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21 julho 2008

O Daimon de Fausto







A palavra demônio vem do grego "daimon" e na mitologia era utilizada para denominar um poder sobrenatural. Homero usa daimon do mesmo modo como usa Theos (Deus), ambos para enfatizar a personalidade de Deus. Desde que daimon era usado para designar o autor de qualquer fenômeno não atribuído à divindade alguma em particular, acabou por se tornar o poder que determinava o destino do homem. Ou seja: cada ser humano tem o seu demônio particular. Segundo Hesíodo, os mortos da Idade do Ouro se transformavam em demônios. Posterior especulação filosófica dava os demônios como superiores aos mortais mas inferiores aos deuses. A partir daí não é difícil compreender porque os cristão antigos atribuíam as ações dos demônios aos anjos caídos que haviam se revoltado contra Deus.

Nos séculos XV e XVI vulgarizaram-se na Alemanha os Deutsche Volksbücher, livros de histórias e lendas mais ou menos fantásticas, sobre personagens reais ou míticas, como por exemplo Siegfried, Alberto Magno, Frederico Barba Roxa ou a Fada Melusina. Um dos mais famosos, cujo manuscrito surgiu por volta de 1580 e acabou por ser impresso em 1587, é uma biografia romanceada do Doutor Fausto e intitula-se Historia und Geschicht Doctor Johannis Faustj . Mais tarde, em 1620, o manuscrito foi adquirido pela importante biblioteca do Duque Augusto de Wolfenbüttel e passou a ser designado entre os eruditos como «manuscrito Wolfenbüttel». Desde muito cedo, porém, a edição impressa desse Volksbuch (conhecida como Das Faustbuch, 1587), teve uma divulgação meteórica e foi lida por toda a Europa, salientando-se uma tradução inglesa, da autoria de P. F. Gent (1592), com o título Faust Book: “Historia” & Tale Of Doctor Johannes Faustus (Jones 1994).

O Doutor Johann Faust, médico, filósofo, necromante e astrólogo alemão (?- ca. 1540) celebrizou-se pelo seu pacto com o Diabo, a quem vendeu a alma em troca do poder (potestas) e do conhecimento (scientia) — tal como, antes dele, o diácono Teófilo e Frei Gil de Santarém.

Uma outra característica de Fausto, em que tão-pouco é original, está na sua relação com um espírito demoníaco a quem chamava Schwager («amigo íntimo, velho camarada»), e com o qual entretinha uma ligação convivial tal como Sócrates com o seu daimon. São bem conhecidas as passagens nos diálogos de Platão em que Sócrates define os daimones e descreve o convívio com esses seres sobrenaturais, forças interiores entre os deuses e os humanos com algumas características irracionais mas domesticadas pela razão, e que acompanham a vida de cada pessoa, como guias e conselheiros pessoais, para ajudarem a pessoa a cumprir o seu destino — cf. Por exemplo: Apologia de Sócrates (27c-e), Crátilo (397e-398c), Banquete (202d-e), Fédon (107c-d, 108a-b), República (620d-8), etc.

O primeiro encontro entre Fausto e o tal demônio que se tornou seu companheiro ocorre logo no capítulo II do Faustbuch, quando Fausto se dirige a uma densa floresta chamada Spesser Wald, situada perto de Wittemberg, e, mediante fórmulas mágicas, figuras de feitiçaria e esconjuros realizados entre as nove e as dez horas da noite, numa encruzilhada da floresta, conseguiu que lhe aparecesse enfim, após vários prodígios alarmantes, um espírito diabólico sob a aparência de um frade franciscano. Nos capítulos seguintes sucedem-se vários encontros, os últimos já em casa de Fausto, e em dado passo o demónio confessa que não pode outorgar a Fausto todos os poderes que este desejaria porque tem de se submeter ao Senhor dos Infernos, Lúcifer, mas ao fim de várias negociações Fausto dá-se por satisfeito com as condições e as vantagens que finalmente obterá, e acede em assinar um pacto com o próprio sangue: abriu uma veia no pulso esquerdo, fez escorrer o sangue para um almofariz, meteu-lhe uns carvões em brasa e escreveu uma obligatio que o Faustbuch reproduz no seu capítulo VI. Com isto, assegurou-se dos serviços incondicionais do demônio, cujo nome veio a conhecer: Mefistófeles. Este nome deriva do grego Mephostophilis e significa aquele que odeia a luz.

Inúmeros místicos iluminados, como Samael Aun Weor, vêem na obra de Goethe a mão inconfundível de um Iniciado esclarecido, e percebem plenamente o grande significado cósmico nela contido. Devemos entender que a história de Fausto é um mito tão antigo quanto a humanidade. Goethe apresentou-a envolta numa verdadeira luz mística, iluminando um dos maiores problemas da Filosofia, o Mito do Salvatur Salvandus "travestido" como "O Tentador", "O Insuflador da Rebeldia Interior contra o Adormecimento e a Ingenuidade Irresponsável da Essência Humana". Esse Tentador é representado pelo Diabo, chamado nessa obra de Mefistófeles.

Na monumental e absolutamente prospectiva obra de Goethe, Mefistófeles diz a Fausto: "Com essa dose no corpo, logo vês Helena de Tróia em qualquer mulher". Fausto, I, 2603-4. Nesse momento, Fausto estava paralisado pela fascinação da imagem de Helena refletida em um espelho. Segundo a Psicologia Analítica, teoria de Carl Gustav Jung, este efeito "Helena" refere-se à Ânima arquitípica. Trata-se da personificação de uma produção espontânea do inconsciente. Como é inconsciente, esse arquétipo caracteriza-se pela sua autonomia em relação ao ego, produzindo fenômenos problemáticos, tanto no âmbito do relacionamento com o sexo oposto, quanto na intimidade do indivíduo. Nos sonhos de um homem, por exemplo, a anima pode surgir como uma mulher desconhecida. O mesmo dando-se com uma sonhadora com o seu Ânimus. A relação do sonhador com o arquétipo da alteridade indica como está o relacionamento do sonhador com o seu oposto complementar.

Ânimus: é a personificação do aspecto masculino na mulher. As ocasiões em que um Ânimus domina uma mulher, como em uma perturbação de humor, ele cria opiniões e convicções gerais, estereótipos, que a mulher dificilmente consegue distinguir de suas próprias formulações quando mais calma. O desenvolvimento da psique se dará com uma relativa diferenciação do ego em relação ao Ânimus. A mulher conseguirá perceber então a diferença de suas próprias opiniões para as convicções do Ânimus.

Ânima: é a personificação do aspecto feminino no homem. Quando "possui" um homem, a anima se expressa através de humores tipicamente femininos. O homem não conseguirá dominar-se, sendo presa de emoções indomáveis no momento, fazendo-o realizar coisas que normalmente não faria em sã consciência.

O tema da Ânima e do Ânimus nos leva à questão do Súcubus e do Íncubus. Súcubus é o nome que se dá ao ataque de um demônio masculino e Íncubus, seu complementar, é o nome do ataque de um demônio feminino. Este tema habita o imaginário da Humanidade há milênios e é constantemente relatado por “vítimas” deste mal, por escritores e por registros históricos.

Inicialmente é preciso ficar claro que Súcubus e Íncubus são diagnósticos médicos classificados pela Psiquiatria como um tipo especial de neurose histérica e a priori nada têm a ver com religião ou crença. Estes "ataques", normalmente de cunho sexual, ocorrem durante a noite, no meio do sono quando o indivíduo acorda sentindo-se paralisado, com sudorese intensa, taquicardia, sensação de opressão no peito e angústia, referindo uma sensação gélida na face. No caso de homens, é comum a ereção peniana e, por vezes, ejaculação (polução noturna). Esta situação é, digamos, "aparentada" ao terror noturno e acontece mais freqüentemente em homens entre 17 e 20 anos e em mulheres entre 35 e 45 anos. Existe a associação destes "ataques" a situações de repressão sexual ou a longos períodos de abstinência, mas estas associações não são obrigatórias. A maiopr incidência destes “ataques” nestas faixa etária é atribuída ao pico da sexualidade para cada sexo.

Na História encontram-se relatos de "ataques demoníacos" idênticos desde períodos remotos, como o da Antiga Suméria, passando pela Babilônia, Assíria, Egito, Israel, Grécia e Roma e tendo sido minuciosamente estudados durante a Idade Média e Renascimento por "peritos" da Igreja. É justamente destas descrições católicas que provém os nomes "Súcubus"e "Íncubus", inevitavelmente associados à bruxaria (Maleficium) e a pactos com o demônio. Muita gente terminou na fogueira por causa disto... Mesmo sociedades afastadas do Mediterrâneo, como culturas aborígines australianas, de Papua ou indígenas sul e norte americanos, descrevem com freqüência estes "ataques" demoníacos.

Estudando-se Mitologia e Demoniologia, sabe-se que Íncubus são mais freqüentemente atribuídos a Lilith. O modelo feminino permitido ao ser humano pelo padrão ético judaico-cristão baseia-se no de um fragmento do ‘primeiro ego’, que seria Adão. Vários textos históricos, no entanto, citam uma variante, a criação de Lilith, a primeira mulher, feita em igualdade de condições com o primeiro homem, e expulsa do Paraíso por tentar fazer valer essa igualdade. Não se sabe com certeza de que forma a lenda de Lilith, esta primeira companheira de Adão, foi banida da versão Bíblica da Igreja. Mas indo às Escrituras hebraicas poderemos encontrá-la como uma mulher feita de pó negro e excrementos, portanto, condenada a ser inferior ao homem. No fundo, Lilith já fora criada como um demônio, tendo gerado, juntamente com Adão, outros seres iguais a ela, que se vingam contra a humanidade . Essa natureza satânica é, por assim dizer, uma advertência do que a cultura rabínica e patriarcal nos faz com relação àquela que perturbou a noite toda o sono de Adão: Lilith, feita de sangue (menstruação) e saliva (desejo), é expressão de fatalidade. Neste ponto, Lilith é mais fiel ao protótipo da mulher do que a submissa Eva, embora ambas tenham sido veículo do pecado. Só que a recusa ao desejo, ao sonho erótico que subtraiu a porção divina de Adão chega, com Lilith, a extremos surpreendentes após a separação deste casal.

O alfabeto Bem Sirá (século VI ou VII) conta que Lilith, inconformada com a situação de desigualdade vivida com Adão, questiona: "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que ser dominada por você? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual." E Adão, ciente da supremacia do homem, nega-se a mudar a ordem. Lilith revolta-se, pronuncia o nome mágico de Deus, acusa Adão e vai embora. Voa para as margens do Mar Vermelho, onde passa a viver em promiscuidade com os diabos, gerando cem demônios por dia, os chamados Lillim. E lá ela se transforma e assume seu tenebroso destino, seduzindo homens em seu sonho, espalhando a morte, pois foi declarada guerra ao Pai.

Encarnando o feminino negativo, Lilith transfigura-se, posteriormente, em inúmeras deusas lunares (Ihstar, Astarte, Isis, Cibele, Hécate), arquétipos das forças incontroláveis do submundo – a Lua Negra. Até ser personificada pela bruxa, na Idade Média, contra a qual o homem moveu uma das mais sangrentas perseguições de toda a sua história. Mas existem muitas outras histórias sobre Lilith. Dizem que ela significa a outra ou o outro num triângulo amoroso. Para os assírios, era considerada um demônio. Alguns estudiosos dizem que ela era a mulher de Samuel, da qual surgiram as imagens de Adão e Eva. No Zohar também é assimilada como a rainha dos demônios que incitava os homens. Na Kabala, pode corresponder ao 10º sefiroh, Malkuth, que reina no submundo e na escuridão, incapaz de contatar com Deus, sempre sujeita a tentações e frustrações.

Já os Súcubus são atribuídos a demônios masculinos "menores" como Asmodeus, Baal e Belzebu. Asmodeus era o demônio hebreu da sensualidade e luxúria, originalmente "criatura do julgamento"; Baal, ou Baalberith, demônio canaanita da convenção e Belzebu, ou Beelzebuth, demônio hebraico das moscas, tomada do simbolismo do escaravelho. Parece ser mais raro que Súcubus sejam atribuídos a um demônio "maior", os famosos "três irmãos": Lúcifer, Satã e Ahriman. O chamado “irmão mais velho” é Satã, ou Samael, originalmente um Serafim, cujo amor a Deus era o maior do universo, passando a eternidade ao lado do Senhor. Tendo sido ordenado a todos os anjos que descessem à terra para cuidar da Humanidade, Satã recusa-se a obedecer, alegando que seu amor por Deus sobrepujava sua obediência. Como castigo, Satã foi condenado à queda e a passar o resto de sua existência afastado da presença de Deus. Como vingança, Satã, aquele que sofre, impinge dor e sofrimento aos humanos. Por essa razão, com certeza, o "ataque" mais agressivo e doloroso é o de Satã, que costuma usar de "técnicas" sadomaquistas em seus interlúdios noturnos. O contato com Lúcifer é, ao contrário dos demais "ataques", percebido pela "vítima" como um contato extremamente agradável e sensual, levando até mesmo a uma certa "dependência" transcendental. Isto acontece porque nos conta o mito hebraico que Lúcifer, o Portador da Luz, a Estrela da Manhã, era o mais belo dos anjos, na verdade um Arcanjo, e recusou-se a cuidar da Humanidade por se achar superior a esta tarefa. Como punição, Lúcifer é condenado a habitar as entranhas da Terra, onde criou para si um mundo de luz e calor, de onde arrebanha legiões de demônios que lutam a seu favor e alicia almas humanas propondo-lhes pactos e oferecendo-lhes prazer sensuais. Lúcifer luta pela liberdade e pleo prazer sem esforço e deseja, em sua revolução, que todos os espíritos se libertem da tirania de Deus e sua Hostes. Lúcifer, transformado em serpente, ainda foi o responsável pelo Pecado Original que levou à queda a humanidade. Já Ahriman parece ser o menos afeito de todos a “ataques” demoníacos. Sendo o Senhor das Trevas, originalmente um Querubim, Ahriman rege a matéria e a materialidade, impulsionando a Humanidade a esquecer de suas origens divinas, aprosionando-a a seu corpo e ao mundo físico. Desta forma, realmente não seria muito lógico que usasse de artimanhas psíquicas para exercer seus poderes sobre Humanos.

O Mal parece insistir em habitar a alma humana ao longo de tantos milênios de História e parece mesmo ter se tornado a marca registrada da Humanidade. O que é o mal? De onde provém? Como eliminá-lo de nossas vidas? A resposta a essas questões não é nem um pouco simples de ser encontrada e sua busca ronda a mente humana há tanto tempo quanto o próprio Mal e constitui uma matéria de interesse chamada Ética. Neste campo, Platão nos narra em seu texto “Apologia a Sócrates” que este afirmou que “ninguém faz o Mal deliberadamente, se o faz, é por ignorância”. Aquele que conhece a Ética, e ela só se deixa conhecer através da Razão, jamais teria o direito de praticar o Mal, ou até pior: não se consegue praticá-lo se se tiver plena consciência de sua existência.

Aristóteles define em seu livro “Ética a Nicômaco” que qualquer Ser Humano tem um grande e único objetivo em sua vida: ser feliz. O grande problema é que cada um de nós, erroneamente, elege um meio pelo qual pretende atingir no futuro esta felicidade. Uns imaginam que seria através de riquezas; outros, pelo poder; outros ainda pelo prazeres sensórios ou pelas paixões. Todos erram pelo simples fato de que a felicidade não repousa jamais num futuro que seria atingido através de um certo meio. A felicidade é dada e habita inequivocamente o momento presente, tenhamos nós riquezas ou não, poderes ou não, prazeres e paixões ou não; aliás, normalmente ela está afastada destes itens.

Na tradição judaico-cristã se tem o conceito de Sete Pecados Capitais. Aqueles que os cometerem estarão condenando suas almas ao inferno. Na verdade, esta é apenas uma maneira antiga de apontar os sete erros mais comuns que as pessoas cometem em sua busca pela felicidade. São eles: a ira, a inveja, a preguiça, a soberba, a gula, a avareza e a luxúria. Estas são as paixões que seduzem e põem a perder a felicidade humana. Não que nós não tenhamos todos e cada um deles bem lá dentro de nossas almas: isto é normal e saudável, mas o pecado capital é entregar sua vida ilimitadamente a uma destas paixões. Como podem estes pecados capitais serem saudáveis? Bem, os nomes adotados para definir estes pecados são em si superlativos, ou seja: se tivermos no lugar da ira, apenas raiva expressa de maneira canalizada e dirigida para nossa auto-proteção; em vez de inveja destrutiva tivermos o que eu chamo de “inveja positiva”, que na verdade é admiração; se em troca da preguiça adotarmos apenas o relaxamento e a despreocupação; se substituirmos a soberba por um orgulho de si, por um amor próprio; se houver nutrição e sabor no lugar da gula; ponderação no lugar da avareza e prazer no lugar da luxúria, nossas almas estarão salvas e saudáveis e estaremos mais perto da felicidade.

Estes “pecados”, estas paixões, na verdade existem em nós como resquícios de instintos animais muito claros. O problema é que nos animais estes instintos são regidos por forças naturais equilibradoras dadas pela restrição de oferta e pela lei da seleção natural. No Ser Humano, devido ao advento da consciência e dos meios de produção, estas forças naturais foram minimizadas ou de alguma forma contornadas. Eis o Pecado Original: o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Na nossa sociedade então, a anulação de tais forças naturais chegou a um nível jamais visto antes. Em decorrência, o extravio da felicidade também. Nossa sociedade não é mais má do que foram as sociedades anteriores, porém exerce sua maldade com maior eficiência. Igualmente nossa sociedade não é menos feliz do que foram as suas predecessoras, mas espera uma quota de felicidade muito maior e, geralmente, de alguma fonte que jamais poderá supri-la. Somos todos malvados e infelizes, tendo nas mãos, paradoxalmente, instrumentos que jamais a Humanidade teve para ser mais feliz do que nunca. Se pensarmos que atualmente um terço da Humanidade passa fome e vive abaixo da linha da pobreza e se somarmos a este fato a informação de que outro terço da mesma Humanidade sofre com doenças provocadas pela obesidade, teremos uma idéia do que eu estou dizendo.

Santo Agostinho não admitia a existência do Mal. Isto porque ao admiti-lo teria que forçosamente admitir que o Mal foi criado por Deus, uma vez que é o Criador absoluto do Universo. Sendo assim lançou mão de um conceito duvidoso: o chamado Privatio Boni, ou seja, a ausência do Bem. Deus é Bem supremo, mas permite a cada um a liberdade de aceitá-lo ou não. Aqueles que o rejeitam se condenam a uma situação de desgraça e vivem na “ausência do Bem”, o que é comumente chamado de “mal”. Muito tempo mais tarde, o Psiquiatra e Filósofo suíço Carl Gustav Jung rejeitou este pensamento, entendendo que o mal existe por si e com certeza faz parte da alma humana. Jung ironiza dizendo que quem preferir, pode chamar o mal de “ausência do Bem”, mas isto não altera sua essência. O Mal é tudo o que está guardado e reprimido em nós, o Mal são as paixões, o Mal é não perceber o Outro, o Mal é o nosso medo do futuro, o Mal são os monstros de nossos pesadelos, o Mal são as catástrofes naturais. Ao conjunto de tudo o que é mau e habita nosso Inconsciente, Jung deu o nome de “Sombra”. Sobre este tema, sua discípula e amiga, a psiquiatra Marie-Louise von Franz escreveu o livro “A Sombra e o Mal nos Contos de Fada”, onde demonstra, através de estórias e mitos milenares, a existência do Arquétipo do Mal. Porém, neste livro compreendemos que o mal não é vão, o Mal existe para mostrar-nos, por contraste, a existência do Bem. O que seria de uma estória que falasse de uma bela princesa num reino distante que encontrou seu príncipe encantado e apenas viveu com ele feliz por muitos anos? É necessária a existência de uma bruxa, de um dragão, de um gigante ou de um ogro ao menos! Porém a própria vida sempre se incumbe de fazer cruzar nossos caminhos com o de algum destes monstros arquetípicos e não me parece nem um pouco necessário que nós aumentemos tanto assim a população desses “bichos papões”.

Ainda hoje me perguntaram o que eu considero “perversão”. Minha resposta foi que perversão é torturar gente nas prisões, é lançar aviões repletos de passageiros contra prédios altos cheios de gente trabalhando, é jogar bombas atômicas sobre cidades inteiras, é concentrar a renda mundial para que uma meia dúzia possa andar de iate enquanto milhões morrem à mingua, é inventar e vender drogas psicotrópicas cada vez mais potentes para uma juventude alienada, é ficar contente com uma população imbecilizada porque ela é mais fácil de ser manobrada, é convencer um monte de gente infeliz que ao injetarem substâncias tóxicas e cancerígenas em seus corpos elas serão mais amadas por suas formas pseudo-robustas, é entupir a população com gorduras em excesso e depois torturá-la com cirurgias desnecessárias, é vender sexo no lugar de amor, é destruir um país para surrupiar suas riquezas naturais. Eis os Sete (ou mais) Pecados Capitais em sua roupagem de Século XXI.

O pensamento típico do Mal sempre é “não é comigo, é com ele”, “eu vou me dar bem e ele que se dane”, “eu quero mais é que ele se ferre”, “eu sou superior e tenho direito a usar os que são tolos e se deixam enganar”. A única maneira de se resolver tudo isso é mostrar de uma vez por todas a esta espécie degenerada chamada de Ser Humano, que a felicidade já lhe foi dada e está na aceitação de si mesmo, na compreensão de que o Outro tem direito a ela tanto quanto ele, na aceitação das condições da vida, na contemplação da beleza do momento presente e da alegria de viver, no respeito à Criação, na liberdade de expressão, na criatividade e no contato inter-humano. Quando vamos entender que a Humanidade é una e que cada qual é interdependente e o egoísmo obstinado não nos levará se não à auto-destruição? Quando vamos perceber que cada um de nós só é capaz de fazer tanto o Bem quanto o Mal a uma única pessoa na face da Terra: a si próprio! Poderíamos resumir tudo isto em uma única frase: “amai-vos uns aos outros” ou ainda “ama teu próximo como a ti mesmo”.

09 dezembro 2007



Imagem "Hanukah" por Bernardo de Gregorio
Texto "Época de LUZ" por Bernardo de Gregorio




No Solstício de Inverno (tendo como base o Hemisfério Norte) comemora-se o nascimento da Esperança. Esperança do renascimento da Natureza no Equinócio de Primavera, quando a Deusa nos abençoará com campos verdejantes a partir das sementes plantadas, reconhecendo nosso sacrifício anual. Nesta imagem, podem-se ver os Chifres da Vaca Sagrada, símbolo de Ísis, que une a Lua e o Sol sobre a figura feminina da Deusa.

A Esperança é representada pela Estrela. O Arcano 17 do Tarot é a Estrela. Uma mulher está graciosamente posta, não usa roupas e tem no rosto uma expressão tranqüila, seu nome é Esperança. Derrama sobre a Terra suas bênçãos: a prata (Lua) é derramada nas águas do mundo e o ouro (Sol) é derramado sobre as terras do mundo, para que delas brote a vida; significando também que uma nova vida começa quando conseguimos realizar nossos ideais.
A Esperança é uma alegoria do surgimento de novas idéias e da formulação de novos métodos de ação. Dominando todo o céu, aparece uma constelação de pequenas estrelas que circundam uma maior, em todas as culturas as estrelas são consideradas guias, sinais divinos que brilham no firmamento para orientar a humanidade no sentido de poder de concretização de algo que se deseja muito. Trata-se de uma refência a Alcíone das Plêiades que ilumina o mundo com seu Cinturão de Fótons.

À frente estão 9 velas acesas que representam as Luzes do Hanukah. Ao cair da noite de 4 de Dezembro de 2007 iniciou-se a celebração da festa judaica chamada de "Festival das Luzes", que irá prolongar-se por oito dias até que se acenda a última vela ao cair da noite de 11 de Dezembro de 2007. Os sábios do Talmude realçam que esta é uma celebração de alegria, e durante os oito dias os judeus não podem jejuar ou usar sinais de luto.

Também representa Yemanjah, segunda mulher de Oxalá, mãe da maioria dos orixás cultuados no Brasil. É a rainha do mar, bondosa, caridosa e acima de tudo uma mãe muito especial. A imagem sincrética de Yemajah é Maria (Míriam, em Hebraico) que se ergue das águas e da espuma do mar com uma estrela na testa e derrama bênçãos sobre a Humanidade. Imagem análoga à de Aphrodite que ascende aos céus como Urânia e transforma-se em Sophia, a Sabedoria do Universo.

As cores da imagem equilibram o azul escuro e o amarelo alanjado, representando a harmonia das forças Yin e Yang no movimento perpétuo do Tao. Desta forma, Matéria se equilibra ao Espírito, as Trevas se harmonizam com a Luz e o Feminino se une no Casamento Sagrado com o Masculino. Representando esta harmonia plena das forças cósmicas, as mãos da mulher se põem sobre o Chakra Cardíaco, o Sistema Ritmico, formando um Mudra de Shiva, deus do fogo eterno da transformação perpétua do Cosmo.

Na Cabalah estas idéias são representadas pela Sefirah "PHE": símbolo do mistério da respiração cósmica em Esperança. Significa prever todos os acontecimentos futuros que não dependam de um livre arbítrio superior ou de uma causa incompreensível. "Alguns pedem sinais para crer, outros sabedoria para trabalhar, mas o coração esperançado tem tudo em sua esperança..."
O Natal simboliza o nascimento desta Esperança nos corações humanos. Cristo, o Salvador, é a Luz do mundo e Nele os mortos renascerão, como as sementes sacrificadas (Kyrioteteis). Cristo, a Luz, é o Coração do mundo que pulsa em harmonia com os Ciclos do Universo (Dinameis). Cristo, o Coração, é o caminho para o despertar da Humanidade em uma Nova Era de Amor Incondicional e plenitude (Exousiai).








"O Ser Humano é uma ponte
Entre o passado
E o Ser do Futuro;
O presente é um piscar de olhos,
Como uma ponte.
A alma é o Espírito transmutado
Em seu cerne interior:
Eis o passado.
O Espírito é a alma em transformação
Em seu germe ressonante:
Eis o futuro.
Enreda o futuro
Através do passado.
Espera o porvir
A partir do que se foi.
Assim atinge o Ser
Em tua Essência;
Assim alcança o que se foi
Em teu âmago".


Rudolf Steiner

24 novembro 2007

É Natal ???


Por Bernardo de Gregorio



Mais uma vez se aproxima aquela época estranha em que neva no nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas que beleza! Já desde o início de Novembro vemos todos aqueles milhões de luzinhas piscando, as renas, os anõezinhos, a neve, os trenós... Mas esperem um pouco: parece haver alguma coisa de errado nisso ou é apenas comigo? Desde quando isto tem a ver com o tal do Natal? Quem de nós já viu de um trenó ou uma rena? Eu confesso que nunca vi uma rena, nem mesmo num jardim zoológico. Quem é esse velhinho vestido de vermelho que se auto-intitula “Noel”?

Antigamente a definição de Natal costumava ser aquela comemoração cristã que ocorria invariavelmente no dia 25 de Dezembro, celebrando o nascimento de uma certa pessoa que se chamava Jesus de Nazaré (apesar de ter nascido em Belém, na Palestina) e que veio a se tornar (para os que acreditam) “o Salvador”, também conhecido como “o Cristo”. A palavra “christos” em Grego significa “ungido” e é a tradução da palavra hebraica “meshiach” (messias). Por que ungido? Diz a tradição hebraica que os antigos reis de Israel recebiam em sua coroação os chamados óleos sagrados, sendo portanto ungidos para se tornarem reis. Jesus teria vindo então como o novo rei de Israel para libertar o povo judeu do jugo romano, refundando o reino de Israel. Mas, isto, certamente ele não fez. Exatamente por não ter feito é que não pôde ser aceito pelos judeus como “meshiach”, é claro.

Diz o Novo Testamento que Jesus em suas falas sempre se referiu a si mesmo como “o Filho do Homem” (e não como “filho e Deus”, uma vez que filhos de Deus somos todos nós). Nos escritos bíblicos muitas vezes há referências a Jesus como “o Cordeiro”; o “Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, aquele que, como o cordeiro que é morto em sacrifício na Páscoa (“Pessach”, em Hebraico, que quer dizer “Passagem”) para proporcionar a ceia (“Seder”, em Hebraico), também foi sacrificado para poder mostrar ao mundo o verdadeiro caminho espiritual. Por esta razão, Jesus é também conhecido como o Salvador (“Sóter”, em Grego).

E cadê o título de Cristo? Bem, Jesus sempre disse que o Pai (maneira íntima e carinhosa como ele se referia a Deus, “Abbah” em Aramaico) o teria enviado para mostrar aos homens que o verdadeiro Reino estava nos céus, na Vida Eterna após a morte (por isso ele não é simplesmente o “Filho de Deus”, mas é mais que isso: é o “Filho do Homem”). Jesus pediu a seus apóstolos que divulgassem as boas novas sobre a vinda do Reino (este abstrato e espiritual) a todos os povos da Terra. Como “boa nova” em Grego se diz “evangélios”, os escritos que nos falam deste Reino se chamam Evangelhos. Neste Reino de Deus, ele, que na prática era pobre, o filho de um simples carpinteiro, seria o Rei dos reis (portanto, Cristo).

Evidentemente ninguém sabe ao certo em que dia este Jesus Nazareno teria nascido, mas convencionou-se celebrar seu “aniversário” no dia 25 de Dezembro, trazendo a tradição dos festejos pagãos do Solstício de Inverno (noite mais longa do ano) para o calendário cristão. No Solstício de Inverno (tomando-se como base o Hemisfério Norte, é claro) comemora-se, desde a pré-História, a esperança. Esperança, depositada nas sementes que foram plantadas no final do Outono, de que na Primavera haja o renascimento dos campos e de que no próximo Outono se tenha uma boa colheita. Bom, isto deve explicar a neve, as velas (hoje substituídas por luzinhas) - afinal era uma noite bem longa e escura - e a idéia de esperança num “próspero Ano Novo”.

Toda esta história é bem confusa e complicada, mas nem de longe nos dá nenhuma pista sobre o tal velhinho vestido de vermelho. O tal Noel (que em Francês quer dizer “Natal”, “nascimento”) tem outra origem diversa. A lenda do bom velhinho teria sido inspirada em um pessoa verdadeira: São Nicolau, que viveu há muitos séculos. Ele viveu em Lycia, uma província da planície de Anatólia no sudoeste da costa da Ásia Menor onde hoje existe a Turquia. A História diz que ele nasceu no ano de 350 e viajou para o Egito e Palestina ainda jovem, onde tornou-se bispo (daí a roupa vermelha! As coisas estão começando a fazer sentido). Durante o período da perseguição aos Cristãos pelo Imperador Dioclécio, ele foi aprisionado e solto posteriormente pelo sucessor cristão: Constantino, o Grande.

Em meados do Século VI, o santuário onde foi sepultado, transformou-se em uma nascente de água. Em 1087 seus restos mortais foram transportados para a Cidade de Bari na Itália que tornou-se um centro de peregrinação em sua homenagem. Milhares de igrejas na Europa receberam o seu nome e a ele foram creditados vários milagres. Uma das lendas conta que ele salvou três oficiais da morte aparecendo para eles em sonhos.

Sua reputação de generosidade e compaixão é melhor exemplificada na lenda que relata como São Nicolau salvou da vida de prostituição três filhas de um homem pobre. Em três ocasiões diferentes o bispo arremessou uma bolsa contendo ouro pela janela da casa da família abastecendo, desta forma, cada filha com um respeitável dote para que pudessem conseguir um bom casamento. São Nicolau foi escolhido como o santo patrono da Rússia e da Grécia. É também o patrono das crianças e dos marinheiros.

A transformação de São Nicolau em Papai Noel começou na Alemanha entre as igrejas protestantes (que não aceitam a reverência a santos) e sua imagem passou definitivamente a ser associada com as festividades do Natal e as costumeiras trocas de presentes no dia 6 de Dezembro (dia de São Nicolau). Como o Natal transformou-se na mais famosa e popular das festas, a lenda cresceu. Em 1822, Clement C. Moore escreveu o poema "A Visit from St. Nicholas" ou "T’was the Night Before Christmas" (em português, “A Visita de São Nicolau” ou "Era a Noite antes do Natal"), retratando Papai Noel passeando em um trenó puxado por oito pequenas renas, o mesmo modo de transporte utilizado pela tradicional figura da Escandinávia ligada ao Inverno, chamada de “a Rainha da Neve”.

Papai Noel foi então descrito como um velhinho de barbas brancas e bochechas rosadas. O nome das renas do Papai Noel, em inglês, são: Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen e foram inspiradas no mito grego das Corças Cerínias: renas que puxavam o carro da Lua, dirigido pela deusa Ártemis (Diana, para os latinos). Notaram? O tal Rudolf, a nona rena de nariz vermelho, apareceu bem depois! O primeiro desenho retratando a figura de Papai Noel como conhecemos nos dias atuais foi feito por Thomas Nast e foi publicado no semanário "Harper's Weekly" no ano de 1866.

Em Portugal, Papai Noel é chamado de “Pai Natal”; na Alemanha, é denominado “Kriss Kringle” (nome que teria vindo da corrupção do termo “Criança do Cristo”); “Père Noël” na França; “Papa Noel” em muitos países de língua espanhola; “Santa Claus” (que seria outra pronúncia de “São Nicolau”) nos Estados Unidos e Canadá. A figura italiana “Befana” é similar à figura do Papai Noel, também chamado de “Babbo Natal”. Na Inglaterra, é chamado “Father Christmas”, tendo ainda o casaco e barba mais longos. Na Costa Rica, Colômbia e partes do México é chamado “El Niño Jesus”. Em Porto Rico, as crianças recebem presentes no dia 6 de Janeiro, dos Três Reis Magos (Melchor, Gaspar e Baltazar). Na Suécia é “Jultomten”; na Holanda, é chamado “Kerstman”; na Finlândia, “Joulupukki”; na Rússia, é chamado de “Diedoushka Maroz” (vovozinho da neve); no Japão, é conhecido como Jizo e na Dinamarca, Juliman.

Mas o que realmente ficou de toda esta complicação que explica o fenômeno sem nexo da neve e das renas que observamos pelas ruas da cidade na época do final do ano, em plena claridade do sol com 40 graus à sombra? Bem pouco... Ninguém sabe de nada disto e bem pouca gente se lembra do tal Jesus de Nazaré que nasceu em Belém. Atualmente, ao que tenho notado, o Natal começa no dia 13 de Outubro (não por acaso, logo no dia seguinte ao Dia das Crianças) e tornou-se um grande motor das vendas e do consumismo desenfreado, fomentado pelo Marketing. O tal “Natal” só acaba quando a “Mulata Globeleza” aparece em nossas “telinhas” sambando pelada, banhada em purpurina (ou seja: no dia 26 de Dezembro!).

Esta época de “festas” hoje em dia é sinônimo de um alvoroço sem igual, onde todo mundo compra presentes indiscriminadamente para um monte de gente que nem sempre é amada e que nem sempre gosta dos presentes que recebe. As coitadas das crianças, que antes recebiam doces (para o ódio dos dentistas), agora recebem video games caríssimos, que as deixam hipnotizadas e viciadas durante todo ano e deixam seus pobres pais endividados pelo mesmo período. E ai daquele que ouse presentear uma criança de classe média alta com alguma coisa mais coerente e educativa! Já as crianças das classes mais baixas ficam a ver navios olhando para esta orgia natalícia com cara de cachorro vendo frango assado na padaria. Isto é Natal??? Digam-me: há algo de grave realmente acontecendo ou sou eu que ando delirando?

11 outubro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: os Celtas

Os Caminhos da Grande Mãe

(Segunda Parte: Os Celtas)
Por Bernardo de Gregório


“Terra...
Terra...
Por mais distante
O errante navegante,
Quem jamais te esqueceria...”


Caetano Veloso
“Terra”




Continuando em busca dos tortuosos caminhos da Grande Mãe, perceberemos que a instituição do Patriarcado não foi, na verdade, um golpe definitivo sobre o Matriarcado. Como poderia? A Mãe tem característica fundamental a paciência: o tempo está a seu favor. Da Terra todos nós viemos e à Terra haveremos de retornar, mais cedo ou mais tarde. A morte sempre foi e sempre continuará a ser o maior medo do Patriarca, pois dela, desta derradeira mãe, nem mesmo ele pode se ocultar. Foi exatamente por esta insegurança e pelo medo da morte, que todas as religiões matriarcais sempre foram associadas a cultos demoníacos e consideradas como a prática do Mal em si. Por detrás deste preconceito, como ocorre com todos os preconceitos, existe um grande medo personificado na imagem da “bruxa”. Mas quem são estas “bruxas”? Qual a origem destas religiões naturais? Qual a expressão delas nos dias de hoje? Estas questões nos remetem obrigatoriamente aos Celtas.

Sendo assim, em algum lugar esquecido, longe do Patriarcado, uma belíssima civilização floresceu por mais de 3 milênios. Uma civilização matriarcal: os Celtas. Lamentavelmente sabemos muito pouco sobre eles. Apesar de serem possuidores de uma cultura avançada, eles jamais desenvolveram uma escrita organizada, pois sempre acreditaram que as palavras mais importantes devem ser transmitidas de pessoa a pessoa, envoltas em magia e calor humano. A palavra escrita deturpa os sentimentos e distorce os pensamentos. A palavra escrita cristaliza os seres e as suas vontades, gerando paradigmas fixos, imutáveis. Como a maior característica da Mãe é a mutação, o Ciclo da Natureza, a palavra escrita é fruto de um Ser Humano degradado e corrompido. O som das palavras era sagrado, a escrita era maligna e profana, como era vista toda e qualquer artificialidade. Da mesma forma, os Celtas evitavam ao máximo a construção de prédios imponentes e monumentos, pois o que o Ser Humano poderia construir que se igualasse à beleza da Natureza? Todos os rituais, reuniões e cultos religiosos eram feitos sempre no seio da Natureza: numa suave floresta, num rio, ao redor de um lago de águas clamas, no cume de uma montanha. A idéia de um templo era para os Celtas considerada depravada.


Sobre os Celtas, Colin Spancer escreve: “Esses povos fascinantes têm sido injustamente empurrados para as margens da História, por acadêmicos obcecados pelo mundo clássico (entenda-se: patriarcais), mas merecem nossa atenção. Eles eram agricultores de grande habilidade e conhecimento, exportadores de cereais e alimentos em geral para o sul do mediterrêneo, produziam artesanato em metal, jóias de grande qualidade e eram técnicos brilhantes na fabricação de carruagens e armaduras”. As origens dos povos celtas são muito nebulosas. Imagina-se que eles, de uma forma ou de outra, sempre estiveram presentes na região centro-ocidental da Europa. Provavelmente seus mais remotos ancestrais provém das desconhecidíssimas civilizações megalíticas pré-históricas, que construíram enigmáticos monumentos de pedra bruta em várias localidades na Bretanha, como o famoso círculo de pedra conhecido como “stonehenge”. Os mitos celtas referem-se constantemente às origens deste povo como estando em terras muito distantes do continente europeu. Terras mágicas e paradisíacas que foram por seus ancestrais há muito abandonadas. Terras que ficariam do outro lado do grande oceano e que eram miticamente conhecidas como Hys-Brasil. A relação destes mitos celtas com os mitos de Atlântida é direta e fácil de ser reconhecida. A relação deste nome antigo com o nome de nosso país, também o é. Teriam sido os construtores dos círculos de pedra antepassados atlantes? Esta pergunta é impossível de ser respondida. Destas épocas nos chegam hoje mitos sobre heróis celtas, como os de Conan, o Bárbaro, que acabou ficando muito conhecido do público através de quadrinhos e filmes.

Destas épocas remotas o que ficou conhecido como o Império Celta se ergueu e chegou a se estender desde a península Ibérica até a Turquia, concentrando-se principalmente em regiões que hoje são a Grã Bretanha (Inglaterra, Gales e Escócia), a Pequena Bretanha (Irlanda do Norte e Eire), França e nordeste da Espanha. Grandes influências celtas também podem ser vistas no norte da Itália e na região da Suíça. A principal cidade fundada pelos Celtas que ainda existe em nosso dias é Paris. Na “Île de la Cite”, é possível que se vejam as ruínas desta Paris celta, soterrada e esquecida por milênios nos subterrâneos da Catedral de Notre Dame de Paris e reencontrada há algumas décadas. Com o avanço do Império Romano (e de seu Patriarcado), os Celtas viram-se obrigados a recuar, porém sem antes enfrentarem bravamente os exércitos inimigos, criando para os Romanos grandes dificuldades para seus sonhos expansionistas. Destas épocas nos vêm os famosos mitos e lendas sobre o herói celta chamado Asterix, que, muito mais tarde, seria amplamente retratado (e banalizado até) em histórias em quadrinhos, desenhos animados e até mesmo filmes
. Lendas à parte, a máquina de guerra romana acabou por derrotar os Celtas. Uma derrota apenas aprente, é certo, pois, seguindo os ensinamentos da Natureza, os celtas se ocultaram e passaram a viver sua religião e costumes de forma secreta.
 
Mil anos se passaram sob o domínio romano e, como sempre nos ensina a Grande Mãe, os tempos de declínio também chegariam para os Romanos. Com as crises econômicas e políticas do Império Romano e sua progressiva retração, os Celtas renasceram como as árvores renascem na primavera. O reaparecimento do mundo Celta é um dos fenômenos mais intrigantes da História, no sentido de demonstrar claramente que a aparente derrota do Matriarcado e seu eclipsamento por mil anos, estava longe de representar seu fim. No entanto, este reflorescimento da cultura celta, não iria durar muito tempo. Ao longe, densas nuvens negras se formavam no horizonte, com a expansão do Cristianismo e o aumento do poder da Igreja e nova era de escuridão estaria por vir. Sobre isso Colin Spencer escreve: “os Celtas ocupavam aquelas terras em que a nova religião cristã se expandiria, à medida que o Império Romano encolhia e concentrava seu poder em Bizâncio. As crenças celtas, sua estrutura social e costumes sexuais seriam aparentemente deixados de lado no primeiro milênio depois de Cristo, mas em realidade foram apenas sepultados pelo Cristianismo”. Este confronto entre a Religião Antiga (como é chamado o Druidismo, a religião celta) e o Novo Deus (como era conhecido o Deus cristão), é maravilhosamente recriado por Marion Zimmer-Bradley em seu romance “As Brumas de Avalon”, agora também adaptado para o cinema, onde todo o arcabouço cultural da época é relatado com incrível precisão histórica e o mito do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda é revisto sob um prisma matriarcal. Figuras magnânimas de sacerdotisas nos são pela autora trazida com uma realidade vibrante e delicada: Viviane (A Senhora do Lago), Morgana, Morgause e Niniane. Este confronto tomou lugar por toda a baixa Idade Média e, aos poucos, o que um dia fora uma realidade, passava lentamente para o mundo dos sonhos. Avalon passou a ser uma ilha mítica, As sacerdotisas passaram a ser fadas e os druidas, magos fantásticos. A magia deixou de ser a ritualização dos Ciclos da Mãe, para ser vista como quimera, fantasia.

Relata Colin Spencer: “Muito do que sabemos sobre os Celtas veio do período de transição entre o paganismo e o cristianismo, senso assim muito confuso”. É comum que se diga sobre os Celtas, continua Colin Spencer, que “era uma sociedade dominada pelos homens: a mulher era submetida ao pai antes do casamento e ao marido, depois de casada; e aos filhos, ou a seu pai, ou a seus sobrinhos, quando o casamento terminava (...). O casamento era arranjado entre as famílias, constituindo uma aliança entre elas, como uma maneira de controlar a propriedade. A virgindade era considerada essencial para uma mulher que fosse casar e esperava-se que ela fosse fiel”. Comparando-se estas informações claramente patriarcais (os 3 tabus originais da Pátria estão presentes
) com a mitologia celta, a religião druída e a História dos povos celtas, uma grande incoerência se faz gritante. Como é possível que esta sociedade tipicamente patriarcal tenha se transformado radicalmente de uma hora para outra? A resposta está na influência romana e cristã sobre os Celtas. Eles estavam cada vez mais afastados de seus costumes tradicionais e do Matriarcado que lhes serviu de base por dois milênios. A cultura celta ruía desde seu interior. Novamente, este conflito está personalizado nas figuras de Morgana da Cornualha e do Rei Arthur, muitíssimo bem exploradas por Marion Zimmer-Bradley.

No final da Idade Média e início do Renascimento, em uma cartada final contra a religião matriarcal celta, a Igreja instituiu o Santo Ofício, a Inquisição. Além da perseguição aos judeus e a tdos os hereges, todas as pessoas, homens e mulheres, que ainda cultuavam a Grande Mãe foram também perseguidas, torturadas e mortas pela Igreja, como bem sabemos. A “bruxa” nada mais foi do que a sacerdotisa druida. A sexualidade feminina, bem como a homossexualidade foram consideradas pecados mortais e crimes passíveis de punição pela morte no fogo. Ao menor indício de “bruxaria”, uma pessoa poderia ser sumariamente presa e processada pelo Santo Ofício. Se o Cristianismo representava o Bem (beneficium), a “bruxaria”, a Antiga Religião, representaria necessariamente o Mal (maleficium). Todos os conceitos de “maleficium” podem ser amplamente ilustrados (sob um prisma patriarcal evidentemente) pela leitura da “bíblia” dos inquisidores, o “Malleus Maleficarum”
. Apesar das atrocidades mostradas por este livro, muito se pode reconhecer da religião celta e da figura da sacerdotisa.

Por mais mil anos a Grande mãe dormiria. O Patriarcado imperaria no mundo, passando das mãos romanas às da Igreja e destas às do cientificismo cético. No entanto, vivemos hoje mais uma primavera do Matriarcado. Longe das amarras repressoras do patriarca, já debilitado e ridicularizado em sua postura ultramachista, as religiões naturais encontram espaço para florescerem novamente: Druidismo tradicional e Wicca (Magia Moderna) estão sendo amplamente divulgadas em todo o mundo. E mais uma vez, as datas sagradas da mãe são reverenciadas nas florestas e lagos e nos eternos círculos de pedra.
Desde a Pré-Históra até os dias de hoje, portanto, os druídas mantiveram-se dentro de uma visão matriarcal estrita e enfrentaram épocas de declínio e perseguição com a sabedoria a eles ensinada pela Grande Mãe: a paciência, a perseverança e a manutenção das tradições.

Colin Spencer escreve: “Acredita-se que os deuses do panteão celta eram inicialmente espíritos associados às florestas, rios e lagos e não possuíam forma antropomórfica visível”. Isto que dizer que os seres conhecidos como “devas” ou “elementais” estão na origem da religião druida: fadas, gnomos, elfos, salamandras, sílfides, ondinas e sereias. Para quem quiser uma ilustração mais atual sobre estes seres, aconselho o primoroso livro (ou o filme) de J. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis”.
Centralizando todos estes seres, como Senhora absoluta do Universo, a própria Grande Mãe: a Natureza. Conhecida entre os Celtas como Ceridwen, a Grande Mãe se fazia ver, como não poderia ser de outro modo, nos ciclos das estações do ano, nas fases da Lua, na magia natural e no ciclo menstrual. A imagem de Ceridwen era a de uma grande porca que amamentava seus leitõezinhos em suas in’;umeras tetas, tal qual a Natureza supre seus filhos de tudo o que necessitam. Ceridwen era a Deusa-Porca, a Deusa-Mãe, a Deusa da natureza, a Deusa de quatro faces. Ceridwen tomava forma encarnada na figura da sacerdotisa. Ceridwen possuía sempre a seu lado seu consorte: o chamado Deus Chifrudo, ou o Cornípherus, seu filho e seu amante, essência masculina dedicada à Mãe. Representando fisicamente o Deus Chifrudo, havia os magos e suas irmandades masculinas de menstréia e harpistas, sob as ordens de seu representante máximo, o Merlin. O equilíbrio da Natureza se fazia entender pelo equilíbrio entre o predador e a presa, entre a loba e a rena, entre Ceridwen e o Cornípherus, entre o masculino e o feminino. Todo o mundo druida estava baseado numa visão feminina, voltada para o Inconsciente: a magia.

Magia é um procedimento natural humano, ancestral e divino, baseado na anulação do ego e na exaltação das forças do Inconsciente Coletivo. Intuição, presságios, sonhos, visões e rituais simples são suas marcas. Todo e qualquer procedimento mágico exige por parte do mago um longo treino para acessar essas forças dormentes no fundo da psique humana. Um profundo mergulho dentro deste mundo fantástico é sempre necessário. Deixar de lado conhecimentos racionais (a Ciência e a Filosofia), imprescindível. A Mãe nos envia todas as informações necessárias a seu tempo e faz com que todos os caminhos se abram ou se fechem quando o momento é chegado. A Mãe é feita de Ciclos, que devem ser respeitados e usados a favor do mago. A Mãe é composta por quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) que devem ser harmonizados no interior da alma do mago, para que ele se torne o quinto elemento deste conjunto, donde a estrela de cinco pontas (o pentagrama) como símbolo da magia. O respeito à Natureza e a todos seres que delas fazem parte é uma marca do verdadeiro mago. A abnegação e a devoção à Grande Mãe, sua vida. Evidentemente as maiores datas a serem comemoradas continuam sendo as mesmas há centenas de milênios: o equinócio de primavera, o solstício de verão, o equinócio de outono, o solstício de inverno e, acima de todas, a Noite Sagrada (Hollow Eve) do sacrifício do grão à Mãe
.

Numa visão assim, a sexualidade é vista como expressão direta da Natureza em nós, sem nenhum tipo de freio ou moralismo. A sexualidade aparece como a Grande Mãe faz com que ela venha para cada um de nós: a seu tempo e de formas infinitamente variáveis. A magia máxima é a geração de uma nova vida, mas a sexualidade jamais se prenderia a isso. Muitos rituais sexuais são comuns no Druidismo, como símbolo da fecundação, como símbolo de submissão à Deusa e como harmonização das forças naturais. A supremacia feminina, como símbolo da Mãe, é totalmente aceita e profundamente cultuada. O masculino, livre da ditadura do Patriarca e de suas inseguranças, entrega-se docemente ao serviço da Deusa e entende a relação entre dois homens como profunda confirmação da amizade natural entre os guerreiros.
Evidentemente estes costumes sexuais libertários muito chocaram tanto os romanos, quanto os cristãos, que passaram a repudiar a Antiga Religião como paganismo e culto a Satã. Diodoro Sículo (escritor romano) nos deu um quadro mais amplo: “os homens (celtas) são muito atraídos por seu próprio sexo; eles se deitam sobre peles de animais e se divertem com um amante de cada lado. O incrível é que não têm o menor cuidado por sua dignidade pessoal ou auto-respeito: oferecem-se aos outros homens sem nenhuma cerimônia. Além do mais, isso não é considerado desprezível ou uma inferioridade; ao contrário, se um deles é rejeitado por outro a quem se ofereceu, fica ofendido”. Outro ponto que muito desgostava romanos e eclesiásticos sempre foi a nudez. A nudez, do ponto de vista celta, é a forma mais natural possível de alguém se apresentar e, portanto, era vista como uma forma nobre de cultuar a Deusa. A grande maioria dos rituais exigia a nudez de seus participantes e até mesmo na guerra, os guerreiros se apresentavam nus. Escreveu sobre os guerreiros celtas Políbio (historiador grego): “eles tomaram posição, em frente a todo o exército, nus, a não ser pelas armas (...). Os movimentos dos guerreiros nus à frente das fileiras era um espetáculo terrível. Eram todos homens de um físico esplêndido e no começo da vida e os integrantes das companhias estavam ricamente adornados com colares e braceletes de ouro. A simples visão deles era suficiente para causar medo entre os romanos”. Colin Spencer comenta esta passagem: “considerando-se o desgosto romano pela nudez (...) pode-se especular se esse desgosto não se baseava em tais experiências, (isto é) a nudez era para eles (os romanos) equivalente a barbarismo”.

Finalizando, encontramos a religião druida como marco fundamental do Matriarcado neste planeta. Evoluindo ininterruptamente desde a Pré-História até os dias de hoje, a Antiga Religião é marca indelével da Grande Mãe e de sues caminhos tortuosos. Persistente, paciente, cíclica e doce, a Mãe aguarda o momento ideal para manifestar-se. Suas tradições são tão antigas quanto o mundo e nos mostram um caminho de harmonia e equilíbrio entre todas as forças que existem em nós. A visão mágica é poética e bela nos centra em nosso Inconsciente profundo. Não existem pecados, existem ciclos. Não existe moral, existe a vontade sagrada da Mãe. A mulher e o homem são livres para expressar suas verdadeiras essências, encontrando entre o masculino e o feminino uma profunda complementação e reconhecendo em si mesmos uma origem andrógina e completa, tal qual a árvore é andrógina e completa em si mesmo. Estes são os maiores ensinamentos que podemos receber dos Celtas, ainda que, ao longo da História, eles mesmo, por muitas vezes, tenham se perdido dos caminhos da Grande Mãe.






30 setembro 2006

Os Caminhos da Grande Mãe: a Pré-História



Os Caminhos da Grande Mãe
(Primeira Parte: A Pré-História)


Por Bernardo de Gregório



“A língua é minha Pátria
E eu não tenho Mátria,
Quero Frátria”

Caetano Veloso
“Língua”





Se nosso intuito é o de entender melhor a estrutura social matriarcal, devemos retroceder no tempo até chegarmos a uma época perdida e esquecida, nos primórdio da aventura humana neste planeta. Tempos em que o Ser Humano propriamente dito ainda nem existia... Imagine-se na Pré-História, no período Paleolítico Inferior, há cerca de 500 mil anos passados. Nessas épocas a Terra era habitada por hominídeos, muito mais mamíferos superiores com aparência simiesca, do que humanos. Estes eram os Australopitecos, os Pitecantropos e os Paleantropos. Estes seres já possuíam instrumentos, ainda que extremante toscos e rudimentares, feitos de pedra lascada e troncos de madeira. Viviam em bandos que vagavam pelas estepes e subiam em árvores, habitavam cavernas fugindo de seus predadores[M1] e mudavam constantemente de lugar, em busca de caça e de vegetais comestíveis.

Estes hominídeos ainda estavam sob os comandos da Mãe Natureza e possuíam instintos muito mais gritantes dos que os nossos. Sendo assim, as “fêmeas humanas” (não eram propriamente mulheres) ainda possuíam um período de cio, como qualquer fêmea de mamífero, e somente copulavam nestes períodos. O cio ocorria uma vez por ano, em noites de lua cheia bem no auge do verão. Nestes período de cio havia a cópula em “orgias” de sexo grupal e bissexual. Sendo assim, todas as fêmeas férteis do bando ficavam prenhas e passavam por um longo período gestacional (9 meses) até darem à luz seus filhotes, que nasciam no início da primavera. Amamentavam-nos por cerca de 3 meses, quando voltavam a ovular e entravam em novo período de cio. Este ciclo coincidia exatamente com o ciclo das estações do ano e todas as fêmeas seguiam juntas estes caminhos da Mãe Natureza. Os machos eram relegados a um segundo plano durante todo o ano, com exceção do período do cio, claro. Sendo assim, a homossexualidade entre os machos era extremamente comum, como ocorre com qualquer mamífero. A sexualidade humana era eminentemente animal, instintiva e comandada unicamente por hormônios.

Com o desenvolvimento da consciência humana, houve a associação evidente do ciclo reprodutivo feminino com o ciclo da Natureza. As fêmeas passaram a ser reverenciadas como deusas encarnadas, como representantes vivas da Mãe Natureza, como portadoras dos Mistérios da Criação, da vida e da morte. As tarefas do bando iam sendo aos poucos divididas entre seus membros, de forma que às mulheres cabiam as funções mais sagradas: cuidar da prole, cuidar da alimentação do bando, cuidar da caverna e reverenciar a Deusa Mãe. Os homens ficavam com as tarefas mais arriscadas e difíceis, pois não eram assim tão importantes para a manutenção bando: a caça, a pesca, a segurança e a coleta em locais distantes da caverna. Quando pela primeira vez um humano teve a brilhante idéia de se aproximar de uma árvore que estava em chamas, num incêndio causado talvez por um raio, e empunhar uma tocha, trazendo-a para dentro da caverna, este humano que primeiramente roubou o fogo dos deuses, foi uma mulher. O fogo necessitava ser alimentado e mantido aceso dia e noite, pois não era possível fazê-lo, apenas recolhê-lo da Mãe Natureza. Esta nobilíssima função era invariavelmente delegada a uma nobre mulher. A importância divina da mulher na sociedade crescia com o tempo e aumentava com o ampliar da consciência.

Com o passar do tempo, o Ser Humano se aprimorou física e psiquicamente, transformando seus genes e sua aparência, chegando a se tornar um honrado exemplar do gênero Homo. Aparece então o Homem de Neanderthal, que já usava roupas feitas com peles, possuía vários instrumentos e utensílios domésticos feitos de pedras lascadas, ossos, gravetos e cordas e possuía uma estrutura social muito mais elaborada. Ainda não eram exatamente Humanos, mas já eram bem mais independentes da ditadura hormonal. A sociedade se centralizava ao redor da figura da Matriarca: mulher mais velha e sábia, que provavelmente era a mãe de todos. Esta pequena estrutura familiar, chama-se clã. As funções ainda eram as mesmas, mas às mulheres cabiam agora os poderes divinos de traduzir ao clã os caminhos da Grande Mãe. A Matriarca, como representante maior da Deusa da Terra, orientava os membros do clã, com doçura e firmeza, mostrando a todos os ciclos sagrados da Mãe. No Matriarcado nunca houve leis ou punições. Os desígnios da Mãe eram com candura acatados por todos e ditados pela Matriarca. O que antes era simplesmente o cio, agora já era propriamente um ritual de fertilidade comandado pela Matriarca. A idéia era a mesma, mas a concepção racional de ritualidade era muito mais elaborada. Duas datas eram marcantes nesta visão religiosa pré-histórica: o ritual de fertilidade do verão, a celebração do nascimento dos filhotes. A comemoração da geração da vida, da fertilidade da Mãe e do eterno recomeço. Neste ponto, já estamos há 30 mil anos passados, no início do período Paleolítico Superior.

Caminhavam então sobre a terra, os primeiros Humanos propriamente ditos: Homo sapiens. Apareceram misteriosamente estes Humanos, primos próximos dos Homens de Neanderthal, mas muitíssimo mais habilidosos, inteligentes e elaborados. As primeiras noções de arte apareceram: pinturas nas paredes da cavernas, elaboradas e mágicas, são encontradas em abundância datadas deste período em diante. Os humanos passaram a usar ornamentos e pinturas sobre o corpo, não mais apenas a se agasalharem do frio com peles. As técnicas de caça, pesca e coleta se tornaram muito mais requintadas e organizadas. Infelizmente a agressividade humana também: estes nossos ancestrais exterminaram totalmente as populações de Homens de Neanderthal, saqueando seus acampamentos, capturando-os como escravos, matando-os por prazer e, por fim, levando-os à extinção completa. A noção de religião e espiritualidade que estes Humanos possuíam eram igualmente bem mais requintadas: já havia a noção de morte e rituais funéreos eram feitos com freqüência. A idéia de Magia norteava todos os rituais. A Magia era o poder da Matriarca que encarnava a Grande Mãe. Matriarca, Natureza e a Deusa eram uma só pessoa: divina, eterna e cíclica. Quatro datas do ano passaram a ser reverenciadas: o solstício de verão (dia mais longo do ano[M2] ), data de celebração da fertilidade e do ritual de procriação; o equinócio de outono (dia equivalente em tamanho com a noite no início do outono[M3] ), data da celebração da morte e dos ritos funerais; o solstício de inverno (noite mais longa do ano[M4] ), data da celebração da esperança do renascimento na Natureza; o equinócio de primavera (dia equivalente em tamanho com a noite no início da primavera[M5] ), data da celebração do nascimentos dos bebês e do renascimento da Natureza. A escultura conhecida com “Vênus de Willendorf” (http://witcombe.sbc.edu/willendorf/willendorfdiscovery.html) data deste período e é a representação máxima desta era: arte, religião, Magia, Deusa Mãe, Natureza, Deusa da Terra. Trata-se da representação em pedra de uma figura femina prenha, esférica e maternal, escultura considerada a obra de arte mais antiga de toda a aventura humana. Já estamos então há 18 mil anos passados, no início do período Neolítico.

Uma tremenda mudança estava então para acontecer: o domínio da agricultura e o domínio definitivo sobre o fogo. Alguém conseguiu pela fricção de bastões de madeira, criar o fogo, sem haver mais a necessidade de roubá-lo na Natureza. Esta pessoa foi uma Matriarca. Alguém tomou o cuidado de observar que algumas plantas cresciam perto dos locais onde os restos de comida eram jogados fora. Esta pessoa com certeza foi uma Matriarca. A Magia da Mãe dava sinais de que o renascimento era possível também com os grãos e sementes. Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregarmos à Deusa nossas sementes e confiarmos no Ciclo da Mãe, Ela nos recompensará com novas plantas e novos grão. Aparece a idéia de sacrifício (ofício sagrado[M6] ). Quando fizermos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe será separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderá ser tocado por mãos humanas e não servirá de alimento, mas será devolvido à Terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a Magia da Mãe se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas que se sucederam à era glacial e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados da mãe que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a Lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela Matriarca. Eis os Mistérios da Mãe, eis o Ciclo Mágico da Vida, eis os trabalhos da Deusa!

Com o passar do tempo, a agricultura proporcionou ao homem uma possibilidade dele se tornar sedentário e se fixar em um só lugar: sua terra, como reflexo da Deusa da Terra. As cavernas, há tantos milênios usadas como proteção, já não eram tão necessárias. Pequenas aldeias com construções de palha e argila era edificadas surgiam aqui e ali, nos agrupamentos mais evoluídos. Formas circulares se faziam notar por todos os lados, reproduzindo o Ciclo Sagrado. Apareceu a roda, apareceram os instrumentos agrícolas, apareceram as artes da cerâmica, apareceram adornos corporais mais elaborados, apareceu a pedra polida. Esta nova estrutura social recebe o nome de tribo. Apareceriam ainda, porém muitas outras novidades para o espanto da Matriarca...

Foi numa noite quente de verão, quando a lua cheia iluminava a escuridão e tornava as estrelas mais pálidas, que uma mulher atingiu um nível de consciência tal que lhe permitiu dizer uma palavra mágica, a mais mágica de todas as palavras: “não!”. Esta mulher que disse “não”, recusou-se a participar do ritual de fertilidade do solstício de verão. Ela era independente, ousada e auto-suficiente. Disse “não”, enfrentou a Matriarca e a Deusa Mãe e realmente se afastou dos gemidos que preenchiam a noite quente. Ficou lá, solitária na floresta a observar a Lua. Exatamente 14 dias após este evento, algo sobrenatural ocorreu a esta mulher insubordinada: ela menstruou. Jamais em bilhões de anos de História deste planeta, havia se visto algo semelhante. Nenhuma Fêmea de mamífero menstrua, pois os animais não conseguem dizer “não” aos desígnios da Mãe. Mas esta mulher, por livre e espontânea vontade, negou-se à fertilidade, desafiou a Deusa e foi por ela punida: o sangue era a marca da maldição da Mãe. A mulher foi expulsa da tribo e condenada a viver só, na floresta. Esta mulher, sinistra e marcada pela maldição, abandonou para sempre os Ciclos da Mãe Terra e passou a seguir os Ciclos da Mãe Lua. Filha da Lua ela era e a cada 28 dias, a cada lua, sob as sombras da foice da lua negra, ela sangrava. E a esta altura, já estamos nós há 7 mil anos passados, no início do período Agropastoril.

A Agricultura se expandiu, animais foram domesticados e o cão, o gato, a cabra, o carneiro e a vaca[M7] se tornaram aliados inseparáveis da Humanidade. Utensílios domésticos e ferramentas eram feitas não só de pedra polida, mas também de cerâmica finamente trabalhada, de madeira entalhada e polida e cordas e tecidos bem mais elaborados eram feitos nos teares das Matriarcas. A aldeia e a tribo passou a ser definitivamente o local onde os humanos habitavam. As cavernas foram para sempre esquecidas e espíritos maus passaram a habitá-las. A religião tornava-se cada mais complexa, mas a Deusa Mãe ainda era o centro do mundo. No verão, rituais de fertilidade encontravam lugar nas noites de lua cheia. No outono, a colheita e o plantio seguiam o ofíco sagrado. A idéia de que o sacrifico do grão necessitava de um sacrifico maior para acompanhá-lo, levou as Matriarcas a adotarem neste período o sacrifico humano como regra. Sob a foice vermelha da lua negra, um homem forte e robusto, o melhor grão da tribo, entregava-se à foice da Matriarca em sacrifico à Deusa. Suas carnes eram o alimento da tribo. Seu sangue fecundava os campos e seu coração era pela Matriarca devorado, para que ele, tal quel o trigo nos campos, pudesse dela renascer na primavera. No inverno, o recolhimento de toda a tribo em torno do fogo, marcava a celebração da esperança por tempos melhores. Na primavera toda a tribo se alegrava com as flores, com o nascimento dos bebês e com o renascimento do filho da matriarca. Os Caminhos da Mãe eram seguidos à risca.

Longe dali, porém, uma mulher marcada pelo sangue não participava de nada disto. Concentrava-se em sua vida solitária, em suas ervas medicinais, em suas poções e ungüentos, em seu contato com os animais silvestres[M8] e reverencia a Lua como Deusa. Suas companhias era o gato. Não foram poucas vezes que homens tentaram seduzir estas mulheres enigmáticas da floresta, mas elas sempre preferia a companhia de outras mulheres e da Deusa Lua. Alguns desses homens submeteram-se às bruxas e lá com elas ficaram, tornando-se magos. Outros foram simplesmente por elas mortos. Muito comum era o hábito destas mulheres raptarem bebês para criá-los como filhos ou para com eles elaborarem poções mágicas. Igualmente não foram poucas as vezes que as Matriarcas se aproximaram destas mulheres-bruxas, para pedir-lhes conselhos de magia, para implorar-lhes a cura de males, para consultar-lhes a sabedoria. Com o passar do tempo, o culto à Lua e o culto à Terra se reunificaram em uma única religião matriarcal. Existiram sociedades matriarcais compostas exclusivamente por mulheres, e outras mistas, nas quais os homens eram vistos sempre como seres inferiores. As mulheres eram todas deusas e a Matriarca era a Deusa Terra, enquanto a bruxa era a Deusa Lua. O Matriarcado chegava a seu apogeu há aproximadamente 6 mil anos passados, no início do período urbano.

Nesse tempo, com certas variações de um lugar para outro, de uma sociedade para outra, ocorreu a maior revolução social de que se tem notícia até hoje: a revolução sexual masculina. Os homens, cansados de serem relegados a um segundo plano e à inferioridade social, resolveram “virar a mesa”. Para tal, usaram aquilo a que vinham se dedicando com afinco há centenas de milhares de anos: a força bruta. Acostumados que estavam com os instrumentos de caça e de guerra, usaram a força para subjugar a Matriarca. Muitas mulheres foram dizimadas, mutiladas, violentadas e escravizadas pelos homens enfurecidos. Passado o calor desta primeira manifestação de cólera contra a tirania feminina, a razão falou mais alto e os novos senhores da tribo, os Patriarcas, depararam-se com um problema de ordem prática: se as mulheres são divinas porque são mães, como será possível a um homem adquirir o mesmo status ? Somente sendo ele pai. Mas como um homem pode se tornar pai se não é ele que gera os filhos? Obrigando as mulheres a serem absolutamente fiéis e celibatárias. A sexualidade feminina foi então massacrada. “Toda mulher somente poderá ter um homem”[M9] . “Toda mulher deverá se conservar virgem para ser aceita por seu esposo”[M10] . “Toda mulher é propriedade de seu pai, quem deverá decidir com ela deve se casar”[M11] . “É proibido que as mulheres tenham sexo com seus filhos e irmãos (únicos machos a quem elas teriam acesso, mesmo assim, restrito)”[M12] . “Toda mulher é um ser inferior e, como ser desprovido de pensamento, deve absoluta obediência aos homens”. Estas foram as primeiras leis da Humanidade. Leis cuja desobediência era invariavelmente punida com a morte.

As religiões matriarcais foram perseguidas e combatidas com violência. As matriarcas e as bruxas eram assassinadas em nome do Patriarcado. O medo irracional do homem pelo retorno a uma condição inferiorizada num possível Matriarcado renascido, fez com que o Patriarcado abominasse qualquer coisa que o lembrasse dos tempos esquecidos da Grande Mãe. A homossexulidade era mal vista, principalmente a masculina[M13] . A Deusa Mãe foi substituída pelo Deus Pai. Os Ciclos da Terra e os Ciclos da Alma Humana foram relegados a um plano puramente biológico e o tempo se tornou linear, marcado por eventos eminentemente masculinos: guerras, conquistas, reis, poder, opressão e violência. Rituais de iniciação passaram a ser impostos aos jovens rapazes, para que eles fossem aceitos na sociedade como homens e se diferenciassem das mulheres[M14] . O falo ereto passou o símbolo máximo da cultura desta época e mantém-se até hoje ereto, sob forma de obeliscos, torres, bandeiras, estandartes, cetros e cajados. O amor à Pátria e o temor a Deus são as conseqüências deste falo ereto e opressor.

Qual o destino dos Caminhos da Grande mãe? Jamais a Mãe foi esquecida, mesmo tendo sido pela Humanidade repudiada, temida e execrada. Seus Eternos Ciclos continuaram e continuarão a reger o mundo. “Oh Fortuna, Imperatrix Mundi !”[M15] . As datas da Grande Mãe[M16] foram incorporadas às religiões patriarcais, bem como seus ritos. O solstício de verão, com suas danças rituais de fertilidade em torno do fogo eterno, deu origem às festas folclóricas de roda (como as festas juninas, por exemplo). O equinócio de outono, com os festejos da colheita, deu origem às comemoração da Natureza e da Vindima, bem como os sacrifícios da semeadura originaram as festas de “Halloween”e as celebrações do dia dos mortos. O ritual do sacrifício humano da semeadura, originou toda a liturgia católica da Missa, com o sacrifício do Filho de Deus, a distribuição de sua carne, transubstanciada em pão e de seu sangue, transubstanciado em vinho. A celebração da esperança no inverno originou os festejos do Natal cristão e da Hanukah hebraica. A celebração do renascimento da Natureza na primavera e os festejos da chegada dos rebentos, deu origem à Páscoa cristã e ao Pessach hebraico. O ano romano se iniciava em Aprile[M17] , marcando o renascer do Ciclo da Mãe, bem como até hoje o ano chinês.

Milênios de opressão Patriarcal se passaram em variadíssimas expressões de violência não só contra a mulher, mas contra tudo e todos que pudessem se opor às idéias do Patriarca ou que pudessem incitar seus medos trancafiados no Inconsciente Coletivo. Mas, um renascimento, como sempre faz a Mãe, estava por vir... Somente nos anos 60 do século passado, mais de 6 mil anos após a instauração do Patriarcado, as mullheres cansadas de opressão se rebelaram. À elas se somaram muitos jovens que reinvidicavam liberdade[M18] . Quebraram os grilhões da ditadura machista e clamaram por novos tempos de paz, amor e igualdade. Todos os símbolos ligados ao Pai foram destruídos sistematicamente e mulher resgatou sua condição de cidadã livre e auto-suficiente. Infelizmente esta batalha ainda está apenas em seus primórdios e na Terra ainda existem inúmeras sociedades machistas e repressoras, enquanto mesmo as sociedades tidas como mais liberais, ainda mantém em si uma configuração claramente patriarcal.

Qual o melhor caminho a se seguir? Uma volta plena ao Matriarcado? Talvez isso seja um retrocesso e há que se lembrar que foram exatamente os excessos do Matriarcado que deram origem ao Patriarcado e seus excessos ainda piores. A alternativa é uma sociedade igualitária, onde não haja nem Matriarcas, nem Patriarcas, mas onde todos sejam irmãos e livres, onde o sentimento supremo seja a fraternidade. Esta sociedade, ainda num plano utópico, chamar-se-ia Fratriarcado[M19] . Se não temos Mátria, temos Pátria, mas queremos Frátria, devemos lutar contra os preconceitos que nos aprisionam, tornando-nos mais abertos, aceitando em nós a Deusa Mãe e o Deus Pai, em uma perfeita e plena harmonia.

[M1]O mais importante predador humano foi o Tigre de Dentes de Sabre, mas havia muitos animais que gostavam de incluir humanos em seu cardápio de rotina.

[M2]No Hemisfério Norte, dia 21 de Junho.

[M3]No Hemisfério Norte, dia 21 de Setembro.

[M4]No Hemisfério Norte, dia 21 de Dezembro.

[M5]No Hemisfério Norte, dia 21 de Março.

[M6]Do Latim: Sacro Oficium, trabalho sagrado, ofício sagrado.

[M7]Os animais foram domesticados nesta ordem. O Cão, pelo homem, durantes suas excursões noturnas de caça, o gato, pela mulher, durantes os frios dias de inverno nas cavernas e, mais tarde, a cabra, o carneiro e a vaca. O cavalo e os demais animais domésticos somente foram incorporados à rotina humana muito mais tarde, nos períodos patriarcais.

[M8]É conhecido o uso do sapo, da salamandra e do veneno de animais peçonhentos em poções mágicas em diversas épocas e em diversas regiões do globo.

[M9]Notar que o homem pode ter quantas mulheres quiser!

[M10]Notar que o homem não tem necessidade alguma de ser virgem ao casar-se!

[M11]Notar que os homens são sempre livres e senhores de si mesmo!

[M12]Notar que não há impedimentos sobre um homem ter relações sexuais com suas filheas. Não se permitia porém que um homem mantivesse relações sexuais com suas irmãs, por estas serem propriedades dos pais.

[M13]Evidentemente por ter símbolo de centenas de milhares de anos de Matriarcado.

[M14]Antes destes rituias de iniciação, os rapazes eram visto como mulheres e a pedofilia era comum, corriqueira e até mesmo insentivada, como uma espécie de treinamento para os futuros homens.

[M15]“Oh Fortuna, Senhora do Universo!”. Título e parte da letra do movimento de abertura da Ópera “Carmina Burana”( “Cantos Profanos”) do autor Alemão do Século XX, Carl Orf.

[M16]Há que se lembrar que todos estas datas se referem às estações do ano no Hemisfério Norte, origem da Humanidade.

[M17]Mais tade, na Idade Média, o calendário foi alterado para ter seu início em janeiro, desvinculando-se dos resquícios matriarcais e associando-se ao nascimento de Jesus. Para ser específico, o ano cristão se inicia 7 dias após o Natal, comemorando-se a circuncisão de Jesus.

[M18]Movimentos de contra-cultura: como os “hippies”, por exemplo.

[M19]Ou como a chamavam os gregos antigos: philadelphia. Amor entre os irmãos.

21 agosto 2006

“A taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: 'adoraríamos ter você para jantar’ ”.


Jostein Gaarder, “Maya”.







“A fantasia do técnico de computadores alemão Armin Meiwes, 42, era devorar alguém. Ele a realizou em março de 2001, ao matar e comer um homem que atendera a seu anúncio na internet pedindo vítimas. Meiwes começou a ser julgado por assassinato. O réu disse que sites com nomes como ‘Cannibal Café’ reuniriam ‘centenas’ de pessoas dispostas a devorar alguém ou a serem devoradas. Nos 12 meses em que os anúncios de Meiwes estiveram na rede, 430 pessoas responderam” (Folha de S.Paulo).
“O julgamento do homem que ficou conhecido como o ‘Canibal Gay’, está lançando luz sobre uma nova evidência: a de que este não é um caso isolado, existindo uma verdadeira rede de canibais e de promoção do canibalismo gay em todo o mundo.” (GLS Planet NEWS).
O que pode levar pessoas aparentemente bem adaptadas à sociedade a realizar fantasias sexuais deste tipo? Pior: o que significa o fato de tantas pessoas em todo o mundo compartilharem este tipo macabro de fantasias sexuais? Estaria o canibalismo atualmente ligado a algum fenômeno social específico, alguma deturpação típica de nossa era? O canibalismo faz parte da História desde os primórdios da Humanidade e existiram muitas culturas em que ele foi considerado sagrado, fonte de poderes sobrenaturais, procedimento tabu e até mesmo método eficaz de saúde pública. A idéia principal contida em todas as formas de canibalismo ao longo da História é que de alguma forma a vítima de um sacrifício ritual canibal viria a ressuscitar no ser daquele que consome sua carne e, ao que parece, esta mesma idéia foi compartilhada por Meiwes.
Esta idéia arquetípica está presente na mente de todos os Seres Humanos e pode ser facilmente depreendida com uma simples observação do ritual cristão da Missa, por exemplo, como o explicitou o próprio Meiwes ao se referir à comunhão. Quem não reconhece o contexto antropofágico explicito na frase: “quem comer de minha carne e beber de meu sangue terá a Vida Eterna”? Tal qual ocorria nos sacrifícios rituais primitivos comuns no período Neolítico da Pré–História, Jesus é simbolicamente morto a cada Missa, seu corpo é esquartejado no símbolo do pão dividido e, juntamente com seu sangue, representado pelo vinho, ingerido por toda a comunidade de fiéis reunidos para a repetição ritual da Santa Ceia. A crucificação de Cristo é a confirmação deste simbolismo.
“O nosso amor é como o grão: tem que morrer p’ra germinar...Nasce e morre trigo,vive e morre pão.” (Gilberto Gil, “Drão”). Primitivamente este ritual de sacrifício humano seguido de canibalismo estava diretamente ligado ao mito agrícola: o sacrifício do grão à terra no Outono e seu rensacimento na Primavera; o sacrifício do trigo na colheita e seu renascimento como alimento que sustenta a vida do clã. Este ciclo da terra era representado pela entidade divina da Natureza, representada pela Grande Mãe. Estes ritos ficaram marcados em todas as culturas humanas sob diversas formas de festividades e deram origem no Cristianismos a quatro festas principais (tomando–se como base as estações do Hemisfério Norte): a Páscoa, como a celebração do renascimento na Primavera; São João, o dia do meio do Verão, como o solstício de Verão (Midsummer Day); Finados, o Dia dos Mortos, como a celebração do sacrifício do grão no plantio dos campos (Halloween) e o Natal como o solstício de Inverno e o aparecimento da esperança.
Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregassemos à deusa da terra nossas sementes e confiássemos no Ciclo da Mãe, ela nos recompensaria com novas plantas e novos grãos. E de fato, assim é: apareceu assim a idéia de sacrifício (ofício sagrado). Quando fizéssemos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe seria separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderia ser tocado por mãos humanas e não serviria de alimento, mas seria devolvido à terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a magia da Natureza se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela matriarca. Concomitantemente um homem era sacrificado à deusa e sua carne e seu sangue consumidos pela tribo.
Em tribos primitivas africanas onde o canibalismo é tão comum e concreto a ponto de perpetuar certas doenças transmitidas pelo consumo de cérebro humano, como o Kuru–Kuru (Doença de Kreutzfeldt–Jacob), a prática da antropofagia nunca teve outra conotação diferente da ritualística e religiosa. Na maioria das tribos a idéia é que ao se ingerir os músculos, o coração ou o cérebro de um guerreiro, companheiro ou inimigo, sua força, sua coragem ou sua inteligência seriam desta forma adquiridas. É claro que muitas vezes o vírus causador da encefalite era a única coisa que era transmitida... Entre os primeiros habitantes do Egito, antes do aparecimento da cultura funeral da mumificação e da idéia da ressurreição dos mortos, havia o costume de se devorar os restos mortais dos parentes, como forma de perpetuação de suas vidas através de seus descendentes.
Todos estes atos canibais sempre estiveram envoltos em alto grau de respeito, tradicionalismo, religiosidade e misticismo. Por outro lado, o gosto pela carne humana como simples iguaria ocorreu e ocorre em diversas tribos primitivas na América e Oceania, sem que seja visto nesta prática nenhum problema maior do que o consumo de qualquer outra proteína animal. Nestes casos, porém, evitava–se, dentro do possível, o consumo de carne humana oriunda de parentes e amigos, preferindo–se os corpos de inimigos capturados. Casos de antropofagia puderam ser registrados também em situações onde havia uma grande privação, como na Revolução Maoísta na China, quando camponeses esfomeados invadiam propriedades rurais não em busca suprimentos (que não mais existiam), mas em uma desesperada tentativa de encontrar uma boa fonte de proteínas na carne do dono do sítio vizinho.
Na cultura ocidental moderna, o canibalismo é um dos últimos tabus ainda vigentes. A idéia de ingerir carne humana parece a qualquer pessoa civilizada, repulsiva e degradante. Mesmo assim, o canibalismo povoa o imaginário coletivo, sendo freqüentemente representado em livros e filmes, desde a distante imagem do vampiro, até a crudeza da ação de psicopatas, como ficou imortalizado por Anthony Hopkins na série de filmes sobre “Hannibal” (O Silêncio dos Inocentes, Hannibal, The Cannibal e Dragão Vermelho). O autor de “O Mundo de Sofia”, Jostein Gaarder, como em seus livros anteriores, em “Maya” parte de uma estrutura ficcional muito bem arquitetada para armar um mundo de reflexões e curiosidades sobre diferentes campos do conhecimento humano. Na obra, ele convoca o leitor para uma viagem pelas origens do Universo e da vida, numa narrativa que, através da compreensão da evolução das espécies, busca respostas para uma de nossas perguntas eternas, como “quem sou eu”. Em uma divertida referência a um simpático café localizado na ilha tropical caribenha de Belize, lê–se a frase: “a taverna se chamava Cannibal Café, e o letreiro ostensivo anunciava em letras vermelhas, em inglês: ‘adoraríamos ter você para jantar’”. Este restaurantezinho para adeptos do mergulho e demais esportes aquáticos realmente existe e, evidentemente, não serve carne humana, mas iguarias vegetarianas ou feitas com frutos do mar. Porém, a idéia do canibalismo que o nome sugere, levou à fama tanto o restaurante, quanto a frase: músicas foram criadas em diversas línguas sobre o tema e muitos sites da Internet tomaram de empréstimo o mesmo nome. Isso quer dizer que um fetiche foi criado em torno do Cannibal Café, demonstrando que onde há tabu, há certamente o fetiche que o acompanha.
Compreender que a fantasia de Meiwes poderia ser até mesmo ser considerada como um lugar comum, tendo em vista esta visão mais panorâmica do tema, é bem possível. Compreender quais situações o levaram a colocar em prática esta fantasia já é bem mais difícil, mas claramente inteligível, se levarmos em conta que a psicopatia ligada a crimes hediondos é relativamente bastante freqüente. Porém compreender quais as razões que levaram Brandes a alegremente se oferecer como refeição do “Canibal Gay”, chegando até mesmo a saborear o próprio pênis na companhia de seu algoz, isso já bem mais complexo. A única explicação que me parece plausível para tal comportamento evidentemente suicida é a realização pessoal de forma psicótica de um evento simbolicamente correlato que vem sendo repetido infinitas vezes na sociedade globalizada atual: o canibalismo consentido. Explico: não é canibalismo o que as nações ditas desenvolvidas exercem sobre as ditas nações subdesenvolvidas, quando obrigam política e economicamente que as populações destas se mantenham envoltas em pobreza, doença e morte para sustentar os luxos supérfluos daquelas? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando uma mega–empresa multinacional simplesmente açambarca e devora empresas menores obrigadas por lobby e dumping a docilmente se entregarem a esta prática antropofágica? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Não é canibalismo quando as classes dominates mantêm na ignorância e na pobreza as classes inferiores que nada mais fazem do que ingenuamente doarem sua força de trabalho e seu sangue num banquete vampírico? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido? Pois não é canibalismo quando um dependente de drogas psicotrópicas (e incluem–se aqui o cigarro e o álcool) alegremente entrega sua consciência, seu corpo e sua vida para alimentar a indústria do tráfico internacional? Isso não é ignorado por todos e coletivamente consentido?
Ora: o mundo é um grande Cannibal Café! O erro de Brandes foi o de tomar como literal a metáfora canibal e se entregar alegremente àquele que o devoraria. Na verdade, as demais formas de canibalismo aqui descritas podem ser bastante mais sutis, porém, na prática, são igualmente literais. Seria muito bom pensar sobre isso e compreender mais profundamente o evento canibal que ocorreu na Alemanha.



Por Bernardo de Gregório
(Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiano)