22 maio 2007


Nebulae



Por Bernardo de Gregorio






"Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes, somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses, mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos se não confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais?
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo, Tins e Bens e tais"

Caetano Veloso







É inacreditavelmente espantoso quantas infinitas e sutis armadilhas aguardam sorrateiras por becos escuros do mundo por mais uma vítima ingênua, crédula e inadvertida. Para cada canto que olhamos vemos uma arapuca armada à espera do belo pássaro da alma. Não que ao longo da História o Ser Humano já não tenha provado e comprovado sua capacidade de para ardis da maldade e seus meandros, porém, atualmente, a profusão e a ambigüidade com que manipulações são feitas debaixo de nossos narizes sem que ao menos percebamos, até que já seja tarde demais, é, repito, espantosa.

Contam-nos os antigos gregos que certa vez, tendo já sido roubado o Fogo Divino, todos os deuses se reuniram para ocultar da Humanidade sua Essência de uma vez por todas. Nesta reunião até certo ponto sinistra, cada deus foi sugerindo a Zeus um local que estaria a salvo o suficiente para que a Essência Humana fosse guardada para a eternidade. "Coloquem-na nas profundezas do mar e o Ser Humano jamais a encontrará", gritou Poseidon, o deus dos mares e das águas. "Coloquem-na no fundo da cratera incandescente de um vulcão!", gritou Hefesto, o deus do fogo. "Não! Levem-na para as alturas celestiais", falou Urano, o deus dos céus. E assim, cada deus foi sugerindo os locais que conhecia bem. Apenas Atena, a deusa da sabedoria, permanecia calada em meio ao burburinho. Depois de ouvidos todos os deuses e deusas, Zeus disse: "Atena! Você que é a sabedora e o conhecimento do mundo, não se pronuncia? Gostaria de ouvir sua tão respeitável opinião". E Atena disse em sussurro: "Guardem a Essência Humana no único local onde a Humanidade jamais ousará procurar". "Onde? Onde?", perguntaram todos os deuses. "No fundo da Alma Humana", respondeu Atena. E assim realmente parece que foi feito...

Todas as chaves para o Espírito Humano encontram-se dentro de nós e a Humanidade insiste, após milênios de busca insana, em procurá-lo no exterior. Será que sempre precisaremos de um "mestre"? Será que continuaremos a imaginar que o poder ou o dinheiro nos trará a felicidade? Perseguiremos a fama, as paixões violentas, o amor perfeito e a sensualidade do prazer até quando? Em nome de Deus quantas guerras mais se farão? Permanecerá eternamente o Ser Humano envolto pelas núvens da ilusão? Na Índia Antiga a felicidade era o Nirvana: o esvaziar-se de si mesmo e o Nada que nos liberta do tempo e do espaço. Aristóteles chamava a felicidade de "eudemonia": ser regido por um bom gênio. Epicuro a chamava de "ataraxia": a imobilidade da alma. Buda indicava o caminho do meio, do equilíbrio e da temperança. Cristo simplesmente disse: "olhai os lírios do campo. Eles não trabalham, nem tecem, no entanto, florescem. Se Deus faz isso por eles, o que não faria por vós?". Todos sabemos o caminho. Por que insistimos em fórmulas desgastadas e comprovadamente inúteis que apenas e tão-somente multiplicam os sofrimentos e as agruras deste "vale de lágrimas"? Tão lindo vale este poderia ser se encontrássemos nossa Essência oculta, nosso Espírito. Se reconhecêssemos a divindade no Outro (Namastê) e amássemo-nos uns aos outros. Até quando, Senhor? Até quando?




"Olhai os lírios do campo...
Como são belos
Quando a manhã nasce
No coração dos homens...

Olhai os lírios do campo...
Tão alvos,
Tão castos,
Tão puros,

E procurai imita-los
Em tudo que fizerdes,
Em tudo que virdes,
Em tudo que beijardes...

Olhai os lírios do campo...
Como são felizes
Quando dormem resignados
Nos dias úmidos do inverno triste...

Olhai os lírios do campo...
Como são felizes,
Como são castos,
Como são bons
Quando escrevem na 'Vida'
O poema da 'Inocência'".

Mário Souto





Uma das razões para a manutenção deste arrastado pesar, é a capacidade inescrupulosa que alguns poucos têm de ludibriar e iludir o semelhante com técnicas cada vez mais certeiras de usar nossa própria busca pela felicidade como isca para nos empurrar goela abaixo as mais estranhas idéias e crenças. Pobres almas essas que se iludem ao iludir... Não percebem que fazem com que se percam almas de semelhantes e, para tal, perdem-se suas próprias? Quem ganha com todo este jogo?






Desejo, Necessidade, Vontade


Um desejo é algo desvinculado da realidade, sem maiores implicações; uma necessidade, justo ao contrário, é uma urgência imperiosa que se impõe como condição de sobrevivência a um indivíduo e uma vontade, típica do Ser Humano, é a livre expressão deliberada na realidade concreta da alma de um indivíduo autoconsciente. Porém, atualmente é dificultoso que se saiba quais destes desejos, destas necessidades e destas vontades são genuínos e quais foram simplesmente implantados em nossa mente através de um sutil mecanismo subliminar de pura e simples propaganda. Isso mesmo: um "desejo", uma "necessidade" ou uma "vontade" totalmente fictícios podem ser implantados em nossa mente, sem que ao menos tenhamos consciência de que isso ocorreu.

Precisamos de água, comida, abrigo e pouco mais. Porém, será que um Ser Humano pode se contentar com a satisfação dessas necessidades? Também não fazem parte destas mesmas necessidades básicas humanas o contato interpessoal, por exemplo, ou uma noção de Espiritualidade ou ainda a possibilidade da expressão? Valendo-se desta área nebulosa que existe na alma humana, o assim chamado Marketing pode criar "necessidades" que antes não existiam ou transformar necessidades reais em necessidades absolutamente fictícias. Igualmente a Propaganda é capaz de direcionar estas pseudo-necessidades e ao redor delas produzir desejos que por fim geram "vontades" que em última análise não refletem a Vontade do próprio indivíduo, mas refletem a vontade de um sistema que as implantou em sua alma.

Este sistema funciona de maneira bem simples: localiza-se inicialmente uma necessidade humana real, digamos: a necessidade de contato interpessoal e, através dele, a necessidade de ser aceito. Partindo-se do pressuposto que o próprio esquema de vida contemporâneo dificulta (não por acaso) que esta necessidade seja atendida, deduz-se que há uma grande população na sociedade que sofre de uma carência afetiva crônica e de uma baixa auto-estima em decorrência (e verifica-se na prática que isto é assim de fato). Caso pudéssemos apresentar a estes indivíduos uma maneira (ainda que enganosa) através da qual eles diminuíssem seu sofrimento, muito provavelmente a aceitariam como forma de aplacar sua dor. Então, se associássemos a idéia de relacionar-se e a de ser aceito a um padrão estético bem definido, por exemplo, teríamos uma grande população perseguindo este padrão estético a qualquer preço (literalmente), mesmo sem se dar conta que este mesmo padrão estético em nada colabora com a satisfação de sua necessidade real. Alguém que está de acordo com estes ditames estéticos será aceito pelo grupo e terá sua auto-estima reforçada (ou assim acreditará ser verdade). Chama-se isso de objeto intermediário: este objeto que se interpõe entre uma necessidade e sua satisfação imediata. Podem-se ainda interpolar outros objetos intermediários nesta equação ad infinitum, isto é: para que se alcance o padrão estético, há que se conseguir antes certo status e, para que se alcance este status há que se conseguir antes... E para que se alcance... Sem fim!

Desta forma, temos atualmente determinados mandatos: o "homem moderno" tem a "obrigação" de ser no mínimo jovial, alto, forte, másculo, com aparência esportiva, potente (sexual e socialmente), bronzeado de sol (como prova de que tem tempo livre), bem sucedido economicamente e socialmente (símbolos de status e poder), superficialmente culto, elegante (segundo os critérios da moda) e, fundamental, ter ao seu lado uma mulher dentro dos padrões sociais. A "mulher moderna" tem a "obrigação" de ser jovem, ter seios fartos, cintura extremamente fina, absolutamente nenhum acúmulo de gordura subcutânea, ausência completa de sinais na pele (tais como rugas, celulite ou varizes), lábios carnudos, olhos marcantes, musculatura rígida, sensualidade (sem escorregar para a sexualidade franca), habilidades domésticas, personalidade infantilizada e ostentar ao seu redor todos os símbolos possíveis de status (como prova do sucesso de seu companheiro). Na falta de qualquer uma destas "qualidades", o exagero das demais, pode levar a uma "compensação". Parece que estes são os paradigmas universalmente aceitos na atualidade: caso alguém se coloque fora destas regras rígidas, terá que enfrentar a rejeição social.

Os gregos antigos diziam que houve uma vez em que os deuses precisaram escolher qual dentre todas as deusas era a mais bela. As três candidatas que se apresentaram foram Afrodite, que representa o amor, Hera que representa a fama e Atena que representa a sabedoria. Neste mito, a vencedora do "concurso de beleza" foi Afrodite, mas cada um de nós deve na vida escolher entre estas três deusas, ou três objetivos de vida. Há os que se sacrificam pela beleza, outros pela fama e ainda outros pela sabedoria. O grande perigo aqui é que atualmente há caminhos pré-estabelecidos para estes objetivos sejam atingidos, e sabe-se que tais caminhos de cartas marcadas não nos levam a esses mesmos objetivos; mas, com certeza renderão milhões de dólares àqueles que detém os pedágios destas vias. De toda forma, os gregos antigos também diziam que qualquer virtude humana é mortal, como todos nós somos mortais. O mais próximo que podemos chegar da eternidade é através das artes, pois elas sobrevivem em muito aos seus atores.

O Ser Humano tende a considerar belo tudo aquilo que se apresenta aos nossos sentidos como simétrico, harmônico e de certa forma completo. As formas cósmicas dos planetas e estrelas que descrevem suas trajetórias harmônicas pelos céus, nos inspirou a isto. Porém, na evolução histórica dos conceitos estéticos, a busca pela Beleza foi gradativamente sendo substituída pela realidade nua e crua, onde pululam assimetrias, sensações conflitantes, dissonâncias e a aleatoriedade. Este processo chegou a tal ponto que atualmente não mais se tem a noção do que possa vir a ser o artístico e muito menos o belo. O Realismo, o Modernismo, o Desconstrutivismo, a Antropofagia, o Surrealismo, a estética Punk, a estética Gótica incumbiram-se de destroçar estes conceitos e deram lugar a um grande nada. É justamente sobre este nada que atuam a Propaganda e o Marketing.

Vivemos a era Pós-Tudo, onde tudo já foi feito, tudo já foi tentado e tudo já foi descartado. Mesmo no âmbito da religião e da Espiritualidade todos os paradigmas foram sistematicamente demolidos e o que resta hoje é uma profusão de doutrinas religiosas em constante conflito entre si e que nada mais provocam no Ser Humano do que angústia. Resumindo: o Ser Humano vive uma era sem sonhos, sem parâmetros e sem absolutamente nenhum referencial inquestionável. Na falta de um deus para reverenciar, o Inconsciente imediatamente procura qualquer ídolo que o substitua, nem sempre de forma adequada e coerente. Este processo recebe o nome de "idolatria": há os que cultuam o dinheiro, o saber, o poder ou mesmo aqueles que se dignam a cultuar a figura de um astro pop e até mesmo os que idolatram uma religião qualquer que lhes apresente, ainda que psicótica, incoerente e infundada.

É lógico que por trás disto há uma gigantesca mola propulsora, fruto de uma engrenagem social: o consumismo. Os mercados devem ser expandidos a qualquer preço. Cotas de vendas devem ser atingidas unicamente para serem superadas. Cremes de beleza, maquiagem, cirurgias plásticas, procedimentos cosmiátricos, academias de ginásticas, tratamentos corporais, métodos fraudulentos que prometem uma beleza mágica são sustentados por esta busca frenética. Marcas "famosas", etiquetas, material eletrônico de última geração, automóveis, brinquedos aberrantes, jóias, objetos de design, móveis, tapetes, quadros, bolsas, sapatos, vestuário e muitos, muitos acessórios. Álcool, drogas, cigarro, métodos sistemáticos de desconexão da realidade como Internet, realidade virtual, imagem e som, ilusões. Viagra, anabolizantes, anti-depressivos, ansiolíticos, anti-bióticos, anti-inflamatórios, anti-oxidantes, extasy... O que seria de todos estes mercados se de uma hora para outra as pessoas desistissem de procurar objetos? E mais: sempre há um up grade, sempre há uma nova versão, sempre há uma nova tendência, sempre há uma nova meta, novas cotas de venda, novos mercados.

Atentemos para a inutilidade de tudo isso: todos morreremos, mais cedo ou mais tarde. Devemos ter sempre em mente que as coisas são somente aquilo que elas são e não vão nos garantir a satisfação de NENHUMA de nossas necessidades reais. Quem não conhece alguma jovenzinha que sofre de anorexia nervosa? Quem nunca viu aquele halterofilista que continua desesperadamente a recorrer a substâncias químicas para "crescer" ainda mais? Quem jamais cruzou com aquela mulher que não consegue mais mover seus músculos faciais e está inchada com colágeno e arrasta por sobre si uma infinidade de objetos inúteis e caríssimos? Quem já não observou a "alegria" e o "entusiasmo" com que os jovens se entregam a longas "baladas"? Quem nunca viu um adolescente que se torna rapidamente dependente de álcool e de drogas cada vez mais potentes bem debaixo dos olhos desatentos de seus pais? Quem nunca viu as multidões que se aglomeram em torno de um templo que dissemina o preconceito e o ódio. Consumismo, puramente consumismo. Talvez alguém saiba me dizer sobre a indústria bélica, com conseqüências talvez muito mais terríveis. Sabe-se que hoje aproximadamente um terço da Humanidade passa fome e vive em condições de pobreza absoluta. Sabe-se também que outro terço da Humanidade sofre por problemas gerados pela obesidade. Aonde é que o consumismo pretende levar a humanidade, se mesmo aqueles que criam esta rede infinda de desejos, necessidades e vontades acabam por ela escravizados?

Toda idolatria se cura com a tomada de consciência do processo e ao se encarar a verdadeira causa que nos levou a ela: a falta de deuses para serem cultuados. O Ser Humano necessita, como sempre necessitou e continuará a necessitar, de Espiritualidade. A partir do momento em que a Beleza retornar ao seu lugar de origem, ou seja: às artes, ao Bem e à contemplação da Natureza, a verdadeira Espiritualidade ressurgirá e conseqüentemente a idolatria perderá todo seu pseudo-sentido. Mas que se consiga atingir este nível de consciência de forma global é praticamente impossível no momento: contra esta tomada de consciência há forças sociais estabelecidas pelo consumismo capitalista que nos bombardeiam diariamente com inúmeras mensagens subliminares nos meios de comunicação, nos paradigmas aceitos pela opinião da maioria, pelo modus vivendi da sociedade ocidental. Porém, algo necessita ser urgentemente alterado neste modus vivendi para que a Humanidade consiga superar este impasse contemporâneo...



Pânico geral

O Pânico (Ansiedade Paroxística) é uma "super crise de ansiedade", normalmente acompanhada de sintomas físicos (taquicardia, sensação de sufocamento, sudorese, dores musculares, formigamento de mão e pés, desmaios, etc) que acontece sem aviso e sem causa aparente, podendo pegar uma pessoa de surpresa em qualquer situação: dirigindo, trabalhando, em casa ou mesmo dormindo. A sensação é de morte iminente, mesmo que a pessoa não esteja exposta a nenhum risco real. O mal estar é tão grande que provoca no indivíduo um medo intenso de que ele possa se repetir, o que leva a mais ansiedade. Inicialmente, a pessoa tenta correlacionar a crise com algum evento e a tendência geral é a de evitá-lo. Por exemplo: se a crise ocorreu no carro, o paciente procura evitar andar de carro. Porém, com o tempo, as crises passam a ocorrer em inúmeras situações diferentes e a pessoa tende a ter medo de exercer qualquer atividade, até então corriqueira em sua vida. As limitações impostas pela doença aos pacientes são crescentes e progressivamente mais severas. Aparece aquilo que os médicos chamam de "agorafobia": medo intenso de se ver em ambientes abertos ou mesmo de afastar-se de casa e a "fobofobia": medo de ter medo. Neste ponto, em desespero, os pacientes imaginam que possam estar sofrendo de doenças orgânicas, tais como problemas cardíacos ou alterações hormonais e iniciam uma verdadeira peregrinação de especialista em especialista, passando por uma batelada de exames complexos, até se darem conta de que o problema tem uma causa absolutamente psíquica. É neste ponto que muito comumente a depressão se sobrepõe à ansiedade. Um círculo vicioso se instala e temos então uma pessoa limitada, angustiada, depressiva e que não consegue se ver livre de crises de ansiedade recorrentes. Tudo se passa como se a pessoa estivesse enfrentando uma situação de emergência, de pânico, apesar de misteriosamente estar levando uma vida tranqüila e sem nenhum fator estressante aparente.

Mas o que ocorre com uma pessoa que a leva ao Pânico, afinal? Imaginemos inicialmente a vida de uma pessoa comum há uns, digamos, dois ou três séculos passados: um indivíduo vivia em regiões tranqüilas e isoladas, longe dos grandes centros urbanos e tinha a necessidade diária de conviver com seus familiares em constante troca afetiva de ajuda mútua. Havia também a necessidade de exercício físico constante, como por exemplo, para cortar lenha, cuidar de seus animais domésticos e de sua moradia, sem quase nenhuma facilidade tecnológica para auxiliá-lo nestas tarefas. O próprio trabalho rural dos indivíduos era o fator responsável pela integração do Ser Humano à Natureza. A Espiritualidade, seja de qual origem fosse, era a linha mestra das vidas. O acesso à informação era absolutamente restrito e ineficaz, o que obrigava o indivíduo a ignorar os acontecimentos que não estavam rigorosamente ligados à sua vida pessoal e da pequena comunidade a que pertencia. Nosso sistema emocional foi feito, por assim dizer, para este tipo de vida pacata e rural e não para a vida que temos hoje. Nosso sistema cognitivo consegue dar conta desta informação: entendemos facilmente que houve um terremoto no Japão, um atentado terrorista nos Estados Unidos e um bombardeio no Oriente Médio. Mas o que podemos fazer com a carga emocional que cada uma destas notícias contém? Somemos a isto o stress que a pressão da propaganda nos impõe: temos que ter o tal carro do ano, temos que usar a tal roupa de grife e temos que dar a nossos filhos o tal brinquedo eletrônico e computadorizado que ele viu na TV e raramente nossa renda acompanha os gastos destas "necessidades" criadas pelo Marketing. Para piorar, não conseguimos ter o controle de nossas atividades diárias: normalmente exigem-se de cada um mais tarefas do que seriam possíveis nas vinte e quatro horas de um dia. Nos únicos momentos de relaxamento e descontração, dedicamo-nos a receber mais informações cognitivo-emocionais conflitantes, quando nos expomos a um filme de ação cheio de violência e terror ou simplesmente nos anestesiamos com substâncias entorpecedoras (álcool e drogas). O contato interpessoal, vital para qualquer Ser Humano, tornou-se cada vez mais excepcional e de baixíssima qualidade, permeado por stress e ansiedade. O contato frutífero com o Inconsciente através das atividades criativas, artísticas ou através dos sonhos e das estórias mitológicas e folclóricas, perdeu-se em meio à confusão da modernidade. O exercício físico somente é possível mediante compromissos agendados em academias, que acabam trazendo mais informações desnecessárias e mais exigências impostas pela sociedade de consumo. O Pânico, visto sob este prisma, parece-me uma doença social fadada a acometer um número cada vez maior de pessoas, não? Cada indivíduo consegue lidar com uma quantidade "X" de stress: cada um de nós tem seu limiar. Ultrapassado este limiar, o cérebro humano está programado, desde a mais remota antiguidade, para detonar sinais de alerta e declarar, à revelia da consciência, que estamos submetidos a uma situação emergencial, em que devemos lançar mão de mecanismos que possam garantir nossa sobrevivência. Este alerta é o pânico. O pânico, palavra grega que significa "aquilo que atinge a todos indistintamente", é o instinto que faz com que a presa fuja do predador, é aquele sentimento que faz com que cada um aja para defender sua própria vida, rebaixando as funções intelectivas superiores. Os centros neuronais responsáveis por este "decreto de pânico", são os chamados núcleos da base e o sistema límbico. Os núcleos da base são estruturas que foram por nós herdadas dos répteis, por isso são também conhecidas como "cérebro reptiliano". A agressividade, os rompantes emocionais e o preparo do organismo como um todo para o choque, são suas "marcas registradas". Este cérebro reptiliano não tem condições de separar o que é fantasia, do que é realidade. Não há como abstrair quais informações realmente dizem respeito à nossa vida e quais não, não há como classificar quais necessidades são imperiosas e quais são apenas apelos sociais. Quando este cérebro reptiliano toma o poder, mesmo quando não ocorre uma situação em que nossa vida esta sob a ameaça de um perigo real, ocorre uma crise paroxística de ansiedade, que é mediada pelo sistema límbico. A "Síndrome do Pânico" é a situação em que nosso cérebro e nosso corpo reagem como se estivéssemos frente a frente com um tigre de dentes de sabre, mesmo quando este tigre seja tão-somente nossa vida cotidiana contemporânea.

A única maneira de revertermos o processo da crescente "epidemia" de Pânico, é a mudança urgente do modo de vida, principalmente o levado pelos habitantes dos grandes centros urbanos. O retorno às atividades artísticas e criativas; a instituição do exercício físico habitual e desvinculado das exigências sociais estéticas e consumistas; o contato pleno com o Inconsciente proporcionado pelos sonhos, pelos mitos e pelo folclore; o contato verdadeiro e afetivo entre os indivíduos e, finalmente, a diminuição do bombardeio diário do excesso de informação, são as saídas conjuntas obrigatórias. A Espiritualidade também impõe-se como fator estabilizador e redutor de pseudo-responsabilidades individuais, re-introduzindo a noção do coletivo e da deidade responsável por esta coletividade, tal qual a Natureza como fator re-equilibrador em seus ciclos eternos. Estes são os verdadeiros desafios a serem superados pela sociedade do Século XXI.


O Medo do Diferente

"Misoneísmo" é o termo que designa o medo irracional expresso sob forma de preconceito e resistência ao que é novo. Tudo o que é novo é aquilo que nos é diferente. Podem reparar: aquelas coisas que nunca vimos antes, invariavelmente, à primeira vista, nos parecem estranhas e aterrorizantes, mesmo que no fundo nos causem um certo fascínio. Até certo ponto este sentimento misoneista é absolutamente natural: até este ponto em que ele se situa entre a curiosidade e o medo, a atração e a aversão. Quando este misoneísmo se mistura à moral e, pior, quando deles nasce um comportamento discriminatório e segregacionista, podendo chegar aos horrores sociais da xenofobia declarada, do nacionalismo, do racismo, do apartheid, da escravidão ou do genocídio; do misoginismo, do sexismo ou da homofobia; da segregação religiosa, do fundamentalismo ou das assim chamadas "guerras santas", o que era natural, assume aspecto monstruoso e muda rapidamente de figura.

Quando se tem consciência deste processo, da existência do misoneísmo e de seus perigos potenciais, pode-se refletir sobre o próprio medo e, a partir de uma postura racional, combatê-lo de forma declarada, com coragem e compreensão de que o que nos é diferente não necessariamente é ruim. Este movimento de consciência racional reflexiva mostra-nos invariavelmente a diversidade humana e revela-nos, nesta diversidade, que o que é diferente é exatamente aquilo que vem enriquecer nossa visão, até então parcial, do existir humano. Afastados interesses políticos, sociais e econômicos de cunho escuso e tortuoso, este caminho é o único que se apresenta racional e propriamente humano, superando aos poucos um primeiro impulso instintivo, primitivo e animal, representado pelo misoneísmo.

A coisa já começa por um aparentemente inocente jogo de futebol, onde somos "nós" contra "eles". Deste confronto podem aparecer do fundo da alma humana, oriundos de tempos pré-históricos, sentimentos extremamente destrutivos que podem jogar um grupo contra o outro, até níveis absolutamente selvagens, como não raro se vê em espetáculos bárbaros de brigas entre torcidas ou mesmo antagonismos entre cidades, países ou povos inteiros, que, a priori, deveriam ser grupos irmãos unidos pelo esporte. A espécie humana é uma raça muitíssimo agressiva e acaba "aproveitando-se" de desculpas coletivas como estas para dar vazão à toda agressividade contida. É exatamente por esta razão que povos tradicionalmente mais contidos é que serão aqueles que mais belicosos se apresentarão em situação de "exceção", tais como os Hulligans. A aparição destes sentimentos selvagens se dá normalmente de forma insidiosa e lentamente progressiva, solapando aos poucos as defesas psíquicas e distorcendo gradativamente o verniz civilizado. Isto é eximiamente apresentado no filme "O Senhor das Moscas" ou na estória do "Médico e do Monstro". Este lado oculto e reprimido de nossa existência, é conhecido como "Sombra". Inevitavelmente a Sombra se aproveita de nossa tendência natural ao misoneísmo para manifestar-se: há que se cuidar para não ser por ela dominado.

Tudo fica muito pior quando existe um contexto social, histórico ou geopolítico que venha a corroborar racionalmente, ainda que de forma falaciosa, este sentimento primitivo e selvagem que emerge a partir do misoneísmo. Quando há séculos ou mesmo há milênios existe uma tendência generalizada de uma sociedade como um todo em apoiar a discriminação e quando para tal usam-se leis morais ou religiosas, a Sombra ganha plenos poderes para manifestar-se em seu lado mais doentio e feroz. A opressão contra a mulher, o racismo contra os negros, a crítica à homossexualidade e os confrontos religiosos são exemplos desta magnitude. As sociedades arbitrárias e neuróticas necessitam de um "bode expiatório" para justificar seus desacertos e desventuras. Eleitos tais "bodes expiatórios", dificilmente serão esquecidos e deixados de lado, pois, para que isto aconteça, haveria a necessidade da eleição de novos para seu lugar. Todo este mecanismo acontece em um nível inconsciente coletivo e é automaticamente transmitido de geração para geração através dos costumes e da educação. Mesmo pessoas que individualmente têm consciência destes processos, acabam por se flagrarem em atitudes preconceituosas "aqui e ali", quando impulsionadas pelo coletivo. Nestes casos, o medo de que a aceitação do que é diferente e novo venha a transformar o status quo e a colocar em risco a própria existência de todo o grupo parece absoluto e imperioso, sobrepujando a própria racionalidade e dela se utilizando para sustentar uma argumentação equivocada em nome do misoneísmo.

Um triste exemplo pode ser visto num texto publicado por um renomado professor universitário do Rio de Janeiro contra a homossexualidade: Prof. Dr. Olavo de Carvalho. Nele, este senhor demonstra claramente todo seu esforço em afastar de si seu pânico irracional frente às práticas homossexuais de diversos níveis. O único intuito de um texto assim, aliás bem articulado e elaborado, me parece ser a auto-afirmação de que sua própria sexualidade está longe de ser classificada como homossexual, apesar de deixar claro nas entrelinhas, que na infância e/ou adolescência deva ter havido algumas experiências sexuais entre ele e indivíduos do mesmo sexo. Práticas homossexuais são absolutamente comuns na infância e adolescência. O ataque aos homossexuais e à homossexualiade justificar-se-ia apenas por uma negação de sua própria homossexualidade, como extravasamento do medo e da culpa contidas nas lembranças destas práticas homossexuais do passado. O homossexual do presente seria uma espécie de "reencarnação" das culpas do sujeito cometidas num passado distante e, como tal, seria eleito o "bode expiatório" perfeito para uma auto-afirmação e para um processo catártico. Não há impedimento que, apesar de ter tido relações homo e/ou heterossexuais, uma pessoa se autoclassifique como heterossexual. O problema está em não permitir que outras pessoas se autoclassifiquem como bissexuais ou homossexuais.

Não me parece que a pura existência de homossexuais assumidos ou da homossexualidade coloque em risco a da heterossexualidade ou a de heterossexuais, bem como a de qualquer outro tipo de sexualidade. Imagino que a aceitação do diferente, não o genitalmente diferente, mas o que é comportamentalmente diverso demonstra tão-somente uma segurança plena em relação às próprias convicções do heterossexual. Deduz-se que a não aceitação do que lhe é diverso, demonstra claramente a insegurança pessoal que o homofóbico tem em relação à própria sexualidade, gerando, como o nome indica, um medo irracional e patológico àquele comportamento que colocaria neuroticamente em risco suas idéias pouco fundamentadas sobre seus titubeantes impulsos sexuais. O verdadeiro heterossexual jamais se sentiria ameaçado pela existência do homossexual ou do bissexual. Igualmente, a homossexualidade não coloca em risco a sobrevivência da espécie humana, como afirma o prof. Olavo de Carvalho em seu texto. Primeiro, por sempre haver existido ao longo de milênios em todas as culturas conhecidas. Segundo, por existir em uma proporção que sempre girou em torno dos 10% de qualquer população, o que está longe de impedir a reprodução humana, tão comum e freqüente. Pelo contrário: a Humanidade alastra-se como uma praga por sobre este planeta! Mesmo em épocas em que estes valores foram ligeiramente maiores, a espécie jamais foi ameaçada de extinção. A fantasia da ameaça à própria existência da espécie, fundamenta-se no medo da destruição dos valores tidos como indispensáveis à sobrevivência psíquica do homofóbico, projetado por continuidade em toda a humanidade. Em outras palavras: se um homofóbico aceita a homossexualidade no outro, deve inexoravelmente aceitar a própria homossexualidade e vê nisso a ameaça à sua própria sobrevivência enquanto indivíduo, sem se dar conta que sua homofobia confirma sua homossexualidade latente.

Igual mecanismo ocorre na mente do machista inveterado: ao rejeitar a mulher, pensa reafirmar sua própria masculinidade, sem ao menos perceber que tamanha rejeição ao por ele chamado "sexo frágil" é fruto do medo devastador que sente de ser derrotado por uma liberdade do feminino em si mesmo e na sociedade. Este medo, absolutamente irracional, é fruto de épocas muito antigas, desde há mais de 10 mil anos, quando a sistema predominante na humanidade era o matriarcado. Nestas épocas, todo o poder político e social cabia à mulher e os homens eram sistematicamente usados somente para trabalhos braçais, tidos como menores, e para a guerra. Relegados a um plano de inferioridade social, os homens resolveram se rebelar. O matriarcado, origem e base das sociedades primitivas, somente foi derrotado com o uso da força bruta por parte dos homens e com a instituição de tabus, regras e leis, claramente discriminatórias contra a mulher. O patriarcado se apóia então sobre o medo para existir: o medo do homem em ser dominado (mais uma vez) pela mulher e o medo imposto de volta do homem contra a mulher, garantindo a primazia daquele sobre esta. A personificação deste medo pode ser facilmente notada em figuras mitológicas de diversas origens, tais como personagens no estilo de Medeia, Fedra, Circe, na figura da bruxa ou na encarnação máxima deste medo: Lilith. O primoroso livro de Roberto Cicuteri, "Lilith, A Lua Negra", explora muitíssimo bem este tema, em diversos campos projetivos. Igualmente o tema patriarcado versus matriarcado pode ser visto na coletânea de textos de Erich Neumann, "Pais & Mães" ou no livro de Sigmund Freud "Totem e Tabu". Esta imensa discriminação contra a mulher, somente começou a ser corrigida há menos de 50 anos com o aparecimento dos movimentos de "liberação feminina" e das primeiras feministas e, na prática de muitos países e culturas, ainda espera uma redenção eficaz. Quem não se choca com a agressividade contra a mulher infelizmente ainda tão comum em nosso meio e em culturas patriarcais extremistas?

Há quem se justifique dizendo que "a mera expressão de condenação moral não é discriminação; é exercício da liberdade de consciência". Como é possível que a moral seja expressão da liberdade??? A moral é fruto da separação entre a Luz e a Sombra, o Bem e o Mal, assumidos como tais de forma arbitrária e absolutamente variável de cultura para cultura, de época para época. Em essência: discriminatória. A moral é inevitavelmente dada e relativa, maniqueísta e ilógica, sempre a serviço de determinados interesses sociais, oligarquias e visões parciais do mundo. O mesmo já não acontece com a Ética que se pretende uma dedução lógica da maneira do agir, procurando o que poderia ser a idéia do Bem Universal. Mesmo a Ética ainda se apresenta por vezes contraditória e pouco concludente. O que não se diria da pura e simples moral... É verdade que um indivíduo, ainda que contra a Ética, tenha o direito de ser discriminatório e moralista, mas este direito per se não legitima sua posição ou a moral por ele adotada. Igualmente Simone de Beauvoir, ainda que com argumentos totalmente diversos, concordaria com esta colocação. Kant pode aplicar seus Imperativos Categóricos a todos os seres racionais, como por ele é definido, desde que exclua deste conjunto os Seres Humanos, muito mais complexos e compostos que puramente racionais e pensantes.

Também é possível que se diga que "o preconceito mesmo, por irracional e fanático que seja, não é discriminação, desde que não se expresse em atos agressivos ou danosos". Absolutamente de acordo. Infelizmente, na prática, o que ocorre é que o preconceito leva, na maioria das vezes, a tais atos agressivos ou danosos. Ou seja: um indivíduo somente teria o direito de permanecer preconceituoso, ainda que contra a Ética (repito), apenas se jamais agisse de acordo com tais preconceitos contra indivíduos que exercem atos contrários às suas idéias pré-concebidas ou ainda, sem que jamais agisse contra as ações por eles praticadas. O que equivale dizer que qualquer um tem o direito de ser misoneista, contanto que permita que todos se expressem livremente (inclusive em atos) e que a pluralidade humana seja uma possibilidade viável em qualquer local ou momento.

Quando estes preconceitos milenares estão a serviço da manutenção da hegemonia política e/ou de um determinado grupo, as proporções mais catastróficas deste processo se apresentam. Pois não era de extremo interesse das classes dominantes que os negros continuassem a ser considerados seres inferiores para que a mão de obra escrava pudesse continuar a ser utilizada nas Américas? O belíssimo filme de Steven Spielberg, "Amistad", demonstra isto claramente na narrativa dramática e realista de uma história real. Exatamente da mesma forma o regime de apartheid na África do Sul e nos Estados Unidos não era extremamente confortável para as elites que dele tiravam proveito econômico e político? O mesmo não ocorre com o sistema de castas na Índia? Não se poderia dizer que a segregação social, tão comum no Brasil, não está a serviço das elites que se beneficiam com a perpetuação da existência de uma massa inculta, sem consciência política e manipulável? Pois não é vantajoso para os chamados países do "Primeiro Mundo" a existência de países pobres que por eles são explorados? Pois não foi então o dinheiro e os bens usurpados da população judaica da Europa que financiou a Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial? Todos estes sistemas segregacionistas de igual maneira se beneficiam de um pseudo-sentimento misoneista para um ganho secundário de enorme tamanho, mantido disfarçado por sob uma capa de simples preconceito étnico, religioso ou social. Nestes casos, são manobrados e manipulados tanto os preconceituosos quanto os discriminados.

Mesmo nos casos em que aparentemente as partes do jogo estão claramente delimitadas, pode-se perceber uma manipulação dos fatos e da opinião pública em favor de determinadas elites. No recente acontecimento da tragédia do World Trade Center em Nova York, apesar do inegável horror dos acontecimentos por todos testemunhados, poucos foram aqueles que se questionaram sobre a legitimidade da resposta arbitrária e extremamente agressiva dos Estados Unidos contra uma população pobre e já tão sofrida com inúmeras guerras anteriores, como a do Afeganistão. O que o infeliz povo do Afeganistão tem a ver com os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001? Qual o direito que o país mais rico do mundo tem de interferir drasticamente na cultura de um outro povo que contra ele jamais fez um ato de guerra? E o Iraque? Onde estão as armas de destruição em massa? Onde está a libertação do Iraque que deu nome à guerra? É liberdade uma guerra civil? Será possível que ninguém tenha noção de que com o valor de um único míssil jogado sobre uma população civil indefesa seria possível que se alimentasse todo um povo por um mês inteiro? Qual a relação existente entre os árabes e muçulmanos de todo o planeta (inclusive do Brasil) com os atos de uma pequena minoria fundamentalista e fanática? Por que todo um povo deve ser segregado como "bode expiatório" de uma "meia-dúzia" de terroristas absolutamente insanos? Ou será que ninguém notou a arbitrariedade com que os árabes e muçulmanos em geral foram e estão sendo tratados por agentes americanos e pela opinião pública por eles manipulada? Pensar sobre isso é vital neste momento.

Em Grego existem três formas distintas para se dizer "amor". A primeira, normalmente traduzida por "amizade" é a palavra "philia". Philia é o sentimento que expressa a união de "nós" (amigos) contra "eles" (inimigos). A philia está na base do misoneísmo. A segunda é a palavra "eros", traduzida como "amor complementaridade", "amor entre os opostos". Eros expressa a idéia de que no diferente reside a complementação em busca da totalidade e da harmonia, fruto da pluralidade. No entanto, na Bíblia toda vez que se lê a palavra "amor" na tradução em Português, não é a nenhuma destas palavras que se refere no original grego. É à terceira palavra a que faz referência: "agápe". Agápe é o "amor incondicional". Amor que une todos os seres sob o céu. Amor que ama a tudo indistintamente e que reúne em si o Universo, sem se importar com diferenças ou semelhanças. É exatamente a este agápe ("caritas", em latim) que Cristo se refere em sua frase: "amai-vos uns aos outros". Há possibilidade mais abrangente ou sentimento mais nobre que este? Por que não amar o que é diferente?


O Ovo da Serpente

Muito além de todas estas manipulações, ardis e esquemas francamente malignos de desencaminhar o propriamente Humano de sua verdadeira busca por si mesmo, estão as mais altas formas de usurpação da liberdade Humana. Cuidado com os que convidam para mundos secretos que contém a chave para todo o universo! Somente para os que já percorreram todas as exigências do mundo atual, para os "escolhidos" abrem-se estas estreitas passagens. Muito atrás de si já devem estar os conceitos e padrões, o pânico e a depressão, os medos corriqueiros. Almas evoluídas podem se ver fisgadas por golpes requintados...

Todo mundo sabe que existem as tais "organizações secretas" que agora já são temas de filmes de terceira classe. A Maçonaria, os Templários, o Illuminati, a Gnose, a Eubiose, a Tulipa Negra e quantas mais. Mas existem mesmo essas organizações secretas? Se são secretas, como todo mundo sabe que elas existem? Ai está a ilusão maior: ao se banalizar esses conceitos, ao tornarem-se algum universo paralelo entre a ficção e a realidade, elas se camuflam novamente e encobrem suas ações. Quem acreditaria que uma destas organizações controla o mundo? Estas ordens atualmente são tão críveis quanto o Super-Homem e a Branca-de-Neve. Todo mundo conhece, ninguém acredita. Mas elas existem e elas controlam o mundo. Elas dividem entre si as cabeças coroadas da Humanidade. Elegem governos, depõe reis, fazem prosperar Estados, criam e derrubam impérios. Sempre por subterfúgios, sempre por entre as sombras seguras do anonimato e dos pactos de silêncio.

A ascensão do Nazismo foi a última tentativa de uma tomada de poder ostensiva e clara. Depois da derrocada, infiltrar-se é a ordem. Infiltrar-se sob o título de "A Nova Ordem Mundial". Um governo único é o sonho. A paz mundial, o lema. O poder absoluto, o objetivo... Usando as falsas esperanças de felicidade incutidas nas almas da massa, valendo-se da ambição dos grandes chefes e criando em seu ninho as serpentes que dominarão o mundo em seu nome, estas organizações alcançam todos os lugares, todas as pessoas. O plano é seguinte: se todas as mentes privilegiadas do mundo forem trazidas para o seio destas organizações desde a mais tenra idade, se nelas forem implantados indelevelmente os conceitos e a visão de mundo de modo certo, em poucas gerações as grandes personalidades do mundo não passarão de autômatos em suas mãos. "A mão que balança o berço controla o mundo".

Até que ponto isto é um puro delírio paranóide de perseguição e até que ponto refletem a verdade? Quais organizações existem e quais não? Qual, das ordens existentes, representa um perigo real para a Humanidade?

" Gary Allen, o comentarista chefe da sociedade John Birch, acredita que a URSS é secretamente controlada pela família Rockefeller." Carl Oglesby, ex-presidente do novo grupo de esquerda americano Estudantes para uma Sociedade Democrática, afirma que os assassinatos políticos dos anos sessenta e a crise de Watergate fizeram parte de uma luta gigantesca pelo controle do E.U.A. entre os banqueiros de Nova Iorque e os petroleiros do Texas." Nesta H. Webster, a escritora dos anos 20 que originou muito das teorias de conspiração modernas, alegou que movimentos revolucionários modernos são manipulados por uma conspiração oculta de séculos de idade que se origina com os medievais Cavaleiros Templários e a Ordem dos Assassinos." Walter Bowart, um jornalista americano, acredita que a CIA controla os E.U.A. por meio de um exército secreto de agentes zumbi que foram submetidos operações de controle da mente." O autor anônimo de The Gemstone File, uma alegada história secreta da América moderna distribuída por livrarias underground aqui e nos E.U.A., alega que a guerra de Vietnã foi lutada para preservar o monopólio do mercado mundial de heroína por Aristóteles Onassis.

A história das teorias de conspiração começa na década de 1790. A Revolução francesa, por causa de sua natureza totalmente sem precedente, teve um impacto difícil de conceber hoje. De repente, por toda parte na Europa toda estrutura da sociedade parecia ameaçada e idéias existentes pareciam inadequadas para explicar o que tinha acontecido. Na Inglaterra os resultados incluíram repressão oficial e um crescimento súbito de cultos baseados nas passagens apocalípticas da Bíblia.

Illuminati, plural do latim Illuminatus (aquele que é iluminado), é o nome dado a diversos grupos, alguns históricos outros modernos, poucos verdadeiros muitos fictícios. Mais comumente, contudo, o termo Illuminati tem sido empregado especificamente para referir-se aos Illuminati da Baviera, a menos secreta de todas as sociedades secretas do mundo, descrita abaixo. Usos alegados e fictícios do termo referem-se a uma organização conspiracional que controlaria os assuntos mundiais secretamente, normalmente como versão moderna ou como continuação dos Illuminati bávaros. O nome Illuminati é algumas vezes empregado como sinônimo de "Nova Ordem Mundial". Dado que Illuminati significa literalmente "os iluminados" em latim, é natural que diversos grupos históricos, não relacionados entre si, se tenham autodenominados de Illuminati. Frequentemente faziam isso alegando possuir textos gnósticos ou outras informações arcanas (secretas) não disponíveis ao grande público. A designação Illuminati esteve em uso também desde o século XIV pelos Brethren of the Free Spirit (Irmãos do Espírito Livre), e no século XV o título foi assumido por outros entusiastas que argumentavam que a luz da iluminação provinha, não de uma fonte autorizada mas secreta, mas de dentro, como resultado de um estado alterado de consciência, ou "iluminismo", ou seja, esclarecimento espiritual e psíquico. Na Espanha, os Alumbrados pertencem ao último grupo mencionado. O historiador Marcelino Menéndez y Pelayo encontrou registro do nome já em 1492 (na forma iluminados, 1498), mas ligou-os a uma origem gnóstica, e julgou que seus ensinamentos eram promovidos na Espanha por influências vindas da Itália. Um de seus mais antigos líderes, nascido em Salamanca, foi a filha de um trabalhador conhecida como a "Beata de Piedrahita", que chamou a atenção da Inquisição em 1511, por afirmar que mantinha diálogos com Jesus Cristo e a Virgem Maria. Foi salva de uma investigação rigorosa por padrinhos poderosos (fato citado pelo mencionado historiador espanhol em seu livro "Los Heterodoxos Españoles", 1881, Vol. V). Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, ordem religiosa da Igreja Católica cujos membros são conhecidos como jesuítas, na época em que estudava em Salamanca em 1527, foi trazido perante uma comissão eclesiástica acusado de simpatia com os alumbrados, mas escapou apenas com uma advertência. Outros não tiveram tanta sorte. Em 1529, uma congregação de ingênuos simpatizantes em Toledo foi submetida a chicoteamento e prisão. Maior rigor foi a conseqüência e por cerca de um século muitos alumbrados foram vítimas da Inquisição, especialmente em Córdoba. O movimento com o nome de Illuminés parece ter alcançado a França em 1623, proveniente de Sevilha, Espanha, e teve início na região da Picardie francesa, quando Pierce Guérin, pároco de Saint-Georges de Roye, juntou-se em 1634 ao movimento. Seus seguidores, conhecidos por Gurinets, foram suprimidos em 1635. Um século mais tarde, outro grupo de Illuminés, mais obscuro, contudo, apareceu no sul da França em 1722 e parece ter atuado até 1794, tendo afinidades com o grupo conhecimento contemporaneamente no Reino Unido como French Prophets (Profetas Franceses), um ramo dos Camisards. Uma classe diferente formam os Rosacruzes, que alegam ter origem em 1422, mas cujo primeiro registro data de 1537. Constituem uma sociedade secreta, que afirma combinar com os mistérios da alquimia a posse de princípios esotéricos de religião. Suas posições estão incorporadas em três tratados anónimos de 1614, mencionados no "Dictionnaire Universel des Sciences Ecclésiastiques", de Richard and Giraud, Paris 1825. Os Rosacruzes também alegam serem herdeiros dos Cavaleiros do Templo, ou Templários. Mais tarde, o título Illuminati foi aplicado aos Martinistas Franceses, cuja fundação data de 1754, por Martinez Pasqualis, e a seus imitadores, os Martinistas Russos, chefiados por volta de 1790 pelo Professor Schwartz, de Moscovo. Ambos os grupos eram cabalistas ocultistas e alegoristas, absorvendo idéias de Jakob Boehme e Emanuel Swedenborg.

Um movimento de curta duração de republicanos livre-pensadores, o ramo mais radical do Iluminismo - a cujos seguidores foi atribuído o nome de Illuminati (mas que a si mesmos chamavam de "perfectibilistas" ou "perfeccionistas") - foi fundado a 1 de Maio de 1776 pelo ex-sacerdote jesuíta e professor de lei canónica Adam Weishaupt, falecido em 1830, e pelo barão Adolph von Knigge, na cidade de Ingolstadt, Baviera, atual Alemanha. O grupo foi fundado com o nome de Antigos e Iluminados Profetas da Baviera (Ancient and Illuminated Seers of Bavaria, AISB), mas tem sido chamado de Ordem Illuminati, a Ordem dos Illuminati e os Illuminati bávaros. Na conservadora Baviera, onde o progressista e esclarecido Eleitor Maximiliano José III de Wittelsbach foi sucedido em 1777 pelo seu conservador herdeiro Karl Theodor, e que era dominada pela Igreja Católica Romana e pela aristocracia, tal tipo de organização não durou muito até ser suprimida pelo poder político. Em 1784, o governo bávaro baniu todas as sociedades secretas incluindo os Illuminati e os maçons. A estrutura dos Illuminati desmoronou logo, mas enquanto existiu, muitos intelectuais influentes e políticos progressistas se contaram entre os seus membros. Eles eram recrutados principalmente dentre os maçons e ex-maçons, juravam obediência a seus superiores e estavam divididos em três classes principais: a primeira, conhecida como Berçário, compreendia os graus ascendentes ou ofícios de Preparação, Noviciado, Minerval e Illuminatus Minor; a segunda, conhecida como a Maçonaria, consistia dos graus ascendentes de Illuminatus Major e Illuminatus dirigens, esse último algumas vezes chamado de Cavaleiro Escocês; a terceira, designada de Mistérios, estava subdividida nos graus de Mistérios Menores (Presbítero e Regente) e Mistérios Maiores (Magus e Rex). Relações com as lojas maçônicas foram estabelecidas em Munique e Freising, em 1780. A ordem tinha ramos na maior parte dos países europeus, mas o número total de membros parece nunca ser sido superior a 2.000. O esquema teve a sua atração para os literatos, como Goethe e Herder, e mesmo para os duques reinantes de Gotha e Weimar. Rupturas internas precederam o desmoronamento da organização, que foi efetivado por um édito do governo bávaro em 1785. A ordem foi encerrada oficialmente em 1790. Diz-se que sua doutrina está baseada numa mistura de misticismo islâmico (sufistas), dos segredos maçônicos e da disciplina mental do Hatha Yôga. Para alcançar um estado iluminado da mente, os seus integrantes fariam uso moderado de drogas tais como haxixe. Apesar de sua curta duração, os Illuminati da Baviera lançaram uma longa sombra na história popular, graças aos escritos de seus opositores. As sinistras alegações de teorias conspiratórias que têm colorido a imagem dos maçons-livres têm praticamente ofuscado a dos Illuminati. Em 1797, o Abade Augustin Barruél publicou o livro "Memórias ilustrativas da história do Jacobinismo", delineando uma vívida teoria conspiratória envolvendo os Cavaleiros Templários, os Rosacruzes, os Jacobinos e os Illuminati. Simultânea e independentemente, um maçom escocês e professor de História Natural, chamado John Robison, começou a publicar "Provas de uma conspiração contra todas as religiões e governos da Europa", em 1798. Quando viu o livro sobre semelhante tema escrito por Barruél, incluiu extensas citações dele em seu próprio livro. Robinson alegava apresentar evidências de que uma conspiração dos Illuminati estava dedicada a substituir todas as religiões e nações com o humanismo e um governo único mundial, respectivamente. Mais recentemente, Antony C. Sutton sugeriu que a sociedade secreta Skull and Bones foi fundada como o ramo norte-americano dos Illuminati. Outros pensam que a Scroll and Key também tem origem nos Illuminati. Robert Gillete defende que esses Illuminati pretendem, em última instância, estabelecer um governo mundial por meio de assassinatos, corrupção, chantagem, controle dos bancos e outras entidades financeiras, infiltração nos governos, e causando guerras e revoluções, com a finalidade de colocar seus próprios membros em posições cada vez mais altas da hierarquia política. Thomas Jefferson, por outro lado, defendeu que eles pretendiam espalhar informação e os princípios da verdadeira moralidade. Ele atribuiu o caráter secreto dos Illuminati ao que chamou de "a tirania de um déspota e dos sacerdotes". Ambos parecem concordar que os inimigos dos Illuminati foram os monarcas da Europa e a Igreja. Barruél afirmou que a Revolução Francesa (1789) foi planeada e controlada pelos Illuminati através dos jacobinos, e mais tarde os adeptos de teorias conspiratórias também alegaram a responsabilidade deles na Revolução Russa (1917), embora a Ordem tenha sido oficialmente extinta em 1790. De fato, muito poucos historiadores dão crédito a essas opiniões, que consideram resultado de mentes excepcionalmente fantasiosas. Diversas fontes sugerem que os Illuminati da Baviera sobreviveram, e talvez existam mesmo até hoje. Os teóricos de conspirações ressaltam a relação entre os Illuminati e a Franco-Maçonaria. Também sugerem que os fundadores dos Estados Unidos da América - sendo alguns deles franco-maçons - estavam "influenciados" por corrupção pelos Illuminati. Frequentemente o símbolo da pirâmide que tudo vê no Selo de Armas dos Estados Unidos é citado como exemplo do olho sempre presente dos Illuminati sobre os americanos. Bem pouca evidência confiável pode ser encontrada para apoiar a hipótese de que o grupo de Weishaupt tenha sobrevivido até o século XIX. Contudo, diversos grupos têm usado a fama dos Illuminati desde então para criar seus próprios ritos, alegando serem os Illuminati, incluindo a Ordo Illuminatorum, Die Alten Erleuchteten Seher Bayerns, The Illuminati Order, e outros. Os Illuminati históricos tiveram variadas influências na cultura popular, muitas delas de forma satírica, humorística ou simplesmente de pura ficção. Alguns exemplos de obras: "Illuminatus!" de Robert Shea e Robert Anton Wilson é uma trilogia de ficção científica publicada na década de 1970, que é considerada um clássico de culto pela comunidade hacker. Dois jogos de Steve Jackson Games são baseados no mito: Illuminati e sua versão como jogo de cartões Illuminati: New World Order. O livro de Umberto Eco, "O Pêndulo de Foucault" é uma novela labiríntica sobre todo tipo de sociedades secretas, incluindo os Illuminati e os Rosacruzes. "Deus Ex", um vídeo-game, apresenta os Illuminati. Sua sequência, "Deus Ex: Invisible War" apresenta os Illuminati num papel mais ativo. O livro de Dan Brown, "Angels and Demons" (título em alemão: "Illuminati" , em holandês: "Het Bernini Mysterie"), é sobre uma ordem dos Illuminati que planeja um golpe contra a Igreja Católica Romana. O livro cita o movimento dos Illuminati como tendo sido fundado por Galileo Galilei e outros, como uma reação do Iluminismo contra suposta perseguição da Igreja Católica. Os Illuminati foram apresentados em alguns episódios da série "Gargoyles", dos Estúdios Walt Disney, nos quais desempenham um papel secundário. O "Principia Discórdia", o infame livro sagrado do discordianismo, inclui os Illuminati como uma das forças Greyface que se opõem aos discordianos. Um pequeno grupo de crentes acredita que os Illuminati são um grupo de alienígenas que mantém a humanidade sob controle, dirigindo absolutamente todas as coisas. Esse movimento assemelha-se muito a uma novela de ficção científica e provavelmente deriva de uma. O filme de Simon West "Lara Croft: Tomb Raider" (2001) apresenta um grupo de maus elementos da alta sociedade que se intitulam Illuminati e que desenvolveram um plano para governar o mundo. Eles e o pai de Lara Croft afirmam que os Illuminati existiram por milénios com essa finalidade. A trama de "Street Fighter III" gira em torno de uma organização que se auto-intitula Illuminati e que pretende criar uma nova utopia.

Tudo está totalmente envolto em névoas... A grande questão é: se lhe aparecesse um "mestre" dizendo que possuía as chaves para os segredos do Universo e para a felicidade e lhe convidasse para fazer parte de um grupo secreto de pessoas altamente capacitadas para o qual você foi escolhido entre milhares por seu elevado nível de consciência e para entrar neste paraíso perdido de poder absoluto você precisasse somente se submeter às rígidas regras desta sociedade que, antes de tudo, exige um pacto de segredo, você aceitaria?
Lembre-se no entanto, que mais cedo ou mais tarde, o preço a se pago por isso será sua liberdade, sua alma e sua felicidade.



"Temos que erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos que adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
E temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver em pura confiança.
Sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do Mundo Espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos o despertar interior todas as manhãs e todas as noites".

Rudolf Steiner (Bremen 27.11.1910)

03 abril 2007

Salomé

Sua luxúria um abismo... Sua perversidade um oceano!





"Não me ponha louco, Salomé!
Não mais negue as formas deste seu corpo de mulher!
Pelo mal que fiz sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!
Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser! Dance!
Façamos então um trato: dance para mim e te darei o que quiser!
Dance e me seduza e o mundo será seu!
Dance, Salomé! Dance!

É primavera, um sorriso aberto em tudo,
Os ramos numa palpitação de flores majestosa!
Carne! Que mais quer?
Coração! Que mais quer?
Passam as estações e passam as mulheres...
Dance, odiosa!"

"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..."


“É, na verdade, a digna filha de sua mãe”!

03 janeiro 2007



"Ameno"
Eric Levi


Dori me interimo
Adapare Dori me
Ameno! Ameno!

Latire latiremo
Dori me
Ameno

Omenare imperavi ameno
Dimere! Dimere matiro
Matiremo
Ameno

Omenare imperavi emulari
Ameno
Ameno dore
Ameno dori me
Ameno dom
Dori me reo
Ameno dori me
Dori me am...


Conduze-me para dentro
Absorve-me
Conduze-me
Revela! Revela!

Fugidio oculto
Conduze-me
Revela!

Revela os sinais não percebidos
Dize-me! Dize-me que guerra é essa
Mártir do Espírito
Revela

Combate os sinais não percebidos
Revela
Revela o silêncio
Revela e conduze-me
Revela, soldado
Leva-me para longe
Revela e conduze-me
Conduze-me agora...

27 dezembro 2006



Gloria in excélsis Deo
Et in terra pax homínibus bonae voluntátis.
Laudámus te.
Benedícimus te.
Adorámus te.
Glorificámus te.
Grátias ágimus tibi propter magnam glóriam tuam,
Dómine Deus, Rex cæléstis, Deus Pater omnípotens.
Dómine Fili unigénite, Jesu Christe.
Dómine Deus, Agnus Dei, Fílius Patris.
Qui tollis peccáta mundi,miserére nobis.
Qui tollis peccáta mundi, súscipe deprecatiónem nostram.
Qui sedes ad déxteram Patris, miserére nobis.
Quóniam tu solus Sanctus.
Tu solus Dóminus,
Tu solus Altíssimus, Jesu Christe,
Cum Sancto Spíritu in glória Dei Patris.


Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade.
Louvamos-te.
Bem-dizemos-te.
Adoramos-te.
Glorificamos-te.
Damos graças a ti por tua magna glória.
Senhor Deus, o Rei dos Céus, Deus o Pai onipotente.
Senhor o Filho unigênito, Jesus o Cristo.
Senhor Deus, o Cordeiro de Deus, o Filho do Pai.
Tu que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós.
Tu que tiras o pecado do mundo, acolhe nossa prece.
Tu que sentas à direita do Pai, tem piedade de nós,
Pois tu somente és o Santo,
Tu somente és o Senhor,
Tu somente és o Altíssimo, Jusus o Cristo,
E é contigo somente o Espírito Santo em glória a Deus Pai.

21 novembro 2006

Palavras Maduras
na Boca do Ator

Poema de Ailson Leite






Primeiro Ato

Primeiro Movimento


Palavras.
Dançando vazias, plenas,
Procurando poesia em si ,
Por si e para si.
Palavras que na boca têm o som do que foi dito,
Apenas, sujas palavras.
Mas não apenas isso:
Porque na boca a palavra soa,
Quando bem dita,
Como a memória da alma,
Para além do escrito.
Está dito.
Mas nem tudo está dito:
Eis o infinito.


Segundo Movimento

Ah seu eu tivesse a arte
E se ela me fosse generosa e viesse morar comigo,
Eu diria a ela, me ensina!
Curta. Objetiva. Gaga. Epilética gramática machadiana.
E de Drummond, oh mon Dieu, na letra exata.
A cara da forma e da palavra descarada,
Escancarada.


Mas como fazê-lo se nem estabelecido se está
Na casa da palavra?
Quando se mora na rua solitária, a rua é só,
A palavra é só. Só para ler. Só para ver. Só para ser,
Solidão.

Na rua a solidão é praça.
A palavra é rodovia que atravessa o país.
Na rua, a palavra é curta.
A praça é curta.
A rua é longa,
A vida é longa
E a lida é dura,
A palavra lida, dura de ouvir
Dura vida.
Pedra de quintal no mato
Pedra de querer...

Na rua a palavra é arma apontada pra cabeça.
E é preciso descer do pedestal,
Andar e crescer.
É preciso, insistir!

13 novembro 2006

A Loucura Nossa de Cada Dia



Por Bernardo de Gregório
Entrevista a Marizilda Lopes




O que é loucura para você?

Como fala a personagem da peça "Asas da Mente": "somos todos loucos, somos todos normais". O Ser Humano mentalmente sadio não existe, como já havia afirmado Wilhelm Reich. A nossa sociedade é produtora de loucura por ser uma sociedade injusta, hipócrita e baseada em valores distorcidos.

Num estudo sociológico, chegou-se à conclusão de que a sociedade ideal, capaz de abrigar em seu seio Seres Humanos sadios, seria a que se encontrava em algumas ilhas da Polinésia. Lá o dia começava pela manhã com um banho comunitário num belo riacho de águas cristalinas, onde as pessoas protegiam a pele e os cabelos com uma mistura de sândalo e óleo de coco. Lá mesmo, algumas fibras de vegetação eram trançadas e cada um ganhava um lindo sarongue para aquele dia. Em seguida, todos iam pescar e se divertiam bastante nesta atividade. Pouco importava quem havia pescado mais e quem havia pescado menos: o peixe era coletivo e invariavelmente era assado com bananas e coco para o almoço. Depois do almoço, uma soneca em redes nos bangalôs para se abrigar do sol.

À tarde vinha a atividade mais importante de sua cultura: a dança. Homens e mulheres se separavam e passavam a tarde toda aprendendo, ensinando e ensaiando passos da dança tradicional da Polinésia, que além do caráter lúdico e artístico, também tinha um aspecto religioso importante. À noite, toda a tribo se reunia em torno de fogueiras para comer mais peixe com banana e coco e depois do jantar, cada grupo apresentava sua dança com muito orgulho. Cansados, jogavam fora seus sarongues usados e iam dormir felizes, para no dia seguinte repetir esta mesma rotina.

O clima na região é muito propício e o único “se-não” era um furacão aqui e outro ali. Mas isso não representava muito problema: se o vento destruísse seus bangalôs, em algumas horas eles poderiam ser reconstruídos com a ajuda de todos da aldeia e esta atividade era encarada como muita alegria. Outra tarefa importante era construir canoas: a técnica de navegação em canoas existe na Polinésia há milênios e sempre foi extremante importante para este povo. Outra atividade típica do local é o Surf. Como cada grupo vivia em sua própria ilha, o confronto entre tribos era raríssimo e não havia guerras.

Tudo era comunitário: os bens eram de todos, as crianças eram educadas por toda a tribo, sem a necessidade de um conceito rígido de família, os esforço era sempre da tribo como um todo, o velhos eram respeitados como sábios e a idéia de produtividade e acúmulo na importava nem um pouco. A morte era entendida como um vento natural e que faz parte do ciclo da vida e era encarada sem muita dor ou revolta. Doenças eram muito raras: primeiramente porque o nível de stress de uma vida como esta é baixíssimo e depois porque a maioria das doenças infecciosas e parasitárias não existiam na região, tendo sido trazidas somente com a chegada do europeu.

Aliás, a chegada do europeu não trouxe apenas doenças, mas acabou com esta vida boa e saudável deste povo: as reservas de sândalo foram dizimadas, conceitos religiosos equivocados foram introduzidos e, com eles, o stress e inevitavelmente a doença mental. Antes da chegada do europeu, simplesmente não havia o conceito de “loucura” entre estes povos da Polinésia. Um indivíduo, que por nós seria considerado “louco” e afastado do convívio social, era por eles considerado alguém especial que mantinha contato com os deuses. O “louco” era para eles então o xamã.

Ao compararmos nossa sociedade com esta idílica vida no paraíso polinésio, percebemos sem muito esforço de que os “civilizados” com certeza eram eles, não nós. Quem vive numa sociedade como a nossa vê-se obrigado a manter um nível alto de neurose e stress diário e, diferente do que ocorria na Polinésia, o contato intenso com o Inconsciente não é por nós entendido como uma bênção dos deuses, mas sim como “loucura”. Talvez a arte seja a única coisa que salve nossa sociedade, porém, atualmente, com o conceito de “bens de consumo”, a arte vê-se obrigada a seguir ditames estreitos e obtusos de uma ditadura chamada “Marketing”. Carl Gustav Jung descreveu muito bem este processo de dissociação do Inconsciente em seu livro “O Homem e seus Símbolos”.


Como vê a luta antimanicomial?

Machado de Assis já havia chamado a atenção no Séc. XIX para a questão manicomial há muito: ao lermos seu texto “O Alienista” vemo-nos obrigados a questionar: “afinal de contas, quem é louco, quem é normal?”. E Machado de Assis deixa claro que o hospício e o psiquiatra é que são loucos.

Philippe Pinel, médico pioneiro no tratamento dos doentes mentais, já no Séc. XVIII tomou medidas humanitárias em benefício dos doentes, principalmente a de libertá-los das correntes a que vários viviam presos, alguns acorrentados por 30 ou 40 anos e tratá-los como doentes comuns e, em caso de crises de agitação e violência. Pinel aboliu tratamentos como sangria, purgações, e vesicatórios, em favor de uma terapia que incluía contato próximo e amigável com o paciente, discussão de dificuldades pessoais, e um programa de atividades dirigidas. Preocupava-se também em que o pessoal auxiliar recebesse treinamento adequado e que a administração das instituições fosse competente.

Imaginar o fim dos manicômios não é um vislumbre muito difícil hoje em dia, principalmente com o avanço da Farmacologia que nos permite um bom resultado no tratamento das doenças mentais. Quem sabe um dia consigamos ser evoluídos o suficiente para sermos como nossos amigos da Polinésia e entender o que hoje se chama de “doença mental” como um contato artístico e espiritual com o Inconsciente Coletivo.


O que acha do trabalho do CAPS?

Os CAPS - Centros de Atenção Psicossocial - são uma boa proposta para levar atendimento eficaz para pessoas com sofrimento metal, principalmente de baixa renda. Nesta visão, o sofrimento mental é encarado como um todo, incluindo não só atendimento ao doente em si nas áreas de Psiquiatria, Psicologia e Assistência Social, mas também atendimento familiar e atividades artísticas e culturais. Parece bom e de fato é.

O projeto nasceu da inspiração de um espaço de intervenção e formação acadêmica, um local que possibilitasse o desenvolvimento da autonomia e cidadania do portador de sofrimento psíquico, favorecendo aos alunos e técnicos a vivência interdisciplinar e promovendo o intercâmbio do saber entre diversas áreas de conhecimento. A criação de serviços substitutivos está orientado pela portaria 224 do Ministério da Saúde, sendo um serviço extra-hospitalar que tem como principal objetivo a redução de internações psiquiátricas.

Atividades Oferecidas:

Oficinas Terapêuticas;
Grupos Operativos (mulheres, adolescentes, mães, crianças);
Ajuda a portadores de necessidades especiais com transtorno psíquico;
Grupo de meditação;
Grupo de familiares;
Grupo de dependentes químicos;
Assembléias;
Atenção diária a portadores de sofrimento psíquico severo (oficina de culinária, trabalho de psicomotricidade, preparação para alfabetização, expressão artística como música, pintura, artesanato, higiene e cuidados pessoais);
Oficinas para geração de renda;
Oficinas terapêuticas (pintura em tecido, vidro, tapeçaria, crochê, tricô e costura);
Psicopedagogia

24 outubro 2006

11 outubro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: os Celtas

Os Caminhos da Grande Mãe

(Segunda Parte: Os Celtas)
Por Bernardo de Gregório


“Terra...
Terra...
Por mais distante
O errante navegante,
Quem jamais te esqueceria...”


Caetano Veloso
“Terra”




Continuando em busca dos tortuosos caminhos da Grande Mãe, perceberemos que a instituição do Patriarcado não foi, na verdade, um golpe definitivo sobre o Matriarcado. Como poderia? A Mãe tem característica fundamental a paciência: o tempo está a seu favor. Da Terra todos nós viemos e à Terra haveremos de retornar, mais cedo ou mais tarde. A morte sempre foi e sempre continuará a ser o maior medo do Patriarca, pois dela, desta derradeira mãe, nem mesmo ele pode se ocultar. Foi exatamente por esta insegurança e pelo medo da morte, que todas as religiões matriarcais sempre foram associadas a cultos demoníacos e consideradas como a prática do Mal em si. Por detrás deste preconceito, como ocorre com todos os preconceitos, existe um grande medo personificado na imagem da “bruxa”. Mas quem são estas “bruxas”? Qual a origem destas religiões naturais? Qual a expressão delas nos dias de hoje? Estas questões nos remetem obrigatoriamente aos Celtas.

Sendo assim, em algum lugar esquecido, longe do Patriarcado, uma belíssima civilização floresceu por mais de 3 milênios. Uma civilização matriarcal: os Celtas. Lamentavelmente sabemos muito pouco sobre eles. Apesar de serem possuidores de uma cultura avançada, eles jamais desenvolveram uma escrita organizada, pois sempre acreditaram que as palavras mais importantes devem ser transmitidas de pessoa a pessoa, envoltas em magia e calor humano. A palavra escrita deturpa os sentimentos e distorce os pensamentos. A palavra escrita cristaliza os seres e as suas vontades, gerando paradigmas fixos, imutáveis. Como a maior característica da Mãe é a mutação, o Ciclo da Natureza, a palavra escrita é fruto de um Ser Humano degradado e corrompido. O som das palavras era sagrado, a escrita era maligna e profana, como era vista toda e qualquer artificialidade. Da mesma forma, os Celtas evitavam ao máximo a construção de prédios imponentes e monumentos, pois o que o Ser Humano poderia construir que se igualasse à beleza da Natureza? Todos os rituais, reuniões e cultos religiosos eram feitos sempre no seio da Natureza: numa suave floresta, num rio, ao redor de um lago de águas clamas, no cume de uma montanha. A idéia de um templo era para os Celtas considerada depravada.


Sobre os Celtas, Colin Spancer escreve: “Esses povos fascinantes têm sido injustamente empurrados para as margens da História, por acadêmicos obcecados pelo mundo clássico (entenda-se: patriarcais), mas merecem nossa atenção. Eles eram agricultores de grande habilidade e conhecimento, exportadores de cereais e alimentos em geral para o sul do mediterrêneo, produziam artesanato em metal, jóias de grande qualidade e eram técnicos brilhantes na fabricação de carruagens e armaduras”. As origens dos povos celtas são muito nebulosas. Imagina-se que eles, de uma forma ou de outra, sempre estiveram presentes na região centro-ocidental da Europa. Provavelmente seus mais remotos ancestrais provém das desconhecidíssimas civilizações megalíticas pré-históricas, que construíram enigmáticos monumentos de pedra bruta em várias localidades na Bretanha, como o famoso círculo de pedra conhecido como “stonehenge”. Os mitos celtas referem-se constantemente às origens deste povo como estando em terras muito distantes do continente europeu. Terras mágicas e paradisíacas que foram por seus ancestrais há muito abandonadas. Terras que ficariam do outro lado do grande oceano e que eram miticamente conhecidas como Hys-Brasil. A relação destes mitos celtas com os mitos de Atlântida é direta e fácil de ser reconhecida. A relação deste nome antigo com o nome de nosso país, também o é. Teriam sido os construtores dos círculos de pedra antepassados atlantes? Esta pergunta é impossível de ser respondida. Destas épocas nos chegam hoje mitos sobre heróis celtas, como os de Conan, o Bárbaro, que acabou ficando muito conhecido do público através de quadrinhos e filmes.

Destas épocas remotas o que ficou conhecido como o Império Celta se ergueu e chegou a se estender desde a península Ibérica até a Turquia, concentrando-se principalmente em regiões que hoje são a Grã Bretanha (Inglaterra, Gales e Escócia), a Pequena Bretanha (Irlanda do Norte e Eire), França e nordeste da Espanha. Grandes influências celtas também podem ser vistas no norte da Itália e na região da Suíça. A principal cidade fundada pelos Celtas que ainda existe em nosso dias é Paris. Na “Île de la Cite”, é possível que se vejam as ruínas desta Paris celta, soterrada e esquecida por milênios nos subterrâneos da Catedral de Notre Dame de Paris e reencontrada há algumas décadas. Com o avanço do Império Romano (e de seu Patriarcado), os Celtas viram-se obrigados a recuar, porém sem antes enfrentarem bravamente os exércitos inimigos, criando para os Romanos grandes dificuldades para seus sonhos expansionistas. Destas épocas nos vêm os famosos mitos e lendas sobre o herói celta chamado Asterix, que, muito mais tarde, seria amplamente retratado (e banalizado até) em histórias em quadrinhos, desenhos animados e até mesmo filmes
. Lendas à parte, a máquina de guerra romana acabou por derrotar os Celtas. Uma derrota apenas aprente, é certo, pois, seguindo os ensinamentos da Natureza, os celtas se ocultaram e passaram a viver sua religião e costumes de forma secreta.
 
Mil anos se passaram sob o domínio romano e, como sempre nos ensina a Grande Mãe, os tempos de declínio também chegariam para os Romanos. Com as crises econômicas e políticas do Império Romano e sua progressiva retração, os Celtas renasceram como as árvores renascem na primavera. O reaparecimento do mundo Celta é um dos fenômenos mais intrigantes da História, no sentido de demonstrar claramente que a aparente derrota do Matriarcado e seu eclipsamento por mil anos, estava longe de representar seu fim. No entanto, este reflorescimento da cultura celta, não iria durar muito tempo. Ao longe, densas nuvens negras se formavam no horizonte, com a expansão do Cristianismo e o aumento do poder da Igreja e nova era de escuridão estaria por vir. Sobre isso Colin Spencer escreve: “os Celtas ocupavam aquelas terras em que a nova religião cristã se expandiria, à medida que o Império Romano encolhia e concentrava seu poder em Bizâncio. As crenças celtas, sua estrutura social e costumes sexuais seriam aparentemente deixados de lado no primeiro milênio depois de Cristo, mas em realidade foram apenas sepultados pelo Cristianismo”. Este confronto entre a Religião Antiga (como é chamado o Druidismo, a religião celta) e o Novo Deus (como era conhecido o Deus cristão), é maravilhosamente recriado por Marion Zimmer-Bradley em seu romance “As Brumas de Avalon”, agora também adaptado para o cinema, onde todo o arcabouço cultural da época é relatado com incrível precisão histórica e o mito do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda é revisto sob um prisma matriarcal. Figuras magnânimas de sacerdotisas nos são pela autora trazida com uma realidade vibrante e delicada: Viviane (A Senhora do Lago), Morgana, Morgause e Niniane. Este confronto tomou lugar por toda a baixa Idade Média e, aos poucos, o que um dia fora uma realidade, passava lentamente para o mundo dos sonhos. Avalon passou a ser uma ilha mítica, As sacerdotisas passaram a ser fadas e os druidas, magos fantásticos. A magia deixou de ser a ritualização dos Ciclos da Mãe, para ser vista como quimera, fantasia.

Relata Colin Spencer: “Muito do que sabemos sobre os Celtas veio do período de transição entre o paganismo e o cristianismo, senso assim muito confuso”. É comum que se diga sobre os Celtas, continua Colin Spencer, que “era uma sociedade dominada pelos homens: a mulher era submetida ao pai antes do casamento e ao marido, depois de casada; e aos filhos, ou a seu pai, ou a seus sobrinhos, quando o casamento terminava (...). O casamento era arranjado entre as famílias, constituindo uma aliança entre elas, como uma maneira de controlar a propriedade. A virgindade era considerada essencial para uma mulher que fosse casar e esperava-se que ela fosse fiel”. Comparando-se estas informações claramente patriarcais (os 3 tabus originais da Pátria estão presentes
) com a mitologia celta, a religião druída e a História dos povos celtas, uma grande incoerência se faz gritante. Como é possível que esta sociedade tipicamente patriarcal tenha se transformado radicalmente de uma hora para outra? A resposta está na influência romana e cristã sobre os Celtas. Eles estavam cada vez mais afastados de seus costumes tradicionais e do Matriarcado que lhes serviu de base por dois milênios. A cultura celta ruía desde seu interior. Novamente, este conflito está personalizado nas figuras de Morgana da Cornualha e do Rei Arthur, muitíssimo bem exploradas por Marion Zimmer-Bradley.

No final da Idade Média e início do Renascimento, em uma cartada final contra a religião matriarcal celta, a Igreja instituiu o Santo Ofício, a Inquisição. Além da perseguição aos judeus e a tdos os hereges, todas as pessoas, homens e mulheres, que ainda cultuavam a Grande Mãe foram também perseguidas, torturadas e mortas pela Igreja, como bem sabemos. A “bruxa” nada mais foi do que a sacerdotisa druida. A sexualidade feminina, bem como a homossexualidade foram consideradas pecados mortais e crimes passíveis de punição pela morte no fogo. Ao menor indício de “bruxaria”, uma pessoa poderia ser sumariamente presa e processada pelo Santo Ofício. Se o Cristianismo representava o Bem (beneficium), a “bruxaria”, a Antiga Religião, representaria necessariamente o Mal (maleficium). Todos os conceitos de “maleficium” podem ser amplamente ilustrados (sob um prisma patriarcal evidentemente) pela leitura da “bíblia” dos inquisidores, o “Malleus Maleficarum”
. Apesar das atrocidades mostradas por este livro, muito se pode reconhecer da religião celta e da figura da sacerdotisa.

Por mais mil anos a Grande mãe dormiria. O Patriarcado imperaria no mundo, passando das mãos romanas às da Igreja e destas às do cientificismo cético. No entanto, vivemos hoje mais uma primavera do Matriarcado. Longe das amarras repressoras do patriarca, já debilitado e ridicularizado em sua postura ultramachista, as religiões naturais encontram espaço para florescerem novamente: Druidismo tradicional e Wicca (Magia Moderna) estão sendo amplamente divulgadas em todo o mundo. E mais uma vez, as datas sagradas da mãe são reverenciadas nas florestas e lagos e nos eternos círculos de pedra.
Desde a Pré-Históra até os dias de hoje, portanto, os druídas mantiveram-se dentro de uma visão matriarcal estrita e enfrentaram épocas de declínio e perseguição com a sabedoria a eles ensinada pela Grande Mãe: a paciência, a perseverança e a manutenção das tradições.

Colin Spencer escreve: “Acredita-se que os deuses do panteão celta eram inicialmente espíritos associados às florestas, rios e lagos e não possuíam forma antropomórfica visível”. Isto que dizer que os seres conhecidos como “devas” ou “elementais” estão na origem da religião druida: fadas, gnomos, elfos, salamandras, sílfides, ondinas e sereias. Para quem quiser uma ilustração mais atual sobre estes seres, aconselho o primoroso livro (ou o filme) de J. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis”.
Centralizando todos estes seres, como Senhora absoluta do Universo, a própria Grande Mãe: a Natureza. Conhecida entre os Celtas como Ceridwen, a Grande Mãe se fazia ver, como não poderia ser de outro modo, nos ciclos das estações do ano, nas fases da Lua, na magia natural e no ciclo menstrual. A imagem de Ceridwen era a de uma grande porca que amamentava seus leitõezinhos em suas in’;umeras tetas, tal qual a Natureza supre seus filhos de tudo o que necessitam. Ceridwen era a Deusa-Porca, a Deusa-Mãe, a Deusa da natureza, a Deusa de quatro faces. Ceridwen tomava forma encarnada na figura da sacerdotisa. Ceridwen possuía sempre a seu lado seu consorte: o chamado Deus Chifrudo, ou o Cornípherus, seu filho e seu amante, essência masculina dedicada à Mãe. Representando fisicamente o Deus Chifrudo, havia os magos e suas irmandades masculinas de menstréia e harpistas, sob as ordens de seu representante máximo, o Merlin. O equilíbrio da Natureza se fazia entender pelo equilíbrio entre o predador e a presa, entre a loba e a rena, entre Ceridwen e o Cornípherus, entre o masculino e o feminino. Todo o mundo druida estava baseado numa visão feminina, voltada para o Inconsciente: a magia.

Magia é um procedimento natural humano, ancestral e divino, baseado na anulação do ego e na exaltação das forças do Inconsciente Coletivo. Intuição, presságios, sonhos, visões e rituais simples são suas marcas. Todo e qualquer procedimento mágico exige por parte do mago um longo treino para acessar essas forças dormentes no fundo da psique humana. Um profundo mergulho dentro deste mundo fantástico é sempre necessário. Deixar de lado conhecimentos racionais (a Ciência e a Filosofia), imprescindível. A Mãe nos envia todas as informações necessárias a seu tempo e faz com que todos os caminhos se abram ou se fechem quando o momento é chegado. A Mãe é feita de Ciclos, que devem ser respeitados e usados a favor do mago. A Mãe é composta por quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) que devem ser harmonizados no interior da alma do mago, para que ele se torne o quinto elemento deste conjunto, donde a estrela de cinco pontas (o pentagrama) como símbolo da magia. O respeito à Natureza e a todos seres que delas fazem parte é uma marca do verdadeiro mago. A abnegação e a devoção à Grande Mãe, sua vida. Evidentemente as maiores datas a serem comemoradas continuam sendo as mesmas há centenas de milênios: o equinócio de primavera, o solstício de verão, o equinócio de outono, o solstício de inverno e, acima de todas, a Noite Sagrada (Hollow Eve) do sacrifício do grão à Mãe
.

Numa visão assim, a sexualidade é vista como expressão direta da Natureza em nós, sem nenhum tipo de freio ou moralismo. A sexualidade aparece como a Grande Mãe faz com que ela venha para cada um de nós: a seu tempo e de formas infinitamente variáveis. A magia máxima é a geração de uma nova vida, mas a sexualidade jamais se prenderia a isso. Muitos rituais sexuais são comuns no Druidismo, como símbolo da fecundação, como símbolo de submissão à Deusa e como harmonização das forças naturais. A supremacia feminina, como símbolo da Mãe, é totalmente aceita e profundamente cultuada. O masculino, livre da ditadura do Patriarca e de suas inseguranças, entrega-se docemente ao serviço da Deusa e entende a relação entre dois homens como profunda confirmação da amizade natural entre os guerreiros.
Evidentemente estes costumes sexuais libertários muito chocaram tanto os romanos, quanto os cristãos, que passaram a repudiar a Antiga Religião como paganismo e culto a Satã. Diodoro Sículo (escritor romano) nos deu um quadro mais amplo: “os homens (celtas) são muito atraídos por seu próprio sexo; eles se deitam sobre peles de animais e se divertem com um amante de cada lado. O incrível é que não têm o menor cuidado por sua dignidade pessoal ou auto-respeito: oferecem-se aos outros homens sem nenhuma cerimônia. Além do mais, isso não é considerado desprezível ou uma inferioridade; ao contrário, se um deles é rejeitado por outro a quem se ofereceu, fica ofendido”. Outro ponto que muito desgostava romanos e eclesiásticos sempre foi a nudez. A nudez, do ponto de vista celta, é a forma mais natural possível de alguém se apresentar e, portanto, era vista como uma forma nobre de cultuar a Deusa. A grande maioria dos rituais exigia a nudez de seus participantes e até mesmo na guerra, os guerreiros se apresentavam nus. Escreveu sobre os guerreiros celtas Políbio (historiador grego): “eles tomaram posição, em frente a todo o exército, nus, a não ser pelas armas (...). Os movimentos dos guerreiros nus à frente das fileiras era um espetáculo terrível. Eram todos homens de um físico esplêndido e no começo da vida e os integrantes das companhias estavam ricamente adornados com colares e braceletes de ouro. A simples visão deles era suficiente para causar medo entre os romanos”. Colin Spencer comenta esta passagem: “considerando-se o desgosto romano pela nudez (...) pode-se especular se esse desgosto não se baseava em tais experiências, (isto é) a nudez era para eles (os romanos) equivalente a barbarismo”.

Finalizando, encontramos a religião druida como marco fundamental do Matriarcado neste planeta. Evoluindo ininterruptamente desde a Pré-História até os dias de hoje, a Antiga Religião é marca indelével da Grande Mãe e de sues caminhos tortuosos. Persistente, paciente, cíclica e doce, a Mãe aguarda o momento ideal para manifestar-se. Suas tradições são tão antigas quanto o mundo e nos mostram um caminho de harmonia e equilíbrio entre todas as forças que existem em nós. A visão mágica é poética e bela nos centra em nosso Inconsciente profundo. Não existem pecados, existem ciclos. Não existe moral, existe a vontade sagrada da Mãe. A mulher e o homem são livres para expressar suas verdadeiras essências, encontrando entre o masculino e o feminino uma profunda complementação e reconhecendo em si mesmos uma origem andrógina e completa, tal qual a árvore é andrógina e completa em si mesmo. Estes são os maiores ensinamentos que podemos receber dos Celtas, ainda que, ao longo da História, eles mesmo, por muitas vezes, tenham se perdido dos caminhos da Grande Mãe.






30 setembro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: a Pré-História



Os Caminhos da Grande Mãe
(Primeira Parte: A Pré-História)


Por Bernardo de Gregório



“A língua é minha Pátria
E eu não tenho Mátria,
Quero Frátria”

Caetano Veloso
“Língua”





Se nosso intuito é o de entender melhor a estrutura social matriarcal, devemos retroceder no tempo até chegarmos a uma época perdida e esquecida, nos primórdio da aventura humana neste planeta. Tempos em que o Ser Humano propriamente dito ainda nem existia... Imagine-se na Pré-História, no período Paleolítico Inferior, há cerca de 500 mil anos passados. Nessas épocas a Terra era habitada por hominídeos, muito mais mamíferos superiores com aparência simiesca, do que humanos. Estes eram os Australopitecos, os Pitecantropos e os Paleantropos. Estes seres já possuíam instrumentos, ainda que extremante toscos e rudimentares, feitos de pedra lascada e troncos de madeira. Viviam em bandos que vagavam pelas estepes e subiam em árvores, habitavam cavernas fugindo de seus predadores[M1] e mudavam constantemente de lugar, em busca de caça e de vegetais comestíveis.

Estes hominídeos ainda estavam sob os comandos da Mãe Natureza e possuíam instintos muito mais gritantes dos que os nossos. Sendo assim, as “fêmeas humanas” (não eram propriamente mulheres) ainda possuíam um período de cio, como qualquer fêmea de mamífero, e somente copulavam nestes períodos. O cio ocorria uma vez por ano, em noites de lua cheia bem no auge do verão. Nestes período de cio havia a cópula em “orgias” de sexo grupal e bissexual. Sendo assim, todas as fêmeas férteis do bando ficavam prenhas e passavam por um longo período gestacional (9 meses) até darem à luz seus filhotes, que nasciam no início da primavera. Amamentavam-nos por cerca de 3 meses, quando voltavam a ovular e entravam em novo período de cio. Este ciclo coincidia exatamente com o ciclo das estações do ano e todas as fêmeas seguiam juntas estes caminhos da Mãe Natureza. Os machos eram relegados a um segundo plano durante todo o ano, com exceção do período do cio, claro. Sendo assim, a homossexualidade entre os machos era extremamente comum, como ocorre com qualquer mamífero. A sexualidade humana era eminentemente animal, instintiva e comandada unicamente por hormônios.

Com o desenvolvimento da consciência humana, houve a associação evidente do ciclo reprodutivo feminino com o ciclo da Natureza. As fêmeas passaram a ser reverenciadas como deusas encarnadas, como representantes vivas da Mãe Natureza, como portadoras dos Mistérios da Criação, da vida e da morte. As tarefas do bando iam sendo aos poucos divididas entre seus membros, de forma que às mulheres cabiam as funções mais sagradas: cuidar da prole, cuidar da alimentação do bando, cuidar da caverna e reverenciar a Deusa Mãe. Os homens ficavam com as tarefas mais arriscadas e difíceis, pois não eram assim tão importantes para a manutenção bando: a caça, a pesca, a segurança e a coleta em locais distantes da caverna. Quando pela primeira vez um humano teve a brilhante idéia de se aproximar de uma árvore que estava em chamas, num incêndio causado talvez por um raio, e empunhar uma tocha, trazendo-a para dentro da caverna, este humano que primeiramente roubou o fogo dos deuses, foi uma mulher. O fogo necessitava ser alimentado e mantido aceso dia e noite, pois não era possível fazê-lo, apenas recolhê-lo da Mãe Natureza. Esta nobilíssima função era invariavelmente delegada a uma nobre mulher. A importância divina da mulher na sociedade crescia com o tempo e aumentava com o ampliar da consciência.

Com o passar do tempo, o Ser Humano se aprimorou física e psiquicamente, transformando seus genes e sua aparência, chegando a se tornar um honrado exemplar do gênero Homo. Aparece então o Homem de Neanderthal, que já usava roupas feitas com peles, possuía vários instrumentos e utensílios domésticos feitos de pedras lascadas, ossos, gravetos e cordas e possuía uma estrutura social muito mais elaborada. Ainda não eram exatamente Humanos, mas já eram bem mais independentes da ditadura hormonal. A sociedade se centralizava ao redor da figura da Matriarca: mulher mais velha e sábia, que provavelmente era a mãe de todos. Esta pequena estrutura familiar, chama-se clã. As funções ainda eram as mesmas, mas às mulheres cabiam agora os poderes divinos de traduzir ao clã os caminhos da Grande Mãe. A Matriarca, como representante maior da Deusa da Terra, orientava os membros do clã, com doçura e firmeza, mostrando a todos os ciclos sagrados da Mãe. No Matriarcado nunca houve leis ou punições. Os desígnios da Mãe eram com candura acatados por todos e ditados pela Matriarca. O que antes era simplesmente o cio, agora já era propriamente um ritual de fertilidade comandado pela Matriarca. A idéia era a mesma, mas a concepção racional de ritualidade era muito mais elaborada. Duas datas eram marcantes nesta visão religiosa pré-histórica: o ritual de fertilidade do verão, a celebração do nascimento dos filhotes. A comemoração da geração da vida, da fertilidade da Mãe e do eterno recomeço. Neste ponto, já estamos há 30 mil anos passados, no início do período Paleolítico Superior.

Caminhavam então sobre a terra, os primeiros Humanos propriamente ditos: Homo sapiens. Apareceram misteriosamente estes Humanos, primos próximos dos Homens de Neanderthal, mas muitíssimo mais habilidosos, inteligentes e elaborados. As primeiras noções de arte apareceram: pinturas nas paredes da cavernas, elaboradas e mágicas, são encontradas em abundância datadas deste período em diante. Os humanos passaram a usar ornamentos e pinturas sobre o corpo, não mais apenas a se agasalharem do frio com peles. As técnicas de caça, pesca e coleta se tornaram muito mais requintadas e organizadas. Infelizmente a agressividade humana também: estes nossos ancestrais exterminaram totalmente as populações de Homens de Neanderthal, saqueando seus acampamentos, capturando-os como escravos, matando-os por prazer e, por fim, levando-os à extinção completa. A noção de religião e espiritualidade que estes Humanos possuíam eram igualmente bem mais requintadas: já havia a noção de morte e rituais funéreos eram feitos com freqüência. A idéia de Magia norteava todos os rituais. A Magia era o poder da Matriarca que encarnava a Grande Mãe. Matriarca, Natureza e a Deusa eram uma só pessoa: divina, eterna e cíclica. Quatro datas do ano passaram a ser reverenciadas: o solstício de verão (dia mais longo do ano[M2] ), data de celebração da fertilidade e do ritual de procriação; o equinócio de outono (dia equivalente em tamanho com a noite no início do outono[M3] ), data da celebração da morte e dos ritos funerais; o solstício de inverno (noite mais longa do ano[M4] ), data da celebração da esperança do renascimento na Natureza; o equinócio de primavera (dia equivalente em tamanho com a noite no início da primavera[M5] ), data da celebração do nascimentos dos bebês e do renascimento da Natureza. A escultura conhecida com “Vênus de Willendorf” (http://witcombe.sbc.edu/willendorf/willendorfdiscovery.html) data deste período e é a representação máxima desta era: arte, religião, Magia, Deusa Mãe, Natureza, Deusa da Terra. Trata-se da representação em pedra de uma figura femina prenha, esférica e maternal, escultura considerada a obra de arte mais antiga de toda a aventura humana. Já estamos então há 18 mil anos passados, no início do período Neolítico.

Uma tremenda mudança estava então para acontecer: o domínio da agricultura e o domínio definitivo sobre o fogo. Alguém conseguiu pela fricção de bastões de madeira, criar o fogo, sem haver mais a necessidade de roubá-lo na Natureza. Esta pessoa foi uma Matriarca. Alguém tomou o cuidado de observar que algumas plantas cresciam perto dos locais onde os restos de comida eram jogados fora. Esta pessoa com certeza foi uma Matriarca. A Magia da Mãe dava sinais de que o renascimento era possível também com os grãos e sementes. Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregarmos à Deusa nossas sementes e confiarmos no Ciclo da Mãe, Ela nos recompensará com novas plantas e novos grão. Aparece a idéia de sacrifício (ofício sagrado[M6] ). Quando fizermos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe será separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderá ser tocado por mãos humanas e não servirá de alimento, mas será devolvido à Terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a Magia da Mãe se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas que se sucederam à era glacial e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados da mãe que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a Lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela Matriarca. Eis os Mistérios da Mãe, eis o Ciclo Mágico da Vida, eis os trabalhos da Deusa!

Com o passar do tempo, a agricultura proporcionou ao homem uma possibilidade dele se tornar sedentário e se fixar em um só lugar: sua terra, como reflexo da Deusa da Terra. As cavernas, há tantos milênios usadas como proteção, já não eram tão necessárias. Pequenas aldeias com construções de palha e argila era edificadas surgiam aqui e ali, nos agrupamentos mais evoluídos. Formas circulares se faziam notar por todos os lados, reproduzindo o Ciclo Sagrado. Apareceu a roda, apareceram os instrumentos agrícolas, apareceram as artes da cerâmica, apareceram adornos corporais mais elaborados, apareceu a pedra polida. Esta nova estrutura social recebe o nome de tribo. Apareceriam ainda, porém muitas outras novidades para o espanto da Matriarca...

Foi numa noite quente de verão, quando a lua cheia iluminava a escuridão e tornava as estrelas mais pálidas, que uma mulher atingiu um nível de consciência tal que lhe permitiu dizer uma palavra mágica, a mais mágica de todas as palavras: “não!”. Esta mulher que disse “não”, recusou-se a participar do ritual de fertilidade do solstício de verão. Ela era independente, ousada e auto-suficiente. Disse “não”, enfrentou a Matriarca e a Deusa Mãe e realmente se afastou dos gemidos que preenchiam a noite quente. Ficou lá, solitária na floresta a observar a Lua. Exatamente 14 dias após este evento, algo sobrenatural ocorreu a esta mulher insubordinada: ela menstruou. Jamais em bilhões de anos de História deste planeta, havia se visto algo semelhante. Nenhuma Fêmea de mamífero menstrua, pois os animais não conseguem dizer “não” aos desígnios da Mãe. Mas esta mulher, por livre e espontânea vontade, negou-se à fertilidade, desafiou a Deusa e foi por ela punida: o sangue era a marca da maldição da Mãe. A mulher foi expulsa da tribo e condenada a viver só, na floresta. Esta mulher, sinistra e marcada pela maldição, abandonou para sempre os Ciclos da Mãe Terra e passou a seguir os Ciclos da Mãe Lua. Filha da Lua ela era e a cada 28 dias, a cada lua, sob as sombras da foice da lua negra, ela sangrava. E a esta altura, já estamos nós há 7 mil anos passados, no início do período Agropastoril.

A Agricultura se expandiu, animais foram domesticados e o cão, o gato, a cabra, o carneiro e a vaca[M7] se tornaram aliados inseparáveis da Humanidade. Utensílios domésticos e ferramentas eram feitas não só de pedra polida, mas também de cerâmica finamente trabalhada, de madeira entalhada e polida e cordas e tecidos bem mais elaborados eram feitos nos teares das Matriarcas. A aldeia e a tribo passou a ser definitivamente o local onde os humanos habitavam. As cavernas foram para sempre esquecidas e espíritos maus passaram a habitá-las. A religião tornava-se cada mais complexa, mas a Deusa Mãe ainda era o centro do mundo. No verão, rituais de fertilidade encontravam lugar nas noites de lua cheia. No outono, a colheita e o plantio seguiam o ofíco sagrado. A idéia de que o sacrifico do grão necessitava de um sacrifico maior para acompanhá-lo, levou as Matriarcas a adotarem neste período o sacrifico humano como regra. Sob a foice vermelha da lua negra, um homem forte e robusto, o melhor grão da tribo, entregava-se à foice da Matriarca em sacrifico à Deusa. Suas carnes eram o alimento da tribo. Seu sangue fecundava os campos e seu coração era pela Matriarca devorado, para que ele, tal quel o trigo nos campos, pudesse dela renascer na primavera. No inverno, o recolhimento de toda a tribo em torno do fogo, marcava a celebração da esperança por tempos melhores. Na primavera toda a tribo se alegrava com as flores, com o nascimento dos bebês e com o renascimento do filho da matriarca. Os Caminhos da Mãe eram seguidos à risca.

Longe dali, porém, uma mulher marcada pelo sangue não participava de nada disto. Concentrava-se em sua vida solitária, em suas ervas medicinais, em suas poções e ungüentos, em seu contato com os animais silvestres[M8] e reverencia a Lua como Deusa. Suas companhias era o gato. Não foram poucas vezes que homens tentaram seduzir estas mulheres enigmáticas da floresta, mas elas sempre preferia a companhia de outras mulheres e da Deusa Lua. Alguns desses homens submeteram-se às bruxas e lá com elas ficaram, tornando-se magos. Outros foram simplesmente por elas mortos. Muito comum era o hábito destas mulheres raptarem bebês para criá-los como filhos ou para com eles elaborarem poções mágicas. Igualmente não foram poucas as vezes que as Matriarcas se aproximaram destas mulheres-bruxas, para pedir-lhes conselhos de magia, para implorar-lhes a cura de males, para consultar-lhes a sabedoria. Com o passar do tempo, o culto à Lua e o culto à Terra se reunificaram em uma única religião matriarcal. Existiram sociedades matriarcais compostas exclusivamente por mulheres, e outras mistas, nas quais os homens eram vistos sempre como seres inferiores. As mulheres eram todas deusas e a Matriarca era a Deusa Terra, enquanto a bruxa era a Deusa Lua. O Matriarcado chegava a seu apogeu há aproximadamente 6 mil anos passados, no início do período urbano.

Nesse tempo, com certas variações de um lugar para outro, de uma sociedade para outra, ocorreu a maior revolução social de que se tem notícia até hoje: a revolução sexual masculina. Os homens, cansados de serem relegados a um segundo plano e à inferioridade social, resolveram “virar a mesa”. Para tal, usaram aquilo a que vinham se dedicando com afinco há centenas de milhares de anos: a força bruta. Acostumados que estavam com os instrumentos de caça e de guerra, usaram a força para subjugar a Matriarca. Muitas mulheres foram dizimadas, mutiladas, violentadas e escravizadas pelos homens enfurecidos. Passado o calor desta primeira manifestação de cólera contra a tirania feminina, a razão falou mais alto e os novos senhores da tribo, os Patriarcas, depararam-se com um problema de ordem prática: se as mulheres são divinas porque são mães, como será possível a um homem adquirir o mesmo status ? Somente sendo ele pai. Mas como um homem pode se tornar pai se não é ele que gera os filhos? Obrigando as mulheres a serem absolutamente fiéis e celibatárias. A sexualidade feminina foi então massacrada. “Toda mulher somente poderá ter um homem”[M9] . “Toda mulher deverá se conservar virgem para ser aceita por seu esposo”[M10] . “Toda mulher é propriedade de seu pai, quem deverá decidir com ela deve se casar”[M11] . “É proibido que as mulheres tenham sexo com seus filhos e irmãos (únicos machos a quem elas teriam acesso, mesmo assim, restrito)”[M12] . “Toda mulher é um ser inferior e, como ser desprovido de pensamento, deve absoluta obediência aos homens”. Estas foram as primeiras leis da Humanidade. Leis cuja desobediência era invariavelmente punida com a morte.

As religiões matriarcais foram perseguidas e combatidas com violência. As matriarcas e as bruxas eram assassinadas em nome do Patriarcado. O medo irracional do homem pelo retorno a uma condição inferiorizada num possível Matriarcado renascido, fez com que o Patriarcado abominasse qualquer coisa que o lembrasse dos tempos esquecidos da Grande Mãe. A homossexulidade era mal vista, principalmente a masculina[M13] . A Deusa Mãe foi substituída pelo Deus Pai. Os Ciclos da Terra e os Ciclos da Alma Humana foram relegados a um plano puramente biológico e o tempo se tornou linear, marcado por eventos eminentemente masculinos: guerras, conquistas, reis, poder, opressão e violência. Rituais de iniciação passaram a ser impostos aos jovens rapazes, para que eles fossem aceitos na sociedade como homens e se diferenciassem das mulheres[M14] . O falo ereto passou o símbolo máximo da cultura desta época e mantém-se até hoje ereto, sob forma de obeliscos, torres, bandeiras, estandartes, cetros e cajados. O amor à Pátria e o temor a Deus são as conseqüências deste falo ereto e opressor.

Qual o destino dos Caminhos da Grande mãe? Jamais a Mãe foi esquecida, mesmo tendo sido pela Humanidade repudiada, temida e execrada. Seus Eternos Ciclos continuaram e continuarão a reger o mundo. “Oh Fortuna, Imperatrix Mundi !”[M15] . As datas da Grande Mãe[M16] foram incorporadas às religiões patriarcais, bem como seus ritos. O solstício de verão, com suas danças rituais de fertilidade em torno do fogo eterno, deu origem às festas folclóricas de roda (como as festas juninas, por exemplo). O equinócio de outono, com os festejos da colheita, deu origem às comemoração da Natureza e da Vindima, bem como os sacrifícios da semeadura originaram as festas de “Halloween”e as celebrações do dia dos mortos. O ritual do sacrifício humano da semeadura, originou toda a liturgia católica da Missa, com o sacrifício do Filho de Deus, a distribuição de sua carne, transubstanciada em pão e de seu sangue, transubstanciado em vinho. A celebração da esperança no inverno originou os festejos do Natal cristão e da Hanukah hebraica. A celebração do renascimento da Natureza na primavera e os festejos da chegada dos rebentos, deu origem à Páscoa cristã e ao Pessach hebraico. O ano romano se iniciava em Aprile[M17] , marcando o renascer do Ciclo da Mãe, bem como até hoje o ano chinês.

Milênios de opressão Patriarcal se passaram em variadíssimas expressões de violência não só contra a mulher, mas contra tudo e todos que pudessem se opor às idéias do Patriarca ou que pudessem incitar seus medos trancafiados no Inconsciente Coletivo. Mas, um renascimento, como sempre faz a Mãe, estava por vir... Somente nos anos 60 do século passado, mais de 6 mil anos após a instauração do Patriarcado, as mullheres cansadas de opressão se rebelaram. À elas se somaram muitos jovens que reinvidicavam liberdade[M18] . Quebraram os grilhões da ditadura machista e clamaram por novos tempos de paz, amor e igualdade. Todos os símbolos ligados ao Pai foram destruídos sistematicamente e mulher resgatou sua condição de cidadã livre e auto-suficiente. Infelizmente esta batalha ainda está apenas em seus primórdios e na Terra ainda existem inúmeras sociedades machistas e repressoras, enquanto mesmo as sociedades tidas como mais liberais, ainda mantém em si uma configuração claramente patriarcal.

Qual o melhor caminho a se seguir? Uma volta plena ao Matriarcado? Talvez isso seja um retrocesso e há que se lembrar que foram exatamente os excessos do Matriarcado que deram origem ao Patriarcado e seus excessos ainda piores. A alternativa é uma sociedade igualitária, onde não haja nem Matriarcas, nem Patriarcas, mas onde todos sejam irmãos e livres, onde o sentimento supremo seja a fraternidade. Esta sociedade, ainda num plano utópico, chamar-se-ia Fratriarcado[M19] . Se não temos Mátria, temos Pátria, mas queremos Frátria, devemos lutar contra os preconceitos que nos aprisionam, tornando-nos mais abertos, aceitando em nós a Deusa Mãe e o Deus Pai, em uma perfeita e plena harmonia.

[M1]O mais importante predador humano foi o Tigre de Dentes de Sabre, mas havia muitos animais que gostavam de incluir humanos em seu cardápio de rotina.

[M2]No Hemisfério Norte, dia 21 de Junho.

[M3]No Hemisfério Norte, dia 21 de Setembro.

[M4]No Hemisfério Norte, dia 21 de Dezembro.

[M5]No Hemisfério Norte, dia 21 de Março.

[M6]Do Latim: Sacro Oficium, trabalho sagrado, ofício sagrado.

[M7]Os animais foram domesticados nesta ordem. O Cão, pelo homem, durantes suas excursões noturnas de caça, o gato, pela mulher, durantes os frios dias de inverno nas cavernas e, mais tarde, a cabra, o carneiro e a vaca. O cavalo e os demais animais domésticos somente foram incorporados à rotina humana muito mais tarde, nos períodos patriarcais.

[M8]É conhecido o uso do sapo, da salamandra e do veneno de animais peçonhentos em poções mágicas em diversas épocas e em diversas regiões do globo.

[M9]Notar que o homem pode ter quantas mulheres quiser!

[M10]Notar que o homem não tem necessidade alguma de ser virgem ao casar-se!

[M11]Notar que os homens são sempre livres e senhores de si mesmo!

[M12]Notar que não há impedimentos sobre um homem ter relações sexuais com suas filheas. Não se permitia porém que um homem mantivesse relações sexuais com suas irmãs, por estas serem propriedades dos pais.

[M13]Evidentemente por ter símbolo de centenas de milhares de anos de Matriarcado.

[M14]Antes destes rituias de iniciação, os rapazes eram visto como mulheres e a pedofilia era comum, corriqueira e até mesmo insentivada, como uma espécie de treinamento para os futuros homens.

[M15]“Oh Fortuna, Senhora do Universo!”. Título e parte da letra do movimento de abertura da Ópera “Carmina Burana”( “Cantos Profanos”) do autor Alemão do Século XX, Carl Orf.

[M16]Há que se lembrar que todos estas datas se referem às estações do ano no Hemisfério Norte, origem da Humanidade.

[M17]Mais tade, na Idade Média, o calendário foi alterado para ter seu início em janeiro, desvinculando-se dos resquícios matriarcais e associando-se ao nascimento de Jesus. Para ser específico, o ano cristão se inicia 7 dias após o Natal, comemorando-se a circuncisão de Jesus.

[M18]Movimentos de contra-cultura: como os “hippies”, por exemplo.

[M19]Ou como a chamavam os gregos antigos: philadelphia. Amor entre os irmãos.

21 agosto 2006

“A taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: 'adoraríamos ter você para jantar’ ”.


Jostein Gaarder, “Maya”.







“A fantasia do técnico de computadores alemão Armin Meiwes, 42, era devorar alguém. Ele a realizou em março de 2001, ao matar e comer um homem que atendera a seu anúncio na internet pedindo vítimas. Meiwes começou a ser julgado por assassinato. O réu disse que sites com nomes como ‘Cannibal Café’ reuniriam ‘centenas’ de pessoas dispostas a devorar alguém ou a serem devoradas. Nos 12 meses em que os anúncios de Meiwes estiveram na rede, 430 pessoas responderam” (Folha de S.Paulo).
“O julgamento do homem que ficou conhecido como o ‘Canibal Gay’, está lançando luz sobre uma nova evidência: a de que este não é um caso isolado, existindo uma verdadeira rede de canibais e de promoção do canibalismo gay em todo o mundo.” (GLS Planet NEWS).
O que pode levar pessoas aparentemente bem adaptadas à sociedade a realizar fantasias sexuais deste tipo? Pior: o que significa o fato de tantas pessoas em todo o mundo compartilharem este tipo macabro de fantasias sexuais? Estaria o canibalismo atualmente ligado a algum fenômeno social específico, alguma deturpação típica de nossa era? O canibalismo faz parte da História desde os primórdios da Humanidade e existiram muitas culturas em que ele foi considerado sagrado, fonte de poderes sobrenaturais, procedimento tabu e até mesmo método eficaz de saúde pública. A idéia principal contida em todas as formas de canibalismo ao longo da História é que de alguma forma a vítima de um sacrifício ritual canibal viria a ressuscitar no ser daquele que consome sua carne e, ao que parece, esta mesma idéia foi compartilhada por Meiwes.
Esta idéia arquetípica está presente na mente de todos os Seres Humanos e pode ser facilmente depreendida com uma simples observação do ritual cristão da Missa, por exemplo, como o explicitou o próprio Meiwes ao se referir à comunhão. Quem não reconhece o contexto antropofágico explicito na frase: “quem comer de minha carne e beber de meu sangue terá a Vida Eterna”? Tal qual ocorria nos sacrifícios rituais primitivos comuns no período Neolítico da Pré–História, Jesus é simbolicamente morto a cada Missa, seu corpo é esquartejado no símbolo do pão dividido e, juntamente com seu sangue, representado pelo vinho, ingerido por toda a comunidade de fiéis reunidos para a repetição ritual da Santa Ceia. A crucificação de Cristo é a confirmação deste simbolismo.
“O nosso amor é como o grão: tem que morrer p’ra germinar...Nasce e morre trigo,vive e morre pão.” (Gilberto Gil, “Drão”). Primitivamente este ritual de sacrifício humano seguido de canibalismo estava diretamente ligado ao mito agrícola: o sacrifício do grão à terra no Outono e seu rensacimento na Primavera; o sacrifício do trigo na colheita e seu renascimento como alimento que sustenta a vida do clã. Este ciclo da terra era representado pela entidade divina da Natureza, representada pela Grande Mãe. Estes ritos ficaram marcados em todas as culturas humanas sob diversas formas de festividades e deram origem no Cristianismos a quatro festas principais (tomando–se como base as estações do Hemisfério Norte): a Páscoa, como a celebração do renascimento na Primavera; São João, o dia do meio do Verão, como o solstício de Verão (Midsummer Day); Finados, o Dia dos Mortos, como a celebração do sacrifício do grão no plantio dos campos (Halloween) e o Natal como o solstício de Inverno e o aparecimento da esperança.
Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregassemos à deusa da terra nossas sementes e confiássemos no Ciclo da Mãe, ela nos recompensaria com novas plantas e novos grãos. E de fato, assim é: apareceu assim a idéia de sacrifício (ofício sagrado). Quando fizéssemos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe seria separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderia ser tocado por mãos humanas e não serviria de alimento, mas seria devolvido à terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a magia da Natureza se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela matriarca. Concomitantemente um homem era sacrificado à deusa e sua carne e seu sangue consumidos pela tribo.
Em tribos primitivas africanas onde o canibalismo é tão comum e concreto a ponto de perpetuar certas doenças transmitidas pelo consumo de cérebro humano, como o Kuru–Kuru (Doença de Kreutzfeldt–Jacob), a prática da antropofagia nunca teve outra conotação diferente da ritualística e religiosa. Na maioria das tribos a idéia é que ao se ingerir os músculos, o coração ou o cérebro de um guerreiro, companheiro ou inimigo, sua força, sua coragem ou sua inteligência seriam desta forma adquiridas. É claro que muitas vezes o vírus causador da encefalite era a única coisa que era transmitida... Entre os primeiros habitantes do Egito, antes do aparecimento da cultura funeral da mumificação e da idéia da ressurreição dos mortos, havia o costume de se devorar os restos mortais dos parentes, como forma de perpetuação de suas vidas através de seus descendentes.
Todos estes atos canibais sempre estiveram envoltos em alto grau de respeito, tradicionalismo, religiosidade e misticismo. Por outro lado, o gosto pela carne humana como simples iguaria ocorreu e ocorre em diversas tribos primitivas na América e Oceania, sem que seja visto nesta prática nenhum problema maior do que o consumo de qualquer outra proteína animal. Nestes casos, porém, evitava–se, dentro do possível, o consumo de carne humana oriunda de parentes e amigos, preferindo–se os corpos de inimigos capturados. Casos de antropofagia puderam ser registrados também em situações onde havia uma grande privação, como na Revolução Maoísta na China, quando camponeses esfomeados invadiam propriedades rurais não em busca suprimentos (que não mais existiam), mas em uma desesperada tentativa de encontrar uma boa fonte de proteínas na carne do dono do sítio vizinho.
Na cultura ocidental moderna, o canibalismo é um dos últimos tabus ainda vigentes. A idéia de ingerir carne humana parece a qualquer pessoa civilizada, repulsiva e degradante. Mesmo assim, o canibalismo povoa o imaginário coletivo, sendo freqüentemente representado em livros e filmes, desde a distante imagem do vampiro, até a crudeza da ação de psicopatas, como ficou imortalizado por Anthony Hopkins na série de filmes sobre “Hannibal” (O Silêncio dos Inocentes, Hannibal, The Cannibal e Dragão Vermelho). O autor de “O Mundo de Sofia”, Jostein Gaarder, como em seus livros anteriores, em “Maya” parte de uma estrutura ficcional muito bem arquitetada para armar um mundo de reflexões e curiosidades sobre diferentes campos do conhecimento humano. Na obra, ele convoca o leitor para uma viagem pelas origens do Universo e da vida, numa narrativa que, através da compreensão da evolução das espécies, busca respostas para uma de nossas perguntas eternas, como “quem sou eu”. Em uma divertida referência a um simpático café localizado na ilha tropical caribenha de Belize, lê–se a frase: “a taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: ‘adoraríamos ter você para jantar’”. Este restaurantezinho para adeptos do mergulho e demais esportes aquáticos realmente existe e, evidentemente, não serve carne humana, mas iguarias vegetarianas ou feitas com frutos do mar. Porém, a idéia do canibalismo que o nome sugere, levou à fama tanto o restaurante, quanto a frase: músicas foram criadas em diversas línguas sobre o tema e muitos sites da Internet tomaram de empréstimo o mesmo nome. Isso quer dizer que um fetiche foi criado em torno do Cannibal Café, demonstrando que onde há tabu, há certamente o fetiche que o acompanha.
Compreender que a fantasia de Meiwes poderia ser até mesmo ser considerada como um lugar comum, tendo em vista esta visão mais panorâmica do tema, é bem possível. Compreender quais situações o levaram a colocar em prática esta fantasia já é bem mais difícil, mas claramente inteligível, se levarmos em conta que a psicopatia ligada a crimes hediondos é relativamente bastante freqüente. Porém compreender quais as razões que levaram Brandes a alegremente se oferecer como refeição do “Canibal Gay”, chegando até mesmo a saborear o próprio pênis na companhia de seu algoz, isso já bem mais complexo. A única explicação que me parece plausível para tal comportamento evidentemente suicida é a realização pessoal de forma psicótica de um evento simbolicamente correlato que vem sendo repetido infinitas vezes na sociedade globalizada atual: o canibalismo consentido. Explico: não é canibalismo o que as nações ditas desenvolvidas exercem sobre as ditas nações subdesenvolvidas, quando obrigam política e economicamente que as populações destas se mantenham envoltas em pobreza, doença e morte para sustentar os luxos supérfluos daquelas? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando uma mega–empresa multinacional simplesmente açambarca e devora empresas menores obrigadas por lobby e dumping a docilmente se entregarem a esta prática antropofágica? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando as classes dominates mantêm na ignorância e na pobreza as classes inferiores que nada mais fazem do que ingenuamente doarem sua força de trabalho e seu sangue num banquete vampírico? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Pois não é canibalismo quando um dependente de drogas psicotrópicas (e incluem–se aqui o cigarro e o álcool) alegremente entrega sua consciência, seu corpo e sua vida para alimentar a indústria do tráfico internacional? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido?
Ora: o mundo é um grande Cannibal Café! O erro de Brandes foi o de tomar como literal a metáfora canibal e se entregar alegremente àquele que o devoraria. Na verdade, as demais formas de canibalismo aqui descritas podem ser bastante mais sutis, porém, na prática, são igualmente literais. Seria muito bom pensar sobre isso e compreender mais profundamente o evento canibal que ocorreu na Alemanha.



Por Bernardo de Gregório
(Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiano)