20 agosto 2010

Crise? Que Crise?



Bernardo de Gregorio
Psiquiatra e Psicoterapeuta





Hoje uma pessoa me disse que estava realmente em crise, mas em uma crise saudável. “Como assim?”, perguntei. E ela respondeu: “começando a recomeçar, fazendo as coisas por mim, tomando atitudes, falando o que penso e o que realmente quero, me colocando perante a vida e aquilo que é melhor para mim agora”. E eu digo que ela está certíssima: este é o tipo de crise que todo mundo deveria ter. No Brasil nos acostumamos com a palavra “crise” sempre associada a uma situação crônica, arrastada e depressiva. Porém, a palavra "krísis" em Grego significa "a hora de mudar", "momento decisivo". Literalmente “krísis” é “discernimento”, “luta”, “decisão” e “resultado”. Ou seja: crise pode ser muita coisa, mas não é algo arrastado, penoso e depressivo.

A Medicina Grega também se valia da palavra “krísis”, com mais ou menos o mesmo significado. O médico recebia um doente e com ele procedia à “anamnesis” (ou seja: “rememorar”, “lembrar”, “anamnese”), quando se procurava entender o processo pelo qual o indivíduo perdeu se equilíbrio natural e tornou-se doente. Em seguida, era feito o “diagnostikon” (ou seja: “ ver através”, “perceber através”, “diagnóstico”), quando o desequilíbrio era localizado e compreendido. O médico aguardava então a evolução da doença, instituindo ou não algum tratamento que colaborasse com o transcorrer do processo (“pródromos”), até que o momento crítico se apresentasse: o momento decisivo (“krísis”). Na crise o médico procedia ao ato da cura que poderia ser o uso de uma substância química (“phármakon”, ou seja: tanto “veneno”, quanto “remédio”), um ato mecânico com as mãos (“kheirourgía”, ou seja: “cirurgia”) ou ainda ambos associados. Depois da crise, que é o desfecho, a doença estava superada e apenas restava uma longa e importantíssima fase de recuperação caracterizada pelo que se conhecia em Grego como “therapeia” (ou seja: “cuidar com carinho”, “terapia”). Neste período os médicos ouviam os sonhos de seus pacientes e acompanhavam a evolução através do significado oculto que percebiam neles, indicavam uma série de atividades físicas e orientações alimentares chamados “díaites” (ou seja: “dieta”) e incentivavam mudanças nos hábitos que levaram aquela pessoa ao desequilíbrio, a “metamorphosis” (“transformação”).

O Chinês se escreve não propriamente com letras, mas com pequenos desenhos simplificados que se chamam “ideogramas”. Há um ideograma chinês que significa “crise” e que é formado pela junção dos ideogramas que querem dizer “perigo” e “oportunidade”. Para quem souber inovar, há um oceano de oportunidades descortinado pela crise. O perigo ronda, faz parte do processo, é certo; mas não se deve parar frente ao perigo, comentam os chineses. Uma crise é então o “ponto de mutação” e o “Ponto de Transição” (ou o "Retorno") é também o nome de um dos hexagramas do I Ching. I Ching ou Livro das Mutações, é um texto clássico chinês composto de várias camadas, sobrepostas ao longo do tempo. É um dos mais antigos e um dos únicos textos chineses que chegaram até nossos dias. Para o pensameno chinês, não há o que mude, há apenas o mudar e a mutação seria o caráter mesmo do mundo. Mas a mutação é, em si mesma, invariável: sempre existe. O I Ching é então composto por 8 trigramas (ou seja: “conjuntos de 3 linhas”) que se combinam 2 a 2 para formar 64 hexagramas (ou seja: “conjuntos de 6 linhas”). Um destes hexagramas é o “Ponto de Transição” (“Fu”). O hexagrama é formado apenas uma linha “yang” firme abaixo que se segue de 5 linhas “yin” maleáveis acima. O ponto de transição é sugerido pelo fato de que após as linhas obscuras expulsarem do hexagrama as linhas luminosas acima, uma outra linha luminosa surge novamente, embaixo. O tempo das trevas passou. O solstício de inverno traz a vitória da luz.

RETORNO.

Sucesso.
Saída e entrada sem erro. Amigos chegam sem culpa.
Para adiante e para trás segue o caminho.
Ao sétimo dia vem o retorno.
É favorável ter aonde ir.


Após uma época de decadência vem o ponto de transição. A luz poderosa que tinha sido banida retorna. Porém, este movimento não é provocado pela força. Com devoção, o movimento é natural e surge espontaneamente. Por isso a transformação do antigo também torna-se fácil. O velho é descartado e o novo, introduzido. Ambos os movimentos estão de acordo com as exigências do tempo e, portanto, não causam prejuízos. Formam-se associações de pessoas que têm os mesmos ideais. Como tal grupo se une em público e está em harmonia com o tempo, os propósitos particulares e egoístas estão ausentes, e assim erros são evitados. A idéia de retorno baseia-se no curso da natureza. O movimento é cíclico e o caminho se completa em si mesmo. Por isso não é necessário precipitá-lo artificialmente. Tudo vem de modo espontâneo e no tempo devido. Esse é o sentido do céu e da terra. Todos os movimentos se completam em seis etapas, e a sétima traz o retorno. Deste modo, o solstício de inverno, com o qual tem início o declínio do ano, ocorre no sétimo mês após o solstício de verão. Do mesmo modo, o nascer do sol ocorre após o crepúsculo. Assim, o estado de repouso dá lugar ao movimento. Na China, o solstício de inverno foi sempre celebrado como a época de repouso do ano, costume que se conserva até hoje, no período de descanso do ano novo. No inverno, a energia vital, simbolizada pelo trovão, "O Incitar", encontra-se ainda no interior da terra. O movimento está em seus primórdios e por isso deve-se fortalecê-lo através do repouso, para que não se dissipe num uso prematuro. Esse princípio básico, de fazer com que a energia nascente se fortifique através do repouso, aplica-se a todas as situações similares. A saúde que retorna após uma doença, o entendimento que ressurge após uma discórdia, enfim, tudo o que está recomeçando deve ser tratado com suavidade e cuidado, para que o retorno leve ao florescimento.

Estas épocas de "reencarnação" são fundamentais para nosso crescimento. Em Zoologia chama-se “ecdise” ou "muda" ao processo de mudança do exoesqueleto nos animais que apresentam este modo de crescimento. Animais como os besouros e os caranguejos, por exemplo, têm uma carapaça forte que envolve seus corpos, protegendo-os e propiciando movimento. As asas e outros apêndices dos artrópodes são formadas por expansões deste exoesqueleto. Apesar das vantagens, o exoesqueleto configura-se como fator limitante ao crescimento dos animais, que necessitam de realizar a ecdise, o processo no qual o animal deixa o seu exoesqueleto para aumentar de tamanho. A capacidade de mudar o exoesqueleto é uma estratégia evolutiva com várias vantagens, principalmente para animais pequenos que vivem na água ou que voam. Além de ser a única maneira possível para estes animais crescerem, a possibilidade de mudar a “pele” permite-lhes também mudarem de forma, as metamorfoses que permitem que o animal se adapte a novos ambientes. A seguir à muda, o animal apresenta um exoesqueleto mole durante algum tempo, sentindo-se frágil e exposto. Porém logo o novo esqueleto se torna firme e confortável. Nós humanos passamos pelo exato mesmo processo, porém em nossas almas e estas transformações apenas podem se dar nas crises.

Ivan Martins disse certa vez: “reencarnar é bom! Eu mesmo já fiz isso três vezes, na mesma vida“. Esta pessoa que hoje me falou de crise continuou: “reaprender a viver é mais difícil que aprender: os vícios de comportamento, a mudança de valores... Mas o importante é saber que estaremos mais felizes! O prazer que sentimos quando conseguimos vitórias é muito bom! Mesmo com choros, tristezas, frustrações... Quando coloco em palavras, parece tão fácil e com certeza não é! Mas quem falou que a vida era fácil?”.

16 julho 2010

O Efeito “Dark”

Bernardo Lynch de Gregório
Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta


“If everybody knew what they wanted,
There'd be nothing, nothing left.
People would do what they wanted
And there'd be no government.

No government is an easy time.
No government is an exciting life.
We work for ourselves and we love for ourselves
And for government.

There'd be no suffering,
There'd be no government.
The people would see, and let them be
And we'd have no government”.

(Nicolette)








Se abrirmos o livro de Aristóteles, “Ética a Nicômaco” (livro i, 7, 1097b, 20), encontraremos que “a felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação”. Sobre estas idéias a sociedade ocidental civilizada criou algo como um mito da felicidade e, por causa dele, temos a noção infantilóide e falsa de que um dia chegará em que conseguiremos realizar todos os nossos desejos e que neste dia somente considerar-nos-emos felizes. Hoje imagina-se que a humanidade poderá efetivamente dar as mãos e caminhar unida e fraterna em direção ao bem estar comum; há a falsa idéia de que existe esperança e de que há a possibilidade da paz; criou-se a ficção de que o ser humano vai chegar a compreender que a preservação da natureza é mais importante do que ganhar dinheiro a qualquer custo. Por causa ainda deste mito, saímos pela vida a classificar as coisas entre boas ou más e os momentos entre felizes e infelizes. Tudo não me parece mais que ilusão, porque a vida é tão-somente a vida e realmente não se importa com a tal da felicidade aristotélica, nem com o que você gosta ou não gosta.


Ao observamos os animais e a natureza, notamos que não há, nem pode haver, uma distinção nítida entre o que pode ser a felicidade e o que consideramos infelicidade, há a vida e fatos que lhe são peculiares: nascimento e morte, prazer e dor, contentamento e ansiedade. A natureza assume orgulhosamente a autoria de tempestades e belas auroras, de terremotos e jardins idílicos, de vulcões ou furacões e a beleza delicada do vôo das libélulas ou do canto dos pássaros. Escreve Paul Veyne (“O Preço de ser Feliz”, artigo para “Libération”): “e a natureza se contenta com um pedaço de pão e água que nos oferecem em qualquer lugar”. Jean-Jacques Rousseau defendeu com unhas e dentes a idéia do naturismo e sistematicamente execrou qualquer tipo de progresso, cultura ou sociedade, pois fazem com que reine a desigualdade entre os homens. Falando sobre o homem natural (3o Discurso, 1ª parte), Rousseau conta-nos que “despojando esse ser (o homem), (...) considerando-o, numa palavra, tal como deve ter saído das mãos da Natureza, vejo um animal menos forte do que uns, menos ágil do que outros, mas, em conjunto, organizado de modo mais vantajoso do que todos os demais. Vejo-o fartando-se sob um carvalho, refrigerando-se no primeiro riacho, encontrando seu leito ao pé da mesma árvore que lhe forneceu o repasto e, assim, satisfazendo todas as suas necessidades. Mas os humanos se desligaram destas idéias naturais e instituíram que pode haver coisas boas ou ruins e, por isso, perseguem uma idéia absurda de felicidade”.


Mesmo quando se tenta localizar a tal felicidade no tempo, percebemos que a raça humana não parece ter sido feita para conhecê-la, nem à vida em seu sentido mais ingênuo e puro, como a dos animais ou dos homens naturais. Desafio a qualquer um a me mostrar um período sequer, registrado na História Ocidental, mesmo que um espaço de tempo limitado em um único dia, em que a humanidade tenha sido de fato feliz e tenha se considerado como tal. Não existe nem um único dia nos cinco mil anos que se tem noticia, que tenha havido boa vontade entre os humanos, boas ações ou momentos felizes para todo o conjunto de um povo! O que a História relata são apenas guerras, matanças, escravizações, abusos, invejas, traições, assassinatos, estupros, sadismos e maldades. Onde está a felicidade, absoluta e auto-suficiente? Será que realmente é a felicidade a finalidade da ação? Parece-me que mais próximo da realidade está Thomas Hobbes, quando afirma que “o que há é uma necessidade absurda de satisfação do amor próprio a qualquer preço e que, sem um controle rígido e totalitário, a humanidade está condenada a uma guerra de todos contra todos, porque o homem é o lobo do homem” (“Leviatã” e “De Cive”, respectivamente).


Com que então esta tal raça humana não passa de uma turba enfurecida e feroz, maligna e traiçoeira, a mais agressiva das raças que foi criada? Com que então a humanidade é por natureza vil e ignóbil, nada digna de nenhuma confiança e menos ainda de alguma esperança? Mas por que então, quando se fala em um ato humanitário, pensa-se em uma ação caridosa e bem intencionada? Dever-se-ia imediatamente supor que um ato humanitário seria uma série de torturas ou matanças, assim como a “Santa Inquisição” ou como os campos de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial; afinal, assim é a humanidade e assim são os atos humanitários. E se por acaso alguém ousar falar algo em contrário, tentar mostrar a estes humanos que é importante o respeito mútuo e a cooperação entre as pessoas e os povos, provavelmente este indivíduo será tachado de reacionário e será crucificado, envenenado com cicuta, morto a flechadas, decapitado, queimado vivo ou enforcado sumariamente; como já ocorreu diversas vezes no passado com gente que apenas tentou melhorar um pouco a índole agressiva da raça humana.


Pensando-se desta forma, se lembrarmos que estamos rodeados por esses seres extremamente agressivos e egoístas (os humanos), começaremos a entender que não devemos esperar nada além do mal, por parte deles. Sobreviver ao convívio com outros seres humanos, já parece mais do que o suficiente para que nos demos por contentes e a idéia da felicidade já está de nós muito distante e utópica, com este confronto com os fatos reais objetivos. Isto quer dizer que se ao cruzar com alguém na rua, esta pessoa passar simplesmente por mim e resistir à sua índole humana o bastante para não me assaltar, não me esfaquear pelas costas e não me fazer calar sob ameaças; já devo me dar por feliz. Da mesma forma, ao final de cada dia, se me der conta de que outras vinte e quatro horas se passaram e que eu, ente e representante da raça humana, consegui superar meus impulsos ferozes e não causei mal a ninguém (ou não causei muito mal a ninguém), também eu já me devo ter como uma boa pessoa, quase um santo. Não me parece necessário que ninguém tenha nem mesmo a vontade de fazer o bem, ou pensar na felicidade alheia: evitar o mal, viver e deixar viver, já seria muito mais do que se poderia esperar da humanidade. Já imaginaram o que aconteceria se por um único dia somente, todas as pessoas do mundo apenas vivessem suas vidas, sem se incomodarem em nada com as vidas alheias? Já imaginaram como a paz e a felicidade reinariam? Teríamos paz sobre a terra se as pessoas tomassem o cuidado de não causar o mal umas às outras. Realmente a idéia de querer o bem do outro e ter boas intenções é supérflua, ou ao menos poder-se-ia dizer que esperar algo dessa natureza seria pedir demais para seres tão perversos quanto os humanos.


Quando pudermos realmente compreender este raciocínio, o qual chamei de efeito “dark”, em homenagem aos movimentos de contra-cultura pessimistas e desesperançosos do final do século XX (“Dark”, “Punk”, “Gótico”, “Trash”, etc.); compreenderemos que a verdadeira felicidade está em conseguir sobreviver à natureza humana e à sua agressividade, representada por nossos próprios atos e pelos atos de nossos próximos e que, como verdadeiros milagres e manifestações de santidade, cada pequeno gesto afetivo e cordial representa o bem mais precioso que se pode obter. Um “bom dia”, um “muito obrigado”, um afago ou simples suportar-se em silêncio passam a ser o máximo da vitória humana sobre sua própria natureza e a gente passa a valorizá-los ao extremo e a observar como, contrariamente a todas as expectativas, a humanidade continua existindo e de uma maneira até que espantosamente boa, quando comparada à sua índole.


No entanto, é importante que nada se espere de ninguém, nem de nós mesmos, nem dos outros; porque qualquer mínima esperança será invariavelmente recompensada com a frustração e a tristeza. É importante que se saiba todo o tempo que se está lidando com humanos e o que isto realmente significa: traição, destruição e morte. É importante que se veja o futuro tão negro quanto foi o passado e que se abra mão de qualquer pequena ilusão de felicidade. Somente assim, tão pessimistas e desesperados assim, poderemos ter uma pequeníssima chance de descobrirmo-nos real e efetivamente felizes, aqui e agora, sem as sombras de utopia insana ou do mito da felicidade, que tanta tristeza nos traz.

24 março 2010

A Vida é...


Não se pode ajudar uma pessoa que não permite ser ajudada. Cada um tem um nível evolutivo diferente e traça sua vida de acordo com as necessidades que este nível evolutivo impõe. Dentro destas metas traçadas antes mesmo do nascimento, colocamos em nossas próprias vidas desafios maiores ou menores, dons e deficiências, facilidades e dificuldades de todo nível. A vida de cada um se cumpre de acordo com estes parâmetros cármicos e de acordo com nosso livre arbítrio. Ninguém tem o direito de querer interferir com as escolhas pessoais de cada um. O que podemos fazer é ajudar a ampliar a consciência e aumentar o leque de opções que um indivíduo vê à sua frente. Talvez com mais opções e com mais consciência, a pessoa opte por caminhos mais suaves rumo à evolução. Se uma pessoa opta por ficar estagnada, só nos resta observar a vida tomando procedimentos para obrigar esta pessoa a se mover, e a vida nem sempre é suave...

Frente às decisões tomadas por pessoas à nossa volta temos que livremente tomar nossas próprias decisões. Tanto mais sábias serão nossas decisões, quanto menos calcadas no ego e no astral elas forem. Se conseguíssemos tomar todas nossas decisões baseados no Espírito e na clara racionalidade, descompromissados e abnegados, nossa vida teria um rumo correto e forte. Todas as vezes que vacilamos por interferência do astral e do ego, desviamos nosso rumo e precisamos e impulsos internos e externos para nos recolocar no rumo original. Os impulsos internos geralmente vêm em forma de doenças; algumas vezes, de sonhos e insights. Os impulsos externos vêm em forma de acidentes, confrontos e atritos; algumas vezes, de conselhos e sincronicidades. Assim caminhamos.

Quando uma pessoa se desloca de forma irrecuperável de seu caminho previamente traçado, seu Espírito se incumbe de "abortar" aquela existência. Este processo pode ocorrer de dentro para fora, como uma doença terminal, ou de fora para dentro, como um acidente fatal. Muitas vezes, porém, assume a forma de um "abondono" do Espírito, que se retira da existência, deixando para trás uma "casca" onde só habitam o ego, o astral e miasmas. Um lento processo de decomposição em vida se inicia e leva inexoravelmente para a morte. Infelizmente é comum que a morte tarde...

21 janeiro 2010

Dicas de Saúde



A prática frequente de atividades físicas pode ser muito útil também do ponto de vista psicológico. Uma atividade física bem conduzida pode causar a liberação progressiva de endorfinas. Estas substâncias são neurotransmissores que mediam a atividade neuronal, ou seja, atuam na “comunicação” do sistema nervoso. As endorfinas são então responsáveis cerebrais por sensações prazerosas de euforia e bem-estar. Por esta razão, a atividade física deve fazer parte de qualquer tratamento psíquico e esta ajuda já é conhecida desde a Grécia Antiga.

Estudos recentes apontam que a endorfina pode um efeito sobre áreas cerebrais responsáveis pela modulação da dor, do humor, depressão, ansiedade e ainda atuar sobre o sistema nervoso simpático, responsável pela modulação de diversos órgão. Elas podem também regular a liberação de outros hormônios. Estas substâncias ajudam a memória, melhoram o estado de espírito, aumentam a resistência, aumentam a disposição física e mental, melhoram o nosso sistema imunológico, bloqueiam as lesões dos vasos sanguíneos, têm efeito antioxidante, retardando o envelhecimento e ainda aliviam dores.

Provavelmente parte da capacidade da acupuntura em aliviar a dor seja devida ao estímulo da liberação de endorfinas. Uma vez estimulados pelas agulhas, os terminais nervosos ocasionam a liberação deses neurotransmissores no complexo supressor de dor, ou seja, é produzido o efeito analgésico na região cerebral. O consumo de chocolate também estimula a produção de endorfina, o que explicaria a compulsão dos chocólatras. Só para se ter uma idéia, endorfinas são normalmente liberadas durante o orgasmo.

Porém, todas estas maravilhas só ocorrem com uma prática esportiva constante e regrada. Imagina-se que haja uma ativação plena dos neurônios que utilizam endorfina em nosso sistema nervoso central, após seis meses de uma atividade física de no mínimo meia hora, numa frequência de pelo menso três vezes por semana. Isto significa que aquelas pessoas que são “fogo de palha” e não mantêm uma constância na prática de atividade física, não chegam a sentir os efeitos psíquicos positivos que o esperte pode proporcionar.

Quando se começa uma atividade física, o corpo que estava sedentário e pouco acostumado a ser estimulado, sente-se dolorido e cansado. Para que se consiga reverter o processo e começar a liberar endorfinas, é preciso superar esta primeira fase de inércia e resistir bravamente à tendência de voltar à inatividade. Depois, com o tempo, a dor muscular e a sensação de cansaço vão dando lugar à euforia e ao bem-estar. Estas sensações são o que os pesquisadores demonstram ser o maior benefício trazido pelos exercícios em relação ao humor e estresse.

Estes efeitos causados pelas endorfinas são tão bons, que é muito comum que as pessoas se tornem “viciadas” em esportes. Aquele que supera estes seis meses iniciais, muito provavelmente vai tender a se manter ativo por toda a vida e este “vício” é com certeza o mais saudável dos vícios. Mas cuidado: a atividade física deve ser sempre bem orientada e dosada, de forma a evitar lesões. Exageros podem desgastar o indivíduo tanto física, quanto psiquicamente e o que deveria ser uma válvula de escape para o estresse, torna-se fator estressante por si mesmo. Lembre-se: o importante é a qualidade da atividade física praticada e não a quantidade!

08 janeiro 2010

Diga NÃO à vacina contra a Gripe Suína !!!


Fatos não divulgados sobre a Influenza A (H1N1) que você precisa saber antes de resolver se vacinar:

* A Gripe Suína tem uma taxa de mortalidade MENOR do que a gripe comum. Isto significa que oferece MENOR risco do que a gripe convencional, tanto na virose em si, quanto na possibilidade de gerar complicações (pneumonites, pneumonias, etc).
* A vacina contra a gripe comum NÃO protege contra a Gripe Suína.

* A vacina contra a Influenza A (H1N1) NÃO se apresenta totalmente eficaz.

* Muitas empresas estão ganhando milhões de dólares com a venda em massa de vacinas contra a Influenza A (H1N1) e não têm interesse em divulgar o lado negativo das campanhas de vacinação.

* A vacina contra a Influenza A (H1N1) ainda NÃO foi suficientemente testada e pode oferecer muitos riscos à saúde. A saber:


1) Reações de hipersensibilidade: reações alérgicas várias, desde leves reações cutâneas até choque anafilático e morte. Estas reações são comuns em pessoas com alergia a ovo.

2) Reações auto-imunes: reações imunológicas que podem destruir partes diversas do corpo em graus desde leve até grave, incluindo destruição reversível ou NÃO de neurônios (desmielinização).

3) Desencadeamento de virose. Em pessoas com deficiências imunológicas, em crianças, em idosos e em gestantes, a vacina contra a Influenza A (H1N1) pode facilmente causar a mesma doença que procura evitar. Isto ocorre por ser uma vacina feita com vírus vivo atenuado.

4) O processo que foi usado para criar a vacina contra a Influenza A (H1N1) deixa traços de mercúrio, metal pesado e altamente tóxico, que tem efeito acumulativo no organismo. Há estudos que apontam uma relação entre o mercúrio e o desenvolvimento de autismo em crianças pequenas vacinadas.


11 dezembro 2009

O Lado MAU do Papai Noel


Papai Noel está longe de ser o tal "bom velhinho". Como todo mundo sabe, ele só traz presentes para as crianças ricas que, via de regra, são mal educadas, encapetadas e arrogantes. As pobrezinhas, que já não comem o ano todo, ficam a ver navios também no Natal. Isto faz do tal Papai Noel um velho elitista, consumista e, a bem da verdade, malvado.

Mesmo nas origens da lenda de Papai Noel, encontramos já este lado mau encarnado na sinistra figura de Krampus. Krampus é uma criatura mítica que aparece em várias regiões do mundo acompanhando Papai Noel na época do Natal. A palavra "Krampus" tem origem no Alemão antigo "garra" ("Krampen"). Na região dos Alpes Krampus é representado como uma figura demoníaca que atazana e espanca as crianças que se comportaram mal, enquanto o "bom velhinho" presenteia as crianças que se comportaram bem.
Atualmente Papai Noel se fundiu, por assim dizer, à figura de Krampus e vendeu-se completamente para o Capitalismo selvagem, sufocando até a morte o "dono da festa", um tal de "Menino Jesus". No meio de luzinhas piscantes que insistem em piscar em plena crise mundial de energia, sob a neve artificial sufocante que insiste em cair com 40 graus à sombra, entre renas atordoadas e anõezinhos esverdeados, (falem a verdade) alguém se lembra do aspecto religioso que a festa do Natal deveria conter?
Todo mundo com seus cartões de crédito em punho gasta tudo aquilo que não tem, para presentear com coisas supérfluas, pessoas que não são nada queridas ou merecedoras. É o exagero dos exageros! Depois vem a ressaca: em Janeiro caem as faturas e as contas que se somam aos impostos do início do ano e o "próspero Ano Novo" vira um pesadelo econômico. Efeito Krampus do Papai Noel.

Agora quero ver alguém conseguir passar à margem de tudo isso e ignorar o Natal de verde-amarelo (ou seria verde-vermelho?). Está lançado o desafio: em Janeiro "quero ver você não chorar, não olhar para trás nem se arrepender do que faz". Quando as faturas chegarem, "quero ver o amor vencer e se a dor nascer, você resistir e sorrir"!







24 novembro 2009

Meu avô era um Tricoplax

(e o seu também!)





por Bernardo de Gregorio




No período pré-cambriano (iniciado há 4,5 bilhões de anos) apareceu nos mares da Terra este ser estranho e simples: o Tricoplax. Dele, evoluiram uma miríade de novas espécies que vieram a compor a chamada "explosão cambriana" (550 milhões de anos), uma explosão na biodiversidade do planeta, da qual eu e você somos herdeiros. Resumindo: todos nós fomos um dia um réles Tricoplax. “Fomos” tanto no sentido da ontogênese, quanto do da embriogênese, pois na formação de uma nova vida sempre passamos por um estágio embrionário chamado “gástrula” que é uma rememoração do Tricoplax.

Quando digo “todos nós”, refiro-me não só a mim, a você, a humanos de todas as raças e crenças, mas também a todos os mamíferos, aves, répteis, peixes, os vermes, os insetos, enfim, a todos os animais. Tudo isso neste ínfimo Tricoplax. Vamos conhecer melhor então este nosso ilustre e pequenino avô: Trichoplax adhaerens é o único representante remanescente do filo Placozoa, que representa o grupo mais básico dos organismos animais multicelulares. Os Tricoplax são criaturas com corpos achatados medindo milímetros e que não contém nenhum órgão ou estrutura. Eles apresentam três camadas celulares: as clássicas ectoderme, mesoderme e endoderme. Os tipos de células que este organismo apresenta nestas camadinhas resumem todos os tipos de células conhecidas em animais e podem ser facilmente encontradas na sua vizinha de frente e naquele seu ex-chefe chato. O genoma do Tricoplax é bem pequeno, mas cerca 87% dele pode ser identificado no genoma de todos os animais conhecidos.

Visto por este prisma, qual é o sentido de todos os padrões diferenciais humanos? Por que é mesmo que nós nos debatemos tanto nesta vida? Somos todos tricoplaxes super-desenvolvidos, afinal de contas... Tricoplaxes que usam roupas de grife, tricoplaxes que estudam em universidades (usando ou não mini-saia), tricoplaxes presidenciáveis, tricoplaxes globais, uns tricoplaxes nobilíssimos e outros tricoplaxes plebeus, tricoplaxes mais escuros e mais claros, tricoplaxes com olhos puxadinhos, tricoplaxes gays e heterossexuais, tricoplaxes com e sem terra, tricoplaxes de primeiro mundo e sub-desenvolvidos, tricoplaxes vitaminados, bombados, anti-oxidados, plastificados, botoxizados e siliconados!

E mais: todos os animais são tão tricoplaxes quanto nós! Seu cãozinho e seu gatinho não passam de tricoplaxes que latem e miam. Hipopótamos, girafas, avestruzes, pardais, beija-flores, jacarés, lagartixas, serpentes enigmáticas, baleias, pingüins, lombrigas, lulas, formiguinhas, piolhos, sardinhas, tubarões... Tudo e todos, um bando de tricoplaxes de um planetinha azul esquecido a rodar em torno de uma estrelinha amarela de terceira grandeza. Uma minhoca de jardim não é menos tricoplax do que nós, humanos orgulhosos. Deveríamos encarar nossos primos, filhos do mesmo avô Tricoplax, com mais respeito. Pelo menos com tanto respeito quando dispensamos a nós mesmos.

Mais uma vez temos que dar o braço a torcer e reconhecer que somos todos iguais (apesar das aparentes diferenças). "Misoneísmo" é o termo que designa o medo irracional expresso sob forma de preconceito e resistência ao que é novo. Tudo o que é novo é aquilo que nos é diferente. Podem reparar: aquelas coisas que nunca vimos antes, invariavelmente, à primeira vista, nos parecem estranhas e aterrorizadoras, mesmo que no fundo nos causem um certo fascínio. Até certo ponto, este sentimento misoneista é absolutamente natural: até este ponto em que ele se situa entre a curiosidade e o medo, a atração e a aversão. Quando este misoneísmo se mistura à moral e, pior, quando deles nasce um comportamento discriminatório e segregacionista, podendo chegar aos horrores sociais da xenofobia declarada, do nacionalismo, do racismo, do "apartheid", da escravidão ou do genocídio; do misoginismo, do sexismo ou da homofobia; da segregação religiosa, do fundamentalismo ou das assim chamadas "guerras santas"; o que era natural, assume aspecto monstruoso e muda rapidamente de figura.

Quando se tem consciência da base “Tricoplax” que nos une a todos os demais seres, percebemos a irracionalidade do misoneísmo e seus perigos potenciais, e podemos refletir sobre nosso próprio medo e, a partir de uma postura racional, combatê-lo de forma declarada, com coragem e compreensão de que o que nos é diferente não necessariamente é ruim. E mais: que no fundo, nada é tão diferente assim. Este movimento de consciência racional reflexiva mostra-nos invariavelmente a diversidade e revela-nos, nesta diversidade, que o que é diferente, não é propriamente diferente, mas complementar. O “diferente” é exatamente aquilo que vem enriquecer nossa visão, até então parcial, do existir. Sempre pense assim: “eu poderia facilmente ser o outro”. Afastados interesses políticos, sociais e econômicos de cunho escuso e tortuoso, este caminho é o único que se apresenta racional e propriamente humano: um efeito “Tricoplax”. Obrigado, vovô!

17 setembro 2009

A Terceira Lâmina


Zé Ramalho



É aquela que fere
Que virá mais tranqüila
Com a fome do povo
Com pedaços da vida
Como a dura semente
Que se prende no fogo
De toda multidão
Acho bem mais
Do que pedras na mão...


Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
Na voz de um cantador...


E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar...


Acho que os anos
Irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a idéia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador...

30 agosto 2009

A Idade do Ego

Bernardo de Gregorio
Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta



No Século XX Andy Warhol disse que todo mundo teria seus quinze minutos de fama. De fato todos tiveram. O problema é que parecem ter gostado da tal fama e agora, no Século XXI, agem como se ainda vivessem estes tais quinze minutos. As pessoas se embriagam de si mesmas, numa “ego trip” surreal e a Internet colabora em muito para isto, possibilitando que você “broadcast yourself”, blogando sua vida no Twitter em tempo real, tornando-se astro instantâneo de si mesmo. Tudo bem que isto é a democratização dos meios, mas está havendo algum exagero nisso, ou sou apenas eu que noto?

É impressionante como hoje em dia as pessoas se dão o direito de baixarem decretos por sua própria conta e risco e imaginam que pelo simples fato de terem solenemente declarado “eu não gosto disto” ou “eu acho isso”, pronto! A realidade e todos os seres do mundo se dobram frente sua nobilíssima opinião. Ninguém, precisa mais embasar sua fala em argumentos, autoridade ou conhecimento. Basta falar e já está. Vivemos a idade do “achismo”.

“Quem sou eu?”, “até onde vai o que eu sou e onde começa o outro?”. Na atualidade, estas perguntas que sempre afligiram a Humanidade foram todas resumidas num simples “e interessa?”. Nossa sociedade consumista é egocêntrica, egodirigida e egocrática. O que há é que todos têm muito medo de se relacionar e se escondem em seus mundinhos herméticos e individuais. O egocêntrico procura se isolar do mundo através de um universo próprio onde geralmente está cuidando de um problema psicológico interno muito mais importante do que as agruras da Humanidade. Como “Narciso acha feio o que não é espelho”, a regra é “concorde ou será excluído”.

Narciso era uma criança tão bela que fez com que sua mãe se preocupasse. Sim, porque na Grécia Antiga a beleza não era considerada uma virtude, mas uma espécie de maldição. Por mais belo que alguém possa ser, esta é obrigatoriamente uma beleza mortal, passageira e funciona sempre como uma afronta à beleza eterna dos deuses. Em sua preocupação, a mãe de Narciso procurou o oráculo que revelou um futuro ambíguo para a criança: se ele jamais visse sua própria imagem, seria feliz. Narciso então cresceu sem nunca saber de sua impressionante beleza.

Apesar dos inúmeros assédios (como se pode imaginar), Narciso era solitário e tristonho e não conseguia se relacionar. Um dia, tendo ido pegar água numa fonte, ao debruçar-se, viu seu reflexo pela primeira vez. Deslumbrado com tamanha beleza que se descortinava, largou se cântaro e ficou observando por horas, sem nem desconfiar de que se tratava de sua própria imagem refletida.

Naquela fonte habitava uma ninfa de nome Eco. Eco havia sido amaldiçoada pelos deuses em outro episódio e desde então não podia mais falar espontaneamente: apenas repetia as últimas palavras que lhe foram ditas. Eco vê Narciso ali embevecido com as águas da fonte e se interessa por aquela bela figura. Tenta chamar-lhe a atenção sem sucesso. “Saia daqui! Não lhe quero”, disse Narciso; a que Eco respondeu: “...lhe quero, ...lhe quero”. O triste Narciso, sem nunca notar que na realidade estava apaixonado por si mesmo, num impulso atirou-se n’água tentando alcançar a bela imagem e morreu afogado. Eco desapareceu no ar de tristeza e hoje em dia, quem passa por aquela fonte ainda pode ouvir a pobre Eco repetindo as últimas palavras que foram ditas.

Inspirado neste mito, foi criado o termo “reverberação narcísica” para descrever um estado psicológico peculiar e doentio de uma pessoa embriagada de si mesma. Não se trata aqui do narcisismo comum, quando alguém vive do auto-elogio, mas sim de alguém triste e solitário que nem ao menos sabe que está apaixonado por sua própria imagem: uma ilusão, uma miragem. Seus relacionamentos se resumem a pessoas que são ecos de si e repetem sempre as últimas palavras que são ditas.

É neste estado de reverberação narcísica que nossa sociedade se encontra: alguns somos Narcisos, outros somos Ecos, todos somos infelizes e solitários. Solitários acompanhados, é certo. Solitários na multidão, mas inevitavelmente solitários. O homem contemporâneo sofre de solidão crônica. O universo gira em torno de nossos umbigos. Os medos crescem e tomam conta da totalidade de nossas vidas. Pânico, depressão, angústia. Somos personagens sufocadas por papéis sociais, pela moral, pelo trabalho, pelo vazio, acima de tudo, pelos nossos próprios egos.

O homem atual, apesar de toda tecnologia, apesar dos avançados científicos, apesar do progresso, sofre de falta de calor. Falta-lhe o calor do contato humano, o calor da afetividade real, o calor da espiritualidade verdadeira. O Super-Homem é um esfomeado. Tenta, em vão, aplacar sua fome com uma profusão de estímulos absolutamente ineficazes: o álcool, as drogas, a comida, o consumismo, o excesso de trabalho, o status social, o sexo, a internet. O Super-Homem é um Tântalo moderno, que já não possui a capacidade de se saciar.

João Carlos Antunes em sua “Metafísica do Património” nos diz que “o património tem que ver com o terreno, e, por consequência, com essa irrevogável transitoriedade de tudo o que se concretiza em matéria: ‘tu vens do pó e em pó te tornarás!’. Considerado enquanto conjunto de bens terrenos, isto é, ‘ligados à terra’, existe sempre subjacente, uma infra-estrutura relacional de causa e efeito entre poder e ser em todas as suas vertentes e combinações imagináveis. Atribuímos frequentemente uma importância decisiva ao nosso conceito de posse enquanto extensão consequente de vida; mas também dela subsequente, enquanto faces de uma mesma moeda, numa inextricável promiscuidade do poder e do ter, do possuir para ser. Diremos então que neste domínio, inseparável da vida é a posse, porque na afirmação da vida terrena existe a ansiedade da morte, a ansiedade do limite para além do qual é o caos, o nada, a astenia. Mas também, por paradoxo, porque é justamente neste limite, ou seja adentro deste limite, que nos confirmamos enquanto indivíduos, ainda que por vezes de forma equívoca, narcísica, nebulosa, turbilhonante, é certo, mas ainda e assim mesmo, é adentro dele e nele que nos conseguimos consubstanciar. Temos portanto o limite como nosso reflector, como nossa referência, reverberação de nós mesmos, enquanto outros, e dos outros enquanto nós”.

Podemos deduzir que é através da reverberação narcísica que se dá a valorização da posse e, portanto, abre-se uma brecha para aumentar o consumo. Desta forma se soluciona o mistério: eis porque nossa sociedade valoriza e incentiva tanto a reverberação narcísica. A conta é simples: reforce o ego de uma pessoa e ela precisará de mais reforço para sentir-se bem. Associe este reforço ao patrimônio e ela se tornará materialista. Direcione este materialismo para bens de consumo e ela comprará mais.

Um desejo é algo desvinculado da realidade, sem maiores implicações; uma necessidade, justo ao contrário, é uma urgência imperiosa que se impõe como condição de sobrevivência a um indivíduo e uma vontade, típica do Ser Humano, é a livre expressão deliberada na realidade concreta da alma de um indivíduo autoconsciente. Porém, atualmente, é dificultoso que se saiba quais destes desejos, destas necessidades e destas vontades são genuínos e quais foram simplesmente implantados em nossa mente através de um sutil mecanismo subliminar de pura e simples propaganda. Isso mesmo: um “desejo”, uma “necessidade” ou uma “vontade” totalmente fictícios podem ser implantados em nossa mente, sem que ao menos tenhamos consciência de que isso ocorreu.

Precisamos de água, comida, abrigo e pouco mais. Porém, será que um Ser Humano pode se contentar com a satisfação dessas necessidades? Também não fazem parte destas mesmas necessidades básicas humanas o contato interpessoal, por exemplo, ou uma noção de Espiritualidade ou ainda a possibilidade da expressão? Valendo-se desta área nebulosa que existe na alma humana, o assim chamado Marketing pode criar “necessidades” que antes não existiam ou transformar necessidades reais em necessidades absolutamente fictícias. Igualmente a Propaganda é capaz de direcionar estas pseudo-necessidades e ao redor delas produzir desejos que por fim geram “vontades” que em última análise não refletem a Vontade do próprio indivíduo, mas refletem a vontade de um sistema que as implantou em sua alma.

Valendo-se então deste jogo psicológico muitíssimo eficaz, porém discreto, a Propaganda e o Marketing fazem com que as rodas da sociedade de consumo do Século XXI continuem rodando e fazendo funcionar esta máquina desgovernada que se alimenta de carne humana. Tal qual um Mefisto contemporâneo, o consumismo troca prazeres fictícios pela posse de nossa alma imortal. Lestrigões, banqueteai-vos enquanto há tempo! Chafurdai nas excrescências da sociedade humana e saciai vossa sede de sangue hoje, pois talvez amanhã Nêmesis já terá vos levado a todos para uma existência menos abundante num local onde as vítimas sejam menos ingênuas.

Se ao menos por um único instante pudéssemos perceber que a felicidade está dentro de nós e não naquilo que elegemos como objetivo de vida. Se pudéssemos resgatar este centro divino, o verdadeiramente humano, este calor. Se pudéssemos, abriríamos mão de bom grado de todo o avanço tecnológico, de toda sociedade e suas estruturas morais , todo o conhecimento contemporâneo, e seriamos felizes, ao sermos criativos, lúdicos e espontâneos. Crianças. Humanos que humanizam seres humanos e o mundo à sua volta. As atividades humanas só são validas quando feitas com calor humano. Se compreendêssemos isso, aí sim, este seria um admirável mundo novo e não estaríamos errantes e a ponto de nos destruir e ao planeta que habitamos. Se compreendêssemos...



13 junho 2009

Quantum


Quantum: um salto para a evolução

Por Bernardo de Gregorio


A nossa consciência tem maior peso sobre nós mesmos do que a opinião do mundo inteiro. O meio externo em que vivemos, sem sobra de dúvida, é um fator de grande influência, mas nosso meio interno pode e deve ser o elemento de maior peso. Sob este prisma, a questão não é “salvar a natureza”, pois a Natureza é a essência constante que define a existência do nosso sitema particular. A questão não é “o que podemos fazer pelo planeta”, pois o planeta é uma entidade auto-existente que cumpre sua trajetória no espaço-tempo, independentemente da ação humana. A questão não é “preservar o meio ambiente”, pois o meio ambiente, amigável ou hostil, sempre seguirá existindo. A questão não é “economizar energia”, porque a Lei da Conservação de Energia estabelece que a quantidade total de energia em um sistema isolado permanece constante e tal energia apenas pode mudar de forma. A questão não é “que mundo deixaremos para nossos filhos”, mas sim “existirão nossos netos neste mundo?”. A questão é pois: “o que deve ser mudado em nossa consciência para que passemos a agir de forma a propiciar nossa própria evolução e não nosso auto-aniquilamento?”.

Exatamente: a questão ecológica é muito mais uma questão existencial humana e muito menos um problema global. Lembrem-se: a Terra sobreviveu à extinção dos dinossauros e antes disto já havia sobrevivido a outras tantas extinções em massa. Isto quer dizer que pode sobreviver tranquilamente a mais uma “fase crítica”. A Humanidade é que se encontra num limiar delicado para sua própria sobrevivência e a resposta às questões sobre o destino da Humanidade encontram-se numa possível transformação, de dentro para fora, desta mesma Humanidade. A grande pergunta é então “de que natureza deve ser esta mudança específica para que seja efetiva?”. A resposta possível me parece uma só: de natureza espiritual.

A Espiritualidade é uma dimensão da pessoa humana que traduz o modo de viver característico que busca alcançar a plenitude da sua relação com o Transcendente. Segundo George Brown, a Espiritualidade “traduz uma dimensão do Ser Humano que constitui, de modo temático ou implícito, a sua mais profunda essência e aspiração”. Espiritualidade é um estado de consciência; é reconhecer em si a Vida, e a mesma Vida em tudo e em todos. É consciência não-condicionada pela mente. É consciência livre da mente, para ser o que é: não aquilo que pensamentos e crenças dizem ser. As palavras em um ensinamento espiritual apenas apontam para o estado de consciência essencial do ser humano. Alcançado esse estado de consciência, o Ser Humano vive a vida na Terra a partir dessa liberdade, expansividade e maestria sobre a realidade interna e externa, pois está alinhado com a essência daquilo que o criou: a vasta inteligência criativa que permeia e dá Vida a todo o Universo. Refiro-me a esta natureza espiritual.

Nossa sociedade está desesperadamente em busca de sua própria natureza espiritual e não sabe nem ao menos que é exatamente isto que lhe falta. Devaneia em busca de uma resposta exterior que lhe supra as necessidades. Arrogante, imagina que seu problema particular se estende a todo o planeta e diz: ”salvemos a natureza!”. A poluição atmosférica não é problema. O problema é a poluição do Pensar que gera o modo de vida que causa o efeito estufa. A escassez de alimento não é problema. O problema é a represssão psíquica individual, a “fome” do Sentir que se reflete na estruturação injusta da nossa sociedade e nos impede de reconhecer nosso semelhante como tal e que causa a fome no mundo. O lixo não é problema. O problema é o descontrole infantil e absurdo do Querer que nos leva ao consumo e ao descarte, excrescências da atividade humana e estas, à degradação do meio ambiente. Como se resolvem estes problemas? Pensando, sentindo e querendo adequada e equilibradamente.

Tendo testemunhado o crescente uso de tranquilizantes e álcool no século XX, Bernard Lievegoed em seu livro “O Homem no Limiar” faz uma ampla exposição a respeito do "cruzamento do limiar", vivido pela humanidade contemporânea. Que limiar é esse? Nada mais, nada menos do que as duas realidades inacessíveis aos sentidos humanos comuns: a essência das coisas exteriores e o âmago do próprio ser. A transposição consciente das barreiras que aí se impõem, confere a segurança necessária a essa decisiva travessia. Sem drogas, sem gurus, sem artifícios de qualquer espécie - eis como o homem de hoje deve defrontar-se com esses instigantes portais.

“O uso de reagentes bioquímicos ou de drogas tornaria possível aos seres humanos provarem o sabor da experiência mística? Nada pode ser mais errado nem estar mais distante da resposta verdadeira”, diz-nos o sábio indiano Gopi Krishna em seu livro “O Despertar da Kundalini”. E continua: “não há dúvida de que a experiência mística implica essencialmente numa transformação biológica do cérebro, mas essa transformação é do mesmo tipo da concepção e do crescimento de um embrião. (...) O estado místico autêntico assinala uma mudança na profundidade e toda a personalidade humana e o desenvolvimento de uma nova percepção. (...) Acreditar que métodos superficiais, tais como drogas, hipnose, meditação orientada, mantras ou estados mentais passivos e sonolentos possam levar à iluminação é ter um conhecimento superficial da experiência mística. A experiência mística, mesmo quando esporádica, denota um salto para uma dimensão mais ampla da consciência que é o alvo da evolução humana”.

“A inextinguível centelha da indagação no ser humano jamais terá repouso feliz enquanto não encontrar a resposta para seus próprios problemas”, continua Gopi Krishna. “Tal resposta jamais poderá vir do intelecto, que já está cambaleando sob o peso dos conhecimentos que reuniu até momento presente. Mas sim virá através de um canal superior de percepção mística, canal que a humanidade deve desenvolver para realizar seu destino”. Diz ele ainda em outra parte: “toda a trama da vida humana, suas estruturas sociais, políticas, religiosas e educacionais, terá de ser remodelada para se adaptar a esta necessidade. O cultivo da mente e o rearmamento moral são os dois ingredientes mais essenciais para esse inevitável reajustamento. A humanidade encontra-se agora frente a frente com a situação mais crítica de sua carreia evolutiva: uma situação que pede reflexão, calma, estudo e pesquisa e não expedientes aleatórios que estamos adotando no momento”.

Este “despertar” a que Gopi Krishna e Bernard Lievegoed se referem, faz-se “à moda quântica”. Quantum, do Latim (plural: quanta), "quantidade”, é termo genérico que significa uma quantidade, usualmente elementar, unitária, de algo de natureza qualquer, abstrata ou concreta. Na Mecânica Quântica, esta palavra refere-se a uma unidade indivisível que a Teoria Quântica atribui a certas quantidades físicas, como a energia de um elétron ligado a um átomo em repouso, por exemplo. A descoberta de que as ondas eletromagnéticas podem ser explicadas como uma emissão de “pacotes de energia” chamados quanta (estas unidades descontínuas) conduziu ao ramo da Física que lida com sistemas atômicos e subatômicos. Este ramo da Física é chamado hoje Mecânica Quântica. Segundo esta visão, em determinados sitemas, como por exemplo o elétron girando ao redor do núcleo de um átomo, a energia não se troca de modo contínuo, mas sim de modo descontínuo, em “saltos”, em transições cujas energias podem ou não ser iguais umas às outras. Por analogia, podemos dizer que o “despertar” da consciência humana, se possível, apresentar-se-á num “salto quântico”.

A questão agora é então: “onde está a chave, qual este quantum, que é capaz de proceder à transformação necessária?”. Existe uma idéia muito difundida por aí de que se um certo número de pessoas, uma quantidade padrão chamada de “massa crítica”, adquire um conhecimento ou hábito, então toda a Humanidade vai adquirir também. A lenda afirma que se um número suficiente de pessoas pensar qualquer coisa, então um "campo mental" formado pelos pensamentos de todas essas pessoas será tão grande que contagiará todas as outras pessoas. Algo como se fosse uma “osmose mental”. Não é a isto que me refiro. Refiro-me a um salto quântico da consciência pessoal, individual. Tal salto ocorre em cada indivíduo, de forma absoltamente independente dos demais. Evidentemente é a somatória destes saltos isolados de consciência que significará a evolução da Humanidade no coletivo. Evidente também é que há uma influência direta sobre o comportamento das massas proveniente do comportamento de determinadas pessoas-chave, “formadores de opinião”, e do da maioria da população sobre minorias “resistentes”. Mas a mudança essencial não ocorrerá por mágica: é necessário que a cultivemos em nós, cada qual dentro de si mesmo. No caso, a mudança ocorrerá ao trabalharmos sobre a qualidade da nossa própria consciência, para, através dela, transformarmos nossos atos e, através deles, o mundo.

Mesmo com a confissão do criador desta idéia de “massa crítica” de que a história toda foi inventada, muitos preferem acreditar no eufemismo de que podemos mudar o mundo sentados em nossa casa pensando coisas boas, ao invés de "botar a mão na massa" e agirmos pela melhoria da realidade. Para piorar a tendência à inércia, há também o mito de que no ano de 2012, segundo o Calendário Maia e profecias afins, uma grande transformação resgatará a Terra (ou a Humanidade). Eu até concordo que por volta desta data estaremos sim provavelmente enfrentando uma grande quantidade de “catástrofes”, que nada mais serão do que as consequências de nosso descaso para com a Humanidade e seu destino. Catástrofes estas que serão, pois, fruto do nosso egoísmo, de nossos delírios infantis de poder e auto-afirmação, de nossa cegueira para com nossa verdadeira essência espiritual. Porém, que isto per se leve à elevação quântica da consciência humana, eu duvido muito. As catástrofes nos levam à destruição e não à evolução como espécie. A Lei da Seleção Natural obriga que os menos adaptados pereçam e apenas os adaptados sobrevivam. Na atualidade a espécie deste planeta que se apresenta mais adaptada e, portanto, fadada à sobrevivência, são as baratas!

É preciso processar esta mudança qualitativa no cerne de nossa consciência individual o mais rapidamente possível e de uma vez por todas. O processo evolutivo tem um movimento constante e no plano cósmico tem uma velocidade uniforme. Porém apresenta-se de modo diferente no plano individual, pois depende do estado de ampliação da consciência espiritual de cada indivíduo, a qual se reflete na capacidade de pensar, sentir e agir, ou seja, no nosso livre-arbítrio. “É certo”, diz-nos Ramacháraca em seu livro “Catorze Lições de Filosofia Iogue”, “que em muitos homens e mulheres, a mente espiritual se revela lenta e gradualmente, e ainda que a pessoa possa sentir um constante aumento de conhecimento e consciência espiritual, pode não haver experimentado uma notada e repentina mudança. Outros têm tido momentos do que é conhecido como iluminação, nos quais se acreditavam elevados quase fora do seu estado normal, e lhes parecia passar a um plano de existência ou de consciência mais elevado. Estas experiências pessoais os deixavam mais ‘adiantados’ do que antes, ainda que não pudessem trazer à sua consciência uma clara recordação do que haviam experimentado, enquanto se encontravam nesse exaltado estado da mente. Esses fenômenos, por assim dizer, espirituais têm-se dado com muitas pessoas, em diferentes formas e graus, de todas as crenças religiosas, e têm sido geralmente associadas a algum aspecto da crença religiosa particular, professada pela pessoa que experimenta a iluminação. Mas muitos reconhecem todas essas experiências como diferentes formas de uma só e mesma coisa - o amanhecer da consciência espiritual - o desenvolvimento da mente espiritual”.

“Alguns escritores têm chamado a esta experiência consciência cósmica”, continua Ramacháraca, “nome muito apropriado, pois a iluminação - pelo menos em seus aspectos mais elevados - põe o indivíduo em contato com a totalidade da Vida, fazendo sentir uma sensação de parentesco com toda a Vida, alta ou baixa, grande ou pequena, boa ou má”. É exatamente esta noção cósmica que arrebata o centro da consciência do ego e de suas distorções, para uma visão ampliada e generalista que tende a harmonizar o indivíduo e o Universo: a essência das coisas exteriores e o âmago do próprio ser. “A alguns, essas experiências chegaram como um profundo sentimento de reverência que tomou completa posse deles, por alguns momentos ou mais tempo, enquanto que a outros se afigurava que se achavam num sonho e chegaram a ser conscientes de uma exaltação espiritual, acompanhada de uma sensação de estar circundando os compenetrados por uma luz brilhante. Essas experiências produzem uma mudança na mente daquele que passa por elas e que depois nunca torna a ser o mesmo que de antes”. Eis a chave quântica para a transformação necessária.

Diz a tradição hinduísta que o processo evolutivo de cada indivíduo está (ou deveria estar) baseado nos princípios dos Purusharthas: Dharma (ética e dever), Artha (conquista da matéria), Kama (conquista emocional) e Moksha (libertação em vida). É dito que todos os homens seguem o Kama (prazer, físico ou emocional) e Artha (poder, fama e riqueza), mas brevemente, com maturidade, eles aprendem a controlar estes desejos, com o Dharma, ou a harmonia moral presente em toda a natureza. O objetivo maior é infinito, cujo resultado é a absoluta felicidade, Moksha, ou liberação do ciclo da vida, morte, e da existência dual.

Desta feita, sugiro ao leitor que gaste um pouco de seu tempo e que se faça as seguintes perguntas, procurando em si mesmo respostas tão francas e honestas quanto permitir sua própria consciência. Medite sobre o resultado deste exercício.
  • Que parte de mim eu desconheço?
  • Que parte de mim sente-se constantemente sufocada, angustiada e constrita?

  • Que parte de mim eu evito encarar quando evito me envolver emocionalmente com o sofrimento de meu semelhante?

  • Que parte de mim é esmagada por minhas constantes auto-críticas e culpas?

  • Que parte de mim é egoísta demais para perceber a existência dos demais seres à minha volta?

  • Que parte de mim é contida pelo medo que gela minha alma?

  • Que parte de mim eu procuro reprimir quando me entrego a intermináveis rituais de luxúria, gula, avareza, preguiça, ira, inveja e soberba?

  • Que parte de mim guarda em si a chave quântica que pode mudar minha consciência?

  • Que parte de mim é eterna?