02 julho 2012

A Luz das Mariposas

por Bernardo de Gregorio





“As mariposas queriam entender sobre a luz.
Elas desejavam saber o segredo de se sentirem
tão fascinadas pela chama de uma vela.
O que as deslumbrava? Seria a luz ou o calor?”



O teatro tem origem nos ritos a Dioniso, o deus grego das festas e do vinho. Com uma origem bem mais antiga do que a cultura helênica clássica, Dioniso foi provavelmente uma divindade importante desde o Neolítico e sua mitologia tem nítidas conexões com religiões matriarcais da Trácia e da Ásia Menor. Na Hélade, era então o deus do delírio místico (êxtase), sendo reverenciado em seu ritual típico conhecido como theatron, o que chamamos de “teatro”. O termo deriva do Grego theaomai: olhar com atenção, perceber, contemplar. Este tipo especial de olhar não se refere a “ver” no sentido comum, mas sim a se ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto. O teatro sempre foi uma atividade de caráter religioso e o objetivo era exaltar a glória e o poder das divindades. As encenações teatrais gregas referiam-se invariavelmente ao deus protetor das vindimas (oinos), deus da celebração da vida (orgia) da alegria de viver (enthousiasmos), da loucura sagrada (mania) e guardião do portal do mundo do espírito (ekstasis).

Numa espécie de procissão chamada “ditirambo”, o sacerdote de Dioniso chamado iaco, encarnado na figura do corifeu, cantava empunhando o tirso (bastão sagrado), uma história mais ou menos improvisada e como resposta, um refrão tradicional era cantado pelo coro. O coro representava as mulheres da Trácia que foram as principais adoradoras de Dioniso, conhecidas como “mênades”, em Grego, ou “bacantes”, em Latim: as “loucas de Dioniso”. Embriagadas ou possuídas, essas mulheres lançavam sobre si cinzas e pó e refugiavam-se em locais ermos, em contato com a natureza selvagem e com o deus silvano que coabita com sátiros e ninfas. Há várias referências de grupos femininos que perambulavam pelas montanhas e bosques num estado de permanente frenesi, alimentando-se de ervas, bagas silvestres e leite de cabra, porém segundo senso comum, sendo alimentadas pelo próprio Dioniso. A origem psico-sociológica deste comportamento provavelmente derivasse de uma reação à exclusão cada vez maior das mulheres da vida coletiva, uma espécie “vingança” do feminino coletivo contra o patriarcado. O afastamento voluntário e a conseqüente entrega a um estado de possessão, seguidos de um tremor báquico, onde embriaguez e a devoração de animais se intercalavam, atuavam como uma terapia à sua crescente marginalização. Diga-se que essa bizarria não passou despercebida aos médicos e sociólogos gregos daquela época, que a definiam como uma forma de loucura: o “coribantismo”. O atingido por tal loucura via estranhas figuras, ouvia o som de flautas e caia num profundo paroxismo, sendo atacado por um furor irresistível de dançar. Portanto, o culto dionisíaco conservou, como um componente essencial, essas explosões imprevisíveis, anárquicas e passionais, que fizeram com que Nietzsche as identificasse como as autênticas manifestações de uma vitalidade aprisionada pela moral, pelo preconceito e pela razão.

A fixação dos ditirambos na forma do rito teatral se deu com o chamado “ritual do bode” (tragoidia), onde o animal sagrado de Dioniso, o bode (tragos), era sacrificado para expiar os pecados da cidade (“bode expiatório”). Mais tarde, o bode foi substituído pela personagem principal do drama: o protagonista. Na visão de Aristóteles, um dos primeiros a estudar o impacto dos espetáculos teatrais, a tragédia seria “uma representação imitadora de uma ação séria, concreta, de certa grandeza, representada, e não narrada, por atores em linguagem elegante, empregando um estilo diferente para cada uma das partes, e que, por meio da compaixão e do horror provoca o desencadeamento liberador de tais afetos”. Aristóteles não se preocupou em estabelecer qualquer teoria sobre a tragédia nem se concentrou nos aspectos técnicos do espetáculo, mas no comportamento do público. Concluiu que o espetáculo trágico para realizar-se como obra de arte deveria sempre provocar a katharsis, isto é: a purgação das emoções dos espectadores. “Katharsis” significa purificação, limpeza, processo fundamental da estrutura da tragédia. Assistindo às terríveis dilacerações do herói trágico, sensibilizando-se com o horror que o drama apresenta, sentindo uma profunda compaixão pelo infortúnio que o destino reserva ao herói, o público passa por uma espécie de exorcism o coletivo. Atribui-se a concepção de Aristóteles, que associa a tragédia à purgação, ao fato de ter ele sido médico, o que teria contribuído para que entendesse a encenação dramática como uma espécie de remédio da alma, ajudando as pessoas do auditório a expelirem suas próprias dores e sofrimentos ao assistirem o desenlace.

Como não poderia deixar de ser, perante uma celebração tão subversiva dos costumes, houve enorme resistência por parte de reis e dos sacerdotes na aceitação do novo culto, tal qual se vê na peça “As Bacantes” de Eurípides. Com o decorrer do tempo, Dioniso tornou-se, no entanto, cada vez mais “respeitável”. As festas dionisíacas transformaram-se num ritual cada vez mais organizado e disciplinado, recebendo uma cuidadosa atenção das autoridades civis e religiosas. Até que Apolo, o deus símbolo da racionalidade, da beleza e da inteligência, estendeu finalmente seus braços para Dioniso, transpondo uma esquematização para a encenação teatral e podemos afirmar que a tragédia (tragoidia), como espetáculo, era a domesticação apolínea dos desregramentos de Dioniso. O consciente dominando o inconsciente, o racional subordinando o temerário, o Sol desvelando a Treva, o civilizado contendo o selvagem. Ao reproduzir frente ao público o inesperado, o passional, imaginava-se conter Dioniso, domesticando-o. Por isso entende-se a observação de Nietzsche que afirmou que “os gregos foram obrigados a erguer dois altares na encenação teatral: um para Apolo e o outro a Dioniso”. Este é o processo da catarse: se o expectador consegue identificar-se com as personagens apresentadas no theatron, tomadas pela loucura, ele encontra uma via de saída para seus impulsos mais primitivos, colocando-se assim a salvo deles e ao mesmo tempo expressando-os, sem jamais reprimi-los.

A música, a dança e o uso de psicotrópicos induzem a um estado alterado de consciência. Nesse estado, o impulso inconsciente mais profundo que é expresso é o sair de si em direção ao espírito (ekstasis, “estar fora de si”), numa superação da condição humana, num mergulho em Dioniso e nesta sua transcendência pelo processo de entusiasmo (enthousiasmos, isto é, “descobrir o deus interior”). O homem, simples mortal, em êxtase e entusiasmo, comunga com a imortalidade, tornando-se um herói que ultrapassa a medida de cada um (métron). O arquétipo aqui é o “Louco”, Arcano Maior sem número do Tarot, que tanto pode ser o primeiro como o último da seqüência do baralho. A representação de Dioniso é a do andarilho errante, do bufão, do monge trapista e, em última análise, do Inconsciente Coletivo. Simboliza o ser humano que não sabe de onde vem, por que veio ou pra onde vai. Sente apenas o misterioso impulso que o impele a se atirar na vida, para vencer a qualquer preço, aventurar-se mesmo sem razões ou porquês. Irracional em si, é impulsivo, irreverente e imaturo. Representa a ansiedade do homem em ir além de si mesmo, de se superar, de alcançar o que lhe escapa à lógica, de pagar para ver os resultados de seus atos impensados. Sem apego e sem raízes, ele parte em busca do que o fascina no momento, mesmo que lhe custe o abandono dos seus afetos. Caminhar sem saber para onde vai não chega a ser um problema, pois não mede esforços para chegar aonde seu espírito chama. Ele incomoda a sociedade por não respeitar os convencionalistas ou a ética. Com sua imagem descomprometida, tenta sempre chocar os valores vigentes. O Louco carrega em si tanto a sabedoria como a ignorância. Ele é rei e mendigo, anda por toda parte e nada o retém. Conhece de tudo um pouco e não personifica nada. Com isso, detém todas as possibilidades. Porque o Louco encerra os pólos opostos de energia, é impossível segurá-lo: no momento em que cuidamos haver-lhe captado a essência, ele se transforma ladinamente no seu oposto e tripudia, escarnecendo às nossas costas. Todavia, é justamente a ambivalência e a ambigüidade que o tornam tão criativo.

Desta forma, o rito dionisíaco clássico consistia de festividades que tinham caráter itinerante, vagando de cidade em cidade. Quando o sacerdote de Dioniso, iaco, chegava a uma nova cidade, era recebido pelo rei que lhe entregava o poder por três dias e três noites. Tipicamente havia três formas de celebração da vida e da divindade: 1) a sátira, espetáculos cômicos que eram celebrados pela manhã e que ensinavam a arte de rir da própria desgraça; 2) a tragédia, dramas terríveis que eram celebrados à tarde, à luz avermelhada do crepúsculo, e que revelavam a vida como o resultado do embate entre o destino e a cólera dos deuses e 3) a orgia, festa que era celebrada à noite e ensinava o êxtase e a alegria de viver. 

As tragédias sempre se baseiam numa mesma estrutura que as caracteriza. Tudo se inicia com a hýbris (demésure), ação em que uma personagem, o protagonista, insuflado por Dioniso, ultrapassa o métron que lhe dita Apolo e tenta ser mais do que realmente é. Tal qual as mariposas que são atraídas para a morte pelo brilho da luz, quando o protagonista ultrapassa o métron, seja acima ou abaixo dele, está tentando se equiparar aos deuses e receberá por parte deles a "cegueira da razão". A cegueira e a loucura acabará por vencer sua medida inúmeras vezes até que caia em si, prestes a conhecer um destino do qual não possa mais escapar, recebendo finalmente a nêmesis, a cólera dos deuses. A hýbris é o pecado que dá origem a toda ação e é comum a noção de que “os filhos pagarão pelos pecados dos pais”, criando sagas familiares onde maldições passam de geração a geração, até culminar com o aniquilamento de toda uma linhagem sanguínea. A questão da "medida de cada um" (métron) é recorrente na obra dos trágicos, mas trabalhada de forma diferente de acordo com a concepção de destino, seja ela religiosa, política ou psicológica. A punição inequívoca é o despedaçamento do protagonista: a destruição ou loucura de uma ou várias personagens sacrificadas por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Quando Eurípedes escreveu “As Bacantes”, tragédia que apenas estreou postumamente no Teatro de Dioniso de Atenas em 405 aC, ele colocou em cena a chegada do deus Dioniso à cidade e a partir daí, procurou problematizar a existência do inconsciente, ou seja, do auto-conhecimento. Dioniso é o deus da arte, o deus-espelho que reflete para as pessoas o que elas são e a partir de então, superado o horror inicial de se ver ao espelho, podem aceitar o que são e o que são os outros, podem aceitar o diferente em si em no outro. A partir do auto-conhecimento, é possível encontrar forças em si mesmo, desvelando-se o inconsciente e assim, não será mais necessário que os deuses controlem o mundo. Dioniso traz a liberdade do Olimpo para o nível telúrico: libertador e transcendente, invariavelmente aponta para o espírito. O “conhece-te a ti mesmo” délfico coloca-se assim totalmente transfigurado sob uma estética dionisíaca e torna-se a libertação extática trazida pela loucura de Dioniso. A partir das tragédias, começará a se desenvolver a filosofia socrático-platônica, que desenvolverá o conceito de alma, de que o homem só conhece o mundo quando conhece a si próprio, e de que o maior conhecimento é o conhecimento de si mesmo.
Já “Prometeu Acorrentado” de Ésquilo, datada entre 452 e 459 aC aproximadamente, apresenta-nos um drama vivido por deuses, onde o humano é mero objeto cênico. A tragédia fazia parte da trilogia composta pelas peças: “Prometeu Acorrentado”, “Prometeu Libertado” e “Prometeu Portador do Fogo”, e foi a única destas que permaneceu. Prometeu é “aquele que sabe antes”, o senhor da profecia, guardião das surpresas do futuro e é com este “saber antecipado” que prometeu desafia Zeus: um importante segredo ameaça o trono olímpico. Ele o conhece; Zeus, não.

Em “Prometeu Acorrentado” a dinâmica da theodikéia se quebra e a idéia da “justiça divina” é transposta: Prometeu se torna o benfeitor da humanidade, enquanto Zeus é denunciado como um tirano cruel e perverso. Prometeu é então antes de tudo um defensor da humanidade: moldando os humanos com barro e cinza dos titãs destruídos, criou a raça humana e dela cuidou, colocando até mesmo sua própria estabilidade em risco. Na abertura da peça, Prometeu alega ter ensinado aos homens as artes da civilização, como a escrita, a matemática, a agricultura, a medicina e a ciência. Prometeu ainda nos deu o bovino, colocando à nossa disposição o couro e a carne, consagrando a Zeus somente seus os e a gordura. Enraivecido e enciumado, Zeus emburreceu a humanidade, retirando de nós nossa essência. Aqui foi estabelecido o métron humano. Como compensação, só resta a Prometeu roubar o fogo dos deuses e o entregá-lo aos mortais. Aqui fica clara a hýbris.

“Tu me invejas!
Eu honrar a ti? Por quê?
Livras-te a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?
Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

“Prometheus”, Goethe (1774)


Mas o que é este fogo sagrado? Quem é este “Prometeu Portador do Fogo”? O fogo sagrado não pode ser outra coisa se não a consciência, luz flamejante que separa o humano dos animais. Desde tempos muito remotos o homem venerou o fogo sobre todos os demais elementos e até o mais inculto selvagem reconheceu na chama alguma semelhança com o fogo que ardia na sua própria alma e, mesmo que a misteriosa energia estivesse muito além de sua capacidade de análise, pôde sentir seu poder. Conhecer o mundo, conhecer-se no mundo e conhecer-se a si mesmo: eis o destino humano que nos foi dado por Prometeu. Amansando a chama, aquele que estava até então desguarnecido, adquiriu um tesouro que não só lhe valeu sob o ponto de vista material, mas também em seu aspecto mais sutil: o espiritual. Fogo Sagrado não é apenas o fogo físico, mas também e sobretudo, o fogo celeste, intelectual, interior: a inteligência e a consciência. Sendo assim, Prometeu deu a conhecer aos homens o bem e o mal e, por esta razão, vemos que em todos os mitos os deuses castigam o homem por seu afã de saber. 

Prometeu é então o “Portador do Fogo”, assim como Lúcifer é o “Portador da Luz”. Este é o ser divino que inevitavelmente brilha “como a uma candeia que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a Estrela d’Alva (Lúcifer) surja em vossos corações” (Pedro 1:19). Os judeus o chamam de Heilel ben-Shachar, onde heilel significa “Vênus” e ben-shachar significa "o luminoso, filho da manhã". Interessante observar que o próprio Jesus Cristo é também a estrela da manhã que ilumina até o fim dos tempos toda escuridão, como em Apocalipse 22:16 onde está escrito: "eu, Jesus, enviei o meu anjo. Ele atestou para vocês todas essas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de David, sou a estrela radiosa da manhã". Igualmente, a serpente do Éden também é a portadora desta mesma consciência: aquela que traz o fruto da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” (Gên 2:9, 16, 17; 3:1-24). A serpente ígnea nos apresenta a imagem do Logos Criador, o “fogo serpentino” que dorme enroscado três vezes e meia dentro do chacra Muladhara, situado no osso coccígeo. Lúcifer ainda guarda uma identificação com manas, a mente dual, a inteligência espiritual que habita em todos os homens. Deste ponto de vista, tanto é o divino que aceita voluntariamente cair na matéria, como também é o agente que foge por si mesmo da animalidade e resgata-se para uma vida superior, sendo ao mesmo tempo o tentador e o verdadeiro redentor interno de cada um. "Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo" (Isaías 14:12-15).

Nietzsche considera que o mito de Prometeu tem a mesma significação característica que o mito do pecado original. Fica claro no mito de Prometeu o valor incalculável que o fogo representa para o homem ingênuo, mas por esse fogo ter sido fruto de um roubo, torna-se um sacrilégio cometido contra a natureza divina, um crime de lesa-majestade. Estabelece-se, portanto, uma indissolúvel contradição entre homem e deus e isso vai marcar cada cultura. Na cultura judaico-cristã, o pecado original é resultado da curiosidade, sedutibilidade e cobiça feminina. Na tradição greco-romana o pecado é ativo, sendo identificado como a virtude prometéica, como afirma Nietzsche em “O Nascimento da Tragédia”: “na heróica impulsão do singular para o geral, na tentativa de ultrapassar o encanto da individuação e de querer ser ele mesmo a única essência do mundo, padece ele em si da contradição primordial oculta nas coisas, isto é, comete o sacrilégio e sofre. Assim, os árias entendem o sacrilégio como homem e os semitas entendem o pecado como mulher”. E continua: “o Prometeu esquiliano é, nessa consideração, uma máscara dionisíaca, ao passo que, no profundo pendor para a justiça antes mencionado, Ésquilo trai, ao olho penetrante, e sua descendência paterna de Apolo, o deus da individuação e dos limites da justiça. E assim, a dupla essência do Prometeu esquiliano, sua natureza a um só tempo dionisíaca e apolínea, poderia ser do seguinte modo expressa em uma formulação conceitual: ‘tudo o que existe é justo e injusto e em ambos os casos é igualmente justificado’ ”.

De qualquer forma que se olhe, Prometeu é sempre a encarnação da hýbris humana, o motor de uma evolução do mortal em direção ao divino, a essência do transcendente. Neste sentido, Prometeu e Dioniso se igualam. Os órficos foram os primeiros a ensinar que todos os deuses se resumiam a um só, embora existisse uma dupla crença em duas entidades universais: por um lado, Dioniso, aquele que apagava toda a mancha de pecado; por outro lado, Apolo, aquele que libertava do corpo, uma vez que todo o corpo é um túmulo. Temos então uma oposição central que toma como referência as divindades superiores da Antiguidade grega: Apolo e Dioniso. O rito frenético de Dioniso, executado pelas bacantes, reflete a originalidade do deus no panteão bem comportado da religião estatal grega. O Orfismo oscila entre Dioniso, que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, que corrigia os excessos e os desvarios dionisíacos. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte, mas no Orfismo o êxtase dionisíaco é individual por princípio. De Apolo, herdou uma componente da katharsis; ou seja, da purificação, tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos. Os órficos purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer. Ainda em “O Nascimento da Tragédia”, Nietzsche retoma esta dualidade, demonstrando que o apolíneo e o dionisíaco são conceitos antitéticos, mas de uma espécie dialética necessária à existência de todos os homens: “a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco, tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio de lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas”.


A questão da transcendência requer então uma entidade libertadora que, à custa da própria liberdade, conceda à humanidade a libertação. Desta forma, Prometeu dá o fogo libertador aos humanos e é acorrentado ao penhasco; Lúcifer traz a luz da ciência e é aprisionado nas trevas. Dioniso é igualmente esta divindade redentora. Dioniso Zagreu, chamado "primeiro Dionísio" nos mistérios órficos, era filho de Zeus e Perséfone e foi despedaçado pelos gigantes de Hera, ou seja: é a alma criativa, a ligação com o inconsciente selvagem e original, que foi despedaçado pela moral, pelo logos. Zeus mandou que Sêmele engolisse o coração do deus morto, fazendo-a conceber o "segundo Dioniso", chamado “Zagreu Renato”: Dioniso, o “filho de Zeus”. Dioniso representa a integração do humano à natureza perdida, ao selvagem banido pela civilização. O canibalismo faz parte da História desde os primórdios da Humanidade e existiram muitas culturas em que ele foi considerado sagrado, fonte de poderes sobrenaturais, procedimento tabu e até mesmo método eficaz de saúde pública. Tal qual ocorria nos sacrifícios rituais primitivos comuns no período Neolítico da Pré-História, Jesus Cristo, outra divindade libertadora, também é simbolicamente morto a cada missa, seu corpo é esquartejado no símbolo do pão dividido e, juntamente com seu sangue, representado pelo vinho, ingerido por toda a comunidade de fiéis reunidos para a repetição ritual da Santa Ceia. A crucificação de Cristo é a confirmação deste simbolismo e o vinho aqui tem uma participação nada aleatória, constituindo uma referência direta aos ritos dionisíacos. Quem não reconhece o contexto antropofágico explicito na frase: “quem comer de minha carne e beber de meu sangue terá a vida eterna”? A idéia principal contida em todas as formas de canibalismo ao longo da História é que de alguma forma a vítima de um sacrifício ritual canibal viria a ressuscitar no ser daquele que consome sua carne. Foi assim com Cristo, foi assim com Zagreu, é assim com o protagonista trágico.

Desta forma, o sacrifício nos leva à demésure final, à hýbris absoluta e culmina com a transcendência rumo ao espírito. Como afirma Ernst Tugendhat, “ao invés de obedecer a valores supra-sensíveis, o homem cria seus valores, o que significa que a transcendência para o sentido da vida volta-se para o interior do próprio ser humano. Pode-se então, falar de uma ‘transcendência imanente’, quer dizer, de um ir além que precisamente não seria um ir a algo além do natural, mas um ir além do ser do homem. O mundo oferece ao homem o espelho em que deve mirar-se. Só no espelho do outro e de um outro reconhecido como igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. Assim se faz a experiência que só na medida em que se afirma o outro, esta afirmação vale a pena. O vislumbre espiritual consiste em graus sempre mais complexos desta simetria. O espírito dionisíaco é o espírito do universo inteiro, ainda antes de ser o que leva o homem à superação de si”.



27 maio 2012

The Alchemy of Love

You come to us
from another world

From beyond the stars
and void of space.
Transcendent, Pure,
Of unimaginable beauty,
Bringing with you
the essence of love

You transform all
who are touched by you.
Mundane concerns,
troubles, and sorrows
dissolve in your presence,
Bringing joy
to ruler and ruled
To peasant and king

You bewilder us
with your grace.
All evils
transform into
goodness.

You are the master alchemist.

You light the fire of love
in earth and sky
in heart and soul
of every being.

Through your love
existence and nonexistence merge.
All opposites unite.
All that is profane
becomes sacred again.






Você chegou até nós
de outro mundo

De além das estrelas
e vazio do espaço.
Transcendente, Puro,
De uma beleza inimaginável,
Trazendo com você
a essência do amor

Você transforma tudo
que toca.
Preocupações mundanas,
problemas e tristezas
se dissipam em sua presença,
trazendo alegria
ao governante e governado
Para o camponês e para o rei

Você confundir-nos
com sua graça.
Todos os males
se transformam em
bondade.

Tu és o mestre alquimista.

Você acende o fogo do amor
na terra e no céu
no coração e na alma
de cada ser.

Através de seu amor,
existência e não existência fundem.
Todos os opostos se unem.
Tudo o que é profano
torna-se sagrado novamente.

22 abril 2012

O Mundo do Crack


Marcelo dos Santos Clemente, de 27 anos, que trabalhou durante sete meses na Cracolândia, em São Paulo, e que morreu subitamente.

Com cenas impressionantes do submundo do crack, o jornalístico da Record usou relatos de um médico, formado na USP (Universidade de São Paulo), mas que dedicou parte de sua vida a salvar outras vidas.
A reportagem demorou três meses para ser realizar. O trabalho de qualidade foi reconhecido pelos telespectadores da Record.

Assista na íntegra:


27 dezembro 2011

A TRANSIÇÃO PLANETÁRIA



Estamos ultrapassando um ciclo evolutivo, e temos que estar preparados para o Novo Mundo que está para surgir, exatamente como a crisálida está para a lagarta e para a borboleta: mais do que um envelope protetor, a crisálida representa um estado eminentemente transitório entre duas etapas do devenir, a duração de uma maturação. Implica a renúncia a um certo passado e a aceitação de um novo estado, condição de realização. Frágil e misteriosa, como uma juventude cheia de promessas, a crisálida inspira respeito, cuidados e proteção. Ela é o futuro imprevisível que se forma.

Não, o mundo não vai acabar em 21 de Dezembro de 2012! A atual Transição planetária ocorre num processo que engloba aproximadamente de 1980 a 2020, quando o planeta Terra e sua humanidade estão sujeitos a grandes transformações. Estas transformações encontram-se em seu auge. 21 de Dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo definido pelo Calendário Maia e esta apenas marcará a transição deste cilco para um novo: o fim da ênfase materialista da civilização ocidental.

Mais antiga das civilizações pré-colombianas, os Maias floresceram entre os séculos II e IX da nossa Era, ocupando as planícies da Penísula de Yucatán, onde hoje fica o México, quase toda a Guatemala, a parte ocidental de Honduras, Belize e regiões limítrofes. Eles constituíam povos que falavam línguas aparentadas e elaboraram uma das mais complexas e influentes culturas da América. Enquanto a Europa mergulhava na Idade das Trevas, os habitantes da América Central estudavam astronomia, tinham dois calendários - um solar de 365 dias, o Haab, e um sagrado de 260 dias, o Tzolkin - e um sofisticado sistema de escrita por hieróglifos. Por volta do ano 900, o antigo império Maia começou a sofrer um declínio de população, e seus suntuosos centros urbanos foram abandonados por motivos até hoje misteriosos. Seus habitantes voltaram à vida simples nas aldeias no campo, onde seus descendentes vivem até hoje.

O que você acharia se alguém lhe dissesse que Deus está no centro da galáxia, de onde emite ordens que nos são transmitidas através dos raios solares? Essa era a idéia que os maias faziam de Deus, a quem chamavam de Hunabku - e diziam ser a energia radiante existente no núcleo da Via Láctea. Segundo eles, Hunabku se comunicaria com a Terra pela radiação galáctica transmitida para nós através do Sol. O Sol, portanto, não seria apenas a fonte e o sustentáculo da vida, mas também o mediador da informação que chega até ele de outros sistemas estelares através da energia radiante. A data do próximo Solstício de Verão Austral é tão importante para os maias porque nela haverá a perfeita conjução do nosso Sol com este centro da galaxia, do ponto de vista terrestre.

Esse povo da América Central acreditava em ciclos recorrentes de criação e destruição e pensavam em termos de eras que duravam cerca de 1.040 anos. Para eles, nós estamos vivendo na quarta era do sol - sendo que, antes da criação do homem moderno, existiram três eras anteriores. Segundo a cronologia Maia, a era atual começou em 10 de agosto de 3113 a.C. (data que marca o Nascimento de Vênus), e deve terminar em 22 de dezembro de 2012, quando esta estrela "morrerá" simbolicamente, ou melhor, desaparecerá por trás do horizonte ocidental, no mesmo instante em que as Plêiades nascerão a leste. Mas "o tempo dos Maias não era imediatista. As transformações não vão acontecer de uma hora para outra. Elas já vêm acontecendo desde 1988", diz Beuttenmüller, especialista em profecias maias.

Assim, 2012, ano que assinala para a humanidade o início de um período de regeneração, com o surgimento de tecnologias não-materialistas e ecologicamente harmônicas. O problema do mundo não é de falta de recursos financeiros ou de recursos naturais, e sim a má distribuição. Essas diferenças sociais brutais têm apenas uma única causa que as gerou e que as sustenta: o ego! Somente com os recursos gastos no mundo anualmente com armamentos, daria para todos os cidadãos do planeta possuir casas, alimentos, educação e assistência médica. É dessa forma que o homem conduz seu mundo e é esta forma de conduzi-lo que gera violência, alienação, desequilíbrio ecológico, pobreza, doença e sofrimento. Tudo absolutamente evitável!

Hoje em dia, a grande doença do consumo e da tecnologia envenenaram o mundo e as pessoas: a Babilônia descrita no Apocalipse. Mais do que nunca o homem está isolado dentro de um corpo e se sente apenas um ego. Deixa-se guiar pela Ciência: não há vida após a morte e acredita que só esta vida e esta experiência é a realidade total, fazendo tudo apenas para seu ego. Vive para engrandecer este ego. Somos um conjunto de egos lutando e pisando uns nos outros, competindo para sermos os melhores, os maiores e fazermos sucesso.

O mundo vai mudar. De um jeito ou de outro, mas irá mudar... Todos sonham com um mundo melhor, com um mundo de paz, fartura e felicidade para todos. Mas é fundamental saber que este novo mundo começa a ser construído pelo ponto básico: você! E a melhor maneira de transformar-se a si mesmo e, em consequência, o mundo, é abrir mão do ego: romper a sua casca, dirigir sua vida para o despertar de sua consciência interior. Desapego é o lema! O apego é uma das maiores ilusões da vida terrena e é uma das fontes de maior sofrimento. Quanta dor, quantas lágrimas por nada! Libertemo-nos! Sejamos livres no Desapego! Exercitemos o desapego das coisas materiais, das ilusões emocionais, dos rancores, das mágoas, de tudo aquilo que nos aprisiona.

O Apocalipse começa e termina dentro de cada um: assim como vêm o dia e a noite. A transformação deverá ocorrer em todos os sentidos mas a principal é aquela que deverá ocorrer dentro do Ser Humano. Em 2012, cultive CONTETAMENTO E SAÚDE!




16 dezembro 2011

Léolo


"Parce que moi je rêve,
moi je ne suis pas..."





"Rêver comme un beau garçon.
Rêver sous l'alouette.
Rêver, moi, toujour je rêve,
c'est pour ça que je ne suis pas...

Rêver, j'y adore souvent.
Rêver, beaucoup meilleur que la vie.
Rêver, moi, tout le jour je rêve,
c'est pour ça que je ne suis pas...

Je ne suis pas pauvre (assai),
je ne suis pas fou (ormai),
et je ne suis pas mort encore...

C'est que je suis trés impacient:
je suis jeune, je suis drôle,
mais moi, je ne suis pas..."




Leo, ou Leolo como prefere ser chamado, é um garoto solitário e sonhador, apaixonado pela Itália. Ele também admira muito seu irmão mais velho, um fisiculturista tão grande quanto frágil, e sua sensual vizinha, com quem sonha situações um tanto ousadas para a sua pouca idade.




01 dezembro 2011

Neste fim de ano: BRINDE COM ÁGUA




Em algumas culturas é considerado ofensivo brindar-se com água. Nada mais injusto para com este líquido que com certeza é o mais importante líquido deste planeta. Nenhum outro líquido dito hidratante faz esse papel com tanta eficiência. Sim! Cuidar da saúde do seu corpo começa com um simples copo d'água.

Não é preciso sentir sede para beber água, sede é sinal de desidratação! Quando ocorre uma ingestão insuficiente ou perda excessiva de água, o organismo responde reabsorvendo mais água, por isso pessoas que bebem pouca água vivem com retenção de líquidos. Vários mecanismos atuam em conjunto para manter o equilíbrio hídrico do organismo. Um dos mais importantes é o mecanismo da sede. Para um adulto em condições normais, a recomendação de ingestão de água é de 35ml/kg de peso corporal, ou 2 a 2,5 litros de água por dia.

Não é necessário o consumo de água engarrafada; o consumo de água tratada e purificada é também, por si só, excelente, por ser um consumo responsável da água, eliminando grande parte dos impactos ambientais da produção das embalagens, seu transporte e disposição final. O plástico tem como matéria-prima o petróleo e o gás natural, dois recursos não renováveis. Além disso, são usadas mais de 1,5 milhões de toneladas de plástico só para fabricar garrafas de água. O plástico liberta algumas toxinas e, contrariamente ao que muitos pensam, algumas substâncias podem ser mais difíceis de controlar na garrafa do que na torneira, uma vez que estas se armazenam durante períodos mais longos e a temperaturas mais altas, aumentando até níveis tóxicos a concentração de microorganismos que em pequenas concentrações não são prejudiciais à saúde.

A água é considerada como purificadora na maioria das religiões, incluindo o Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Xintoísmo e Wicca. O exemplo do batismo nas igrejas cristãs é praticado com água, simbolizando o nascimento de um novo ser, purificado com remissão dos pecados. Verifica-se que, nas mitologias politeístas, os deuses vinculados à água — Yemanjá, Vishnu, Enki e Poseidon (Netuno), para citar alguns exemplos —, em regra, possuem mais seguidores, gozam de maior prestígio ou ocupam graduação mais elevada em relação às demais divindades representantes de outros fenômenos naturais. Seguindo um princípio semelhante, em outras religiões, incluindo o Judaísmo e o Islamismo, é ministrado aos mortos um banho de água purificada, simbolizando a passagem para a nova vida espiritual eterna.

Além de tudo isso, qual a vantagem mesmo dos demais “líquidos brindantes” sobre a água? O álcool, seja ele sob forma fermentada ou destilada, ao contrário da água, promove uma desidratação do corpo, aumentando em muito a diurese, além dos evidentes efeitos psíquicos, que tanto prejudicam os relacionamentos sociais, familiares e causa déficit na coordenação motora, o que muito freqüentemente leva a acidentes.

Ah sim! Há o tal do “status”. Status é comprar coisas que você não quer, com o dinheiro que você não tem, a fim de mostrar para gente que você não gosta, uma pessoa que você não é. O conteúdo do seu copo na hora do brinde não há de definir quem de fato você é. E se formos definir uma pessoa pelo “líquido brindante” que utiliza, a água com certeza absoluta é o mais nobre dos brindes. Chique é ser simples. Pense nisso.

Você precisa saber!

· A proporção de água no seu corpo é a mesma da água do planeta terra, ou seja, 70%.

· Na terceira idade a porcentagem de água do nosso corpo cai para até 55%.

· Um bebê deve ingerir 150 ml de água por quilo do seu peso, já as crianças devem beber 55 ml por quilo do seu peso.

· Os processos fisiológicos do seu corpo usam em torno de 3 litros de água por dia.

· A respiração elimina em torno de 4 copos e a transpiração mais 2 copos.

· Em torno de 1,5 litros de água passam por cada um dos seus rins diariamente.

· Seus pés liberam em média meio copo d'água por dia.

· O seu cérebro é composto por 75% de água.

· Os alimentos são responsáveis por fornecer 40% da água para o corpo.

· O seu organismo elimina cerca de 10 copos de água por dia.



25 outubro 2011

"The Jaeger"

























(by Bernardo de Gregorio)





The jaegers had flown upon the coast
hunting for someone who could the most
end the pain within the oldest chest
- of this lonely and forgotten rest.

Once they were many among the ghosts,
never one, never lone, never frost,
ever flying, believing their will
- will finally reach the goal to fulfill.

I am the very last jaeger left
- desperate through the ravens' thrill
- and the eerie sounds of their kill.
- Will I succeed? Could I be the best?

Left aside, left behind, left alone
over dead lands and the dried swamps.
Very one who dared to go on,
even hesitant, confident nevertheless...




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22 julho 2011

O Desenvolvimento da Personalidade




por Bernardo de Gregorio


Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta






Segundo Sigmund Freud e, em especial, segundo seu discípulo Wilhelm Reich (com o qual eu me identifico muito mais do que com o "Pai da Psicanálise"), existem fases bem marcantes do desenvolvimento da personalidade que ocorrem desde o nascimento (ou ainda intra-útero) até mais ou menos a idade de 5 ou 6 anos. Todo este desenvolvimento está baseado na idéia de prazer e desprazer, aliás, pode-se dizer que de certo modo toda a vida humana se baseia nestes dois conceitos subjetivos. Compartilham destas idéias pesquisadores como Carl Gustav Jung e Melanie Klein, também discípulos de Freud. Diferenças de nomenclatura e de alguns conceitos há, é certo, mas com idéias centrais sobre o desenvolvimento da personalidade bem similares. Desta forma, fala-se de libido, como forma de expressão desta busca de prazer, fazendo-se inevitavelmente associações sexuais. É claro que a sexualidade e a libido não são vivenciadas por uma criança da mesma forma com que os adultos o fazem. Pensar assim seria um absurdo! Porém o impulso sexual nascente existe e está lá desde muito antes do nascimento, como esta eterna busca pelo prazer que marca cada um de nós, Seres Humanos.



Imaginemos um feto vivendo em seu mundo líquido lá no útero. Tudo é prazer! Nada o incomoda: não há frio, não há fome, não há sede, não há mundo exterior. O feto está envolto em uma vivência de eterna felicidade, ele está no paraíso, por assim dizer. Nenhum esforço, nenhum problema, apenas sonhos idílicos e delicados em tons lilases. Uma grande ruptura desta eternidade ocorre com o parto. O Parto talvez seja a maior de todas as crises que uma pessoa enfrenta em sua vida, apenas comparável à morte (talvez). Já no início do trabalho de parto a vivência paradisíaca é quebrada por desagradáveis contrações uterinas e o feto se sente rejeitado pela mãe-útero. Seu mundo está preste a ruir para todo o sempre. Com o nascimento propriamente dito, momentos de terrível desconforto são experienciados pela primeira vez: o contato frio e rude com o ar, a respiração que infla dolorosamente seus pulmões, a sensação de tato que fere sua pele delicada, a luz que agride seus delicados olhos, os sons que o aterrorizam. Condenado a viver daquele ponto em diante em um mundo hostil e rude, este recém-nascido terá que se alimentar até o último de seus dias para se manter vivo.

Inicia-se neste ponto a primeira fase do desenvolvimento da personalidade que é conhecida como “fase oral", onde a libido infantil se concentra na zona erógena da boca, representante físico da imperiosa necessidade de alimentação. Todo o mundo do bebê se resume na sensação de prazer total quando ele mama e se sente plenamente satisfeito. Mas sempre há a fome, que lhe traz aquela sensação de morte e destruição eminente. Pelas graças dos céus, há aquela entidade “supra-sensível” conhecida como “seio materno”, que evidentemente pode muito bem estar representada por uma mamadeira ou talvez pelo distante consolo de uma chupeta. Normalmente este ser, o “seio materno” vem acompanhado daquele agradável pulsar cardíaco que traz doces lembranças do útero, por aqueles odores conhecidos e reconfortantes, por aquela voz aconchegante. Mas o que fazer quando o tal “seio materno” não está lá? A única alternativa é chorar a plenos pulmões e padecer de uma angústia infinita. Para o bebê não há meios termos: ou ele está no céu, ou no inferno. Não existem nem o mundo externo, nem as demais pessoas e objetos que dele fazem parte. É uma vivência autista e extremista. Mais ou menos assim se passa primeiro ano de vida.



Por volta de 1 ano de idade o bebê já engatinha e começa andar. Assim, seu isolamento do mundo torna-se muito menor e o espaço se abre aos seus sentidos. Com a exploração do mundo à sua volta, aparecem também as primeiras regras, os "pode" e “não pode" desta vida e, com eles, as primeiras frustrações oriundas da funesta palavra "não". Nos saudosos tempos do berço o bebê jamais ouviu esta palavra desagradável que o perseguirá por toda sua vida. Como enfrentá-la? O problema aqui é que o bebê não tem a menor idéia do que é permitido e do que é proibido. Ele deve descobrir por si só e pelo método da tentativa e erro (na verdade muitos erros!). Um dos "não pode" mais importantes é a idéia de controle dos esfíncteres: fazer “cocô” no piniquinho "pode", em qualquer outro lugar (como no tapete da sala, por exemplo), "não pode". Como entender isso??? Este é um dilema insolúvel para todo Ser Humano nesta idade. Além disso, resolvido este primeiro enigma, outros imediatamente se apresentam: onde fazer “xixi”??? Como saber quais objetos "pode" (o chocalho, por exemplo) e quais "não pode" (o vaso Ming de estimação da mamãe, por exemplo, ou a convidativa tomada na parede da sala).

Frente a todo este complexo universo que se apresenta ao bebê de repente, entre uma crise existencial e outra, a criança acaba por deduzir que ele jamais aprenderá tudo isso. O bebê só faz "cagada" (literalmente): a mamãe o odeia, o papai tem vergonha dele, é uma criança feia e má. Sua única chance de sobrevivência é assumir esta inferioridade frente ao universo e tomar seu lugar no “hall” dos perdedores e fracassados. Esta é a fase anal masoquista: se a criança é punida, ela se sente confortável e de alguma forma imagina que realmente merece ser o objeto de todo este castigo divino. Com o tempo o “não” passa a soar como música aos seus ouvidos: a mamãe briga, mas esta é uma forma de obter atenção sobre este “miserável ser”. O papai ralha, mas neste momento ele existe frente a seus olhos. Que outro remédio a criança “feia e má” pode esperar deste mundo cruel? Ele curva sua coluna e recolhe à sua insignificância... Neste período, a zona erógena mais importante passa a ser o ânus. Esse tal esfíncter que o levou a desgraça e à ruína é o símbolo máximo de todo este processo e, evidentemente, o que sai dele: o “cocô”!



Mas, nem tudo é assim tão sombrio: um dia, mais cedo ou mais tarde, a criança aprende a maioria dos "pode" e "não pode" que seu mundinho doméstico possui. É chegada pois a hora da doce vingança! Agora a criança se transforma em "cri-onça" e parte para a tortura deliberada dos pais: uma revanche totalmente justa dos tempos de masoquismo. Como é divertido ver a mamãe gritando e arrancando os cabelos quando a gente finge que vai derrubar o vaso Ming! Como é deliciosamente eletrizante ver o papai desesperado quando a gente finge que vai se jogar do galho da árvore, sabendo que isso o preocupa! Mesmo que eles bronqueiem, intimamente a criança sabe quem está no controle da situação: ELA! A "cri-onça" é o centro das atenções familiares (por bem ou por mal!), a "cri-onça" manipula todos os seres do (seu) mundo, como um deus despótico e vil. Ela, e somente ela, possui o poder sobre o bem e o mal do mundo, sobre a felicidade de todos que a rodeiam. Este período de controle coincide com o controle perfeito dos esfíncteres (inclusive o “xixi” de noite) e é conhecido como fase anal sádica. Neste período, o ânus continua a ser a zona erógena principal, mas de outra forma: a retenção das fezes é que lhe dá a sensação de onipotência vivida como prazer, não mais a liberação. Evidentemente a urina também exerce o mesmo papel manipulador e aos poucos a criança descobre também a zona erógena genital.

Depois disso, dos 3 anos e meio aos 4 e meio, vem o que se chama de período pré-edípico, seguido pela fase edípica clássica ao redor dos 5 anos. Estas fases são bem mais complexas do que as anteriores e é aqui que haverá a separação dos gêneros masculino e feminino e a formação da identificação com um deles e o contato com os impulsos hetero e homossexuais. Resumidamente, por não ser de tanto interesse aqui, podemos dizer que os meninos rapidamente descobrem que possuem um “pipi”. O papai também tem, mas a mamãe não tem... Como pode ser isso? O “pipi” do papai lhe dá super-poderes extraordinários! Ele pode falar com aquela vozona grossa, ele é alto e forte. Até mesmo a mamãe, que também tem lá seus super-poderes, recua frente o poder do “pipi” do pai. Se o menino também tem um “pipi”(se bem que nada comparável com aquele lá do papai), ele também deve possuir esses super-poderes. Porque não usá-los para conseguir tudo o que quer? Mas como? Ora, exatamente como faz o papai: contra a mamãe. E assim o menino faz.

Totalmente seduzida e “domada” pelos poderes mágicos do “pipi”, a mamãe se torna dócil, meiga e gentil. A mamãe faz aquelas comidas gostosas, faz carinho e brinca bastante. Pena que de noite o papai volta lá do trabalho e tudo acaba, porque tem aquela coisa que se chama “hora de dormir”. O papai usa o poder do “pipi” dele p’ra expulsar o menino da presença da “fada madrinha” e o tranca lá naquele lugar escuro e chato chamado "quarto". O papai é assim como um “dragão malvado” que cospe fogo pela boca, um “gigante horroroso” e forte que leva a “fada madrinha” p’ra lá... O menino odeia o pai e ama a mãe.



Para a manina as coisas são diferentes: o papai possui um “pipi”, mas ela não... Ela é assim frágil e delicada como a mamãe. Por que? Ora, deve ser porque a mamãe fez alguma coisa errada com ela ou porque a mamãe cheia de inveja cortou o “pipi” dela fora. Que “bruxa malvada”! Ela tem que ficar ali o dia todo à mercê daquela “madrasta má” que faz torturas horríveis: penteia o cabelo da gente, coloca aqueles sapatos apertados e aquelas roupas com babados. A maldita “bruxa” também não deixa a gente fazer o que é legal e dá bronca o tempo todo! Mas de noite (ah de noite!) o papai volta lá do trabalho em seu cavalo branco e com sua grande espada acaba com o suplício da menina. O papai a coloca no colo e dá muitos beijos. O papai até lhe chama de “minha princesinha”. A menina odeia a mãe e ama o pai.

Mas num dia nefasto, tanto o menino quanto a menina se dão conta de um fato que até então havia lhes passado despercebido: o papai e a mamãe são casados! Isso significa que quando a criança está exilada lá no quarto, muitas coisas acontecem... Como coisas podem acontecer sem que ela, o centro do mundo, esteja presente??? Que horror! Ela não é o centro do mundo! O “gigante mau” é casado com a “fada madrinha”?!!! Ou por outra: a “bruxa má” é casada com o “príncipe encantado”?!!! Isso não pode ficar assim: a criança dará um jeito de destruir isso tudo! Ela usará tudo o que aprendeu lá na fase sádica anal, ela usará os recursos depressivos lá da fase anal masoquista e, se necessário for, até abrirá o berreiro no meio da noite, lembrando-se da fase oral. Vale tudo nessa guerra! Eis o Complexo de Édipo.

Mas a batalha é inglória: o papai está irremediavelmente casado com a mamãe... Mas, se o menino pensar bem verá que o papai “lá nas férias” até que é bem legal: o papai joga bola com a gente, o papai brinca de lutar, o papai conserta o carrinho que quebrou. A mamãe não faz nenhuma dessas coisas direito! Da mesma forma, a menina descobrirá que a mamãe faz coisas interessantíssimas: ela faz poções mágicas fantásticas no fogão, ela sabe usar maquiagem e perfumes sedutores, ela entende destas “coisas de mulher” que o papai não entende direito. O papai é meio abrutalhado e bobão... Desta forma, menino e menina percebem todos os pontos positivos e negativos de ambos o sexos e conseguem desenvolver uma percepção bem mais apurada dos gêneros humanos. No final das contas, a mamãe não é nem uma “bruxa má”, nem uma “fada madrinha”: ela é mulher! O papai não é nem o “dragão que cospe fogo pelas ventas”, nem o “príncipe valente”: ele é homem! Sendo assim, menino e menina adquirem a permissão de abrir mão dos estereótipos perfeitos e se assumirem tal qual são: com virtudes e defeitos, com prós e contras, como homem e mulher. É claro que ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas a semente está lançada.

Dependendo do que tenha ocorrido nesta épocas, nós podemos ter uma influência maior ou menor de cada uma destas fases e atuar a partir destas influências na idade adulta. Sim, porque dificilmente (para não dizer nunca) a vida de alguém transcorre às mil maravilhas como foi aqui descrito, não é mesmo? Sempre haverá uma falha de desenvolvimento aqui e outra ali que fará com que determinados mecanismos, típicos de cada uma destas fases, fiquem mais marcantes em nossa personalidade. Quando uma atuação de qualquer destas fases se dá na idade adulta de forma puramente inconsciente e neurótica, resquícios trazidos à tona inevitavelmente pela super-crise que se chama adolescência (ou “aborrecência”, como gosto de chamar estes “anos rebeldes”), sofreremos e faremos o mundo à nossa volta sofrer com nosso caráter. Mesmo depois de grandes, nós, réles mortais, vez ou outra nos deparamos com nossas porções neuróticas. Isso ocorre toda vez que está em jogo uma questão que envolve autoridade: no trabalho, frente ao policial que quer nos multar, com nossos subalternos, etc. Quando nos damos conta destes nossos (podemos dizer “ridículos”) impulsos primitivos, podemos canalizá-los para formas de expressão mais agradáveis e menos perigosas. Reprimi-las somente piora o caso! O mais aconselhável é a utilização da arte como via de expressão: qualquer atividade artística, sendo livre e criativa, é válida e aqui não importa a mínima se o resultado desta expressão artística é feio ou bonito, se faz sucesso ou não: o que importa é expressar o Inconsciente! Superar ou não estas “limitações” que trazemos da infância não tem a menor importância. O que importa é deixar fluir sua libido, sentir prazer, proporcionar prazer e ser feliz!