Palestra sobre o filme "Matrix", produção cinematográfica americana e australiana de 1999,
dos gêneros ação e ficção científica, dirigido pelos irmãos Wachowski e
protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne.
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01 junho 2016
08 março 2016
01 novembro 2015
O Dia de Todos os Santos
Os MESTRES ASCENCIONADOS são seres que alcançaram uma evolução
espiritual tal que chegaram a um nível de consciência superior,
equivalente à Décima Hierarquia Angélica: os Espíritos da Liberdade. No
entanto, não podem permanecer nesta esfera elevada, porque,
impulsionados pela compaixão que marca todo ser espiritual evoluído, se
veem obrigados a retornar ao mundo, para colaborar com a evolução dos
demais humanos.
O termo surgiu no século XIX, em 1877, nas obras da esoterista
russa, Helena Blavatsky, referindo-se ao que também se conhece por
"Mahatmas", "Espíritos de Luz" ou "Mestres de Sabedoria". São chamados
de mestres porque orientam espiritualmente os seres que estão em busca
de evolução espiritual na Terra; e ascencionados porque já encarnaram e evoluíram hierarquicamente, afastando-se das limitações do plano terreno
em direção à Luz, à ascensão espiritual. A ascensão diz respeito à
busca de um Amor incondicional pela vida e o trabalho dos mestres é o de
despertar a consciência crística, o Cristo na consciência de cada um.
O
trabalho dos mestres diz respeito ainda ao auxílio na libertação da
Roda das Samsaras ou do ciclo de reencarnações, no qual a humanidade
estaria aprisionada. Os mestres orientam a humanidade na busca de
evolução espiritual e de conscientização da necessidade dessa
transcendência.
Estes Mestres Ascencionados também são conhecidos comumente pelo nome de "santos". Hoje é o dia deles.
09 julho 2015
Entrevista com Bernardo de Gregorio
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O que o surgimento da Filosofia representou para
a vida das antigas civilizações?
A grande "virada"
que ocorreu com o surgimento da Filosofia foi o aparecimento do pensamento
laico. Até então, o pensar humano sempre esteve atrelado à religião e, por ser
sagrado, era fixo e havia muito pouco espaço para o debate. A partir da
laicização do pensar, a discussão passa a ser o centro da atividade intelectual
e futuramente iria dar origem à noção de política, com o debate aberto sobre as
leis e os costumes e a reflexão do pensar sobre si mesmo, na Filosofia
propriamente dita.
Com o passar do tempo, a racionalidade grega foi superando a noção de
religião e tornando-se de sacra em laica. Pela primeira vez na História
apareceu na Grécia Antiga, na região da Jônia (atual Turquia) um pensamento
laico puramente lógico e desvinculado totalmente da ideia do sagrado. Estes
primeiros filósofos jônicos (pré-socráticos) nada mais fizeram do que transpor ipsis literi a Mitologia Grega em
Filosofia. Mais tarde Aristóteles de Atenas explicaria a gênese do pensamento
filosófico da mesma maneira como se explica a gênese do pensamento mitológico:
"é através do espanto que os homens começam a filosofar"(1). Os filósofos sempre tentaram explicar a
Natureza e seus fenômenos, caindo inevitavelmente em contradição com as ideias
de seus companheiros de profissão. A Filosofia expandiu e acabou englobando
áreas para muito além da descrição da natureza e seus fenômenos, incluindo em
si o estudo do ser humano e todos os fenômenos relacionados a ele e ao seu
pensamento. No entanto, as contradições entre os filósofos continuariam a
afligir o espírito humano por séculos, quer em relação aos métodos, quer em
relação às teorias, quer em relação aos fenômenos. A Filosofia incumbiu-se
finalmente de "assassinar" os deuses de onde havia nascido, afirmando
que os deuses não passavam de alegorias místicas para as forças da natureza que
requeriam uma explicação lógica e jamais religiosa. Se os deuses existissem,
eles seriam, tal qual os mortais, constituídos por átomos e submetidos às
implacáveis e imutáveis leis naturais.
·
Você acredita que o surgimento da Filosofia
rompeu com o mito? Ou você acha que ela representou uma continuidade?
São possíveis ambas as
afirmações, dependendo da maneira como se aborda o fato. Há quem considere o
povo grego como que um gênio que realizou o milagre do nascimento da Razão. Há
quem pense, no entanto, que não há mais que um eterno retomar, sempre
fundamentado na origem ocidental. Há quem considere que deste gênio, simplista,
harmônico e luminoso, emergiu a Filosofia, como culminância de um povo. Há, no entanto,
quem imagine que os gregos sempre estiveram imersos em guerras contínuas e em
desespero, “dilaceramento trágico e desmedido, de tal forma que a Filosofia
exprime a obscuridade do gênio helênico” (1).
O que ocorreu é que a
Mitologia deu origem à Filosofia, cambiando o sacro pelo laico, o que,
evidentemente, alterou radicalmente o processo do pensar. Sobre o tema,
introduz-nos Pessanha: “durante muito tempo o problema do começo histórico da
Filosofia e da Ciência Teórica foi colocado em termos de relação Oriente versus Grécia. Desde a própria
antiguidade, confrontaram-se duas linhas de interpretação: a dos orientalistas,
que reivindicaram para as antigas civilizações orientais a criação de uma
sabedoria que os gregos teriam depois apenas herdado e desenvolvido; e a dos
ocidentalistas, que viam na Grécia o berço da Filosofia e da Ciência Teórica (2).
Quando Hesíodo descreve os persas, há a descrição da cultura oriental com fatos
tais como o estudo dos astros pelos babilônicos, o da matemática pelos
egípcios, o dos céus pelos caldeus ou a criação da moeda pelos fenícios. Platão
e Aristóteles insistem que tais ideias foram apropriadas pelos gregos, porém
isto não quer necessariamente dizer que a Filosofia é oriental. O primeiro
motivo é a ideia de que o Oriente é um lugar mítico e especial, por ter sido lá
que o ser humano apareceu, como criação direta dos deuses, na metáfora da idade
do ouro. O segundo, é que o pensamento filosófico é perturbador por questionar
os deuses e as instituições; assim, uma ideia de tradição, funciona como uma
espécie de salvaguarda contra possíveis ataques. As cosmogonias orientais são
então, retomadas pelas cosmologias gregas.
·
Quais os motivos da mitologia causar tamanho
interesse hoje, como vemos em livros, filmes e séries de TV?
O ser humano sempre necessitou
de um ambiente projetivo onde pudesse ver-se e antes de tudo reconhecer-se ao
observar fora si os arquétipos atemporais de sua mente em funcionamento. Este
espelho sempre foi-nos apresentado pelas artes. Na Pré-História reuníamo-nos em
torno do fogo em contávamos histórias com encenações dramáticas e desenhos nas
paredes das cavernas. Na Grécia Antiga os aedos, menestréis ambulantes,
cantavam os feitos dos heróis e dos deuses. Na Idade Média, os bardos cantavam
os feitos dos reis e os padres contavam sobre a vida dos santos. A Literatura
ocupou-se da tarefa de manter vivas todas estas histórias, desde contos de
fadas seculares para as crianças, até deuses e heróis para jovens. O cinema e a
TV hoje em dia são responsáveis por levar ao grande público estes temas eternos
e de despertar a curiosidade sobre a Mitologia. No entanto, noto quer muitas
vezes há uma deturpação muito grande feita em nome de uma suposta maior
aceitação das plateias e, particularmente, entendo esta deturpação como um
grande desserviço: uma pessoa vai ao cinema e espera conhecer, ainda que
superficialmente, a história de Perseu e na verdade recebe uma narrativa
completamente modificada, onde apenas o nome "Perseu" foi mentido.
Claro que desde sempre "quem conta um conto aumenta um ponto" e que
novas versões devem ter espaço para modernizarem o mito; mas deve haver um
certo respeito para com o centro do mito e suas características básicas e noto
que muitas vezes este respeito não existe. No teatro, eu mesmo tive a
oportunidade de participar de várias adaptações de mitos que receberam
roupagens contemporâneas e novos ressignificações, mas a essência do tema
central e os valores psíquicos intrínsecos foram preservados.
·
Ainda é possível perceber algum legado da
mitologia em nossos hábitos?
No Renascimento, Galileu
Galilei foi o primeiro a levantar a necessidade de que se provassem as teorias
filosóficas através da experimentação. A Filosofia então passaria lentamente a
tornar-se obsoleta e cederia seu lugar à Ciência. René Descartes rompe com o
passado e inaugura sua visão de mundo em que as tradições filosóficas já não
mais queriam dizer nada. O Ser Humano passou a procurar desesperadamente provas
concretas e experienciáveis (reprodutíveis) de que suas teorias são de fato.
Nasceu o Método Científico e com ele um importante passo em direção à
laicização do pensamento foi dado. Atualmente a Ciência é bastante confiável e
goza de largo crédito junto ao público especializado e leigo, ao passo que as
explicações filosóficas estão, digamos, um tanto "fora de moda". Quando
se diz hoje em dia que algo é "científico", a maior parte das pessoas
entende que se trata da mais pura e irrefutável verdade; quando, de fato, deveria entender que se trata
de um resultado obtido através do Método Científico, ou seja: da tentativa e do
erro e da experimentação. Se já existem "narizes torcidos" para as ideias
filosóficas quando confrontadas às ideias científicas, as ideias mitológicas
como explicações para os fenômenos naturais estão totalmente fora de cogitação
hoje em dia e beiram o absurdo. A laicização do pensamento é tal que há quem
diga que os mitos formam um conjunto que deveria receber o nome de
"MINTOlogia".
Existe então uma espécie de
preconceito generalizado contra os pensamentos não-científicos, especialmente
contra os métodos filosóficos especulativos e o pensamento mítico. Porém, o
estudo da Mitologia não pode ser visto com um interesse meramente histórico.
Além de ser a chave para o entendimento de grande parte da produção artística
de todos os séculos, uma vez que pintores, escritores, dramaturgos e
compositores sempre basearam suas obras em mitos, especialmente gregos; a
Mitologia Grega é a também a base do pensamento ocidental e guarda em si a
chave para o entendimento de nosso mundo, de nossa mente analítica e de nossa
psicologia. Ao se comparar a Mitologia Grega com as demais mitologias
(africanas, indígenas, pré-colombianas, orientais, etc) descobre-se que há entre todas elas um denominador comum.
Algumas vezes estaremos frente aos exatos mesmos deuses, apenas com nomes
diferentes, sem que exista nenhuma relação histórica ou geográfica entre eles.
Este material comum a todas as mitologias foi descoberto pelo psiquiatra suíço
Carl Gustav Jung e foi por ele denominado de "Inconsciente Coletivo".
O estudo deste material revela-nos a mente humana e seus meandros
multifacetados. Os mitos são atemporais e eternos e estão presentes na vida de
cada ser humano, não importa em que tempo ou em que local.
O estudo da Mitologia torna-se então essencial a todo aquele que pretende entender profundamente o ser humano e sua maneira de ver o mundo. Os deuses tornam-se forças primordiais da natureza psíquica humana e readquirem vida e poder. Nota-se a sua utilização no cotidiano em cada pequeno detalhe. A existência real dos deuses mitológicos antigos em todas as suas roupagens étnicas reafirma em última instância a ideia de divindade em si: através dos deuses encontra-se a "ideia de Deus" e, através dela, Deus em toda sua misteriosa ambiguidade. A Mitologia transfere o conhecimento humano de um plano meramente materialista (científico) para um plano psíquico vivo (Inconsciente Coletivo) e deste, para um derradeiro plano espiritual. O desafio está em realizar a verdadeira "religião": a "religação" do mundo externo ao mundo interno, do concreto ao abstrato, do material ao espiritual, do mortal ao imortal e eterno.
·
Qual a sua sugestão de leitura para quem se
interessa por esse temática?
Em qualquer livraria
encontram-se facilmente inúmeros livros sobre mitologias de todas as origens;
no entanto, nem sempre se pode confiar em qualquer livro que, apesar de bem
intencionados, por vezes apresentam discrepâncias importantes ou trazem
discussões superficiais ou nenhuma discussão. Num âmbito nacional, eu entendo
que Junito de Souza Brandão seja uma referência bastante segura e ampla sobre a
Mitologia Grega e seus campos de debate e recomendo a leitura de sua coleção em
três volumes "Mitologia Grega" (3). Deste mesmo autor, costuma ser
bastante útil o "Dicionário Mítico-Etimológico Da Mitologia Grega" (4).
Na Internet igualmente há muitos sites sobre o assunto e que, igualmente, nem
sempre são confiáveis. Um extremamente bem feito e que está cima de qualquer
suspeita é o do Prof. Wilson A. Ribeiro, chamado "greciantiga.org" (5).
Referências:
1. Vernant,
J.P.; Mito e Pensamento entre os
Gregos”,
Cap.
VII Difusão Européia do Livro,
Ed.
Da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1973
2. Pessanha,
J. A. M.et cols.;
História
das Grandes Ideia do Mundo Ocidental,
Introdução;
in Os Pensadores, vol. I.
Ed.
Abril Cultural, São Paulo, 1972.
3. Brandão,
J. S.;
Mitologia
Grega, vols 1, 2 e 3.
Ed.
Vozes, Rio de Janeiro, 1986
4. Brandão,
J. S.;
Dicionário
Mítico-Etimológico Da Mitologia Grega, vols 1, 2 e 3.
Ed.
Vozes, Rio de Janeiro, 2008
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13 janeiro 2015
29 dezembro 2014
Feliz Dia do Santo Prepúcio!
José Saramago escreveu: "no oitavo dia depois do nascimento, levou José o seu primogénito à sinagoga para ser circuncidado, e ali o sacerdote cortou destramente, com uma faca de pedra e a habilidade de um prático, o prepúcio da chorosa criança, cujo destino, do prepúcio falamos, não do menino, daria por si só um romance, contado a partir deste momento, em que não passa de um pálido anel de pele que apenas sangra, e a sua santificação gloriosa, quando foi papa Pascoal I, no oitavo século desta nossa era. Quem o quiser ver, hoje, não tem mais do que ir à paróquia de Calcata, que está perto de Viterbo, cidade italiana, onde relicariamente se mostra para edificação de crentes empedernidos e desfrute de incréus curiosos" ("O Evangelho segundo Jesus Cristo", p. 69).
O Prepúcio Sagrado (em Latim Sacrum Præputium) é uma das muitas relíquias católicas relacionadas com a figura de Jesus Cristo. Trata-se, alegadamente e como o próprio nome indica, do prepúcio de Jesus Cristo, retirado do seu corpo durante a circuncisão, ritual a que o povo judeu submete todos os seus rapazes. Por diversas vezes ao longo da história, houve várias igrejas ou catedrais a reclamar a sua posse, algumas ao mesmo tempo. Há vários milagres atribuídos a esta relíquia, mas Ao longo do século XX, com o advento da tecnologia científica e o respectivo espírito crítico que esta acarreta, a Igreja Católica distanciou-se do culto das relíquias em geral, incluindo o Prepúcio Sagrado. Em comunicações oficiais, o Vaticano exprimiu a opinião de que o prepúcio mais não é do que uma lenda de devotos, que no entanto deverá ser respeitada.
Como é tradicional na cultura judaica, a circuncisão ocorre depois de transcorrida uma semana do nascimento. Tem o sentido de um sinal da aliança entre Deus e Abraão e seus descendentes e de um rito de inserção no povo eleito. Deus teria tornado obrigatória a prática da circuncisão masculina para Abraão, um ano antes de nascer Isaque. Todos os homens da casa de Abraão, tanto seus descendentes como dependentes, estavam incluídos, e todos os escravos receberam em si este "sinal do pacto", com o qual entregavam a Deus a sua aliança de carne (anel prepucial), mostrando a reciprocidade deste ato de fé no corpo (Levítico).
Ora, uma semana após o Natal ocorre o Ano Novo cristão, que evidentemente comemora a circuncisão de Jesus Cristo. A separação do curso da história está na exata passagem do ano 1 aC para o ano 1 AD e se dá não no nascimento, mas sim na circuncisão de Cristo! Isto porque na tradição judaica, o menino somente "nasce" para a comunidade e para Deus, no ato do corte do prepúcio e não no ato do corte do cordão umbilical, quando ele nasce para a mãe. Logo, o dia 1 de janeiro é o Dia do Prepúcio Sagrado e, segundo o Calendário Gregoriano, o começo de um novo ano.
Com a expansão da cultura ocidental para muitos outros lugares do mundo durante séculos recentes, o Calendário Gregoriano foi adotado por muitos outros países como o calendário oficial e a data de 1 de janeiro tornou-se global para se comemorar o Ano Novo, mesmo em países com suas próprias celebrações em outros dias (como Israel, China e Índia). Portanto, feliz Dia do Santo Prepúcio para todos!!!
22 dezembro 2014
O Ciclo da Vida
Morte e renascimento: o Sol nasce toda manhã, mas à tarde morre me meio
a tons de sangue. A Lua crescente se torna cheia e míngua para ser negra. A
Terra brota em cores e aromas na primavera; verde, o verão se faz dourado e
escorrega em tons alaranjados do outono até a alva desolação invernal. Mas Sol,
Lua e Terra tornam a nascer e cumprem seu ciclo. A semente morre para dar lugar
a uma nova planta e a árvore ao morrer, deixa no solo a semente. É assim que
acontece o ciclo da vida, da morte e do renascimento.
Quando nascemos, inspiramos pela primeira vez e trazemos pra dentro de
nós a atmosfera deste planeta que escolhemos para viver. Quando morremos,
expiramos pela última vez e devolvemos ao planeta esta pequeníssima parte de sua atmosfera. A cada respiração,
ao inspirar, reafirmamos nosso nascimento e, ao expirar, antecipamos nossa
morte. O coração se contrai e impulsiona o sangue para a vida e se relaxa e
recebe em si a morte. Pela manhã nascemos para um novo dia e à noite morremos
em direção ao sono. A vida não é o contrário da morte: a vida é feita de
diversos ciclos de nascimento e morte.
Quem nunca mudou com o tempo?
Aos poucos você vai deixando de escutar certas músicas, de usar certas roupas,
de falar com certas pessoas. A vida é um ciclo, os amigos de hoje não serão mais
os amigos de amanhã. Mudar faz parte do ciclo da vida, embora a essência seja
sempre a mesma. Para o pensamento chinês, não há o que mude, há apenas o mudar.
A mutação seria o caráter mesmo do mundo; mas a mutação é, em si mesma, invariável,
ela sempre existe: tudo no mundo muda, menos a mutação constante. Portanto,
"I" em Chinês significa mutação e não-mutação. Subjaz, à complexidade do
universo, uma "simplicidade" que consiste nos princípios que estão
por trás de todos os ciclos. Ao fluir com as circunstâncias se evita o atrito e
portanto a resistência: esse é o caminho do homem sábio.
O ciclo se faz representar
pela Fênix, pássaro sagrado da Mitologia Grega que, quando morre, entra em
autocombustão e, passado algum tempo, renasce de suas próprias cinzas. Grande
ave de fogo, possui penas brilhantes, douradas e vermelho-arroxeadas, é símbolo
da imortalidade e do renascimento espiritual e, mais uma vez, a imortalidade
reside na aceitação da própria morte, que conduz ao renascimento. No Egito,
similarmente, havia a ave Bennu, quando a ave sentia a morte se aproximar, construía
uma pira de ramos de canela, sálvia e mirra em cujas chamas morria queimada.
Mas das cinzas erguia-se então uma nova ave, que colocava piedosamente os
restos da sua progenitora num ovo de mirra e voava com ele até Heliópolis, onde
o colocava no Altar do Sol. Também na Índia, aparece uma versão local do mito
da Fênix: trata-se de uma ave que, ao atingir a idade de 500 anos, realiza uma
autoimolação às vésperas da Primavera em um altar, que foi especialmente
preparado para esse fim por um sacerdote. Porém, é a própria ave que acende o
fogo. No dia seguinte, dentre as cinzas, surge uma larva que logo se transforma
em um pequeno filhote de uma ave. Em seguida, quando ela cresce, todos
reconhecem nela a forma, o brilho e a beleza característicos da eterna Fênix.
Porém, vê-se algo distinto em seus olhos e no brilho de suas penas: a Fênix
ressuscitou mais bela, mais poderosa e mais grandiosa. Na China antiga a Fênix
foi representada como uma ave maravilhosa e transformada em símbolo da felicidade,
da virtude, da força, da liberdade, e da inteligência. Na sua plumagem, brilham
as cinco cores sagradas: púrpura, azul, vermelho, branco e dourado, representado os cinco elementos.
A Fênix é, assim, um símbolo
para toda forma de vida que, igual à ave mitológica, tem um princípio e um fim
para depois recomeçar e terminar novamente, sucessivas vezes; isso acontece
para os éons que duram as vidas de galáxias e universos, da mesma forma que
para a efêmera existência de humanos. Na Alquimia, em sua etapa denominada Calcinatio, quando a matéria-prima com
que o alquimista está trabalhando chega ao seu ponto máximo de putrefação e,
aparentemente, não teria mais utilidade; nessa fase a matéria-prima é queimada,
ou calcinada (ou ainda, sacrificada) e com suas cinzas o opus alquímico entra em uma nova etapa.
Que a todo fim, se siga um novo princípio! Feliz Ano Novo!
Que a todo fim, se siga um novo princípio! Feliz Ano Novo!
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30 outubro 2014
Não me venham com sacis!
Eu não tenho nada contra este
simpático trixter do nosso folclore, mas o deputado federal Chico Alencar, (PSOL
- RJ) e a vereadora de São José dos Campos Ângela Guadagnin (PT - SP)
tiveram a estranha idéia de criar o "Dia do Saci", com o objetivo de
resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao "Dia das
Bruxas", o Halloween, tradicionalmente comemorado no dia 31 de
Outubro. O "Dia do Folclore", 22 de Agosto, já existe desde 1965 e me
parece no mínimo redundante haver um dia só para o Saci. Não há nenhuma
tradição que apoie este festejo nesta data; porém, em São Luiz do Paraitinga (SP) o
Dia do Saci já virou uma data típica local e é muito comemorado em uma festa que dura
quase duas semanas, tendo inspirado festejos similares em cidades vizinhas.
O Saci-Pererê tem sua origem presumida entre os indígenas da Região
das Missões, no Sul do país, de onde teria se espalhado por todo o território
brasileiro. Na Região Norte do Brasil, a mitologia africana o transformou em um
negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias
de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito, uma espécie de cachimbo e,
da mitologia europeia, herdou o píleo, um gorrinho vermelho usado para oferecer
poderes sobrenaturais. O Saci é considerado uma figura brincalhona, que se
diverte com os animais e pessoas, fazendo pequenas travessuras que criam
dificuldades domésticas, ou assustando viajantes noturnos com seus assovios,
bastante agudos e impossíveis de serem localizados. Assim é que faz tranças nos
cabelos dos animais, depois de deixá-los cansados com correrias; atrapalha o
trabalho das cozinheiras, fazendo-as queimar as comidas, ou ainda, colocando
sal nos recipientes de açúcar ou vice-versa; ou aos viajantes se perderem nas
estradas. O mito existe pelo menos desde o fim do Século XVIII.
Manter vivo nosso folclore é uma
muito boa idéia, mas a parte mais esdrúxula desta história toda está na
pretensa "contraposição" ao Halloween. Ora, por quê? A festa, que é popular nos Estados Unidos, chegou às
crianças brasileiras por meio de programas televisivos e filmes de cinema. Diz-se
comumente que o propósito é combater (mais) esta invasão cultural norte-americana,
mas é preciso que se diga que o Halloween, apesar de bastante festejado
nos países da América do Norte, não é de modo algum uma festa originária desta
parte do mundo.
O nome Halloween deriva de "All Hallow’s Eve", a Véspera do "Dia de Todos os
Santos", comemorado em 1o de Novembro. No entanto, a
origem do Halloween remonta às
tradições dos povos que habitaram a Gália e as ilhas Britânicas desde antes de 600
aC: os Celtas. No dia 31 de Outubro, a meio caminho entre o Equinócio de Outono
e o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte, é celebrado o "Samhain" (pronuncia-se
"Sou-ein") ou "Samonios", o Ano Novo
Celta, marcando o início da estação obscura da Deusa (a Natureza), que inicia
sua descida aos mundos inferiores. Nesta data, os espíritos dos mortos
voltam para visitar seus antigos lares e seus familiares, para buscar
alimento, se aquecer no fogo das lareiras
e para guiar os que precisavam seguir rumo ao Outro Mundo. Na hora do crepúsculo, o
véu que separa os mundos encontra-se mais fino, revelando em meio às brumas
sagradas, a divina presença dos elfos.
Samhain ocorre no pico do Outono. É o tempo do ano em que o frio
cresce e a morte vaga pela Terra. O Sol está enfraquecendo cada vez mais
rapidamente, a sombra cresce e as folhas das árvores estão caindo, numa
preparação para o Inverno que chegará. Essa é a última colheita, o tempo em que os
antigos povos da Europa sacrificavam seu gado e preservavam sua carne para o
Inverno, pois esses animais não podiam sobreviver em grande escala nesse
período do ano devido ao frio vindouro. Só uma pequena parte, os mais viris e
fortes, era mantida para o ano seguinte.
Samhain é a noite em que o Velho Rei morre e a Deusa Anciã lamenta
sua ausência nas próximas seis semanas. O Deus finalmente morre, mas sua alma
vive na criança não-nascida, a centelha de vida no ventre da Deusa. Isto
simboliza a morte das plantas e a hibernação dos animais, o Deus torna-se então
o Senhor da Morte e das Sombras. Samhain
é um festival do fogo e é a entrada para a parte sombria e fria da Roda do Ano.
É em Samhain que as fogueiras são
acesas para que os espíritos do outro mundo possam encontrar os caminhos para
partirem para o País de Verão. Oferecem-se alimentos para a passagem
dos espíritos e acende-se uma vela para iluminar seu caminho. A imagem da vela
dentro da abóbora tem esta origem.
Os praticantes de diversas
religiões neo-pagãs celebram ainda hoje o Samhain,
como por exemplo o Druidismo e a Wicca. Ele é celebrado no dia 31 de Outubro no
Hemisfério Norte e 1o de Maio no Hemisfério Sul e essa diferença
existe porque as estações são invertidas de um hemisfério para o outro e as
religiões celtas sempre privilegiam a Natureza e suas estações, ao calendário
patriarcal. Então surgem aqui questionamentos que ao mesmo tempo podem reconciliar
Saci e Halloween: o Dia do Saci, para
contrapor o Halloween, não deveria
ser então 1o de Maio? Ou por outra, por que não deixamos o Saci
ficar em 31 de Outubro e mudamos de vez o Halloween
para 1o de Maio?...
Agora, uma coisa é certa: tanto
Dia do Saci, quanto Halloween, não
podem ser comemorados apenas "por comemorar", porque em escolas acabam
ocupando o tempo de aulas importantes e não acrescentam nada na formação das
crianças. Não adianta celebrar uma data na escola que não represente nada para
a realidade do estudante. É preciso explicar como cada festa surgiu e
contextualizá-la para que os alunos criem uma identificação. Só assim a
comemoração fará sentido. Vista por este ângulo, a somatória das duas festas pode
ser muito útil: hoje, com a globalização, as crianças brasileiras também têm
acesso ao Halloween e isso lhes
permite construir conhecimentos a respeito do mundo e da forma como outras
crianças, que vivem em outras partes, brincam e divertem-se; mas a cultura
nacional não é descartada e o Saci é apresentado em aulas específicas que
tratam da cultura da infância brasileira: tradições, músicas, cantigas de roda,
brincadeiras, poesias e histórias.
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26 abril 2014
Carne!
Você já parou para pensar na
realidade da carne? Na existência objetiva do mundo orgânico? A despeito de
nossa íntima familiaridade com a existência no mundo através da matéria orgânica,
um simples afastamento é capaz de revelar um reação de profunda estranheza ou
até mesmo de um certo asco. O mundo orgânico existe através de fluidos e
tecidos vivos que em suma não deixam de ser nojentos. Coisas vivas (e quanto
mais "vivas" o forem) são nojentas. Coisas inanimadas (e quanto mais
inanimadas o forem) são tranquilizadoras. A morte, transição entre estas duas
existências, é marcada pela decomposição de tudo o que é orgânico de volta ao inorgânico
e esta passagem é a mais repulsiva de todas.
A grosso modo, a vida
resume-se neste planeta em cadeias de carboidratos, cadeias proteicas e algumas
cadeias lipídicas. Todas estas substâncias juntas, unidas ou não, criam este
aspecto viscoso, denso, amolecido e pegajoso. Se adicionarmos a isto o aspecto fundamental
empírica e psiquicamente ligado à vida, em especial à animal (do Latim "anima", "alma"), que é o
movimento, temos a imagem de carne que se move, arrastando-se sobre uma
superfície ou debatendo-se em convulsões. Esta é a imagem do
"anseio". Os vegetais não se debatem porque são autossuficientes,
vivem de luz: apenas abrem-se para o mundo e sorvem sua nutrição. Os animais precisam
encontrar energia fora de si e para tal é obrigatório que busquem, movidos pelo
anseio, pela falta, pela fome, em busca de substrato para manter-lhes a carne.
Sendo assim, a alma ("anima") é formada básica e
primordialmente pelo anseio: esta "falta" a que precisamos preencher.
O interior dos animais é aberto, há espaço, cavidades. Estas cavidades são
conhecidas como "luz" (apesar de na prática encontrarem-se nas trevas)
e precisam ser preenchidas: ar, água, comida, sangue... A Luz dos vegetais (esta
sim, pura e verdadeiramente luminosa) está no céu e caminha desde as estrelas
até suas verdes folhas. A luz dos animais está dentro e grita de fome,
impulsiona-os para o desejo. A voracidade é nossa marca. Mas não somos amebas,
não nos contentamos com incorporar (colocar para dentro do corpo) partículas carbo-lipo-proteicas.
Nós queremos mais! Nós nos preenchemos dos vazios dos instintos, de fomes
diversas: materiais e abstratas.
Os instintos humanos são esta
base da nossa alma, nossa porção animal. Os conceitos incorporados no que se
conhece hoje como "Os Sete Pecados
Capitais" são uma classificação de condições humanas identificadas
e comuns: gula, avareza, luxúria, ira,
inveja, preguiça e orgulho. Basicamente instintos da "carne", tão
normais e aceitáveis nos animais, comportamentos que favorecem a sobrevivência
da espécie (apetite, voracidade, sexualidade, ferocidade, competitividade, repouso
e autopreservação), tornam-se "vícios" no humano, porque passam a
responder não mais à Natureza, que os regula e harmoniza, mas ao ego, destacado
do todo, perdido de cego, guiado apenas por seu próprio anseio. Estas são as paixões que seduzem e põem a perder a
felicidade humana.
Sem a "carne", nada
disto ocorreria: não teríamos necessidades, não teríamos anseio, não teríamos
movimento. Seríamos plácidos, angélicos
e imóveis em eterna meditação contemplativa, abrindo-nos para o cosmo e
encarando a face de Deus, tal qual um vegetal abre-se para o sol. Mas estamos
aprisionados na carne num processo chamado "vida": precisamos
constantemente cuidar de nossa carne para que ela não ceda ao processo inevitável
de decaimento e apodrecimento que é o retorno ao estado inicial inanimado e inorgânico.
Este processo de decaimento era conhecido pelos alquimistas como "Nigredo" ("Processo Negro")
ou "Caput Corvi"
("Cabeça de Corvo") e englobava etapas bem definidas: Fermentatio, Putrefactio e Mortificatio.
Na fase inicial, há a fermentação, o inchaço, a desnaturação. Aqui a cor é
vermelha. Esta etapa é usada na fabricação de iogurtes e queijos, pães e bolos,
bem como de bebidas alcoólicas. Segue-se a fase que é a putrefação, cuja cor é
o negro propriamente dito: a decomposição e o decaimento da vida. Nas fábulas,
o negro indica sempre essa putrefação, tal como o luto, a tristeza, muitas
vezes a morte. E este negrume malcheiroso, é indispensável, pois como nos
adverte Nicolas Flamel,
"se não vier o negro, não virá o branco". Finalmente, somente quando extinto
todo o processo, chega-se à fase da mortificação, onde já não há material orgânico
a ser decomposto e toda a vida foi reduzida à sua base inanimada. Como a
revelação dos ossos, o branco se faz ver! O processo de transformação é associado
à ideia de morte, purificação e renascimento e só é possível através da
abnegação e do desprendimento. "Horridas
nostrae mentis purga tenebras, accende lumen sensibus" (purifica a horrenda escuridão
de nossa mente, ilumina a luz dos sentidos).
Na alma, a etapa do Fermentatio se faz ver pela exacerbação das
paixões e pelo aprofundamento da consciência justamente nos instintos animais,
cada vez mais primitivos. Negar e reprimir não nos permite a evolução. Com uma
correlação direta com a fermentação que produz álcool etílico, a etapa vermelha
é uma embriaguez total, uma possessão dionisíaca, uma vitória inicial plena da
carne sobre a razão. Alimentemos a alma com pão e com vinho (Fermentatio) e deixemos aflorar o animal
em cada um, como um momento de confissão e catarse. Liberação total, mas não
eterna. Em seguida, estes fluidos orgânicos passam a um processo de
apodrecimento e decaimento franco, destruindo e levando consigo tudo o que é
velho e desvitalizado. Chega-se ao Putrefactio,
momento que não é nem um pouco simples ou agradável, em que se deve encarar a Natureza
em sua face mais cruel: a carne, como deusa enfurecida, a Mãe
Devoradora! Findo o processo, mas somente se o deixarmos ser conduzido até as
últimas consequências, ele extingue-se a si mesmo e nos revela a fase branca: Sophia celestial que se apresenta derradeira do Mortificatio. Mas não se iluda: interromper o processo pela metade
é pior do que jamais tê-lo iniciado. É preciso não ceder ao medo ou à culpa,
não se deixar enganar pelo ego que se recusa a morrer.
Este é o único caminho
possível para a purificação da carne: o que passa pela anulação do ego. Note:
não pela aniquilação do ego, que seria psicose, loucura; mas sim, por sua adequação,
sua domesticação, para que deixe de ser o centro do mundo (egocentrismo) e se
torne, como sempre deveria ter sido, um instrumento de uma Consciência maior. Desta
forma, perdido irremediavelmente nosso vínculo com as forças harmonizadoras da
Natureza, adquiramos nós novas forças reequilibradoras vindas de mundos
superiores. A isto os orientais dão o nome de "Moksha" ("Liberação"):
o que era "Kama", o desejo
mais ardente, o desfrute material dos sentidos, volta-se para a pureza da luz
("Sattva") e, como um vegetal,
permite-se iluminar-se ("Buddha").
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