03 abril 2007

Salomé

Sua luxúria um abismo... Sua perversidade um oceano!





"Não me ponha louco, Salomé!
Não mais negue as formas deste seu corpo de mulher!
Pelo mal que fiz sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!
Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser! Dance!
Façamos então um trato: dance para mim e te darei o que quiser!
Dance e me seduza e o mundo será seu!
Dance, Salomé! Dance!

É primavera, um sorriso aberto em tudo,
Os ramos numa palpitação de flores majestosa!
Carne! Que mais quer?
Coração! Que mais quer?
Passam as estações e passam as mulheres...
Dance, odiosa!"

"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..."


“É, na verdade, a digna filha de sua mãe”!

03 janeiro 2007



"Ameno"
Eric Levi


Dori me interimo
Adapare Dori me
Ameno! Ameno!

Latire latiremo
Dori me
Ameno

Omenare imperavi ameno
Dimere! Dimere matiro
Matiremo
Ameno

Omenare imperavi emulari
Ameno
Ameno dore
Ameno dori me
Ameno dom
Dori me reo
Ameno dori me
Dori me am...


Conduze-me para dentro
Absorve-me
Conduze-me
Revela! Revela!

Fugidio oculto
Conduze-me
Revela!

Revela os sinais não percebidos
Dize-me! Dize-me que guerra é essa
Mártir do Espírito
Revela

Combate os sinais não percebidos
Revela
Revela o silêncio
Revela e conduze-me
Revela, soldado
Leva-me para longe
Revela e conduze-me
Conduze-me agora...

27 dezembro 2006



Gloria in excélsis Deo
Et in terra pax homínibus bonae voluntátis.
Laudámus te.
Benedícimus te.
Adorámus te.
Glorificámus te.
Grátias ágimus tibi propter magnam glóriam tuam,
Dómine Deus, Rex cæléstis, Deus Pater omnípotens.
Dómine Fili unigénite, Jesu Christe.
Dómine Deus, Agnus Dei, Fílius Patris.
Qui tollis peccáta mundi,miserére nobis.
Qui tollis peccáta mundi, súscipe deprecatiónem nostram.
Qui sedes ad déxteram Patris, miserére nobis.
Quóniam tu solus Sanctus.
Tu solus Dóminus,
Tu solus Altíssimus, Jesu Christe,
Cum Sancto Spíritu in glória Dei Patris.


Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade.
Louvamos-te.
Bem-dizemos-te.
Adoramos-te.
Glorificamos-te.
Damos graças a ti por tua magna glória.
Senhor Deus, o Rei dos Céus, Deus o Pai onipotente.
Senhor o Filho unigênito, Jesus o Cristo.
Senhor Deus, o Cordeiro de Deus, o Filho do Pai.
Tu que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós.
Tu que tiras o pecado do mundo, acolhe nossa prece.
Tu que sentas à direita do Pai, tem piedade de nós,
Pois tu somente és o Santo,
Tu somente és o Senhor,
Tu somente és o Altíssimo, Jusus o Cristo,
E é contigo somente o Espírito Santo em glória a Deus Pai.

21 novembro 2006

Palavras Maduras
na Boca do Ator

Poema de Ailson Leite






Primeiro Ato

Primeiro Movimento


Palavras.
Dançando vazias, plenas,
Procurando poesia em si ,
Por si e para si.
Palavras que na boca têm o som do que foi dito,
Apenas, sujas palavras.
Mas não apenas isso:
Porque na boca a palavra soa,
Quando bem dita,
Como a memória da alma,
Para além do escrito.
Está dito.
Mas nem tudo está dito:
Eis o infinito.


Segundo Movimento

Ah seu eu tivesse a arte
E se ela me fosse generosa e viesse morar comigo,
Eu diria a ela, me ensina!
Curta. Objetiva. Gaga. Epilética gramática machadiana.
E de Drummond, oh mon Dieu, na letra exata.
A cara da forma e da palavra descarada,
Escancarada.


Mas como fazê-lo se nem estabelecido se está
Na casa da palavra?
Quando se mora na rua solitária, a rua é só,
A palavra é só. Só para ler. Só para ver. Só para ser,
Solidão.

Na rua a solidão é praça.
A palavra é rodovia que atravessa o país.
Na rua, a palavra é curta.
A praça é curta.
A rua é longa,
A vida é longa
E a lida é dura,
A palavra lida, dura de ouvir
Dura vida.
Pedra de quintal no mato
Pedra de querer...

Na rua a palavra é arma apontada pra cabeça.
E é preciso descer do pedestal,
Andar e crescer.
É preciso, insistir!

13 novembro 2006

A Loucura Nossa de Cada Dia



Por Bernardo de Gregório
Entrevista a Marizilda Lopes




O que é loucura para você?

Como fala a personagem da peça "Asas da Mente": "somos todos loucos, somos todos normais". O Ser Humano mentalmente sadio não existe, como já havia afirmado Wilhelm Reich. A nossa sociedade é produtora de loucura por ser uma sociedade injusta, hipócrita e baseada em valores distorcidos.

Num estudo sociológico, chegou-se à conclusão de que a sociedade ideal, capaz de abrigar em seu seio Seres Humanos sadios, seria a que se encontrava em algumas ilhas da Polinésia. Lá o dia começava pela manhã com um banho comunitário num belo riacho de águas cristalinas, onde as pessoas protegiam a pele e os cabelos com uma mistura de sândalo e óleo de coco. Lá mesmo, algumas fibras de vegetação eram trançadas e cada um ganhava um lindo sarongue para aquele dia. Em seguida, todos iam pescar e se divertiam bastante nesta atividade. Pouco importava quem havia pescado mais e quem havia pescado menos: o peixe era coletivo e invariavelmente era assado com bananas e coco para o almoço. Depois do almoço, uma soneca em redes nos bangalôs para se abrigar do sol.

À tarde vinha a atividade mais importante de sua cultura: a dança. Homens e mulheres se separavam e passavam a tarde toda aprendendo, ensinando e ensaiando passos da dança tradicional da Polinésia, que além do caráter lúdico e artístico, também tinha um aspecto religioso importante. À noite, toda a tribo se reunia em torno de fogueiras para comer mais peixe com banana e coco e depois do jantar, cada grupo apresentava sua dança com muito orgulho. Cansados, jogavam fora seus sarongues usados e iam dormir felizes, para no dia seguinte repetir esta mesma rotina.

O clima na região é muito propício e o único “se-não” era um furacão aqui e outro ali. Mas isso não representava muito problema: se o vento destruísse seus bangalôs, em algumas horas eles poderiam ser reconstruídos com a ajuda de todos da aldeia e esta atividade era encarada como muita alegria. Outra tarefa importante era construir canoas: a técnica de navegação em canoas existe na Polinésia há milênios e sempre foi extremante importante para este povo. Outra atividade típica do local é o Surf. Como cada grupo vivia em sua própria ilha, o confronto entre tribos era raríssimo e não havia guerras.

Tudo era comunitário: os bens eram de todos, as crianças eram educadas por toda a tribo, sem a necessidade de um conceito rígido de família, os esforço era sempre da tribo como um todo, o velhos eram respeitados como sábios e a idéia de produtividade e acúmulo na importava nem um pouco. A morte era entendida como um vento natural e que faz parte do ciclo da vida e era encarada sem muita dor ou revolta. Doenças eram muito raras: primeiramente porque o nível de stress de uma vida como esta é baixíssimo e depois porque a maioria das doenças infecciosas e parasitárias não existiam na região, tendo sido trazidas somente com a chegada do europeu.

Aliás, a chegada do europeu não trouxe apenas doenças, mas acabou com esta vida boa e saudável deste povo: as reservas de sândalo foram dizimadas, conceitos religiosos equivocados foram introduzidos e, com eles, o stress e inevitavelmente a doença mental. Antes da chegada do europeu, simplesmente não havia o conceito de “loucura” entre estes povos da Polinésia. Um indivíduo, que por nós seria considerado “louco” e afastado do convívio social, era por eles considerado alguém especial que mantinha contato com os deuses. O “louco” era para eles então o xamã.

Ao compararmos nossa sociedade com esta idílica vida no paraíso polinésio, percebemos sem muito esforço de que os “civilizados” com certeza eram eles, não nós. Quem vive numa sociedade como a nossa vê-se obrigado a manter um nível alto de neurose e stress diário e, diferente do que ocorria na Polinésia, o contato intenso com o Inconsciente não é por nós entendido como uma bênção dos deuses, mas sim como “loucura”. Talvez a arte seja a única coisa que salve nossa sociedade, porém, atualmente, com o conceito de “bens de consumo”, a arte vê-se obrigada a seguir ditames estreitos e obtusos de uma ditadura chamada “Marketing”. Carl Gustav Jung descreveu muito bem este processo de dissociação do Inconsciente em seu livro “O Homem e seus Símbolos”.


Como vê a luta antimanicomial?

Machado de Assis já havia chamado a atenção no Séc. XIX para a questão manicomial há muito: ao lermos seu texto “O Alienista” vemo-nos obrigados a questionar: “afinal de contas, quem é louco, quem é normal?”. E Machado de Assis deixa claro que o hospício e o psiquiatra é que são loucos.

Philippe Pinel, médico pioneiro no tratamento dos doentes mentais, já no Séc. XVIII tomou medidas humanitárias em benefício dos doentes, principalmente a de libertá-los das correntes a que vários viviam presos, alguns acorrentados por 30 ou 40 anos e tratá-los como doentes comuns e, em caso de crises de agitação e violência. Pinel aboliu tratamentos como sangria, purgações, e vesicatórios, em favor de uma terapia que incluía contato próximo e amigável com o paciente, discussão de dificuldades pessoais, e um programa de atividades dirigidas. Preocupava-se também em que o pessoal auxiliar recebesse treinamento adequado e que a administração das instituições fosse competente.

Imaginar o fim dos manicômios não é um vislumbre muito difícil hoje em dia, principalmente com o avanço da Farmacologia que nos permite um bom resultado no tratamento das doenças mentais. Quem sabe um dia consigamos ser evoluídos o suficiente para sermos como nossos amigos da Polinésia e entender o que hoje se chama de “doença mental” como um contato artístico e espiritual com o Inconsciente Coletivo.


O que acha do trabalho do CAPS?

Os CAPS - Centros de Atenção Psicossocial - são uma boa proposta para levar atendimento eficaz para pessoas com sofrimento metal, principalmente de baixa renda. Nesta visão, o sofrimento mental é encarado como um todo, incluindo não só atendimento ao doente em si nas áreas de Psiquiatria, Psicologia e Assistência Social, mas também atendimento familiar e atividades artísticas e culturais. Parece bom e de fato é.

O projeto nasceu da inspiração de um espaço de intervenção e formação acadêmica, um local que possibilitasse o desenvolvimento da autonomia e cidadania do portador de sofrimento psíquico, favorecendo aos alunos e técnicos a vivência interdisciplinar e promovendo o intercâmbio do saber entre diversas áreas de conhecimento. A criação de serviços substitutivos está orientado pela portaria 224 do Ministério da Saúde, sendo um serviço extra-hospitalar que tem como principal objetivo a redução de internações psiquiátricas.

Atividades Oferecidas:

Oficinas Terapêuticas;
Grupos Operativos (mulheres, adolescentes, mães, crianças);
Ajuda a portadores de necessidades especiais com transtorno psíquico;
Grupo de meditação;
Grupo de familiares;
Grupo de dependentes químicos;
Assembléias;
Atenção diária a portadores de sofrimento psíquico severo (oficina de culinária, trabalho de psicomotricidade, preparação para alfabetização, expressão artística como música, pintura, artesanato, higiene e cuidados pessoais);
Oficinas para geração de renda;
Oficinas terapêuticas (pintura em tecido, vidro, tapeçaria, crochê, tricô e costura);
Psicopedagogia

24 outubro 2006

11 outubro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: os Celtas

Os Caminhos da Grande Mãe

(Segunda Parte: Os Celtas)
Por Bernardo de Gregório


“Terra...
Terra...
Por mais distante
O errante navegante,
Quem jamais te esqueceria...”


Caetano Veloso
“Terra”




Continuando em busca dos tortuosos caminhos da Grande Mãe, perceberemos que a instituição do Patriarcado não foi, na verdade, um golpe definitivo sobre o Matriarcado. Como poderia? A Mãe tem característica fundamental a paciência: o tempo está a seu favor. Da Terra todos nós viemos e à Terra haveremos de retornar, mais cedo ou mais tarde. A morte sempre foi e sempre continuará a ser o maior medo do Patriarca, pois dela, desta derradeira mãe, nem mesmo ele pode se ocultar. Foi exatamente por esta insegurança e pelo medo da morte, que todas as religiões matriarcais sempre foram associadas a cultos demoníacos e consideradas como a prática do Mal em si. Por detrás deste preconceito, como ocorre com todos os preconceitos, existe um grande medo personificado na imagem da “bruxa”. Mas quem são estas “bruxas”? Qual a origem destas religiões naturais? Qual a expressão delas nos dias de hoje? Estas questões nos remetem obrigatoriamente aos Celtas.

Sendo assim, em algum lugar esquecido, longe do Patriarcado, uma belíssima civilização floresceu por mais de 3 milênios. Uma civilização matriarcal: os Celtas. Lamentavelmente sabemos muito pouco sobre eles. Apesar de serem possuidores de uma cultura avançada, eles jamais desenvolveram uma escrita organizada, pois sempre acreditaram que as palavras mais importantes devem ser transmitidas de pessoa a pessoa, envoltas em magia e calor humano. A palavra escrita deturpa os sentimentos e distorce os pensamentos. A palavra escrita cristaliza os seres e as suas vontades, gerando paradigmas fixos, imutáveis. Como a maior característica da Mãe é a mutação, o Ciclo da Natureza, a palavra escrita é fruto de um Ser Humano degradado e corrompido. O som das palavras era sagrado, a escrita era maligna e profana, como era vista toda e qualquer artificialidade. Da mesma forma, os Celtas evitavam ao máximo a construção de prédios imponentes e monumentos, pois o que o Ser Humano poderia construir que se igualasse à beleza da Natureza? Todos os rituais, reuniões e cultos religiosos eram feitos sempre no seio da Natureza: numa suave floresta, num rio, ao redor de um lago de águas clamas, no cume de uma montanha. A idéia de um templo era para os Celtas considerada depravada.


Sobre os Celtas, Colin Spancer escreve: “Esses povos fascinantes têm sido injustamente empurrados para as margens da História, por acadêmicos obcecados pelo mundo clássico (entenda-se: patriarcais), mas merecem nossa atenção. Eles eram agricultores de grande habilidade e conhecimento, exportadores de cereais e alimentos em geral para o sul do mediterrêneo, produziam artesanato em metal, jóias de grande qualidade e eram técnicos brilhantes na fabricação de carruagens e armaduras”. As origens dos povos celtas são muito nebulosas. Imagina-se que eles, de uma forma ou de outra, sempre estiveram presentes na região centro-ocidental da Europa. Provavelmente seus mais remotos ancestrais provém das desconhecidíssimas civilizações megalíticas pré-históricas, que construíram enigmáticos monumentos de pedra bruta em várias localidades na Bretanha, como o famoso círculo de pedra conhecido como “stonehenge”. Os mitos celtas referem-se constantemente às origens deste povo como estando em terras muito distantes do continente europeu. Terras mágicas e paradisíacas que foram por seus ancestrais há muito abandonadas. Terras que ficariam do outro lado do grande oceano e que eram miticamente conhecidas como Hys-Brasil. A relação destes mitos celtas com os mitos de Atlântida é direta e fácil de ser reconhecida. A relação deste nome antigo com o nome de nosso país, também o é. Teriam sido os construtores dos círculos de pedra antepassados atlantes? Esta pergunta é impossível de ser respondida. Destas épocas nos chegam hoje mitos sobre heróis celtas, como os de Conan, o Bárbaro, que acabou ficando muito conhecido do público através de quadrinhos e filmes.

Destas épocas remotas o que ficou conhecido como o Império Celta se ergueu e chegou a se estender desde a península Ibérica até a Turquia, concentrando-se principalmente em regiões que hoje são a Grã Bretanha (Inglaterra, Gales e Escócia), a Pequena Bretanha (Irlanda do Norte e Eire), França e nordeste da Espanha. Grandes influências celtas também podem ser vistas no norte da Itália e na região da Suíça. A principal cidade fundada pelos Celtas que ainda existe em nosso dias é Paris. Na “Île de la Cite”, é possível que se vejam as ruínas desta Paris celta, soterrada e esquecida por milênios nos subterrâneos da Catedral de Notre Dame de Paris e reencontrada há algumas décadas. Com o avanço do Império Romano (e de seu Patriarcado), os Celtas viram-se obrigados a recuar, porém sem antes enfrentarem bravamente os exércitos inimigos, criando para os Romanos grandes dificuldades para seus sonhos expansionistas. Destas épocas nos vêm os famosos mitos e lendas sobre o herói celta chamado Asterix, que, muito mais tarde, seria amplamente retratado (e banalizado até) em histórias em quadrinhos, desenhos animados e até mesmo filmes
. Lendas à parte, a máquina de guerra romana acabou por derrotar os Celtas. Uma derrota apenas aprente, é certo, pois, seguindo os ensinamentos da Natureza, os celtas se ocultaram e passaram a viver sua religião e costumes de forma secreta.
 
Mil anos se passaram sob o domínio romano e, como sempre nos ensina a Grande Mãe, os tempos de declínio também chegariam para os Romanos. Com as crises econômicas e políticas do Império Romano e sua progressiva retração, os Celtas renasceram como as árvores renascem na primavera. O reaparecimento do mundo Celta é um dos fenômenos mais intrigantes da História, no sentido de demonstrar claramente que a aparente derrota do Matriarcado e seu eclipsamento por mil anos, estava longe de representar seu fim. No entanto, este reflorescimento da cultura celta, não iria durar muito tempo. Ao longe, densas nuvens negras se formavam no horizonte, com a expansão do Cristianismo e o aumento do poder da Igreja e nova era de escuridão estaria por vir. Sobre isso Colin Spencer escreve: “os Celtas ocupavam aquelas terras em que a nova religião cristã se expandiria, à medida que o Império Romano encolhia e concentrava seu poder em Bizâncio. As crenças celtas, sua estrutura social e costumes sexuais seriam aparentemente deixados de lado no primeiro milênio depois de Cristo, mas em realidade foram apenas sepultados pelo Cristianismo”. Este confronto entre a Religião Antiga (como é chamado o Druidismo, a religião celta) e o Novo Deus (como era conhecido o Deus cristão), é maravilhosamente recriado por Marion Zimmer-Bradley em seu romance “As Brumas de Avalon”, agora também adaptado para o cinema, onde todo o arcabouço cultural da época é relatado com incrível precisão histórica e o mito do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda é revisto sob um prisma matriarcal. Figuras magnânimas de sacerdotisas nos são pela autora trazida com uma realidade vibrante e delicada: Viviane (A Senhora do Lago), Morgana, Morgause e Niniane. Este confronto tomou lugar por toda a baixa Idade Média e, aos poucos, o que um dia fora uma realidade, passava lentamente para o mundo dos sonhos. Avalon passou a ser uma ilha mítica, As sacerdotisas passaram a ser fadas e os druidas, magos fantásticos. A magia deixou de ser a ritualização dos Ciclos da Mãe, para ser vista como quimera, fantasia.

Relata Colin Spencer: “Muito do que sabemos sobre os Celtas veio do período de transição entre o paganismo e o cristianismo, senso assim muito confuso”. É comum que se diga sobre os Celtas, continua Colin Spencer, que “era uma sociedade dominada pelos homens: a mulher era submetida ao pai antes do casamento e ao marido, depois de casada; e aos filhos, ou a seu pai, ou a seus sobrinhos, quando o casamento terminava (...). O casamento era arranjado entre as famílias, constituindo uma aliança entre elas, como uma maneira de controlar a propriedade. A virgindade era considerada essencial para uma mulher que fosse casar e esperava-se que ela fosse fiel”. Comparando-se estas informações claramente patriarcais (os 3 tabus originais da Pátria estão presentes
) com a mitologia celta, a religião druída e a História dos povos celtas, uma grande incoerência se faz gritante. Como é possível que esta sociedade tipicamente patriarcal tenha se transformado radicalmente de uma hora para outra? A resposta está na influência romana e cristã sobre os Celtas. Eles estavam cada vez mais afastados de seus costumes tradicionais e do Matriarcado que lhes serviu de base por dois milênios. A cultura celta ruía desde seu interior. Novamente, este conflito está personalizado nas figuras de Morgana da Cornualha e do Rei Arthur, muitíssimo bem exploradas por Marion Zimmer-Bradley.

No final da Idade Média e início do Renascimento, em uma cartada final contra a religião matriarcal celta, a Igreja instituiu o Santo Ofício, a Inquisição. Além da perseguição aos judeus e a tdos os hereges, todas as pessoas, homens e mulheres, que ainda cultuavam a Grande Mãe foram também perseguidas, torturadas e mortas pela Igreja, como bem sabemos. A “bruxa” nada mais foi do que a sacerdotisa druida. A sexualidade feminina, bem como a homossexualidade foram consideradas pecados mortais e crimes passíveis de punição pela morte no fogo. Ao menor indício de “bruxaria”, uma pessoa poderia ser sumariamente presa e processada pelo Santo Ofício. Se o Cristianismo representava o Bem (beneficium), a “bruxaria”, a Antiga Religião, representaria necessariamente o Mal (maleficium). Todos os conceitos de “maleficium” podem ser amplamente ilustrados (sob um prisma patriarcal evidentemente) pela leitura da “bíblia” dos inquisidores, o “Malleus Maleficarum”
. Apesar das atrocidades mostradas por este livro, muito se pode reconhecer da religião celta e da figura da sacerdotisa.

Por mais mil anos a Grande mãe dormiria. O Patriarcado imperaria no mundo, passando das mãos romanas às da Igreja e destas às do cientificismo cético. No entanto, vivemos hoje mais uma primavera do Matriarcado. Longe das amarras repressoras do patriarca, já debilitado e ridicularizado em sua postura ultramachista, as religiões naturais encontram espaço para florescerem novamente: Druidismo tradicional e Wicca (Magia Moderna) estão sendo amplamente divulgadas em todo o mundo. E mais uma vez, as datas sagradas da mãe são reverenciadas nas florestas e lagos e nos eternos círculos de pedra.
Desde a Pré-Históra até os dias de hoje, portanto, os druídas mantiveram-se dentro de uma visão matriarcal estrita e enfrentaram épocas de declínio e perseguição com a sabedoria a eles ensinada pela Grande Mãe: a paciência, a perseverança e a manutenção das tradições.

Colin Spencer escreve: “Acredita-se que os deuses do panteão celta eram inicialmente espíritos associados às florestas, rios e lagos e não possuíam forma antropomórfica visível”. Isto que dizer que os seres conhecidos como “devas” ou “elementais” estão na origem da religião druida: fadas, gnomos, elfos, salamandras, sílfides, ondinas e sereias. Para quem quiser uma ilustração mais atual sobre estes seres, aconselho o primoroso livro (ou o filme) de J. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis”.
Centralizando todos estes seres, como Senhora absoluta do Universo, a própria Grande Mãe: a Natureza. Conhecida entre os Celtas como Ceridwen, a Grande Mãe se fazia ver, como não poderia ser de outro modo, nos ciclos das estações do ano, nas fases da Lua, na magia natural e no ciclo menstrual. A imagem de Ceridwen era a de uma grande porca que amamentava seus leitõezinhos em suas in’;umeras tetas, tal qual a Natureza supre seus filhos de tudo o que necessitam. Ceridwen era a Deusa-Porca, a Deusa-Mãe, a Deusa da natureza, a Deusa de quatro faces. Ceridwen tomava forma encarnada na figura da sacerdotisa. Ceridwen possuía sempre a seu lado seu consorte: o chamado Deus Chifrudo, ou o Cornípherus, seu filho e seu amante, essência masculina dedicada à Mãe. Representando fisicamente o Deus Chifrudo, havia os magos e suas irmandades masculinas de menstréia e harpistas, sob as ordens de seu representante máximo, o Merlin. O equilíbrio da Natureza se fazia entender pelo equilíbrio entre o predador e a presa, entre a loba e a rena, entre Ceridwen e o Cornípherus, entre o masculino e o feminino. Todo o mundo druida estava baseado numa visão feminina, voltada para o Inconsciente: a magia.

Magia é um procedimento natural humano, ancestral e divino, baseado na anulação do ego e na exaltação das forças do Inconsciente Coletivo. Intuição, presságios, sonhos, visões e rituais simples são suas marcas. Todo e qualquer procedimento mágico exige por parte do mago um longo treino para acessar essas forças dormentes no fundo da psique humana. Um profundo mergulho dentro deste mundo fantástico é sempre necessário. Deixar de lado conhecimentos racionais (a Ciência e a Filosofia), imprescindível. A Mãe nos envia todas as informações necessárias a seu tempo e faz com que todos os caminhos se abram ou se fechem quando o momento é chegado. A Mãe é feita de Ciclos, que devem ser respeitados e usados a favor do mago. A Mãe é composta por quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) que devem ser harmonizados no interior da alma do mago, para que ele se torne o quinto elemento deste conjunto, donde a estrela de cinco pontas (o pentagrama) como símbolo da magia. O respeito à Natureza e a todos seres que delas fazem parte é uma marca do verdadeiro mago. A abnegação e a devoção à Grande Mãe, sua vida. Evidentemente as maiores datas a serem comemoradas continuam sendo as mesmas há centenas de milênios: o equinócio de primavera, o solstício de verão, o equinócio de outono, o solstício de inverno e, acima de todas, a Noite Sagrada (Hollow Eve) do sacrifício do grão à Mãe
.

Numa visão assim, a sexualidade é vista como expressão direta da Natureza em nós, sem nenhum tipo de freio ou moralismo. A sexualidade aparece como a Grande Mãe faz com que ela venha para cada um de nós: a seu tempo e de formas infinitamente variáveis. A magia máxima é a geração de uma nova vida, mas a sexualidade jamais se prenderia a isso. Muitos rituais sexuais são comuns no Druidismo, como símbolo da fecundação, como símbolo de submissão à Deusa e como harmonização das forças naturais. A supremacia feminina, como símbolo da Mãe, é totalmente aceita e profundamente cultuada. O masculino, livre da ditadura do Patriarca e de suas inseguranças, entrega-se docemente ao serviço da Deusa e entende a relação entre dois homens como profunda confirmação da amizade natural entre os guerreiros.
Evidentemente estes costumes sexuais libertários muito chocaram tanto os romanos, quanto os cristãos, que passaram a repudiar a Antiga Religião como paganismo e culto a Satã. Diodoro Sículo (escritor romano) nos deu um quadro mais amplo: “os homens (celtas) são muito atraídos por seu próprio sexo; eles se deitam sobre peles de animais e se divertem com um amante de cada lado. O incrível é que não têm o menor cuidado por sua dignidade pessoal ou auto-respeito: oferecem-se aos outros homens sem nenhuma cerimônia. Além do mais, isso não é considerado desprezível ou uma inferioridade; ao contrário, se um deles é rejeitado por outro a quem se ofereceu, fica ofendido”. Outro ponto que muito desgostava romanos e eclesiásticos sempre foi a nudez. A nudez, do ponto de vista celta, é a forma mais natural possível de alguém se apresentar e, portanto, era vista como uma forma nobre de cultuar a Deusa. A grande maioria dos rituais exigia a nudez de seus participantes e até mesmo na guerra, os guerreiros se apresentavam nus. Escreveu sobre os guerreiros celtas Políbio (historiador grego): “eles tomaram posição, em frente a todo o exército, nus, a não ser pelas armas (...). Os movimentos dos guerreiros nus à frente das fileiras era um espetáculo terrível. Eram todos homens de um físico esplêndido e no começo da vida e os integrantes das companhias estavam ricamente adornados com colares e braceletes de ouro. A simples visão deles era suficiente para causar medo entre os romanos”. Colin Spencer comenta esta passagem: “considerando-se o desgosto romano pela nudez (...) pode-se especular se esse desgosto não se baseava em tais experiências, (isto é) a nudez era para eles (os romanos) equivalente a barbarismo”.

Finalizando, encontramos a religião druida como marco fundamental do Matriarcado neste planeta. Evoluindo ininterruptamente desde a Pré-História até os dias de hoje, a Antiga Religião é marca indelével da Grande Mãe e de sues caminhos tortuosos. Persistente, paciente, cíclica e doce, a Mãe aguarda o momento ideal para manifestar-se. Suas tradições são tão antigas quanto o mundo e nos mostram um caminho de harmonia e equilíbrio entre todas as forças que existem em nós. A visão mágica é poética e bela nos centra em nosso Inconsciente profundo. Não existem pecados, existem ciclos. Não existe moral, existe a vontade sagrada da Mãe. A mulher e o homem são livres para expressar suas verdadeiras essências, encontrando entre o masculino e o feminino uma profunda complementação e reconhecendo em si mesmos uma origem andrógina e completa, tal qual a árvore é andrógina e completa em si mesmo. Estes são os maiores ensinamentos que podemos receber dos Celtas, ainda que, ao longo da História, eles mesmo, por muitas vezes, tenham se perdido dos caminhos da Grande Mãe.






30 setembro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: a Pré-História



Os Caminhos da Grande Mãe
(Primeira Parte: A Pré-História)


Por Bernardo de Gregório



“A língua é minha Pátria
E eu não tenho Mátria,
Quero Frátria”

Caetano Veloso
“Língua”





Se nosso intuito é o de entender melhor a estrutura social matriarcal, devemos retroceder no tempo até chegarmos a uma época perdida e esquecida, nos primórdio da aventura humana neste planeta. Tempos em que o Ser Humano propriamente dito ainda nem existia... Imagine-se na Pré-História, no período Paleolítico Inferior, há cerca de 500 mil anos passados. Nessas épocas a Terra era habitada por hominídeos, muito mais mamíferos superiores com aparência simiesca, do que humanos. Estes eram os Australopitecos, os Pitecantropos e os Paleantropos. Estes seres já possuíam instrumentos, ainda que extremante toscos e rudimentares, feitos de pedra lascada e troncos de madeira. Viviam em bandos que vagavam pelas estepes e subiam em árvores, habitavam cavernas fugindo de seus predadores[M1] e mudavam constantemente de lugar, em busca de caça e de vegetais comestíveis.

Estes hominídeos ainda estavam sob os comandos da Mãe Natureza e possuíam instintos muito mais gritantes dos que os nossos. Sendo assim, as “fêmeas humanas” (não eram propriamente mulheres) ainda possuíam um período de cio, como qualquer fêmea de mamífero, e somente copulavam nestes períodos. O cio ocorria uma vez por ano, em noites de lua cheia bem no auge do verão. Nestes período de cio havia a cópula em “orgias” de sexo grupal e bissexual. Sendo assim, todas as fêmeas férteis do bando ficavam prenhas e passavam por um longo período gestacional (9 meses) até darem à luz seus filhotes, que nasciam no início da primavera. Amamentavam-nos por cerca de 3 meses, quando voltavam a ovular e entravam em novo período de cio. Este ciclo coincidia exatamente com o ciclo das estações do ano e todas as fêmeas seguiam juntas estes caminhos da Mãe Natureza. Os machos eram relegados a um segundo plano durante todo o ano, com exceção do período do cio, claro. Sendo assim, a homossexualidade entre os machos era extremamente comum, como ocorre com qualquer mamífero. A sexualidade humana era eminentemente animal, instintiva e comandada unicamente por hormônios.

Com o desenvolvimento da consciência humana, houve a associação evidente do ciclo reprodutivo feminino com o ciclo da Natureza. As fêmeas passaram a ser reverenciadas como deusas encarnadas, como representantes vivas da Mãe Natureza, como portadoras dos Mistérios da Criação, da vida e da morte. As tarefas do bando iam sendo aos poucos divididas entre seus membros, de forma que às mulheres cabiam as funções mais sagradas: cuidar da prole, cuidar da alimentação do bando, cuidar da caverna e reverenciar a Deusa Mãe. Os homens ficavam com as tarefas mais arriscadas e difíceis, pois não eram assim tão importantes para a manutenção bando: a caça, a pesca, a segurança e a coleta em locais distantes da caverna. Quando pela primeira vez um humano teve a brilhante idéia de se aproximar de uma árvore que estava em chamas, num incêndio causado talvez por um raio, e empunhar uma tocha, trazendo-a para dentro da caverna, este humano que primeiramente roubou o fogo dos deuses, foi uma mulher. O fogo necessitava ser alimentado e mantido aceso dia e noite, pois não era possível fazê-lo, apenas recolhê-lo da Mãe Natureza. Esta nobilíssima função era invariavelmente delegada a uma nobre mulher. A importância divina da mulher na sociedade crescia com o tempo e aumentava com o ampliar da consciência.

Com o passar do tempo, o Ser Humano se aprimorou física e psiquicamente, transformando seus genes e sua aparência, chegando a se tornar um honrado exemplar do gênero Homo. Aparece então o Homem de Neanderthal, que já usava roupas feitas com peles, possuía vários instrumentos e utensílios domésticos feitos de pedras lascadas, ossos, gravetos e cordas e possuía uma estrutura social muito mais elaborada. Ainda não eram exatamente Humanos, mas já eram bem mais independentes da ditadura hormonal. A sociedade se centralizava ao redor da figura da Matriarca: mulher mais velha e sábia, que provavelmente era a mãe de todos. Esta pequena estrutura familiar, chama-se clã. As funções ainda eram as mesmas, mas às mulheres cabiam agora os poderes divinos de traduzir ao clã os caminhos da Grande Mãe. A Matriarca, como representante maior da Deusa da Terra, orientava os membros do clã, com doçura e firmeza, mostrando a todos os ciclos sagrados da Mãe. No Matriarcado nunca houve leis ou punições. Os desígnios da Mãe eram com candura acatados por todos e ditados pela Matriarca. O que antes era simplesmente o cio, agora já era propriamente um ritual de fertilidade comandado pela Matriarca. A idéia era a mesma, mas a concepção racional de ritualidade era muito mais elaborada. Duas datas eram marcantes nesta visão religiosa pré-histórica: o ritual de fertilidade do verão, a celebração do nascimento dos filhotes. A comemoração da geração da vida, da fertilidade da Mãe e do eterno recomeço. Neste ponto, já estamos há 30 mil anos passados, no início do período Paleolítico Superior.

Caminhavam então sobre a terra, os primeiros Humanos propriamente ditos: Homo sapiens. Apareceram misteriosamente estes Humanos, primos próximos dos Homens de Neanderthal, mas muitíssimo mais habilidosos, inteligentes e elaborados. As primeiras noções de arte apareceram: pinturas nas paredes da cavernas, elaboradas e mágicas, são encontradas em abundância datadas deste período em diante. Os humanos passaram a usar ornamentos e pinturas sobre o corpo, não mais apenas a se agasalharem do frio com peles. As técnicas de caça, pesca e coleta se tornaram muito mais requintadas e organizadas. Infelizmente a agressividade humana também: estes nossos ancestrais exterminaram totalmente as populações de Homens de Neanderthal, saqueando seus acampamentos, capturando-os como escravos, matando-os por prazer e, por fim, levando-os à extinção completa. A noção de religião e espiritualidade que estes Humanos possuíam eram igualmente bem mais requintadas: já havia a noção de morte e rituais funéreos eram feitos com freqüência. A idéia de Magia norteava todos os rituais. A Magia era o poder da Matriarca que encarnava a Grande Mãe. Matriarca, Natureza e a Deusa eram uma só pessoa: divina, eterna e cíclica. Quatro datas do ano passaram a ser reverenciadas: o solstício de verão (dia mais longo do ano[M2] ), data de celebração da fertilidade e do ritual de procriação; o equinócio de outono (dia equivalente em tamanho com a noite no início do outono[M3] ), data da celebração da morte e dos ritos funerais; o solstício de inverno (noite mais longa do ano[M4] ), data da celebração da esperança do renascimento na Natureza; o equinócio de primavera (dia equivalente em tamanho com a noite no início da primavera[M5] ), data da celebração do nascimentos dos bebês e do renascimento da Natureza. A escultura conhecida com “Vênus de Willendorf” (http://witcombe.sbc.edu/willendorf/willendorfdiscovery.html) data deste período e é a representação máxima desta era: arte, religião, Magia, Deusa Mãe, Natureza, Deusa da Terra. Trata-se da representação em pedra de uma figura femina prenha, esférica e maternal, escultura considerada a obra de arte mais antiga de toda a aventura humana. Já estamos então há 18 mil anos passados, no início do período Neolítico.

Uma tremenda mudança estava então para acontecer: o domínio da agricultura e o domínio definitivo sobre o fogo. Alguém conseguiu pela fricção de bastões de madeira, criar o fogo, sem haver mais a necessidade de roubá-lo na Natureza. Esta pessoa foi uma Matriarca. Alguém tomou o cuidado de observar que algumas plantas cresciam perto dos locais onde os restos de comida eram jogados fora. Esta pessoa com certeza foi uma Matriarca. A Magia da Mãe dava sinais de que o renascimento era possível também com os grãos e sementes. Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregarmos à Deusa nossas sementes e confiarmos no Ciclo da Mãe, Ela nos recompensará com novas plantas e novos grão. Aparece a idéia de sacrifício (ofício sagrado[M6] ). Quando fizermos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe será separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderá ser tocado por mãos humanas e não servirá de alimento, mas será devolvido à Terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a Magia da Mãe se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas que se sucederam à era glacial e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados da mãe que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a Lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela Matriarca. Eis os Mistérios da Mãe, eis o Ciclo Mágico da Vida, eis os trabalhos da Deusa!

Com o passar do tempo, a agricultura proporcionou ao homem uma possibilidade dele se tornar sedentário e se fixar em um só lugar: sua terra, como reflexo da Deusa da Terra. As cavernas, há tantos milênios usadas como proteção, já não eram tão necessárias. Pequenas aldeias com construções de palha e argila era edificadas surgiam aqui e ali, nos agrupamentos mais evoluídos. Formas circulares se faziam notar por todos os lados, reproduzindo o Ciclo Sagrado. Apareceu a roda, apareceram os instrumentos agrícolas, apareceram as artes da cerâmica, apareceram adornos corporais mais elaborados, apareceu a pedra polida. Esta nova estrutura social recebe o nome de tribo. Apareceriam ainda, porém muitas outras novidades para o espanto da Matriarca...

Foi numa noite quente de verão, quando a lua cheia iluminava a escuridão e tornava as estrelas mais pálidas, que uma mulher atingiu um nível de consciência tal que lhe permitiu dizer uma palavra mágica, a mais mágica de todas as palavras: “não!”. Esta mulher que disse “não”, recusou-se a participar do ritual de fertilidade do solstício de verão. Ela era independente, ousada e auto-suficiente. Disse “não”, enfrentou a Matriarca e a Deusa Mãe e realmente se afastou dos gemidos que preenchiam a noite quente. Ficou lá, solitária na floresta a observar a Lua. Exatamente 14 dias após este evento, algo sobrenatural ocorreu a esta mulher insubordinada: ela menstruou. Jamais em bilhões de anos de História deste planeta, havia se visto algo semelhante. Nenhuma Fêmea de mamífero menstrua, pois os animais não conseguem dizer “não” aos desígnios da Mãe. Mas esta mulher, por livre e espontânea vontade, negou-se à fertilidade, desafiou a Deusa e foi por ela punida: o sangue era a marca da maldição da Mãe. A mulher foi expulsa da tribo e condenada a viver só, na floresta. Esta mulher, sinistra e marcada pela maldição, abandonou para sempre os Ciclos da Mãe Terra e passou a seguir os Ciclos da Mãe Lua. Filha da Lua ela era e a cada 28 dias, a cada lua, sob as sombras da foice da lua negra, ela sangrava. E a esta altura, já estamos nós há 7 mil anos passados, no início do período Agropastoril.

A Agricultura se expandiu, animais foram domesticados e o cão, o gato, a cabra, o carneiro e a vaca[M7] se tornaram aliados inseparáveis da Humanidade. Utensílios domésticos e ferramentas eram feitas não só de pedra polida, mas também de cerâmica finamente trabalhada, de madeira entalhada e polida e cordas e tecidos bem mais elaborados eram feitos nos teares das Matriarcas. A aldeia e a tribo passou a ser definitivamente o local onde os humanos habitavam. As cavernas foram para sempre esquecidas e espíritos maus passaram a habitá-las. A religião tornava-se cada mais complexa, mas a Deusa Mãe ainda era o centro do mundo. No verão, rituais de fertilidade encontravam lugar nas noites de lua cheia. No outono, a colheita e o plantio seguiam o ofíco sagrado. A idéia de que o sacrifico do grão necessitava de um sacrifico maior para acompanhá-lo, levou as Matriarcas a adotarem neste período o sacrifico humano como regra. Sob a foice vermelha da lua negra, um homem forte e robusto, o melhor grão da tribo, entregava-se à foice da Matriarca em sacrifico à Deusa. Suas carnes eram o alimento da tribo. Seu sangue fecundava os campos e seu coração era pela Matriarca devorado, para que ele, tal quel o trigo nos campos, pudesse dela renascer na primavera. No inverno, o recolhimento de toda a tribo em torno do fogo, marcava a celebração da esperança por tempos melhores. Na primavera toda a tribo se alegrava com as flores, com o nascimento dos bebês e com o renascimento do filho da matriarca. Os Caminhos da Mãe eram seguidos à risca.

Longe dali, porém, uma mulher marcada pelo sangue não participava de nada disto. Concentrava-se em sua vida solitária, em suas ervas medicinais, em suas poções e ungüentos, em seu contato com os animais silvestres[M8] e reverencia a Lua como Deusa. Suas companhias era o gato. Não foram poucas vezes que homens tentaram seduzir estas mulheres enigmáticas da floresta, mas elas sempre preferia a companhia de outras mulheres e da Deusa Lua. Alguns desses homens submeteram-se às bruxas e lá com elas ficaram, tornando-se magos. Outros foram simplesmente por elas mortos. Muito comum era o hábito destas mulheres raptarem bebês para criá-los como filhos ou para com eles elaborarem poções mágicas. Igualmente não foram poucas as vezes que as Matriarcas se aproximaram destas mulheres-bruxas, para pedir-lhes conselhos de magia, para implorar-lhes a cura de males, para consultar-lhes a sabedoria. Com o passar do tempo, o culto à Lua e o culto à Terra se reunificaram em uma única religião matriarcal. Existiram sociedades matriarcais compostas exclusivamente por mulheres, e outras mistas, nas quais os homens eram vistos sempre como seres inferiores. As mulheres eram todas deusas e a Matriarca era a Deusa Terra, enquanto a bruxa era a Deusa Lua. O Matriarcado chegava a seu apogeu há aproximadamente 6 mil anos passados, no início do período urbano.

Nesse tempo, com certas variações de um lugar para outro, de uma sociedade para outra, ocorreu a maior revolução social de que se tem notícia até hoje: a revolução sexual masculina. Os homens, cansados de serem relegados a um segundo plano e à inferioridade social, resolveram “virar a mesa”. Para tal, usaram aquilo a que vinham se dedicando com afinco há centenas de milhares de anos: a força bruta. Acostumados que estavam com os instrumentos de caça e de guerra, usaram a força para subjugar a Matriarca. Muitas mulheres foram dizimadas, mutiladas, violentadas e escravizadas pelos homens enfurecidos. Passado o calor desta primeira manifestação de cólera contra a tirania feminina, a razão falou mais alto e os novos senhores da tribo, os Patriarcas, depararam-se com um problema de ordem prática: se as mulheres são divinas porque são mães, como será possível a um homem adquirir o mesmo status ? Somente sendo ele pai. Mas como um homem pode se tornar pai se não é ele que gera os filhos? Obrigando as mulheres a serem absolutamente fiéis e celibatárias. A sexualidade feminina foi então massacrada. “Toda mulher somente poderá ter um homem”[M9] . “Toda mulher deverá se conservar virgem para ser aceita por seu esposo”[M10] . “Toda mulher é propriedade de seu pai, quem deverá decidir com ela deve se casar”[M11] . “É proibido que as mulheres tenham sexo com seus filhos e irmãos (únicos machos a quem elas teriam acesso, mesmo assim, restrito)”[M12] . “Toda mulher é um ser inferior e, como ser desprovido de pensamento, deve absoluta obediência aos homens”. Estas foram as primeiras leis da Humanidade. Leis cuja desobediência era invariavelmente punida com a morte.

As religiões matriarcais foram perseguidas e combatidas com violência. As matriarcas e as bruxas eram assassinadas em nome do Patriarcado. O medo irracional do homem pelo retorno a uma condição inferiorizada num possível Matriarcado renascido, fez com que o Patriarcado abominasse qualquer coisa que o lembrasse dos tempos esquecidos da Grande Mãe. A homossexulidade era mal vista, principalmente a masculina[M13] . A Deusa Mãe foi substituída pelo Deus Pai. Os Ciclos da Terra e os Ciclos da Alma Humana foram relegados a um plano puramente biológico e o tempo se tornou linear, marcado por eventos eminentemente masculinos: guerras, conquistas, reis, poder, opressão e violência. Rituais de iniciação passaram a ser impostos aos jovens rapazes, para que eles fossem aceitos na sociedade como homens e se diferenciassem das mulheres[M14] . O falo ereto passou o símbolo máximo da cultura desta época e mantém-se até hoje ereto, sob forma de obeliscos, torres, bandeiras, estandartes, cetros e cajados. O amor à Pátria e o temor a Deus são as conseqüências deste falo ereto e opressor.

Qual o destino dos Caminhos da Grande mãe? Jamais a Mãe foi esquecida, mesmo tendo sido pela Humanidade repudiada, temida e execrada. Seus Eternos Ciclos continuaram e continuarão a reger o mundo. “Oh Fortuna, Imperatrix Mundi !”[M15] . As datas da Grande Mãe[M16] foram incorporadas às religiões patriarcais, bem como seus ritos. O solstício de verão, com suas danças rituais de fertilidade em torno do fogo eterno, deu origem às festas folclóricas de roda (como as festas juninas, por exemplo). O equinócio de outono, com os festejos da colheita, deu origem às comemoração da Natureza e da Vindima, bem como os sacrifícios da semeadura originaram as festas de “Halloween”e as celebrações do dia dos mortos. O ritual do sacrifício humano da semeadura, originou toda a liturgia católica da Missa, com o sacrifício do Filho de Deus, a distribuição de sua carne, transubstanciada em pão e de seu sangue, transubstanciado em vinho. A celebração da esperança no inverno originou os festejos do Natal cristão e da Hanukah hebraica. A celebração do renascimento da Natureza na primavera e os festejos da chegada dos rebentos, deu origem à Páscoa cristã e ao Pessach hebraico. O ano romano se iniciava em Aprile[M17] , marcando o renascer do Ciclo da Mãe, bem como até hoje o ano chinês.

Milênios de opressão Patriarcal se passaram em variadíssimas expressões de violência não só contra a mulher, mas contra tudo e todos que pudessem se opor às idéias do Patriarca ou que pudessem incitar seus medos trancafiados no Inconsciente Coletivo. Mas, um renascimento, como sempre faz a Mãe, estava por vir... Somente nos anos 60 do século passado, mais de 6 mil anos após a instauração do Patriarcado, as mullheres cansadas de opressão se rebelaram. À elas se somaram muitos jovens que reinvidicavam liberdade[M18] . Quebraram os grilhões da ditadura machista e clamaram por novos tempos de paz, amor e igualdade. Todos os símbolos ligados ao Pai foram destruídos sistematicamente e mulher resgatou sua condição de cidadã livre e auto-suficiente. Infelizmente esta batalha ainda está apenas em seus primórdios e na Terra ainda existem inúmeras sociedades machistas e repressoras, enquanto mesmo as sociedades tidas como mais liberais, ainda mantém em si uma configuração claramente patriarcal.

Qual o melhor caminho a se seguir? Uma volta plena ao Matriarcado? Talvez isso seja um retrocesso e há que se lembrar que foram exatamente os excessos do Matriarcado que deram origem ao Patriarcado e seus excessos ainda piores. A alternativa é uma sociedade igualitária, onde não haja nem Matriarcas, nem Patriarcas, mas onde todos sejam irmãos e livres, onde o sentimento supremo seja a fraternidade. Esta sociedade, ainda num plano utópico, chamar-se-ia Fratriarcado[M19] . Se não temos Mátria, temos Pátria, mas queremos Frátria, devemos lutar contra os preconceitos que nos aprisionam, tornando-nos mais abertos, aceitando em nós a Deusa Mãe e o Deus Pai, em uma perfeita e plena harmonia.

[M1]O mais importante predador humano foi o Tigre de Dentes de Sabre, mas havia muitos animais que gostavam de incluir humanos em seu cardápio de rotina.

[M2]No Hemisfério Norte, dia 21 de Junho.

[M3]No Hemisfério Norte, dia 21 de Setembro.

[M4]No Hemisfério Norte, dia 21 de Dezembro.

[M5]No Hemisfério Norte, dia 21 de Março.

[M6]Do Latim: Sacro Oficium, trabalho sagrado, ofício sagrado.

[M7]Os animais foram domesticados nesta ordem. O Cão, pelo homem, durantes suas excursões noturnas de caça, o gato, pela mulher, durantes os frios dias de inverno nas cavernas e, mais tarde, a cabra, o carneiro e a vaca. O cavalo e os demais animais domésticos somente foram incorporados à rotina humana muito mais tarde, nos períodos patriarcais.

[M8]É conhecido o uso do sapo, da salamandra e do veneno de animais peçonhentos em poções mágicas em diversas épocas e em diversas regiões do globo.

[M9]Notar que o homem pode ter quantas mulheres quiser!

[M10]Notar que o homem não tem necessidade alguma de ser virgem ao casar-se!

[M11]Notar que os homens são sempre livres e senhores de si mesmo!

[M12]Notar que não há impedimentos sobre um homem ter relações sexuais com suas filheas. Não se permitia porém que um homem mantivesse relações sexuais com suas irmãs, por estas serem propriedades dos pais.

[M13]Evidentemente por ter símbolo de centenas de milhares de anos de Matriarcado.

[M14]Antes destes rituias de iniciação, os rapazes eram visto como mulheres e a pedofilia era comum, corriqueira e até mesmo insentivada, como uma espécie de treinamento para os futuros homens.

[M15]“Oh Fortuna, Senhora do Universo!”. Título e parte da letra do movimento de abertura da Ópera “Carmina Burana”( “Cantos Profanos”) do autor Alemão do Século XX, Carl Orf.

[M16]Há que se lembrar que todos estas datas se referem às estações do ano no Hemisfério Norte, origem da Humanidade.

[M17]Mais tade, na Idade Média, o calendário foi alterado para ter seu início em janeiro, desvinculando-se dos resquícios matriarcais e associando-se ao nascimento de Jesus. Para ser específico, o ano cristão se inicia 7 dias após o Natal, comemorando-se a circuncisão de Jesus.

[M18]Movimentos de contra-cultura: como os “hippies”, por exemplo.

[M19]Ou como a chamavam os gregos antigos: philadelphia. Amor entre os irmãos.

21 agosto 2006

“A taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: 'adoraríamos ter você para jantar’ ”.


Jostein Gaarder, “Maya”.







“A fantasia do técnico de computadores alemão Armin Meiwes, 42, era devorar alguém. Ele a realizou em março de 2001, ao matar e comer um homem que atendera a seu anúncio na internet pedindo vítimas. Meiwes começou a ser julgado por assassinato. O réu disse que sites com nomes como ‘Cannibal Café’ reuniriam ‘centenas’ de pessoas dispostas a devorar alguém ou a serem devoradas. Nos 12 meses em que os anúncios de Meiwes estiveram na rede, 430 pessoas responderam” (Folha de S.Paulo).
“O julgamento do homem que ficou conhecido como o ‘Canibal Gay’, está lançando luz sobre uma nova evidência: a de que este não é um caso isolado, existindo uma verdadeira rede de canibais e de promoção do canibalismo gay em todo o mundo.” (GLS Planet NEWS).
O que pode levar pessoas aparentemente bem adaptadas à sociedade a realizar fantasias sexuais deste tipo? Pior: o que significa o fato de tantas pessoas em todo o mundo compartilharem este tipo macabro de fantasias sexuais? Estaria o canibalismo atualmente ligado a algum fenômeno social específico, alguma deturpação típica de nossa era? O canibalismo faz parte da História desde os primórdios da Humanidade e existiram muitas culturas em que ele foi considerado sagrado, fonte de poderes sobrenaturais, procedimento tabu e até mesmo método eficaz de saúde pública. A idéia principal contida em todas as formas de canibalismo ao longo da História é que de alguma forma a vítima de um sacrifício ritual canibal viria a ressuscitar no ser daquele que consome sua carne e, ao que parece, esta mesma idéia foi compartilhada por Meiwes.
Esta idéia arquetípica está presente na mente de todos os Seres Humanos e pode ser facilmente depreendida com uma simples observação do ritual cristão da Missa, por exemplo, como o explicitou o próprio Meiwes ao se referir à comunhão. Quem não reconhece o contexto antropofágico explicito na frase: “quem comer de minha carne e beber de meu sangue terá a Vida Eterna”? Tal qual ocorria nos sacrifícios rituais primitivos comuns no período Neolítico da Pré–História, Jesus é simbolicamente morto a cada Missa, seu corpo é esquartejado no símbolo do pão dividido e, juntamente com seu sangue, representado pelo vinho, ingerido por toda a comunidade de fiéis reunidos para a repetição ritual da Santa Ceia. A crucificação de Cristo é a confirmação deste simbolismo.
“O nosso amor é como o grão: tem que morrer p’ra germinar...Nasce e morre trigo,vive e morre pão.” (Gilberto Gil, “Drão”). Primitivamente este ritual de sacrifício humano seguido de canibalismo estava diretamente ligado ao mito agrícola: o sacrifício do grão à terra no Outono e seu rensacimento na Primavera; o sacrifício do trigo na colheita e seu renascimento como alimento que sustenta a vida do clã. Este ciclo da terra era representado pela entidade divina da Natureza, representada pela Grande Mãe. Estes ritos ficaram marcados em todas as culturas humanas sob diversas formas de festividades e deram origem no Cristianismos a quatro festas principais (tomando–se como base as estações do Hemisfério Norte): a Páscoa, como a celebração do renascimento na Primavera; São João, o dia do meio do Verão, como o solstício de Verão (Midsummer Day); Finados, o Dia dos Mortos, como a celebração do sacrifício do grão no plantio dos campos (Halloween) e o Natal como o solstício de Inverno e o aparecimento da esperança.
Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregassemos à deusa da terra nossas sementes e confiássemos no Ciclo da Mãe, ela nos recompensaria com novas plantas e novos grãos. E de fato, assim é: apareceu assim a idéia de sacrifício (ofício sagrado). Quando fizéssemos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe seria separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderia ser tocado por mãos humanas e não serviria de alimento, mas seria devolvido à terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a magia da Natureza se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela matriarca. Concomitantemente um homem era sacrificado à deusa e sua carne e seu sangue consumidos pela tribo.
Em tribos primitivas africanas onde o canibalismo é tão comum e concreto a ponto de perpetuar certas doenças transmitidas pelo consumo de cérebro humano, como o Kuru–Kuru (Doença de Kreutzfeldt–Jacob), a prática da antropofagia nunca teve outra conotação diferente da ritualística e religiosa. Na maioria das tribos a idéia é que ao se ingerir os músculos, o coração ou o cérebro de um guerreiro, companheiro ou inimigo, sua força, sua coragem ou sua inteligência seriam desta forma adquiridas. É claro que muitas vezes o vírus causador da encefalite era a única coisa que era transmitida... Entre os primeiros habitantes do Egito, antes do aparecimento da cultura funeral da mumificação e da idéia da ressurreição dos mortos, havia o costume de se devorar os restos mortais dos parentes, como forma de perpetuação de suas vidas através de seus descendentes.
Todos estes atos canibais sempre estiveram envoltos em alto grau de respeito, tradicionalismo, religiosidade e misticismo. Por outro lado, o gosto pela carne humana como simples iguaria ocorreu e ocorre em diversas tribos primitivas na América e Oceania, sem que seja visto nesta prática nenhum problema maior do que o consumo de qualquer outra proteína animal. Nestes casos, porém, evitava–se, dentro do possível, o consumo de carne humana oriunda de parentes e amigos, preferindo–se os corpos de inimigos capturados. Casos de antropofagia puderam ser registrados também em situações onde havia uma grande privação, como na Revolução Maoísta na China, quando camponeses esfomeados invadiam propriedades rurais não em busca suprimentos (que não mais existiam), mas em uma desesperada tentativa de encontrar uma boa fonte de proteínas na carne do dono do sítio vizinho.
Na cultura ocidental moderna, o canibalismo é um dos últimos tabus ainda vigentes. A idéia de ingerir carne humana parece a qualquer pessoa civilizada, repulsiva e degradante. Mesmo assim, o canibalismo povoa o imaginário coletivo, sendo freqüentemente representado em livros e filmes, desde a distante imagem do vampiro, até a crudeza da ação de psicopatas, como ficou imortalizado por Anthony Hopkins na série de filmes sobre “Hannibal” (O Silêncio dos Inocentes, Hannibal, The Cannibal e Dragão Vermelho). O autor de “O Mundo de Sofia”, Jostein Gaarder, como em seus livros anteriores, em “Maya” parte de uma estrutura ficcional muito bem arquitetada para armar um mundo de reflexões e curiosidades sobre diferentes campos do conhecimento humano. Na obra, ele convoca o leitor para uma viagem pelas origens do Universo e da vida, numa narrativa que, através da compreensão da evolução das espécies, busca respostas para uma de nossas perguntas eternas, como “quem sou eu”. Em uma divertida referência a um simpático café localizado na ilha tropical caribenha de Belize, lê–se a frase: “a taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: ‘adoraríamos ter você para jantar’”. Este restaurantezinho para adeptos do mergulho e demais esportes aquáticos realmente existe e, evidentemente, não serve carne humana, mas iguarias vegetarianas ou feitas com frutos do mar. Porém, a idéia do canibalismo que o nome sugere, levou à fama tanto o restaurante, quanto a frase: músicas foram criadas em diversas línguas sobre o tema e muitos sites da Internet tomaram de empréstimo o mesmo nome. Isso quer dizer que um fetiche foi criado em torno do Cannibal Café, demonstrando que onde há tabu, há certamente o fetiche que o acompanha.
Compreender que a fantasia de Meiwes poderia ser até mesmo ser considerada como um lugar comum, tendo em vista esta visão mais panorâmica do tema, é bem possível. Compreender quais situações o levaram a colocar em prática esta fantasia já é bem mais difícil, mas claramente inteligível, se levarmos em conta que a psicopatia ligada a crimes hediondos é relativamente bastante freqüente. Porém compreender quais as razões que levaram Brandes a alegremente se oferecer como refeição do “Canibal Gay”, chegando até mesmo a saborear o próprio pênis na companhia de seu algoz, isso já bem mais complexo. A única explicação que me parece plausível para tal comportamento evidentemente suicida é a realização pessoal de forma psicótica de um evento simbolicamente correlato que vem sendo repetido infinitas vezes na sociedade globalizada atual: o canibalismo consentido. Explico: não é canibalismo o que as nações ditas desenvolvidas exercem sobre as ditas nações subdesenvolvidas, quando obrigam política e economicamente que as populações destas se mantenham envoltas em pobreza, doença e morte para sustentar os luxos supérfluos daquelas? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando uma mega–empresa multinacional simplesmente açambarca e devora empresas menores obrigadas por lobby e dumping a docilmente se entregarem a esta prática antropofágica? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando as classes dominates mantêm na ignorância e na pobreza as classes inferiores que nada mais fazem do que ingenuamente doarem sua força de trabalho e seu sangue num banquete vampírico? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Pois não é canibalismo quando um dependente de drogas psicotrópicas (e incluem–se aqui o cigarro e o álcool) alegremente entrega sua consciência, seu corpo e sua vida para alimentar a indústria do tráfico internacional? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido?
Ora: o mundo é um grande Cannibal Café! O erro de Brandes foi o de tomar como literal a metáfora canibal e se entregar alegremente àquele que o devoraria. Na verdade, as demais formas de canibalismo aqui descritas podem ser bastante mais sutis, porém, na prática, são igualmente literais. Seria muito bom pensar sobre isso e compreender mais profundamente o evento canibal que ocorreu na Alemanha.



Por Bernardo de Gregório
(Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiano)

02 agosto 2006


ASAS DA MENTE NARRA A HISTÓRIA
REAL DO DRAMA VIVIDO POR UMA
UMA PACIENTE DE ESQUIZOFRENIA



Baseado em fatos reais, o espetáculo ASAS DA MENTE estréia contando
a história da própria autora, que sofreu de esquizofrenia paranóide. Com o
objetivo de diminuir o preconceito das pessoas em relação à doença,
o diretor Bernardo de Gregorio recria as alucinações por
meio de dança, vídeo, música e poesia, colocando o espectador
no lugar da paciente. Para viver suas personagens de maneira
mais realista, os atores participaram de workshops para entender
a esquizofrenia e a mente de um esquizofrênico


A mente humana, capaz de viajar no mundo da fantasia e do inconsciente, provoca processos que podem levar um indivíduo à loucura. Com inspiração nesse tema e baseado em fatos reais, o espetáculo ASAS DA MENTE estréia dia 5 de agosto, sábado, às 21 horas, no Teatro do Centro da Terra. A montagem faz uso de recursos multimídia, como música eletrônica e vídeos (direção de Luaa Gabanini e Thomas Miguez), para contar todo o processo psicanalítico da cura da esquizofrenia paranóide, além de relatar alguns dos seus momentos de crise. O espetáculo também utiliza dança (coreografia de Leandro Feigenblatt e expressão corporal de Bernardo de Gregorio) e poesias da própria autora para ilustrar as “viagens” e alucinações da personagem central. O violoncelista Luiz Hernane Barros e Carvalho executa parte da trilha sonora ao vivo.

Adaptação de Marcello Blanko e do psiquiatra e psicoterapeuta junguiano Bernardo de Gregorio, que também assina a direção geral, a peça discorre sobre o processo psicanalítico de uma jovem mulher esquizofrênica que sofre com imagens e vozes vindas do inconsciente. O espectador assume o ponto de vista da protagonista e, aos poucos, vê e ouve suas alucinações e delírios, compartilhando sua angústia e seu processo de cura.

Vivenciando a história

No palco, estão os atores da companhia Asas da Mente – Chico Oliveira, Fernanda Padilha, Kadine Teixeira, Luana Tanaka, Mayra Cordeiro, Nilson Santos, Nilton Santos, Patrícia Rizzo, Priscila Braga e Wilson Roque Basso –, que participaram de workshops ministrados por Bernardo de Gregorio, com o objetivo de entender a doença e a mente de um paciente que sofre de esquizofrenia paranóide (doença que, segundo dados de um estudo da Escola Paulista de Medicina, atinge 0,5% da população brasileira a cada ano).

A autora do texto, acompanhou a montagem desde o início: “Antes, a idéia era montar um DVD baseado no livro, mas Bernardo sugeriu que adaptássemos o meu livro para o teatro. Nesse caminho, ele e Marcello Blanko resolveram incorporar ao texto algumas poesias escritas por mim, o que ficou bem bacana. Eu tenho acompanhado todos esses passos, inclusive os workshops feitos pelos atores. Em alguns, o próprio Bernardo achou melhor eu não participar, porque eles iriam reviver algumas partes dolorosas da minha vida. Mas eu bati o pé e achei que já que estava na chuva, tinha que me molhar. Isso acabou me ajudando a entender o que aconteceu comigo”, explica a autora.

Bernardo de Gregorio conta que, “além desses laboratórios ajudarem os atores a entender o funcionamento da alma, da psique do ser humano, eles também serviram como base para as coreografias que são apresentadas no espetáculo. Em alguns momentos, trabalhamos técnicas de teatro espontâneo e laboratórios de movimentos. Deixei que os atores se movimentassem livremente, criando coreografias que acabaram servindo de base para a construção de algumas personagens que representam seres do Inconsciente Coletivo”, explica.

Desmistificando a esquizofrenia

A idéia da peça partiu da necessidade da autora (como portadora de esquizofrenia paranóide, tendo surtado pela primeira vez aos 30 anos e tendo sido internada duas vezes) escrever um livro contando sua história de vida, os tratamentos que recebeu, a reação depois que se viu “doente” e o preconceito que sofreu desde então.

“A loucura, um delicado mundo intrapsíquico que aos poucos se revela, vai levando o público a conhecer mais de perto o sofrimento imposto pela psicose: não poder contar com uma base sólida, o medo do mundo exterior, a fragilidade frente aos acontecimentos, as dificuldades com os tratamentos, as dúvidas e angústias. Vista por esse ângulo, a doença mental deixa de ser algo distante e teórico para despir-se de todo rótulo e revelar-se em seu aspecto mais humano como fato vivido, afetivo e palpável, do qual ninguém está livre ou afastado”, comenta Bernardo, que completa dizendo que todos nós temos alguns traços de paranóia, assim como um pouco de qualquer doença mental. Porém, as pessoas usualmente conseguem lidar com isso de maneira natural, sem passar por uma psicose. Mas Bernardo afirma que qualquer um de nós enfrenta dificuldades ao embrenhar-se nos mistérios do inconsciente.

Consciente e Inconsciente

No livro, a autora descreve exatamente o que aconteceu, narrando de forma linear como eram suas alucinações e como foi todo o seu processo de recuperação. Ao realizarem a adaptação do texto, Marcello Blanko e Bernardo de Gregorio resolveram colocar uma pitada de fantasia no texto, dando vida às alucinações. Segundo Bernardo “as lembranças, a imaginação, os mitos arquetípicos, tudo isso foi transformado em personagens. Há até uma personagem batizada de A Poesia, que foi inspirada na mitologia grega: a musa da Poesia Lírica. Além disso, assim como nas alucinações, sua sogra, seu professor de faculdade e seu marido surgem de maneira caricata, com suas personalidades distorcidas pelos sentimentos da personagem. Os únicos momentos concretos da peça são as cenas entre a protagonista e seu psicanalista. O restante são suas alucinações e abstrações”.

Bernardo também usou alguns símbolos para compor o cenário que, segundo Carl Gustav Jung, representam o Inconsciente Coletivo. “Quando falamos no inconsciente, sempre temos a presença de um destes quatro símbolos: mar, deserto, espaço e floresta. Na peça, o cenário é uma floresta sombria, que, com o efeito de iluminação, se transforma em mar ou espaço em determinados momentos da história”, conta ele.

Vídeo e música

Os vídeos e a trilha sonora ajudam a compor o clima do espetáculo. Com direção de Luaa Gabanini e Thomas Miguez, são praticamente uma das personagens da peça: em algumas cenas, criam uma ambientação e, em outras, contracenam com os atores.

A trilha sonora alterna música eletrônica e música clássica ao vivo. O DJ Eugênio Lima criou especialmente para a peça temas eletrônicos sobre músicas orientais. Já o violoncelista Luiz Hernane Barros e Carvalho executa três músicas ao vivo. Entre os temas instrumentais, está uma das suítes para violoncelo de Johann Sebastian Bach.

Serviço:

ASAS DA MENTE – Estréia dia 5 de agosto, sábado, às 21 horas, no Teatro do Centro da Terra. Adaptação – Bernardo de Gregorio e Marcello Blanko. Direção Geral – Bernardo de Gregorio. Direção de vídeo - Luaa Gabanini e Thomas Miguez. Direção Musical: DJ Eugênio Lima. Elenco – Chico Oliveira, Fernanda Padilha, Kadine Teixeira, Luana Tanaka, Mayra Cordeiro, Nilson Santos, Nilton Santos, Patrícia Rizzo, Priscila Braga e Wilson Roque Basso. Cenário e Figurino – Marcello Blanko. Iluminação – Denilson Marques. Sábados, às 21 horas e domingos às 20 horas, com eventos culturais diferentes sempre uma hora antes do início do espetáculo. Ingressos – R$ 20,00. Meia entrada para estudantes. Duração – 90 minutos. Censura – 16 anos. Até 30 de outubro.

Teatro do Centro da Terra – rua Piracuama, 19, Sumaré - São Paulo. Informações: (11) 3675 1595. Vendas e Reservas: (11) 2163 2000 ou
www.ingressorapido.com.br. Capacidade – 100 lugares. Bilheteria - no Teatro Centro da Terra, 2 horas antes do espetáculo. Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física.