ceridwen e o Cornípherus, entre o masculino e o feminino. Todo o mundo druida estava baseado numa visão feminina, voltada para o Inconsciente: a magia.

Magia é um procedimento natural humano, ancestral e divino, baseado na anulação do ego e na exaltação das forças do Inconsciente Coletivo. Intuição, presságios, sonhos, visões e rituais simples são suas marcas. Todo e qualquer procedimento mágico exige por parte do mago um longo treino para acessar essas forças dormentes no fundo da psique humana. Um profundo mergulho dentro deste mundo fantástico é sempre necessário. Deixar de lado conhecimentos racionais (a Ciência e a Filosofia), imprescindível. A Mãe nos envia todas as informações necessárias a seu tempo e faz com que todos os caminhos se abram ou se fechem quando o momento é chegado. A Mãe é feita de Ciclos, que devem ser respeitados e usados a favor do mago. A Mãe é composta por quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) que devem ser harmonizados no interior da alma do mago, para que ele se torne o quinto elemento deste conjunto, donde a estrela de cinco pontas (o pentagrama) como símbolo da magia. O respeito à Natureza e a todos seres que delas fazem parte é uma marca do verdadeiro mago. A abnegação e a devoção à Grande Mãe, sua vida. Evidentemente as maiores datas a serem comemoradas continuam sendo as mesmas há centenas de milênios: o equinócio de primavera, o solstício de verão, o equinócio de outono, o solstício de inverno e, acima de todas, a Noite Sagrada (Hollow Eve) do sacrifício do grão à Mãe
.

Numa visão assim, a sexualidade é vista como expressão direta da Natureza em nós, sem nenhum tipo de freio ou moralismo. A sexualidade aparece como a Grande Mãe faz com que ela venha para cada um de nós: a seu tempo e de formas infinitamente variáveis. A magia máxima é a geração de uma nova vida, mas a sexualidade jamais se prenderia a isso. Muitos rituais sexuais são comuns no Druidismo, como símbolo da fecundação, como símbolo de submissão à Deusa e como harmonização das forças naturais. A supremacia feminina, como símbolo da Mãe, é totalmente aceita e profundamente cultuada. O masculino, livre da ditadura do Patriarca e de suas inseguranças, entrega-se docemente ao serviço da Deusa e entende a relação entre dois homens como profunda confirmação da amizade natural entre os guerreiros.
Evidentemente estes costumes sexuais libertários muito chocaram tanto os romanos, quanto os cristãos, que passaram a repudiar a Antiga Religião como paganismo e culto a Satã. Diodoro Sículo (escritor romano) nos deu um quadro mais amplo: “os homens (celtas) são muito atraídos por seu próprio sexo; eles se deitam sobre peles de animais e se divertem com um amante de cada lado. O incrível é que não têm o menor cuidado por sua dignidade pessoal ou auto-respeito: oferecem-se aos outros homens sem nenhuma cerimônia. Além do mais, isso não é considerado desprezível ou uma inferioridade; ao contrário, se um deles é rejeitado por outro a quem se ofereceu, fica ofendido”. Outro ponto que muito desgostava romanos e eclesiásticos sempre foi a nudez. A nudez, do ponto de vista celta, é a forma mais natural possível de alguém se apresentar e, portanto, era vista como uma forma nobre de cultuar a Deusa. A grande maioria dos rituais exigia a nudez de seus participantes e até mesmo na guerra, os guerreiros se apresentavam nus. Escreveu sobre os guerreiros celtas Políbio (historiador grego): “eles tomaram posição, em frente a todo o exército, nus, a não ser pelas armas (...). Os movimentos dos guerreiros nus à frente das fileiras era um espetáculo terrível. Eram todos homens de um físico esplêndido e no começo da vida e os integrantes das companhias estavam ricamente adornados com colares e braceletes de ouro. A simples visão deles era suficiente para causar medo entre os romanos”. Colin Spencer comenta esta passagem: “considerando-se o desgosto romano pela nudez (...) pode-se especular se esse desgosto não se baseava em tais experiências, (isto é) a nudez era para eles (os romanos) equivalente a barbarismo”.

Finalizando, encontramos a religião druida como marco fundamental do Matriarcado neste planeta. Evoluindo ininterruptamente desde a Pré-História até os dias de hoje, a Antiga Religião é marca indelével da Grande Mãe e de sues caminhos tortuosos. Persistente, paciente, cíclica e doce, a Mãe aguarda o momento ideal para manifestar-se. Suas tradições são tão antigas quanto o mundo e nos mostram um caminho de harmonia e equilíbrio entre todas as forças que existem em nós. A visão mágica é poética e bela nos centra em nosso Inconsciente profundo. Não existem pecados, existem ciclos. Não existe moral, existe a vontade sagrada da Mãe. A mulher e o homem são livres para expressar suas verdadeiras essências, encontrando entre o masculino e o feminino uma profunda complementação e reconhecendo em si mesmos uma origem andrógina e completa, tal qual a árvore é andrógina e completa em si mesmo. Estes são os maiores ensinamentos que podemos receber dos Celtas, ainda que, ao longo da História, eles mesmo, por muitas vezes, tenham se perdido dos caminhos da Grande Mãe.






Um comentário:

Anônimo disse...

Bernardo a leitura desta postagem veio em um momento de grande unificação interna, sou muito agradecida.
tania