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09 fevereiro 2013

SATÃ e outros bichos



SATÃ e outros bichos 

 




"Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!"

Charles Baudelaire







A existência é fruto de complexas interações de forças cósmicas, descritas pela Ciência desde o Big Bang até o momento, passando pela criação das estrelas, do Sistema Solar, da Terra, do aparecimento da vida, da evolução das espécies, do aparecimento da consciência e de sua expansão até o estágio do ego e de suas relações com o mundo e de suas reflexões sobre sua própria existência.

Na base desta rede intrincada de interações e fatos está o acaso. Deus não é o acaso, mas é mais que isso: Deus é a infinita possibilidade que faz com que a mais remota das possibilidades manifeste-se. Em outras palavras, Deus é o Multiverso que se estende por trilhões de possíveis universos até que um se manifeste da forma como o nosso se manifestou (e continua se expandindo para além). Quando jogamos um dado as probabilidades de cair o número 1 são estatisticamente as mesmas de cair o número 6, no entanto um número entre 1 e 6 cai. Se imaginarmos a existência de seis universos paralelos onde em um cai o número 1; em outro, o número 2; ainda noutro, o 3 e assim por diante, entenderemos que há a possibilidade REAL de expressão de todos os resultados do dado num "hexaverso", não como 1 ou 2 ou 3 ou... Mas como 1 e 2 e 3 e... Desta forma, em um Multiverso que contenha trilhões de trilhões de trilhões de universos ad infinitum, TODAS as infinitas possibilidade são passíveis de se realizar. Deus é esta possibilidade infinita.

Porém, do nosso ponto de vista, um universo em que a minha particular e limitada existência não ocorra, não tenha sido uma possibilidade realizada, me é extremamente assustador, mesmo estando eu aqui em um universo em que obviamente eu ocorri. O ego não admite, nem mesmo em hipótese imaginária, a sua não-existência. Igualmente lhe é estranha a idéia de egos alternativos que se multiplicam rumo ao infinito. Facilmente entendemos Deus como este "acaso" que nos propiciou existir desta maneira particular, sem nos darmos conta de que concomitantemente Deus é também o acaso que nos impediu a existência ou que nos fez completamente diferentes da maneira como conseguimos nos reconhecer. Esta face ameaçadora (e vasta) de Deus, nós vemos como o "inimigo" e recebe o nome genérico de "Satã".

O nome Satã vem do Hebraico "satan" (שטן), "adversário", "acusador" ou "inimigo". Já o Novo Testamento utiliza o termo como um nome próprio que designa uma entidade sobrenatural que teria se rebelado contra Deus e que agiria contra este. Desta noção, adveio o conceito de que Satã (ou Satanás) seria o senhor de exércitos infernais que travaria uma contínua e árdua batalha contra Deus, contando com legiões de demônios menores; semelhantemente à ideia de que Jeová lidera as hostes celestiais angélicas, organizadas hierarquicamente, como exércitos. Todo este cenário bélico tem origem não apenas no nome "inimigo", mas também no fato de originalmente, em épocas de Canaã, quando o Judaísmo era ainda, como qualquer religião antiga, um politeísmo, Jeová ter sido especificamente o deus da guerra, a quem os hebreus chamavam de "nosso deus" (em oposição ao deus do inimigo: "satã").

A luta do Bem contra o Mal (e vice-versa) tem suas origens na luta da Luz contra as Trevas, que foi fixada mitologicamente em tempos babilônicos na região da Mesopotâmia, tendo provavelmente nascido na Pré-História quando à noite em meio às trevas predadores e perigos espreitavam e ameaçavam os humanos quase cegos e indefesos. Nas mitologias Suméria-Acadiana, Babilônica, Cananita e mesmo Judaica esta dicotomia entre deuses luminosos e trevosos é evidente, mas foi no Maniqueísmo que assumiu estatura teológica abstrata. O Maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Maniqueu na Babilônia e na Pérsia, no Século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. O seu fundador foi o profeta persa Mani (ou Manu) e as suas ideias sincretizavam elementos do Zoroastrismo, do Hinduísmo, do Budismo, do Judaísmo e do Cristianismo. Desse modo, Mani considerava Zoroastro, Buda e Jesus como "Pais da Justiça", e pretendia, através de uma revelação divina, purificar e superar as mensagens individuais de cada um deles, anunciando uma verdade completa.

No entanto, não apenas à escuridão está relacionado o "inimigo". Chamamos "má" toda e qualquer força que ameaça nossa existência e nosso equilíbrio enquanto ego auto-recognoscível. Assim o Mal são os inimigos, as trevas, as doenças, as catástrofes, os revezes, os azares, as feras e os instintos que nos habitam. Existem portanto demônios que personificam todas estas instâncias. O estudo destes seres que se multiplicam em miríades infinitas de faces, chama-se "Demonologia". Quando envolve os estudo de textos bíblicos, é considerada um ramo da Teologia e por geralmente se referir aos demônios descritos no Cristianismo, pode ser considerada um estudo de parte da hierarquia bíblica, mas abrange na verdade o estudo de qualquer mitologia. Porém, nas demais religiões a ideia de "demônio" não está necessariamente associada ao mal, mas sim a seres espirituais ou etéricos, ligados à natureza ou criados paralelamente à criação humana. Neste sentido, demônios são os gênios das histórias árabes ("djins") e os duendes das histórias europeias ("leprechauns").

Para as religiões xamânicas as doenças são espíritos que se apoderam do corpo do enfermo, demônios a serem esconjurados por meio de exorcismos variados. Para a medicina atual, igualmente as doenças são causadas por seres invisíveis e demoníacos (bactérias, vírus, etc) que se apoderam do corpo do enfermo e que devem igualmente ser esconjurados por meio de exorcismos muito complexos (medicamentos, cirurgias, etc). Na maioria das religiões cristãs, os demônios, ou espíritos imundos, são anjos caídos que foram expulsos do terceiro céu e da presença de Deus, consequentemente. Devido a vários motivos ou simplesmente por submissão religiosa a Satanás os demônios podem possuir alguém, assumindo inclusive o senhorio sobre o corpo desta pessoa, manipulando suas atitudes e palavras e influenciando fortemente os seus pensamentos. Para os cristãos, o único meio eficaz, utilizado pelos apóstolos, para falir a autoridade de um ou mais demônios sobre uma ou mais pessoas é o nome de Jesus Cristo, Filho de Deus (ἰχθύς), que segundo a crença cristã é o Nome sobre todo nome, inclusive dos demônios. Algumas correntes do Budismo afirmam a existência do inferno povoado por demônios que atormentam os pecadores e tentam os mortais a pecar, ou aqueles que buscam contrariar sua Iluminação, com um demônio chamado Mara como tentador chefe. O hinduísmo contém tradições de combates entre seus deuses e vários adversários, como o combate de Indra e Vritra. Outras correntes do budismo usam seis infernos e demônios apenas como metáforas para estados de consciência, e não utilizam o conceito de pecado, mas sim ação e reação, causa e efeito, karma. Onde uma pessoa que comete, por exemplo, algum tipo de violência, poderá ter pensamentos ruins, angústia, arrependimento, insônia, traumas emocionais.

Seja como for, Satã e todos seus correlatos, estão sempre lá para representar estas forças "inimigas", não inimigas de Deus (como poderiam?), mas sim inimigas de nosso orgulhoso e pretensioso ego. Neste sentido, talvez os demônios sejam poderosos aliados de nossa evolução ética e espiritual, tal qual os colocou Dante, fazendo com que os pecados sejam expurgados à força da alma dos pecadores no Inferno e no Purgatório. Neste mesmo sentido, escreveu Baudelaire em "Flores do Mal" nas "Litanias de Satã": "Ó tu, o anjo mais belo e também o mais culto, Deus que a sorte traiu e privou do seu culto! Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!"





***







Adendo: principais demônios na história de muitos povos, através dos séculos (Fonte: Portal Astrologia & Esoterismo).





Aaba: Demônio fêmeo, de beleza irresistível, com capacidade de poder se apresentar com mulher e seduzir quem bem desejasse. Contudo, curiosamente, era incapaz de presenciar derramamento de sangue.



Aamon: Um dos três demônios a serviço de Satanaquia e comandante da primeira legião do inferno. É a suprema divindade dos egípcios. Demônio que se apresenta com cabeça de lobo, cauda de serpente, sempre remitando fogo.



Aarão: Comandava legiões de demônios, sendo adepto da magia negra, considerando "Aaron, fil diboli” (Aarão, filho do diabo). Feiticeiro bizantino, possuidor da chave de Salomão, construtor do tempo de Salomão. Não confundir com Aarão, irmão do primogênito de Moisés, primeiro sumo sacerdote dos hebreus, que permitiu, na ausência de Moisés, que os hebreus sacrificassem ao Bezerro de Ouro e morreu na montanha de Hor, antes de entrar na terra da Promissão.



Abaddon: Também conhecido por Apollyon, significando "O destruidor". É o nome dado ao anjo do abismo ou da morte ou do inferno, no Apocalipse, por São João, sendo identificado como o anjo exterminador, no versículo 10-23, capitulo 12 do livro do Êxodo. Mencionado também, no primeiro capitulo do livro da Revelação, com o chefe dos demônios – gafanhotos, o soberano do Poço Sem Fundo (Judas, 6) e o rei dos demônios no livro do Êxodo, assim está escrito. "Porque o senhor passara ferindo os egípcios e quando ele vir este sangue sobre a verga das vossas portas, e sobre as duas umbreiras, passara a porta da vossa casa e não deixara entrar nela o anjo exterminador a ferir-vos".



Abassay: Gêmeo maléfico ou diabrete, na língua tupi entre as tribos negras ocidentais, nos territórios da antiga África Francesa, era tido como o deus que povoou o mundo. Na Anthologia Negra, de Blaisse Pendars, consta que Abassi, sentado em seu trono, fez todas as coisas, superiores e inferiores, no mundo inteiro. Todos os homens habitavam o céu, não havendo homens na Terra. A pedido de Altair, entidade divina das tribos negras da antiga África ocidental francesa, fez com que os homens passassem a habitar a Terra.



Abigor: Demônio que comandava 60 legiões infernais, em seu cavalo com asas, tinha a capacidade de prever o futuro, alem de ser conhecedor de todos os segredos da arte de guerrear. Carregava sempre consigo uma lança, estandarte ou cetro.



Abraxas: Demônio que era representado com uma cabeça de galo, grande barriga e rabo cheio de nos. Sempre carregava consigo um chicote e um escudo. Usado também, como termo místico, muito em voga entre os gnósticos. Na numeração grega, suas sete letras, Abraxas ou Abracax, denotam o numero 365 – supostamente, a soma total dos espíritos que emanam de deus. Para os ocultistas, a palavra tinha poderes mágicos e, gravada em pedras, poderia ser usada como amuleto ou talismã, para dar sorte. Daí a origem da palavra magica Abracadabra, que protege as pessoas do mal, de doenças, da morte e abre todas as portas. Essa curiosa palavra foi usada, pela primeira vez, no século 11 d.C., por Quintus Serenus Sammonius, sábio responsável pela saúde do imperador romano, sendo sua origem desconhecida. No ano 208, foi mencionada em certo poema, quando o imperador Severus esteve na Gran Bretanha, como cura certa contra a febre terçã, que e aquela que se repete com três dias de intervalo. Aparece no denominado "Triângulo Mágico”, que tem conexão com outros conceitos do ocultismo, inclusive no simbolismo do Tarot, e para Ter melhor resultado deve ser escrita na forma de um triângulo, sendo colocada em volta do pescoço.



Abramelech: Tido como presidente do alto Conselho dos diabos, grande chanceler do inferno e superintendente do guarda-roupa do Diabo. Foi sempre representado na forma de uma mula, com torso humano e rabo de pavão.



Agatodemon: Termo grego designado demônio beneficente, que acompanha as pessoas por toda a vida. Segundo diz a lenda, Sócrates, o grande filósofo grego (468- 400 AC), tinha um demônio semelhante, que o acompanhava sempre.



Agaures: Grão-duque da parte ocidental do inferno, comandante de 31 legiões de demônios, ensinando línguas, fazendo com que os espíritos terrestres dancem e distraiam seus inimigos, sendo ainda considerado primeiro ministro de Lúcifer. Costuma aparecer como nobre senhor, trazendo um gavião no punho, vestindo túnica, montado a cavalo, levando consigo um crocodilo.



Ahriman: Igual ao espírito do mal, irmão gêmeo de Ormuzd, espírito do Bem, no zoroastrismo.



Aligar: Um dos três demônios à disposição de fleretty, o tenente-general das legiões do inferno. Tem o poder de concluir as coisas que se desejavam e pode fazer cair granizo. Comanda os demônios Abigar, Batim e Tursã.



Alijenu: espírito do mal. Espírito diabólico.



Allatou: Esposa de Nergal, demônio chefe da polícia do inferno, encarregado da denominada Corte Infernal. Nergal era espião honorário de Belzebu. Na religião sumeriano – acadiana, designava demônio do mal, da morte. É descendente e serviçal de Eresshkigal, "senhora do grande lugar”, rainha do mundo dos mortos nos textos sumerianos, ela reina no seu palácio, sempre guardando a fonte da vida. Seu nome familiar é Namar e na religião assírio – babilônica Allatou é a deusa do submundo, consorte de Bel e, posteriormente, de Nergal.



Aliocer: Grão-duque do inferno, comandante poderoso de 36 legiões infernais, possuindo cabeça de leão, com chifres e olhos flamejantes, sendo que seu enorme cavalo possui patas de dragão.



Alu: Demônio da Mesopotâmia, com feições de cachorro, preferindo o silêncio e a escuridão. Foi escrito e pintado, por alguns artistas, apresentando-se sem pernas, ouvido e boca.



Aluga: Demônio fêmeo, que era ao mesmo tempo súcubo e vampiro, acostumado a levar os homens à exaustão e depois ao suicídio.



Aman: Um dos demônios que costumava possuir madre Joana dos Anjos. Foi um dos primeiros demônios que ela mandou expulsar. Nada a ver com a figura bíblica (Velho Testamento), personagem que foi primeiro – ministro de Assuero (Nerses), rei da Pérsia, que planejou o extermínio dos judeus no país, no que foi impedido por Mardoqueu e sua sobrinha Ester, concubina do rei. Esse fato é considerado lendário para justificar a instituição da festa judaica intitulada Purim, celebrada nos dias 14 e 15 do mês de Adar, correspondente a fevereiro – março do calendário.



Amane: Segundo o livro de Enoque (Enoch), espécie de apocalipse dos primeiros tempos do Cristianismo, não admitido nos cânones dos livros sagrados, era um dos chefes dos duzentos anjos que se rebelaram contra Deus e que prometeu recrutar vassalos em Samiaza. .



Amaduscias: Grão-duque do inferno, comandava 30 legiões e possuía cabeça de unicórnio, aparecendo muitas vezes com forma humana, costumava dar concertos invisíveis, fazendo com que as árvores balançassem ao som de sua voz.



András: Também Marquês do inferno, demônio com cabeça de coruja, com o corpo nu de um anjo alado, cavalgando sempre um lobo e brandindo sua espada. Couto Magalhães classifica-o como o deus que protege os animais do campo contra o abuso da caça. Sua figura é a de um veado branco, com olhos de fogo. Barbosa Rodrigues diz que no Amazonas, quando o Anhangá aparece no homem, é sempre sob a forma de um veado, cor vermelha, cruz na testa, olhar de fogo e chifres cobertos de pelo. Os tupinólogos Teodoro Sampaio e Testavim traduziram o termo por "alma”, espírito maligno, diabo, alma de finados .



Asper: Principal inimigo do deus Sol no Egito antigo, sendo considerado o próprio demônio, a serpente da noite. Nenhuma relação teria com as personagens do dialogo de Oratoribus. Diálogo dos Oradores, abribuido a Tácito, notável historiador latino que viveu entre 56 e 120 DC.



Asmodeu: Segundo o Dicionário Bíblico, é o demônio que assediava Sara, filha de Raquel, tendo matado seus sete primeiros maridos no próprio dia do casamento, até que veio a ser subjugado pelo anjo Rafael (Tobias 3,8; 6,14; 8,2). Considerado o demônio bíblico da ira e da luxúria. Do hebreu Asmoday ou Acheneday, é o demônio chefe de Shedin, uma classe dos demônios com garras de galo. Na demonologia judaica, considerado o espírito do mal, sendo que seu berço é o Avesta, o livro sagrado da religião de Zoroastro, profeta persa, fundador do Zoroastrismo, apelido dado pelo filósofo Nietzche como Zarastustra. O Zorgastrismo ou Zoroastrismo tem como principal característica o dualismo, o princípio do Bem e do Mal. Conta a história que o anjo Rafael capturou Asmodeu e perdeu-o no deserto egípcio, permitindo assim que Sara se cassasse com Tobias, que veio a ficar cego e posteriormente foi curado por seu filho, graças a interferencia do anjo Rafael. Na demonologia, é o superintendente das casas de jogos na corte infernal. Costuma ser representado com três cabeças diferentes, sendo uma de touro, outra de homem com hálito de fogo e a terceira de carneiro. Dizem Ter ele destronado Salomão, que acabou por vencê-lo, obrigando-o a construir um templo.



Astaroth: Grão-duque importante e poderoso na região oeste do inferno, casado com



Astartéia, tida como a deusa fenícia da Lua. Quando novas leis são propostas, costuma emitir sua opinião. É, sempre representado com um anjo nu, coroado, montando um dragão, segurando em sua mão esquerda uma serpente. É também o tesoureiro do inferno, exalando profundo mau cheiro, verdadeiramente insuportável. Astartéia, tida como sua esposa, é considerada a divindade dos povos semíticos, a deusa do céu, sendo a protetora de várias cidades e muitas vezes honrada com sacrifícios humanos.



Asura: Classe de deuses soberanos na mitologia védica, que acabaram sendo considerados demônios. Inimigos dos Devas, divindades que representavam o Bem e nas regiões da Índia, serima todos os seres divinos.



Ayperos: Príncipe infernal, comandante de 356 legiões, sendo representado como um abutre dotado de capacidade de prever o futuro.



Ayphos: Um dos três demônios obedientes aos desejos de Náberus, marechal-de-campo do Inferno.



Azazel: Demônio de origem hebraica. O Levítico menciona-o como o bode expiatório, enviado ao deserto. "Deitando sortes sobre os dois bodes, para ver qual deles será imolado ao Senhor, e qual será o bode emissário. E para espiar o santuário das impurezas dos filhos de Israel, das suas prevaricações contra a lei, e de todos os seus pecados”. (L 6,8-34). De acordo com o livro de Enoque, é um dos 200 anjos que se rebelaram contra Deus. Nos escritos apocalípticos é o poder do mal cósmico, identificado pelos impulsos dos homens maus e da morte. Eles teriam vindo à Terra, para esposar os humanos e criar uma raça de gigantes. O Livro das Revelações, de Abraão, descreve-o como uma criatura impura e com asas. É identificado como a serpente que tentou Eva e que poderia ser o pai de Caim. No século II os búlgaros bogomilianos concordavam que Satanael teria seduzido Eva e que ele, não Adão, era o pai de Caim. A maioria dos bogomilianos foi queimada viva pelo imperador bizantino Alexis. Os Atos dos Apóstolos falam, ainda, em outros três demônios, a saber: RIRITH, divindade maléfica do sexo feminino, desencadeador de tempestades, espécie de fantasma noctívago, que os babilônios chamavam de Lilitu. Antiga tradição popular judaica afirma que Lilith teria sido a primeira mulher de Adão, BERGAR, cujo sentido é o de maligno e comparado, por São Paulo, como anticristo, e ASMODEU, conforme já exclarecido, aparece no livro de Tobias como o assassino dos maridos de Sara.



Azidahaka: demônio na religião de Zoroastro, que tomou a forma de serpente, possuidora de três presas.



Baal: Na demonologia, é representado como o grão–duque do inferno, chefe dos exércitos, comandante direto de legiões de demônios. Representado com três cabeças, sendo uma de gato, outra de homem e a terceira de um sapo. Seu corpo, bastante forte, termina em pernas de aranha, podendo se tornar invisível. Entretanto, através da história, Baal teve outras designações, sendo considerado a divindade suprema dos fenícios e dos cartagineses, para quem eram sacrificados crianças a fim de garantir fartas colheitas, bem como a segurança contra os inimigos. Servia ainda para designar muitas deidades. É também o deus semítico da fertilidade, cuja adoração era associada à grosseria sexual. Aparece na Bíblia, com diferentes predicados: Baal, Senhor da Aliança, Baal – Zebul – O Baal das Moscas, que aparece na Vulgata - versão latina da Bíblia, revista por São Jerônimo – com sentido pejorativo . Entre os sumérios e babilônicos, assume a forma de Bel, Bel-Mardux. Os Baalim eram protetorers dos oráculos- templos – sendo certo que alguns reis de Israel incentivaram seu culto, o que motivou a reação dos profetas. É uma palavra hebraica que significa senhor, marido, dono, sendo certo que nos primeiros tempos usavam o termo Baal para o verdadeiro Deus.



Belzebu: O príncipe dos diabos. É usado no Novo Testamento, para identificar Satã. Na demonologia, ele é o primeiro ministro dos espíritos malignos, o "Senhor das Moscas”, manda moscas arruinarem a colheita e o povo de Canaã prestava-lhe homenagem na forma de uma mosca. Figura aterrorizante, enorme, preto, inchado, chifrudo, cercado de fogos e com asas de morcego. Milton, no Paraíso Perdido, descreve-o como um rei autoritário, cuja face irradia sabedoria.



Baalberith: Demônio de Segunda ordem, senhor dos casamentos, secretário, chefe e arquivista do inferno. O demonologista I. Wier representa-o como um pontífice sentado entre os príncipes do inferno.



Bael: Primeiro rei do inferno, comandante de 60 legiões, possuidor de três cabeças, sendo uma com a figura de um gato, a outra de um sapo e a terceira de um homem.



Balaam: Um dos demônios maus que se apossou da madre Joana dos Anjos. A paixão de Balaam era a mais perigosa de todas. Identificado como um demônio de três cabeças, cavalgando um urso e carregando um falcão em suas mãos. Uma das cabeças era semelhante á de um touro, a outra igual à de um homem e a terceira de um carneiro. No Velho  Testamento, aparece o nome de Balaão, profeta, vidente e adivinho, originário da cidade mesopotâmica de Petor . Diz a lenda bíblica que , convocada por Balak, filho de Sefor, rei de Moavo, a ir ao encontro dos israelitas para amaldicoá-los, pôs-se a caminho, montado numa burra, quando lhe surgiu um anjo, com uma espada nua . O animal parou, recusando-se a andar. A burra, dotada com o Dom da palavra, condenou a sua crueldade. Deus, então, abriu os olhos de Balaão, que viu o anjo e assim, em vez de amaldiçoar os israelenses, abençoouos.



Barão: Demônio criado sob as instruções do barão Gilles de Rais (1404-1440). Este, morto pela Inquisição após um processo que ainda gera controvérsias, foi acusado de sacrificar mãos e corações de criancinhas para obter o segredo da pedra filosofal, ou seja, descobrir a maneira de transformar metais em ouro.



Barbatos: um dos três demônios a serviço de Eleuretty, tenente-general das forças do inferno.



Batsaum-Rasha: Demônio turco invocado para produzir bom tempo ou chuva.



Bechard: Demônio que pode ser invocado por satanistas, usando a expressão "Vem Bechard – Vem Bechard”. Sua invocação deve ser feita ás quintas-feiras, chamando-o três ou quatro vezes no centro de um círculo, exigindo ele, com pagamento pela sua presença e seus serviços, tão somente uma noz.



Belfegor: O demônio das descobertas, seduzindo os homens com a distribuição de riquezas. Algumas vezes aparece com uma mulher jovem e sedutora. Alguns rabinos dizem que ele está sentado numa cadeira.



Belial: Do hebraico BELLHHARAR, que quer dizer "inútil”, sem valor. Sinônimo de Satã e também de Belzebu, com designativo do chefe dos demônios. No Novo Testamento, aparece uma vez (Segunda Epístola aos Coríntios, 6, 15). O mais imoral de todos os diabos. No Livro das Revelações, e cognominado "a besta”. Num dos pergaminhos encontrados no Mar Morto, aparece com o chefe das forças do mal. Sua intenção é fazer proliferar a perversidade e a culpa. Alguns o identificam com o anticristo. No primeiro século d.C. foi considerado o anjo da desordem que governa o mundo. É o demônio da pederastia e cultiva a sodomia. Algumas vezes é representado numa carruagem de fogo. Há um trabalho alemão da Idade Média, exclusivamente a seu respeito, denominado Das Buch Belial. Segundo ainda, o Novo Dicionário de Personagens Bíblicas, de José Schiavo (pag. 118), seria um monstro fictício, mencionado no Apocalipse sob o misterioso número 666. Possuía sete chifres e sete cabeças, ostentando sobre cada cabeça sete nomes blasfemos e , sobre os chifres, dez diademas . Assemelha –se a uma pantera, com os pés de urso e boca de leão. Noutro passo, é mencionado como possuindo dois chifres, falando com um dragão. Alguns intérpretes o deram com figuração dos falsos profetas advindo da Ásia.



Besta: Pseudônimo do próprio Diabo. No Livro das Revelações, o apóstolo João fala de duas bestas, sendo que uma sai do mar, com um leopardo de dez chifres e sete cabeças, pés de urso e mandíbula de leão, e outra que vem a terra, como dois chifres, parecendo um dragão. Trata-se de uma visão do apóstolo João (Livro das Revelações, 13, 14, 17, 3, 8, 11). O profeta Daniel teve uma visão de quatro bestas representativas de quatro sucessivos impérios que se destruiriam uns aos outros. Todas as quatro representariam Satã. Comumente é tomado como o anticristo.



Beyerevra: Demônio indiano, mestre das almas que vagueiam pelo espaço.



Bonifarce: Um dos demônios que se apossou de Elisabeth Allier, freira francesa do século XVII. Conta à história que essa foi exorcizada em 1639, com muito sucesso, por Francois Faconnet - estava possuida por dois demônios, Bonifarce e Orgeuil, havia mais de vinte anos, admitindo-se que esses demônios tenham entrado em seu corpo quando ela tinha 7 anos de idade , por meio de pão que havia sido colocado em sua boca .



Buer: Demônio de Segunda grandeza, comandante de 50 legiões, com cabeça de leão. Locomove-se com cinco pés de bode, na forma de uma estrela.



Caçador Negro: Diabo que conduz uma caçada alada ou uma caçada no inferno.



Caim: Grande mestre do inferno, representado com homem elegante, com cabeça e asas de um pássaro preto – melro -, sendo considerado o mais inteligente dos sábios do Inferno. Leva consigo um sabre, quando toma a forma humana, embora tenha cauda de pavão. Entende os pássaros, os bois, os cachorros e o som das ondas do mar. Deu formação a uma seita denominada Cainites ou Caimitas, para adorá-lo, louvando a Caim, Judas, Sodoma, Esaú e rendendo homenagem a Korah, certo judeu que foi destruído, depois de liderar uma rebelião contra Moisés. Louvaram também a Judas que acreditavam Ter livrado a humanidade de Jesus Cristo. No Antigo Testamento, aparece o nome de Esaú, que em heabraico quer dizer "peludo”, também cognominado Edom – o ruivo. Muitos críticos encontram analogia entre Esaú – Jacó e Caim –Abel, relacionando-os a uma luta entre o pastoreio e a agricultura. Esaú era filho de Isaac e Rebeca, irmão gêmeo de Jacó, a quem vendeu seu direito de primogênito por um prato de lentilhas.



Cali: Rainha dos demônios, a quem vidas humanas eram sacrificadas (Kali), também divindade bramânica , mulher de Siva, deusa do inferno, representada com a forma de uma negra , com quatro braços , segurando em cada uma das mãos uma cabeça humana.



Chamos: Membro do conselho de príncipes do inferno, demônio da bajulação.Citado por Milton, no Paraíso Perdido, como o terrível horror das crianças de Maabo, região situada na costa sudeste do Mar morto, Ásia Menor, que faz parte dos planaltos que se estendem a leste do rio Jordão, a chamada Transjordânia, no antigo testamento, Moab, personagem bíblica, do hebraico Moabi, "nascido do prórpio pai" eis que era filho de Ló, pela união incestuosa deste com sua filha mais velha . É também tido com a divindade semítica dos moabitas e talvez dos amonitas.



Chax: Duque do inferno, mentiroso e ladrão.



Corozon: Poderoso demônio argelino, que abriu as portas do Inferno, com as seguintes palavras: "Lazas, Lazas, Nasatanada, Lazas". Exorcizado por Aleister Crowley no deserto argelino, sendo que alguns ocultistas afirmam que este foi possuído pelos demônios pelo resto da sua vida.



Coulobre: Diabo na forma de dragão que, na Provence (França), andava devorando as pessoas. Em Cavaillon, cidade francesa, foi ele derrotado por São Verard, por meio de água benta.





Dibbuk: Demônio particularmente mau que perseguia os acadêmicos e procurava descansar dentro de uma pessoa. Na Idade Média, uma das maiores superstições entre os judeus do leste europeu.



Efialtes: Demônios incubos que aparecem durante os pesadelos.



Empusa: Demônio da "da Meia-Noite” surgindo com os mais variados disfarces. Costuma surgir como uma bela mulher, com o pé esquerdo feito de bronze, outras vezes com o casco de mula. Na Rússia era temido porque aparecia à "Meia – Noite " na época da colheita , com uma viúva, e costumava quebrar os braços e as pernas dos trabalhadores . Tinha a sensualidade dos vampiros pela carne humana. Enviado à Terra pelas divindades infernais para atacar os viajantes, sugando suas vítimas .



Eurinômio: Príncipe da Morte, no inferno, com um corpo horrível, coberto de pêlos de raposa. Usa longos dentes, alimenta-se de carniça putrefata, de corpos mortos, sendo adorado no Templo de Delfos, cidade da antiga Grécia, onde Apolo tinha um Templo, ditando Oráculos através da boca da Pítia. Delfos foi tomada pelos gauleses em 279 AC.



Haborym e Aym: Duque do inferno com três cabeças, uma de gato, outra de homem e a terceira de cobra. Demônio do fogo e também dos holocaustos. Senta-se todo enrolado, como uma serpente, segurando uma tocha .



Iblis: O diabo do Islã. De acordo com o Livro Sagrado de Yezidi, o livro das revelações e o livro Negro, Iblis é uma falange de arcanjos. Corresponde ao príncipe das trevas, sendo certo que o inferno é mencionado como o Reino de Íblis. Ele se condenou por seu exclusivo amor à idéia da divindade. Deus o teria perdoado, confiando-lhe o governo do mundo e a supervisão das almas.



Íncubo: Anjo do Paraíso que foi expulso e se transformou em demônio, procurando continuamente mulheres para saciar-se, enquanto elas dormem. Na França, são chamando follet, de Alp na Alemanha, de follette na Itália, e no Brasil, de duendes. A sua fêmea é denominada súcubo. O número deles é tão elevado que se torna difícil destruílos, no dizer de Santo Agostinho (De Civitate Dei – XV, 23). Muitos padres afirmam que o íncubo é um anjo que atrai as mulheres em sua queda para o inferno. Muitas mulheres foram possuídas por belos homens, corpos mortos temporariamente reanimados pelos íncubos. Durante a Idade Média, muitos sintomas em razão da menopausa eram imputados aos íncubos. Diziam que Huno e Platão nasceram da união de um humano e um íncubo, bem como o famoso sábio Merlin, fruto de um íncubo e a filha do rei da Inglaterra. Foi Merlin conselheiro de quatro reis ingleses, incluindo-se o rei Artur, fundador da Távola Redonda e cognominado O Mágico. A fada Viviana encerrou-o num círculo mágico de onde não pode mais sair. Dizem que a abadessa de Cordoue tinha um íncubo, com a forma de animal, como seu amante.



Jahi: Demônio fêmeo da religião de Zoroastro, que foi beijada por Ahriman, introduzindo assim a menstruação no mundo. Ahriman representa o príncipe do mal, e o seu oposto, Ormuzd, o príncipe do bem, que deve acabar por vencer.



Jinni: Demônio entre os árabes pagãos, representando uma das forças contrárias à natureza. Para os muçulmanos, são entes sobrenaturais que podem ser bons ou maus. O rei Salomão possuía um anel de magia que o protegia desse demônio.



Kasdeya: Nome do quinto Satã, que ensina a destruição aos homens. Na magia, é representado por uma caveira de um jovem.



Kobal: Diretor de diversões da corte do inferno. Padroeiro dos comediantes. Durante séculos foi considerado suspeito para a Igreja. Demônio que sentia imenso prazer em matar. Na Alemanha, Kobald, espírito familiar, considerado o guarda dos metais preciosos.



Krikoin: Na religião dos esquimós, é o demônio do mal, que persegue os cães que ficam ao lado de fora das casas, nas noites frias.



Kubera: É o rei dos demônios maus para os hindus, sendo também considerado o deus da riqueza.



Lilith: Demônio feminino mencionado no folclore judaico. Várias são as lendas sobre ela, sendo considerada a personificação das paixões desregradas. A mais antiga tradição popular judaica dá como sendo ela a primeira mulher de Adão. Não conseguindo lhe dar um filho, Deus decidiu criar Eva para ser sua companheira. Foi ela quem ensinou a Adão a felação e outras práticas que a moral qualifica de antinaturais. É a mãe dos espíritos do mal, Lelin, Sehedin e Roudin. É associada com a praga e o flagelo do meio dia (Salmo 91,56). Tida ainda, com um dos sete demônios da Cabala hebraica, representado pela figura de uma mulher nua, cujo corpo termina em cauda de serpente. Pela crença dos antigos persas, alguns a dão como filha de Samuel e esposa de Ashmedai ou Esmadfewa, um dos sete espíritos demoníacos .



Loki: Demônio do fogo, gênio do mal, na mitologia escandinava, comparado ao próprio Diabo.



Mandrakes: Demônios pequenos, sem pêlos, grosseiros, uma espécie dos conhecidos capetas.



Mezu: No folclore japonês, o demônio com cabeca de cavalo, que dá assistencia ao kongo, xerife dos infernos.



Mefistófeles: Nome popular do Diabo, segundo Goethe. Personagem do drama Fausto de Goethe (1749 – 1832), demônio que veio à Terra para satisfazer paixões de Fausto. Julga o mundo com ironia desdenhosa. Seu nome é empregado com sinônimo de homem de caráter perverso, verdadeiramente diabólico. A história de Fausto é a história do homem que vendeu sua alma ao Diabo, em troca de bens terrestres. O drama divide-se em duas partes, onde o genial poeta imortalizou suas concepções da natureza e do homem.



Molegue: Príncipe da "Terra das Lágrimas ", no inferno . Recolhe, com alegria, as lágrimas das mães. É um demônio monstruoso, gotejando o sangue das criancinhas e as lágrimas de suas mães. Apresenta-se com cabeça de bezerro, coroa real, braços esticados para receber suas vítimas humanas. Os amonitas , membros de tribo a leste do Jordão, descendentes de Amon , que derrotaram os gigantes de Zomzomins e ocuparam a região, costumavam adorálo, sacrificando crianças em seu louvor para obterem boas colheitas e vitória nas guerras . Milton e Flaubert a ele fazem referência.



Mullin: Primeiro mordomo da casa dos príncipes infernais.



Murmur: Demônio da música, conde do inferno, surgindo como um abutre, de pernas abertas, figurando um soldado gigantesco. Também denominado Murmúrio.



Nasu: Na religião de Zoroastro, representa o demônio feminino que se alimenta de corpos que acabaram de morrer ou já se encontram em estado de putrefação. Surgem com se fossem borboletas. Sua residência é o Inferno, no monte Elbroug.



Nergal: Deus sumeriano das regiões infernais. Pode ser igualado ao deus grego Plutão, que governava o submundo. Nergal, assim como o Satã bíblico habitava originariamente os céus. Considerados por muitos, como demônio de Segunda classe. Era chefe de polícia e espião de Belzebu. Esposo de Ereshkigal que, no panteão sumero – arcadiano, é considerado a senhora do grande lugar, rainha do mundo dos mortos, reinando em seu palácio, guardando a fonte da vida . Os demônios do mal e da morte são seus descendentes.



Nuton: Originário da lenda belga, vivendo sempre em grutas, perto de águas correntes, muito brincalhão, torna-se violento, todavia, se atacado.



Nybras: propagandista dos prazeres da corte infernal. Supervisor dos sonhos, visões, êxtase. Demônio inferior, tido como profeta e charlatão.



Nysroch: Chefe da casa do príncipe infernal. De Segunda classe; preside os prazeres da mesa.



Orias: conde do inferno. Perito em astrologia, na metamorfose, carrega sempre uma serpente em cada mão.



Orthon: Demônio familiar do conde de Corasse e do conde de Foix. Invisível, sabe tudo o que acontece no mundo. Quando aparece, costuma mostrar-se como uma porca.



Raymon: Demônio poderoso, encarregado das cerimônias infernais, aparecendo na forma de um homem vigoroso, mas com rosto de mulher, coroado com jóias e montando um dromedário.



Pazuzu: Demônio assírio, rei dos espíritos maus do ar , filho de Hanpa . Há no museu do Louvre uma estátua de bronze do século VII, representando Pazuzu, com forma humana, duas asas e dois chifres.



Pérsefone: Deusa do inferno, filha de Júpiter e Ceres, mulher de Plutão. É a mãe das fúrias.



Prusias: Um dos três demônios a serviço de Satanáquia, grande general das legiões de Satã.



Ravana: Demônio rakchasa, do épico Ramayana, soberano do Ceilão que raptou Sita, esposa de Rama. Ramayana é um poema sânscrito, ao mesmo tempo religioso e épico, em 50000 versos e sete partes. Celebra a genealogia de Rama, a sua juventude, a luta contra Ravana , raptor de Sita , sua vida e ascenção para o céu . Rama é uma das encarnações de Vichnu na mitologia hindu e deus da Índia, casado com a deusa Sita.



Rimmon: Embaixador do inferno na Rússia czarista. Demônio menor, chefe dos médicos, acreditando-se que era capaz de curar a lepra.



Saarecai: Demônio menor que habita os buracos da casa, mas não faz mal a ninguém.



Sardon: Conselheiro do inferno, sacrificando as criancinhas nos sabás. Deu origem à expressão "risadas sardônicas”.



Seirim: Demônio cabeludo na forma de bode, que dança nas ruínas da Babilônia, comandado por Azazar.



Shabrini: Demônio dos antigos judeus que costumava cegar os homens.



Shedim: Demônio destruidor. Dizem ser descendente da serpente, outros dizem ser de Adão, depois da queda, e outros de Deus, que deixou os inacabados, incompletos, por causa do dia do descanso, ou seja, do Sábado. Para poder localizá-los, devem ser espalhadas cinzas pelo chão, para que esses demônios deixem seus rastros, dependendo, todavia, de uma formula mágica a ser proferida, para que possam ser vistos. Suas garras são de galo e seu chefe é o demônio Asmodeu.



Súcubos: Demônio fêmeo, em oposição aos íncubos, tentando os homens durante o sono, nada os detém até conseguirem copular com eles. Costumam visitar os solitários, monges e pastores, aproveitando-se de seus jejuns e abstinências. Reanimam cadáveres que depois de uma noite de amor, voltam ao estado putrefato. Muitas vezes, dizem, tomam a forma da pessoa amada.



Tânatos: Demônio masculino que personifica a morte, irmão de Hipnos (sono) e de Nix (noite). Freud, em seus estudos, desenvolveu o conceito no qual Tânatos é uma das forças que governam o inconsciente profundo. A outra e Eros (o amor).



Tarascon: Metade monstro da terra, metade do amor, foi vencido por Santa Marta, que o prendeu em seu cinto de virgindade. Apresentava cabeça de leão, com seis pés, patas de urso e rabo de serpente.



Thamuz: Embaixador do inferno na Espanha, sendo inventor da artilharia, da Inquisição e de suas punições. Era considerado o inspirador das grandes paixões.



Ukobach: Demônio inferior e responsável pelo óleo das caldeiras infernais. É o inventor da frigideira e dos fogos de artifício, aparecendo sempre com o corpo em chamas.



Uphir: Demônio químico, conhecedor de ervas medicinais e responsável pela saúde dos outros demônios.



Vetis: Trabalha para Satã, especialista na corrupção das almas de pessoas santas.



Xaphan: Demônio menor que, por ocasião da rebelião dos anjos, deu a sugestão para se atear fogo no céu. É o que acende o fogo no inferno.



Xesbeth: Demônio das mentiras, dos prodígios imaginários, dos contos maravilhosos.



Vekum: Demônio que seduziu os filhos dos anjos sagrados e persuadiu-os a virem à terra e Ter relações sexuais com os mortais, conforme o livro de Enoque.



Zaebos: Demônio com cabeça humana e corpo de crocodilo.



Zagam: demônio das decepções e dos desenganos. Consegue transformar cobre em ouro, chumbo em prata, sangue em óleo, água em vinho. Tem asas e cabeça de boi.



Zagamzaim: Diabo disfarçado de eunuco, descrito por Vitor Hugo.



Zepar: Grão-duque do império infernal que tenta levar os homens à pederastia.



02 julho 2012

A Luz das Mariposas

por Bernardo de Gregorio





“As mariposas queriam entender sobre a luz.
Elas desejavam saber o segredo de se sentirem
tão fascinadas pela chama de uma vela.
O que as deslumbrava? Seria a luz ou o calor?”



O teatro tem origem nos ritos a Dioniso, o deus grego das festas e do vinho. Com uma origem bem mais antiga do que a cultura helênica clássica, Dioniso foi provavelmente uma divindade importante desde o Neolítico e sua mitologia tem nítidas conexões com religiões matriarcais da Trácia e da Ásia Menor. Na Hélade, era então o deus do delírio místico (êxtase), sendo reverenciado em seu ritual típico conhecido como theatron, o que chamamos de “teatro”. O termo deriva do Grego theaomai: olhar com atenção, perceber, contemplar. Este tipo especial de olhar não se refere a “ver” no sentido comum, mas sim a se ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto. O teatro sempre foi uma atividade de caráter religioso e o objetivo era exaltar a glória e o poder das divindades. As encenações teatrais gregas referiam-se invariavelmente ao deus protetor das vindimas (oinos), deus da celebração da vida (orgia) da alegria de viver (enthousiasmos), da loucura sagrada (mania) e guardião do portal do mundo do espírito (ekstasis).

Numa espécie de procissão chamada “ditirambo”, o sacerdote de Dioniso chamado iaco, encarnado na figura do corifeu, cantava empunhando o tirso (bastão sagrado), uma história mais ou menos improvisada e como resposta, um refrão tradicional era cantado pelo coro. O coro representava as mulheres da Trácia que foram as principais adoradoras de Dioniso, conhecidas como “mênades”, em Grego, ou “bacantes”, em Latim: as “loucas de Dioniso”. Embriagadas ou possuídas, essas mulheres lançavam sobre si cinzas e pó e refugiavam-se em locais ermos, em contato com a natureza selvagem e com o deus silvano que coabita com sátiros e ninfas. Há várias referências de grupos femininos que perambulavam pelas montanhas e bosques num estado de permanente frenesi, alimentando-se de ervas, bagas silvestres e leite de cabra, porém segundo senso comum, sendo alimentadas pelo próprio Dioniso. A origem psico-sociológica deste comportamento provavelmente derivasse de uma reação à exclusão cada vez maior das mulheres da vida coletiva, uma espécie “vingança” do feminino coletivo contra o patriarcado. O afastamento voluntário e a conseqüente entrega a um estado de possessão, seguidos de um tremor báquico, onde embriaguez e a devoração de animais se intercalavam, atuavam como uma terapia à sua crescente marginalização. Diga-se que essa bizarria não passou despercebida aos médicos e sociólogos gregos daquela época, que a definiam como uma forma de loucura: o “coribantismo”. O atingido por tal loucura via estranhas figuras, ouvia o som de flautas e caia num profundo paroxismo, sendo atacado por um furor irresistível de dançar. Portanto, o culto dionisíaco conservou, como um componente essencial, essas explosões imprevisíveis, anárquicas e passionais, que fizeram com que Nietzsche as identificasse como as autênticas manifestações de uma vitalidade aprisionada pela moral, pelo preconceito e pela razão.

A fixação dos ditirambos na forma do rito teatral se deu com o chamado “ritual do bode” (tragoidia), onde o animal sagrado de Dioniso, o bode (tragos), era sacrificado para expiar os pecados da cidade (“bode expiatório”). Mais tarde, o bode foi substituído pela personagem principal do drama: o protagonista. Na visão de Aristóteles, um dos primeiros a estudar o impacto dos espetáculos teatrais, a tragédia seria “uma representação imitadora de uma ação séria, concreta, de certa grandeza, representada, e não narrada, por atores em linguagem elegante, empregando um estilo diferente para cada uma das partes, e que, por meio da compaixão e do horror provoca o desencadeamento liberador de tais afetos”. Aristóteles não se preocupou em estabelecer qualquer teoria sobre a tragédia nem se concentrou nos aspectos técnicos do espetáculo, mas no comportamento do público. Concluiu que o espetáculo trágico para realizar-se como obra de arte deveria sempre provocar a katharsis, isto é: a purgação das emoções dos espectadores. “Katharsis” significa purificação, limpeza, processo fundamental da estrutura da tragédia. Assistindo às terríveis dilacerações do herói trágico, sensibilizando-se com o horror que o drama apresenta, sentindo uma profunda compaixão pelo infortúnio que o destino reserva ao herói, o público passa por uma espécie de exorcism o coletivo. Atribui-se a concepção de Aristóteles, que associa a tragédia à purgação, ao fato de ter ele sido médico, o que teria contribuído para que entendesse a encenação dramática como uma espécie de remédio da alma, ajudando as pessoas do auditório a expelirem suas próprias dores e sofrimentos ao assistirem o desenlace.

Como não poderia deixar de ser, perante uma celebração tão subversiva dos costumes, houve enorme resistência por parte de reis e dos sacerdotes na aceitação do novo culto, tal qual se vê na peça “As Bacantes” de Eurípides. Com o decorrer do tempo, Dioniso tornou-se, no entanto, cada vez mais “respeitável”. As festas dionisíacas transformaram-se num ritual cada vez mais organizado e disciplinado, recebendo uma cuidadosa atenção das autoridades civis e religiosas. Até que Apolo, o deus símbolo da racionalidade, da beleza e da inteligência, estendeu finalmente seus braços para Dioniso, transpondo uma esquematização para a encenação teatral e podemos afirmar que a tragédia (tragoidia), como espetáculo, era a domesticação apolínea dos desregramentos de Dioniso. O consciente dominando o inconsciente, o racional subordinando o temerário, o Sol desvelando a Treva, o civilizado contendo o selvagem. Ao reproduzir frente ao público o inesperado, o passional, imaginava-se conter Dioniso, domesticando-o. Por isso entende-se a observação de Nietzsche que afirmou que “os gregos foram obrigados a erguer dois altares na encenação teatral: um para Apolo e o outro a Dioniso”. Este é o processo da catarse: se o expectador consegue identificar-se com as personagens apresentadas no theatron, tomadas pela loucura, ele encontra uma via de saída para seus impulsos mais primitivos, colocando-se assim a salvo deles e ao mesmo tempo expressando-os, sem jamais reprimi-los.

A música, a dança e o uso de psicotrópicos induzem a um estado alterado de consciência. Nesse estado, o impulso inconsciente mais profundo que é expresso é o sair de si em direção ao espírito (ekstasis, “estar fora de si”), numa superação da condição humana, num mergulho em Dioniso e nesta sua transcendência pelo processo de entusiasmo (enthousiasmos, isto é, “descobrir o deus interior”). O homem, simples mortal, em êxtase e entusiasmo, comunga com a imortalidade, tornando-se um herói que ultrapassa a medida de cada um (métron). O arquétipo aqui é o “Louco”, Arcano Maior sem número do Tarot, que tanto pode ser o primeiro como o último da seqüência do baralho. A representação de Dioniso é a do andarilho errante, do bufão, do monge trapista e, em última análise, do Inconsciente Coletivo. Simboliza o ser humano que não sabe de onde vem, por que veio ou pra onde vai. Sente apenas o misterioso impulso que o impele a se atirar na vida, para vencer a qualquer preço, aventurar-se mesmo sem razões ou porquês. Irracional em si, é impulsivo, irreverente e imaturo. Representa a ansiedade do homem em ir além de si mesmo, de se superar, de alcançar o que lhe escapa à lógica, de pagar para ver os resultados de seus atos impensados. Sem apego e sem raízes, ele parte em busca do que o fascina no momento, mesmo que lhe custe o abandono dos seus afetos. Caminhar sem saber para onde vai não chega a ser um problema, pois não mede esforços para chegar aonde seu espírito chama. Ele incomoda a sociedade por não respeitar os convencionalistas ou a ética. Com sua imagem descomprometida, tenta sempre chocar os valores vigentes. O Louco carrega em si tanto a sabedoria como a ignorância. Ele é rei e mendigo, anda por toda parte e nada o retém. Conhece de tudo um pouco e não personifica nada. Com isso, detém todas as possibilidades. Porque o Louco encerra os pólos opostos de energia, é impossível segurá-lo: no momento em que cuidamos haver-lhe captado a essência, ele se transforma ladinamente no seu oposto e tripudia, escarnecendo às nossas costas. Todavia, é justamente a ambivalência e a ambigüidade que o tornam tão criativo.

Desta forma, o rito dionisíaco clássico consistia de festividades que tinham caráter itinerante, vagando de cidade em cidade. Quando o sacerdote de Dioniso, iaco, chegava a uma nova cidade, era recebido pelo rei que lhe entregava o poder por três dias e três noites. Tipicamente havia três formas de celebração da vida e da divindade: 1) a sátira, espetáculos cômicos que eram celebrados pela manhã e que ensinavam a arte de rir da própria desgraça; 2) a tragédia, dramas terríveis que eram celebrados à tarde, à luz avermelhada do crepúsculo, e que revelavam a vida como o resultado do embate entre o destino e a cólera dos deuses e 3) a orgia, festa que era celebrada à noite e ensinava o êxtase e a alegria de viver. 

As tragédias sempre se baseiam numa mesma estrutura que as caracteriza. Tudo se inicia com a hýbris (demésure), ação em que uma personagem, o protagonista, insuflado por Dioniso, ultrapassa o métron que lhe dita Apolo e tenta ser mais do que realmente é. Tal qual as mariposas que são atraídas para a morte pelo brilho da luz, quando o protagonista ultrapassa o métron, seja acima ou abaixo dele, está tentando se equiparar aos deuses e receberá por parte deles a "cegueira da razão". A cegueira e a loucura acabará por vencer sua medida inúmeras vezes até que caia em si, prestes a conhecer um destino do qual não possa mais escapar, recebendo finalmente a nêmesis, a cólera dos deuses. A hýbris é o pecado que dá origem a toda ação e é comum a noção de que “os filhos pagarão pelos pecados dos pais”, criando sagas familiares onde maldições passam de geração a geração, até culminar com o aniquilamento de toda uma linhagem sanguínea. A questão da "medida de cada um" (métron) é recorrente na obra dos trágicos, mas trabalhada de forma diferente de acordo com a concepção de destino, seja ela religiosa, política ou psicológica. A punição inequívoca é o despedaçamento do protagonista: a destruição ou loucura de uma ou várias personagens sacrificadas por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Quando Eurípedes escreveu “As Bacantes”, tragédia que apenas estreou postumamente no Teatro de Dioniso de Atenas em 405 aC, ele colocou em cena a chegada do deus Dioniso à cidade e a partir daí, procurou problematizar a existência do inconsciente, ou seja, do auto-conhecimento. Dioniso é o deus da arte, o deus-espelho que reflete para as pessoas o que elas são e a partir de então, superado o horror inicial de se ver ao espelho, podem aceitar o que são e o que são os outros, podem aceitar o diferente em si em no outro. A partir do auto-conhecimento, é possível encontrar forças em si mesmo, desvelando-se o inconsciente e assim, não será mais necessário que os deuses controlem o mundo. Dioniso traz a liberdade do Olimpo para o nível telúrico: libertador e transcendente, invariavelmente aponta para o espírito. O “conhece-te a ti mesmo” délfico coloca-se assim totalmente transfigurado sob uma estética dionisíaca e torna-se a libertação extática trazida pela loucura de Dioniso. A partir das tragédias, começará a se desenvolver a filosofia socrático-platônica, que desenvolverá o conceito de alma, de que o homem só conhece o mundo quando conhece a si próprio, e de que o maior conhecimento é o conhecimento de si mesmo.
Já “Prometeu Acorrentado” de Ésquilo, datada entre 452 e 459 aC aproximadamente, apresenta-nos um drama vivido por deuses, onde o humano é mero objeto cênico. A tragédia fazia parte da trilogia composta pelas peças: “Prometeu Acorrentado”, “Prometeu Libertado” e “Prometeu Portador do Fogo”, e foi a única destas que permaneceu. Prometeu é “aquele que sabe antes”, o senhor da profecia, guardião das surpresas do futuro e é com este “saber antecipado” que prometeu desafia Zeus: um importante segredo ameaça o trono olímpico. Ele o conhece; Zeus, não.

Em “Prometeu Acorrentado” a dinâmica da theodikéia se quebra e a idéia da “justiça divina” é transposta: Prometeu se torna o benfeitor da humanidade, enquanto Zeus é denunciado como um tirano cruel e perverso. Prometeu é então antes de tudo um defensor da humanidade: moldando os humanos com barro e cinza dos titãs destruídos, criou a raça humana e dela cuidou, colocando até mesmo sua própria estabilidade em risco. Na abertura da peça, Prometeu alega ter ensinado aos homens as artes da civilização, como a escrita, a matemática, a agricultura, a medicina e a ciência. Prometeu ainda nos deu o bovino, colocando à nossa disposição o couro e a carne, consagrando a Zeus somente seus os e a gordura. Enraivecido e enciumado, Zeus emburreceu a humanidade, retirando de nós nossa essência. Aqui foi estabelecido o métron humano. Como compensação, só resta a Prometeu roubar o fogo dos deuses e o entregá-lo aos mortais. Aqui fica clara a hýbris.

“Tu me invejas!
Eu honrar a ti? Por quê?
Livras-te a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?
Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

“Prometheus”, Goethe (1774)


Mas o que é este fogo sagrado? Quem é este “Prometeu Portador do Fogo”? O fogo sagrado não pode ser outra coisa se não a consciência, luz flamejante que separa o humano dos animais. Desde tempos muito remotos o homem venerou o fogo sobre todos os demais elementos e até o mais inculto selvagem reconheceu na chama alguma semelhança com o fogo que ardia na sua própria alma e, mesmo que a misteriosa energia estivesse muito além de sua capacidade de análise, pôde sentir seu poder. Conhecer o mundo, conhecer-se no mundo e conhecer-se a si mesmo: eis o destino humano que nos foi dado por Prometeu. Amansando a chama, aquele que estava até então desguarnecido, adquiriu um tesouro que não só lhe valeu sob o ponto de vista material, mas também em seu aspecto mais sutil: o espiritual. Fogo Sagrado não é apenas o fogo físico, mas também e sobretudo, o fogo celeste, intelectual, interior: a inteligência e a consciência. Sendo assim, Prometeu deu a conhecer aos homens o bem e o mal e, por esta razão, vemos que em todos os mitos os deuses castigam o homem por seu afã de saber. 

Prometeu é então o “Portador do Fogo”, assim como Lúcifer é o “Portador da Luz”. Este é o ser divino que inevitavelmente brilha “como a uma candeia que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a Estrela d’Alva (Lúcifer) surja em vossos corações” (Pedro 1:19). Os judeus o chamam de Heilel ben-Shachar, onde heilel significa “Vênus” e ben-shachar significa "o luminoso, filho da manhã". Interessante observar que o próprio Jesus Cristo é também a estrela da manhã que ilumina até o fim dos tempos toda escuridão, como em Apocalipse 22:16 onde está escrito: "eu, Jesus, enviei o meu anjo. Ele atestou para vocês todas essas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de David, sou a estrela radiosa da manhã". Igualmente, a serpente do Éden também é a portadora desta mesma consciência: aquela que traz o fruto da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” (Gên 2:9, 16, 17; 3:1-24). A serpente ígnea nos apresenta a imagem do Logos Criador, o “fogo serpentino” que dorme enroscado três vezes e meia dentro do chacra Muladhara, situado no osso coccígeo. Lúcifer ainda guarda uma identificação com manas, a mente dual, a inteligência espiritual que habita em todos os homens. Deste ponto de vista, tanto é o divino que aceita voluntariamente cair na matéria, como também é o agente que foge por si mesmo da animalidade e resgata-se para uma vida superior, sendo ao mesmo tempo o tentador e o verdadeiro redentor interno de cada um. "Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo" (Isaías 14:12-15).

Nietzsche considera que o mito de Prometeu tem a mesma significação característica que o mito do pecado original. Fica claro no mito de Prometeu o valor incalculável que o fogo representa para o homem ingênuo, mas por esse fogo ter sido fruto de um roubo, torna-se um sacrilégio cometido contra a natureza divina, um crime de lesa-majestade. Estabelece-se, portanto, uma indissolúvel contradição entre homem e deus e isso vai marcar cada cultura. Na cultura judaico-cristã, o pecado original é resultado da curiosidade, sedutibilidade e cobiça feminina. Na tradição greco-romana o pecado é ativo, sendo identificado como a virtude prometéica, como afirma Nietzsche em “O Nascimento da Tragédia”: “na heróica impulsão do singular para o geral, na tentativa de ultrapassar o encanto da individuação e de querer ser ele mesmo a única essência do mundo, padece ele em si da contradição primordial oculta nas coisas, isto é, comete o sacrilégio e sofre. Assim, os árias entendem o sacrilégio como homem e os semitas entendem o pecado como mulher”. E continua: “o Prometeu esquiliano é, nessa consideração, uma máscara dionisíaca, ao passo que, no profundo pendor para a justiça antes mencionado, Ésquilo trai, ao olho penetrante, e sua descendência paterna de Apolo, o deus da individuação e dos limites da justiça. E assim, a dupla essência do Prometeu esquiliano, sua natureza a um só tempo dionisíaca e apolínea, poderia ser do seguinte modo expressa em uma formulação conceitual: ‘tudo o que existe é justo e injusto e em ambos os casos é igualmente justificado’ ”.

De qualquer forma que se olhe, Prometeu é sempre a encarnação da hýbris humana, o motor de uma evolução do mortal em direção ao divino, a essência do transcendente. Neste sentido, Prometeu e Dioniso se igualam. Os órficos foram os primeiros a ensinar que todos os deuses se resumiam a um só, embora existisse uma dupla crença em duas entidades universais: por um lado, Dioniso, aquele que apagava toda a mancha de pecado; por outro lado, Apolo, aquele que libertava do corpo, uma vez que todo o corpo é um túmulo. Temos então uma oposição central que toma como referência as divindades superiores da Antiguidade grega: Apolo e Dioniso. O rito frenético de Dioniso, executado pelas bacantes, reflete a originalidade do deus no panteão bem comportado da religião estatal grega. O Orfismo oscila entre Dioniso, que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, que corrigia os excessos e os desvarios dionisíacos. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte, mas no Orfismo o êxtase dionisíaco é individual por princípio. De Apolo, herdou uma componente da katharsis; ou seja, da purificação, tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos. Os órficos purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer. Ainda em “O Nascimento da Tragédia”, Nietzsche retoma esta dualidade, demonstrando que o apolíneo e o dionisíaco são conceitos antitéticos, mas de uma espécie dialética necessária à existência de todos os homens: “a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco, tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio de lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas”.


A questão da transcendência requer então uma entidade libertadora que, à custa da própria liberdade, conceda à humanidade a libertação. Desta forma, Prometeu dá o fogo libertador aos humanos e é acorrentado ao penhasco; Lúcifer traz a luz da ciência e é aprisionado nas trevas. Dioniso é igualmente esta divindade redentora. Dioniso Zagreu, chamado "primeiro Dionísio" nos mistérios órficos, era filho de Zeus e Perséfone e foi despedaçado pelos gigantes de Hera, ou seja: é a alma criativa, a ligação com o inconsciente selvagem e original, que foi despedaçado pela moral, pelo logos. Zeus mandou que Sêmele engolisse o coração do deus morto, fazendo-a conceber o "segundo Dioniso", chamado “Zagreu Renato”: Dioniso, o “filho de Zeus”. Dioniso representa a integração do humano à natureza perdida, ao selvagem banido pela civilização. O canibalismo faz parte da História desde os primórdios da Humanidade e existiram muitas culturas em que ele foi considerado sagrado, fonte de poderes sobrenaturais, procedimento tabu e até mesmo método eficaz de saúde pública. Tal qual ocorria nos sacrifícios rituais primitivos comuns no período Neolítico da Pré-História, Jesus Cristo, outra divindade libertadora, também é simbolicamente morto a cada missa, seu corpo é esquartejado no símbolo do pão dividido e, juntamente com seu sangue, representado pelo vinho, ingerido por toda a comunidade de fiéis reunidos para a repetição ritual da Santa Ceia. A crucificação de Cristo é a confirmação deste simbolismo e o vinho aqui tem uma participação nada aleatória, constituindo uma referência direta aos ritos dionisíacos. Quem não reconhece o contexto antropofágico explicito na frase: “quem comer de minha carne e beber de meu sangue terá a vida eterna”? A idéia principal contida em todas as formas de canibalismo ao longo da História é que de alguma forma a vítima de um sacrifício ritual canibal viria a ressuscitar no ser daquele que consome sua carne. Foi assim com Cristo, foi assim com Zagreu, é assim com o protagonista trágico.

Desta forma, o sacrifício nos leva à demésure final, à hýbris absoluta e culmina com a transcendência rumo ao espírito. Como afirma Ernst Tugendhat, “ao invés de obedecer a valores supra-sensíveis, o homem cria seus valores, o que significa que a transcendência para o sentido da vida volta-se para o interior do próprio ser humano. Pode-se então, falar de uma ‘transcendência imanente’, quer dizer, de um ir além que precisamente não seria um ir a algo além do natural, mas um ir além do ser do homem. O mundo oferece ao homem o espelho em que deve mirar-se. Só no espelho do outro e de um outro reconhecido como igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. Assim se faz a experiência que só na medida em que se afirma o outro, esta afirmação vale a pena. O vislumbre espiritual consiste em graus sempre mais complexos desta simetria. O espírito dionisíaco é o espírito do universo inteiro, ainda antes de ser o que leva o homem à superação de si”.